Serpentine Gallery Pavilion 2009, SANAA

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Os que tiveram a oportunidade de passar por Londres durante o Verão e até ao final de Outubro, tiveram a oportunidade de visitar o mais recente pavilhão da Serpentine Gallery. Tendo tido a oportunidade de usufruir diversas vezes desta obra, venho deste modo, estabelecer uma análise das impressões que foram sendo recolhidas in loco, sobre a forma e a função de uma arquitectura que através de uma simples ideia, se transforma numa experiência única da percepção de um espaço construído, em simbiose com o jardim envolvente.

O desenho de um pavilhão é, antes de mais, um desafio. Propor a um arquitecto a criação de uma pequena estrutura efémera, construída a baixos custos e que se possa tornar num ícone temporario do local onde se implanta, é algo que à partida parece simples, mas que se revela extremamente complexo com o desenrolar do projecto. A problemática aqui centra-se sobretudo em como fazer muito com pouco. Ou antes, entenda-se, em como fazer algo extraordinário através de um pequeno e subtil gesto. A iniciativa da Serpentine Gallery em Londres tem sido de grande importância para o desenvolvimento de um pensamento e de uma linguagem arquitectural, associada não só à contemporaneidade, mas enquanto paradigma da obra do seu autor. É desta forma que, um grupo de arquitectos reconhecidos em todo mundo, tem tido a oportunidade de construir no Reino Unido, abrindo novas fronteiras à sua obra e acima de tudo, aproximando a sua obra de um público amplamente vasto.

No entanto, pondo de parte a questão da divulgação e promoção da Arquitectura e de determinado arquitecto, esta ideia de construir um pavilhão temporário de verão, que vem sendo desenvolvida ao longo de alguns anos, tem trazido algumas experiências interessantes em torno da prática arquitectónica contemporânea. Pois aqui, para um local que tem sido constante a cada ano, temos assistido a uma série de propostas que, pela sua multiplicidade de ideias, tem servido para aguçar o parecer crítico tanto dos arquitectos como dos cidadãos, em relação à obra de Arquitectura. Vamos assistindo assim, à construção de uma colecção de Arquitectura, que a cada ano, vagueia entre intenções minimalistas e provocações puramente formais. No entanto, contendo mais ou menos condimentos, aquilo a que temos assistido aqui é, acima de tudo, à evocação de uma imagem com a assinatura de tal Arquitecto e que quase invariavelmente tem trazido algo de novo ao panorama arquitectural ou ao próprio portfolio do seu autor.
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O pavilhão que este ano foi elaborado pelo atelier SANAA de Kazuyo Sejima e Ryue Nishizawa traz, a meu ver, um interessante exemplo daquilo que estes arquitectos têm já desenvolvido ao longo da sua obra. A sua proposta para um pavilhão de jardim é tão somente a definição de uma superfície coberta, que se desmaterializa através da uma relação constante com o que a envolve. Uma ideia tão simples e porém, tão susceptível de ser destruída ao mínimo erro. Isto porque, como temos verificado inúmeras vezes, é na síntese que tudo se torna mais complexo, através da abolição dos aspectos superficiais ou mesmo ornamentais. A síntese é atingida quando o outro entende a nossa mensagem de uma forma clara e directa. Não querendo afirmar que tudo deverá estar exposto à partida, entende-se que pelo menos as intenções do projecto deverão ser efectivamente claras para que as pessoas consigam usufruir da Arquitectura, ao mesmo tempo em que esta se torna invisível.
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A questão põe-se então, em como construir algo que tão levemente se suporta num terreno e em como de uma forma tão natural, essa mesma estrutura possa ser permeável a tudo a que a envolve. Colocando a questão de outro modo, como poderemos nós projectar uma arquitectura transparente? É a esta questão primordial que, entendo eu, os arquitectos visionaram a sua obra e que claramente atingiram o seu objectivo. Mas, perante esta questão complexa, não se pense que as soluções deverão ser elas próprias extremamente complexas, ou mesmo ridiculamente básicas. Isto porque esta interrogação levanta essencialmente dois problemas: seja a realização de uma transparência visual como, por outro lado a (in)definição de uma transparência física. A transparência visual, é vulgarmente atingida através do uso de materiais cujas propriedades principais são, obviamente, a transparência. A própria transparência física, mais complexa, requer uma maior reflexão, mas também ela é possível de ser atingida através de um desenho que se conjugue totalmente com aquilo o que o rodeia. Neste caso, estas duas noções são trabalhadas de uma forma bastante clara e que provavelmente qualquer pessoa poderá tirar essas conclusões. O pavilhão não se encerra, como também quase que desaparece por entre as árvores que o envolvem. Isto porque os autores, inteligentemente, decidiram introduzir um outro factor de complexidade: o reflexo. O reflexo é aqui entendido não só como forma de duplicar tudo aquilo que se acerca como, é através deste que o pavilhão se torna permeável a tudo o que o envolve. Através do reflexo, a estrutura construída funde-se com a paisagem, torna-se incolor e de certa forma, atinge um grau de subjectividade que fez despertar a atenção.
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Ao escrever sobre esta obra, reflicto também sobre a recente obra de Eduardo Souto de Moura e Ângelo de Sousa para a 11ª Bienal de Arquitectura de Veneza. Curiosamente uma obra também ela efémera e que partilha de uma mesma ideia: o reflexo como forma de tornar uma superfície permeável ao que a envolve. No entanto, em Veneza o reflexo duplica uma realidade de uma forma quase abstracta, enquanto que em Londres, o reflexo é usado como forma de tornar permeável uma estrutura construída através da duplicação do ambiente envolvente. Esta ideia de permeabilidade surge aqui, de duas formas que me parecem interessantes salientar. Seja de uma forma visual, em que o edifício se desmaterializa no seu contexto, tornando-se quase invisível. Seja através do desenho formal do edifício, que não impõe limites físicos na sua implantação.
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Ao desenvolver o pavilhão apenas através de uma cobertura que se suporta num conjunto de pontos dispersos pela área do jardim, os arquitectos conseguem, assim, que a estrutura possa ser apropriada de uma forma bastante natural, tanto pela paisagem, como pelas pessoas, contrariando assim a ideia de pavilhão-caixa. É então, pela indefinição de limites físicos e visuais, que esta obra consegue, a meu ver, concretizar a ideia de transparência na sua relação para com o visitante e a envolvente existente. Agora restam apenas as memórias e claro os registos fotográficos.

João Pereira de Sousa

A Cidade Invisível

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Estávamos perto do verão e a cidade encontrava-se vazia. Apesar das temperaturas estarem amenas e de uma leve brisa soprar, as ruas escasseavam de vida. Raras eram as pessoas que deambulavam pelas praças e ruas que povoavam o centro da cidade. Os automóveis, esses circulavam, as lojas apesar de vazias estavam abertas e os cafés, fóruns de um passado recente, teimavam em dispor cadeiras e mesas nos passeios apesar destas permanecerem infinitamente vagas. Mas engane-se quem pensa que as ruas povoadas de automóveis estacionados e em compasso de espera são sinónimo de vida urbana. Estes não são mais do que cápsulas que rompem pelo tecido urbano ligando pontos distantes dentro e fora da cidade. Não fazem uso dela e no entanto estão lá, ocupam-na friamente e preenchem os vazios deixados pelas pessoas.

Mas porque razão não estavam as pessoas a caminhar pelas ruas? Porque permaneciam as lojas inutilmente abertas? Porque é que os bancos e as sombras das árvores que povoam as praças continuavam de vago? E porque é que os cafés teimavam em chamar os transeuntes que por lá não passam? Era estranho… ou talvez não. Teria que ver com algum acontecimento? Algum evento que teria transportado as pessoas para algum outro local? Ou será que a cidade havia deixado de ter significado enquanto estrutura socio-cultural de uma comunidade que a usa e que dela depende? Mas o que era feito das comunidades? Onde estavam elas? A cidade estava deserta… E no entanto vislumbravam-se grupos de pessoas que percorriam as ruas e praças, parando aqui e ali, olhando de um lado para o outro e fotografando cada detalhe do que se lhes aparecia à frente. Afinal as pessoas estavam lá, as comunidades existiam, as ruas eram atravessadas e nas praças juntavam-se grupos de pessoas com interesses comuns. Mas que estranhos seres eram estes que insistiam em contrariar a monotonia em que a cidade se tinha transformado? Que faziam eles a caminhar pelas ruas e a entrar nos cafés? Não saberão que já ninguém caminha pelas ruas ou se senta nas praças? Não pareciam habitar a cidade, mas já há muito que se tornaram parte do quotidiano desta. Insistiam em percorrer as ruas à procura de uma realidade passada, de uma vida que se esgotou por entre as fachadas de granito que se elevam das calçadas. Suportavam-se de livros ilustrados com indicações do que deviam ver, por onde deviam passar e do que deviam comer e cheirar. Mas tudo continuava a estar desprovido de conteúdo, as estruturas da cidade continuavam a viver, mas já não havia quem vivesse nelas. A cidade tinha-se tornado num parque de atracções. Vinham turistas de toda a parte para experimentar aquilo que lhes disseram que a cidade foi. Mas as ruas e as praças estavam vazias, pontuadas com postos de venda de postais que ilustravam as mesmas praças povoadas e úteis. Mas a cidade estava esquecida…

Por isso criavam-se, cada vez mais, novas estruturas para albergar todos os visitantes que desejavam dirigir-se às mesmas praças e ruas que conheceram através de um álbum de recordações vendido numa qualquer parte do mundo. Uma vez que a cidade tinha deixado de ter habitantes, transformavam-se as suas estruturas e convertiam-se os seus edifícios públicos em hotéis, centros comerciais, postos de turismo e lojas de souvenirs. Mas mantinham-se as fachadas e tudo aquilo a que os visitantes pagaram para ver. Não os podíamos desapontar, tudo fazia parte do pacote que escolheram. E os mercados? E as lojas? Também eles não escapavam. Tudo ia sendo reciclado. Do velho tornava-se a novo e do vazio, conseguia-se esvaziar ainda mais. Afinal as únicas pessoas que ainda percorriam as ruas eram esses turistas, que seguiam rotas e percursos estabelecidos, ao longo de fachadas que se assemelhavam a molduras esquecidas algures numa galeria, também ela algures esquecida. E sem que se notasse, tudo ia sendo transfigurado. E a memória, essa já há muito que havia fugido da cidade. Foi provavelmente a primeira, antes das pessoas. Pois só quando a memória foi esquecida é que a cidade se tornou neste deserto de granito, onde já nem sequer aqueles que aí haviam nascido conseguiram resistir à tentação de dali fugir.

Terá sido apenas um sonho?

João Pereira de Sousa

Urbanismo de ocasião

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Temos de admitir que somos um povo do “desenrasca”. Quando nos surge um problema somos os melhores a resolvê-lo no instante, mas no entanto, sem pensar a longo prazo. Vemos esta atitude aliada a praticamente tudo o que fazemos e como não podia deixar de ser, os resultados vêem-se, à distância! Somos um país com um território repleto de particularidades: de um lado o mar, do outro as florestas; a norte as montanhas e a sul as planícies. Quase que podemos dizer que temos de tudo. Ora, com tanta diversidade geográfica presente dentro de fronteiras, modelos não nos faltam de como gerir o território e planear o seu desenvolvimento sustentável.

Antes de mais interessa aqui pensar sucintamente na forma como a cultura portuguesa se expandiu por esse mundo fora desde há 500 anos atrás. Há um certa humildade na forma como colonizamos (irónico?) os diversos territórios por onde passámos. Isso revela-se no relacionamento típico dos colonizadores para com os colonos e ainda mais na forma como se estabeleceram cidades nas diversas colónias. Ao contrário dos outros colonizadores europeus, os portugueses edificaram as suas cidades numa profunda coerência entre a geografia local e a cultura nacional. Quer isto dizer que o modo como se planeavam as cidades tinha mais a ver com os modelos de cidade em território português do que com os modelos de cidade colonial projectados por alguém que nem sequer sabia onde se iria localizar a futura urbe. Esta atitude de entender determinado território e de projectar para as especificidades do mesmo está fortemente ligada à forma de pensar as cidades no nosso país. Veja-se desde logo a imensa diversidade de modelos ancestrais que existem de norte a sul. Desde as cidades pesqueiras, às cidades fabris, às cidades aristocráticas, …, existiu desde sempre uma relação intima entre a geografia, a função e o tempo de cada cidade. De facto, o nosso savoir-faire não surge do acaso. Aprendemos com a presença celta, desenvolvemo-nos com a ocupação romana e evoluímos através das invasões visigóticas e árabes. Podemos concluir que de facto somos um país rico em história e com uma sabedoria diversificada.

01-braga© Google Earth, Braga: a confluência entre o rural, o urbano e o industrial

Então o que se passou para chegarmos ao estado actual?

Há que ver que a história não se ficou pelo que atrás foi mencionado. Portugal foi fundado em 1143 e desde então fomos evoluindo através dos nossos feitos e legados até ao século XXI. Já em finais do século XIX, o país enfrentava uma sucessão de desgostos à medida que íamos perdendo as antigas colónias e se começavam a enfrentar novas dificuldades económicas. Com o regime do Estado Novo gera-se uma nova situação. A partir dos novos valores defendidos, gerou-se um enorme centralismo no país que se reflectiu no desenvolvimento das diversas cidades portuguesas. Lisboa passou a estar claramente na proa do barco enquanto o resto de Portugal ficou esquecido bem ao fundo da ré. Agravando o facto de se estar a incutir ao país uma ideia una do nacionalismo. Ora, deste modo, tudo o que estava dentro de fronteiras teria de ser igual de norte a sul e de este a oeste. Ignorou-se a extrema diversidade do nosso país e sucessivamente construiriam-se obras que na sua coerência linguística não se integravam geograficamente em lado nenhum a não ser apenas na ideia errada de que esses modelos eram validos para todo o país. A certa altura as cidades começaram a ser cada vez mais semelhantes. Encontramos os mesmos elementos que as caracterizam de norte a sul, numa tentativa de lhes dar uma unidade formal. E enquanto em Lisboa se assistiu ao rasgar de enormes avenidas e à edificação das grandes obras do estado, Portugal é quase deixado ao abandono perante tanta dedicação à capital.

Com a revolução de 1974 e com a descoberta de uma nova liberdade por parte do povo português, as próprias cidades começaram também a respirar uma nova liberdade formal. Uma vez que grande parte dos valores locais tinham sido já castrados ao longo do século, desenvolve-se uma ideia de que se pode fazer qualquer coisa e em qualquer sítio (agora tudo é possível). É preciso notar também que em termos globais, estávamos numa fase em que o modernismo já não se conseguia dissociar da ideia de que apenas servia para um sector da sociedade (mesmo que contrário aos seus próprios princípios).

02-gaia© Google Earth, Vila Nova de Gaia: a desproporção da nova escala urbana e a confluência com a pequena escala

Numa época pós-moderna, que se estende até aos nossos dias, a evolução dos nossos centros urbanos e dos modelos de ocupação territorial em Portugal encontra-se em claro declínio. Durante décadas usamos e abusamos de todo o espaço e bom-senso disponível e o resultado é bem visível: poucos são os locais no nosso território que ainda mantém, de alguma forma, um carácter de preservação natural, cultural e histórica. A nossa demanda de evolução para acompanhar a Europa desenvolvida é tão sôfrega que apenas nos vai distanciando cada vez mais desse objectivo.

O Urbanismo é feito por interesses. Fazem-se planos democratas, baseados nos melhores modelos urbanos, no entanto, aqui quem manda é quem fala mais alto. Se é necessário mudar ou ignorar o plano para responder aos interesses de alguém em particular, isso faz-se na maior das liberdades e perante todos os olhares. E o resultado está à vista: se não se pode construir em determinada zona, então altera-se a sua designação para que seja agora legal a construção. Isto porque quem faz as leis também tem o poder para as modificar. E com tantos interesses, com tantas oportunidades, com tantas ocasiões, as nossas cidades são hoje profundamente difusas e desenquadradas territorialmente. As atenções focam-se continuamente nos seus centros históricos (quando ainda resistem), abrindo espaço para o circo nas periferias, onde tudo é possível fazer, sem ordenamento, sem previsões, sem planeamento. À medida que as cidades se distanciam dos seus centros mais antigos, os valores mudam e as preocupações (erradamente) também mudam ou apenas ficam esquecidas. A pouco e pouco uma enorme malha desordenada habita o território nacional, de Norte a Sul, de Este a Oeste e sem que percebamos, vivemos continuamente na urbanidade, seja ela difusa e desordenada ou centrada e mais ou menos planeada. O Urbanismo constrói-se assim, a partir das oportunidades e dos interesses maioritariamente privados, gerado em conflitos e vivendo de forma autista perante o território.

João Pereira de Sousa

A Adega: Arquitectura e Paisagem

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Puede analizarse el paisaje como una “estrutura” formada por diversos sistemas o tipos de cultivos, dispuestos uno sobre el otro, actuando entre sí a lo largo del tiempo, como resultado de una serie de transformaciones funcionales y morfológicas. El paisaje agrícola es el producto de un proceso de cultivo llevado a cabo sobre el paisaje natural. De algún modo, el paisaje urbano es el resultado de procesos de ingeniería llevados a cabo sobre el paisaje natural y agrícola. (…) La forma del paisaje natural refleja su historia geológica, aunque no lo parezca a simple vista, y es el resultado de la colonización del paisaje natural a través de la trama de cultivos. (…) La forma del paisaje puede explicarse como si estuviera formada por tres capas imaginarias, el paisaje “natural”, el paisaje “agrícola” y el paisaje “arquitectónico”, respectivamente.(in REH, Wouter, STEENBERGEN, Clemens, Arquitectura y paisaje, La proyectación de los grandes jardines europeos, p. 20)

Ao longo da história tem-se interpretado o termo paisagem de diferentes formas, dependendo do contexto cultural, científico e social de um determinado período. Assim, a forma da paisagem, nos dias de hoje, é exemplificativa de uma sucessão de camadas evolutivas de uma colonização da paisagem natural através de uma trama de usos e de transformações. O termo paisagem não deverá, desta forma, ser encarado enquanto elemento estático e virgem, mas enquanto uma estrutura composta por diferentes sistemas, naturais e artificiais, que se sobrepõem e vivem em conjunto na construção da ideia de paisagem.

Bodegas Julián Chivite, Señorío de Arínzano, Navarra, Espanha, Rafael Moneo

Bodegas Julián Chivite, Señorío de Arínzano, Navarra, Espanha, Rafael Moneo

Intervir num território não urbano implica, assim, o entendimento das sucessivas estruturas e padrões que organizam e definem a paisagem. Desta forma, a paisagem agrícola constrói-se a partir de uma comunhão entre a tecnologia, o solo e o clima, organizando o plano do território de forma funcional, aproveitando ao máximo os recursos existentes. A leitura do território agrícola enquadra-se sobretudo no domínio das suas formas geométricas humanizadas. A paisagem a que chamamos de ‘natural’ é muito mais do que isso. É uma sucessão de eventos e de transformações humanizadoras que a alteram e redesenham em função do seu uso. Desta forma, a paisagem vitivinícola surge na maioria dos casos como um sistema geométrico de formas e contornos bastante definidos. São alinhamentos e geometrias que se adaptam à topografia local, mas que se autonomizam através da sua imagem distinta. Ao mesmo tempo em que estabelecem uma regra, as vinhas tornam-se, elas próprias, o espelho das variantes topográficas dos terrenos onde se plantam, formando finalmente esta dualidade entre uma estrita ortogonalidade da sua implantação, associada à composição livre de montes, vales e planaltos.

Bodegas en Mendívil, Pamplona, Espanha, Josep Llinás

Bodegas en Mendívil, Pamplona, Espanha, Josep Llinás

Os edifícios de Adegas estão claramente indissociados de toda esta envolvente. São por vezes as únicas construções que se avistam por entre as linhas de vinhas. Há no entanto, na maioria dos casos, um esquecimento sobre a forma como se projecta e constrói um edifício de Adega, de dimensões significativas, numa paisagem agrícola regrada e horizontal. A Adega mais comum que se poderá encontrar, é tal e qual como uma nave industrial que se constrói em zonas industriais de média densidade. Porque se pretende um edifício simples e barato para albergar o equipamento necessário à produção do vinho, esquece-se frequentemente a funcionalidade e os requisitos essenciais que a Adega ideal deveria ter, ao mesmo tempo em que não se pensa minimamente no impacto que um edifício de tal escala tem, perante a paisagem agrícola e os pequenos aglomerados rurais. É assim necessário estabelecer um diálogo entre a escala do lugar e a escala da construção; entre a identidade do lugar e a materialidade da construção.

Un tableau, une fenêtre, un cadrage, une mise en scène, un point de vue, un panorama sont autant de qualificatifs qui appellent le plaisir d’une appréciation d’un lieu de vie au détour d’une promenade, d’un cheminement.(in DOMON, Gérald, PAQUETTE, Sylvain, POULLAOUEC-GONIDEC, Philippe, Les temps du paysage, p. 7)

João Pereira de Sousa

a casa que não se vê

“A origem da arquitectura não está na caverna ou na mítica ‘Casa de Adão no Paraíso’: antes de transformar o esteio em coluna, a cobertura em coluna, a cobertura em tímpano, antes de pôr pedra sobre pedra, o homem pôs a pedra sobre a terra para reconhecer o lugar no universo desconhecido, para medi-lo e modificá-lo.” (p. 101)

A Arquitectura não pode existir sem programa e sem propósito. Tanto é que sem condicionalismos, uma obra de arquitectura torna-se obsoleta à partida, não passando de uma mera construção. Será, pois, através da mão do arquitecto que uma ideia se poderá materializar e que de um simples pavilhão se poderá definir um espaço de habitar. É aquilo a que se pode designar de Poética na Arquitectura: a capacidade de transformar algo, atribuindo-lhe um campo de significados que transcendem a matéria física de uma obra. A Arquitectura surge assim, do programa e da ideia, mas vive através da sua materialidade e poética.
A habitação (ou o habitar) é a razão da Arquitectura. Uma obra de Arquitectura só faz sentido quando é pensada nos termos da sua habitabilidade. Dessa forma, por mais pequeno e (aparentemente) simples que seja, o tema da casa unifamiliar é uma questão central da prática e estudo da Arquitectura

Refiro-me a este tema uma vez que me interessa estabelecer uma reflexão sobre as casas em Caminha projectadas pelo arquitecto Sérgio Fernandez, a partir do livro Só nós e Santa Tecla”, recentemente editado pela Dafne Editora. Assim, desde logo surge uma questão que interessa abordar: Poderá a Arquitectura ser entendida através de palavras? Após me ter deleitado com a leitura deste livro, posso afirmar com segurança de que sim. A poesia na Arquitectura poderá expressar-se através de um esquisso, de uma representação ortogonal ou mesmo, ao longo das 173 páginas de um livro repleto de reflexões e de memórias subjectivas, sobre uma obra que marcou uma geração de arquitectos e que em boa altura se volta a destacar. Esta subjectividade nas análises e nos discursos dos diferentes intervenientes deste livro é, para mim, essencial no entendimento dos significados desta Arquitectura. É na subjectividade e na experiência de cada autor que o leitor vai desenvolvendo uma imagem mental destas casas e que, por breves instantes, imagina mesmo que já a habitou, mesmo que nunca lá tenha estado.
Digo eu, que esta é uma casa que não se vê, mas que se sente. Na verdade, a casa não foi pensada para ser vista, mas antes, surge enquanto espectador na paisagem, como uma plataforma que cria um diálogo com a envolvente, acabando por desaparecer. É neste “esquecimento” da casa que se referenciam as suas virtudes. Ela é um objecto quase metafísico, que ao mesmo tempo “constrói a textura da paisagem” (p. 29) e faz com que nos sintamos moradores desse mesmo entorno. E, desta forma, perante o sufoco que seria apreender a vista do horizonte de forma declaradamente moderna (em “cinemascópio”), a presença desta “cenografia” é devidamente “filtrada e sucessiva, convidando o espectador a procurá-la, a sair e puxar o estar para o logradouro” (p. 49). Aqui as janelas enquadram o horizonte tal como a secção do corredor das alcovas enquadra justamente aquele falso Miró.

fotografia de Luís Ferreira Alves

“Se pensarmos bem, isto é, se pensarmos várias vezes testando e experimentando o pensamento, voltamos sempre à origem: uma-casa-no-cimo-de-um-monte-voltada-para-um-mar-onde-o-Sol-imerge. O imperativo da paisagem que origina a casa, que a domina, que fantocheia o humilde arquitecto penitente e submisso ao gesto aparentemente incontornável: o projecto assenta fundamentalmente na ideia de paisagem. Poderia ser de outro modo?” (p. 63)

A particularidade funcional destas casas é a forma como se promove uma vida comunitária, justificada pelo contexto socio-cultural em que se vivia na altura. De facto, quase podemos dizer que estas casas são um prenúncio de uma revolução ideológica que ainda estava por acontecer. E neste sentido, as casas de Caminha são de facto uma “renovação” do pensar e do viver modernos no Portugal da ditadura. É este “realismo” da obra que podemos encontrar na forma como se tratam os contextos externos e se organiza programaticamente o seu núcleo. Do aparente tradicionalismo (ou das lições da Escola do Porto) exterior, apercebe-se um interior de contornos modernos. Há uma continuidade dos espaços internos que torna toda a casa percorrível e habitável. É essa mesma continuidade que se encontra na relação interior/exterior, onde o logradouro não é mais do que uma extensão dos espaços sociais da casa, desta vez descobertos. A própria forma como se desenham os espaços de dormir, as alcovas (ou “armários de dormir”), é um reflexo deste pensamento projectual, onde o arquitecto estabelece uma relação de continuidade dos espaços, de forma a promover as relações inter-pessoais. Do quarto apenas lhe resta a função de dormir e na casa o interesse está nas relações sociais e da paisagem. Tudo está reduzido ao mínimo. É o essencial.

Deste modo, porque a Arquitectura não se esgota na sua forma e função, este livro (que tenho vindo a citar) é uma confirmação de como os espaços que se projectam são muito mais do que simples linhas no papel ou do que as paredes que os encerram. De facto a Arquitectura só faz sentido enquanto é vivida e experienciada. O resultado encontra-se assim registado neste livro, através das mais diversas abordagens e experiências. São essas impressões, mais ou menos nítidas, com maior ou menor subjectividade, que nos permitem realmente entender o propósito de uma arquitectura que, desta forma, dificilmente se explica por poucas palavras.

fotografia de Inês d’Orey

“Da acção do arquitecto espera-se, pois, o desenho de um marco habitável – não existe arquitectura sem projecto, não existe projecto sem memória, não existe memória sem ideias, não existe arquitectura sem habitante.” (p. 124)

Todas as citações deste artigo foram retiradas do livro “Só nós e Santa Tecla”

João Pereira de Sousa

dois anos

O ‘palavras da arquitectura’ faz hoje dois anos de existência. Aquilo que começou por ser um simples espaço de discussão e publicação de reflexões e análises críticas sobre o estado da arquitectura e cultura contemporâneas (em formato blog), com o tempo foi evoluindo para algo mais concreto; tendo em conta não só as temáticas de discussão actuais, mas também a minha própria evolução enquanto actor social.

Durante este ano, mesmo não tendo existido uma periodicidade constante, todos os artigos escritos e publicados foram sendo feitos com bastantes esforços pessoais por entre pequenos espaços de tempo livre, entre as diferentes actividades que me vão ocupando constantemente. Espero, neste novo ano, poder dedicar-me um pouco mais a este espaço de discussão, para que os próprios leitores se sintam motivados não só a tecer comentários, como também a aderir a novas discussões sobre as matérias abordadas.

Finalmente, o blog encontra-se neste momento entre uma ligeira mudança de visual, sendo que se espera que prontamente abra as suas portas com uma cara lavada e com novos conteúdos!

João Pereira de Sousa