palavras da arquitectura | um olhar sobre a arquitectura contemporânea | João Pereira de Sousa palavrasdaarquitectura@gmail.com


Arquivo de October, 2006

la biennale di Venezia – 10. mostra di architettura (dia 1)

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O sol brilhava e a cidade das gôndolas abria as suas portas aos turistas. A cada chegada de comboio, uma nova remessa de gente fervorosa de visitar este local se dirigia como um exército para fora da estação, na tentativa de tirarem as suas primeiras fotos aos canais e às casas características deste espaço. Por todo o lado as barracas de ‘souvenirs’ estavam já repletas de lembranças que faziam as delícias dos recém-chegados que ainda nem sequer tinham aberto os olhos para a cidade.

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A bienal de Veneza esperava-nos do outro lado da cidade nos famosos Giardini, um local pouco visitado por turistas mas, nestes dias, bastante visitado por uma espécie de gente que acima de tudo tinha um propósito para lá ir. Quisemos dirigirmo-nos directamente para a Bienal e decidimos apanhar o transporte público da cidade: o Vaporetto. A viagem magnífica através do canal grande dá para ter uma percepção do que foi sendo a cidade até então. Grandes construções, de épocas diferentes, coabitam naquele espaço místico onde a água e a humidade vai deixando as suas marcas profundas nas paredes que nos cercavam. Em cada ponte passada estavam sempre imensos grupos de turistas em sentido com as suas câmaras fotográficas apontadas em gestos bélicos a tudo o que os envolvia.

Após a demorosa viagem até à outra ponta da cidade, estávamos perante os Giardini, um imenso parque que finaliza a ilha principal da cidade e onde estaria uma das duas partes da Bienal de Veneza. Assim, começamos pelo pavilhão espanhol, todo ele dedicado às mulheres que intervêm nas cidades espanholas, desde arquitectas, gerentes de grandes lojas, pensadoras, investigadoras, urbanistas, … Todas elas nos falavam nos olhos enquanto passeávamos pela exposição. Todas tinham algo a dizer sobre a arquitectura mas só as arquitectas é que expunham as suas próprias obras, algumas já bastante publicadas e outras que mesmo sendo uma surpresa não deixavam de ser objecto de interesse na exposição.

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Ao lado se situava o pavilhão da Bélgica com a sua exposição La Beauté de l’ordinaire, composta por algumas projecções sobre o território belga e uma grande sala com o mapa da Bélgica impresso no chão. Ora, qual será o interesse de expor o ordinário numa exposição de arquitectura? Será apenas filmar as cidades e o território como se tratasse de um olhar de uma criança? A percepção que se teve desta exposição foi que os autores ao quererem representar o ordinário caíram eles próprios no ordinário pois, mostrar o ordinário não se trata só de mostrar imagens aleatórias de algo, trata-se de dar uma visão única do ordinário, algo que realmente saia do ordinário e que ganhe interesse para ser mostrado para que não seja apenas um acto de listagem aleatória de coisas ordinárias.

Perto do anterior estava o Lisboscópio uma das presenças de Portugal na exposição. Tratava-se de uma pequena instalação audiovisual em que éramos confrontados com uma imagem panorâmica da cidade de Lisboa, sem explicações nem textos. Uma obra um pouco abstracta e difícil de ser compreendida.

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Mais à frente apresentava-se o pavilhão dos países nórdicos num estilo sóbrio e totalmente aberto para o exterior, antevendo a exposição que continha no seu interior. Tratava-se de uma exposição sobre intervenções nas cidades de Tromsø na Noruega, Kiruna na Suécia e Oulu na Finlândia. Cada uma das cidades nórdicas apresentava características únicas o que tornava o tipo de intervenção também único, acompanhado de maquetas de edifícios propostos, fotografias dos ambientes de cada cidade e textos explicativos. De uma forma muito clara a exposição mostrava-nos como estas cidades nórdicas nada têm que ver com as cidades do sul e centro da Europa e como as suas particularidades exigem uma adequação dos programas e ideias de projecto para que respondam às suas exigências particulares.

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Junto a este pavilhão encontrava-se o pavilhão da Rússia com uma exposição um pouco inquietante sobre o olhar do arquitecto Alexander Brodsky perante a realidade dos blocos habitacionais comunistas. Em todas as instalações apresentadas, havia uma visão caricatural e bastante crítica sobre a actualidade russa com a intenção de mostrar uma realidade às pessoas e fazê-las reflectir sobre os modos de vida desse país.

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O pavilhão da Venezuela da autoria de Carlo Scarpa apresentava uma exposição um pouco chocante pelo modo como nos era apresentada. Compunha-se de uma série de imagens gigantes de favelas venezuelanas com apenas um pequeno texto provocativo no centro onde arquitectos venezuelanos nos confrontavam directamente sobre a sua realidade e do modo como os países ocidentais tendem a intervir no território sul-americano, numa tentativa de nos fazer reflectir sobre o que está a ser feito e de tentar evitar utilizar soluções europeias em países não europeus.

O pavilhão da Dinamarca mostrava uma exposição distinta dos anteriores e mais de acordo com a temática geral da Bienal de Veneza. Grupos de arquitectos dinamarqueses trabalharam em conjunto com arquitectos chineses de forma a investigar, analisar e projectar soluções para a problemática explosão demográfica das metrópoles chinesas. Séries de análises identificavam os problemas aos mais diversos níveis das mega-metrópoles na China e, posteriormente eram mostrados mega-projectos com soluções inventivas, por vezes um pouco utópicas, de como se poderia construir de forma a responder às questões levantadas anteriormente.

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De seguida o pavilhão da Holanda, de Thomas Rietvelt, mostrava-nos uma exposição baseada em desenhos de arquitectos modernistas holandeses. Nada de Koolhas ou MVRDV, desta vez decidiram mostrar as visões de cidades dos grandes arquitectos do século XX através de esplêndidos desenhos dos mesmos. Era mais uma exposição de desenhos do que de arquitectura, mas ainda assim muito interessante, pois é uma faceta da arquitectura que está cada vez mais esquecida.

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O pavilhão da Finlândia de Alvar Aalto mostrava no seu interior uma pequena exposição de arquitectura contemporânea ligada às habitações feitas no país através de apaixonantes fotografias interiores de casas e edifícios de habitação construídos por toda a Finlândia. Uma exposição simples e concisa mas bastante exemplificativa do que por lá se faz.

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De seguida se apresentou o pavilhão da França com uma intervenção no mínimo original. Tratava-se de um pavilhão neoclássico que continha uma exposição sobre o habitar mas, de uma forma bastante experimental. A parte central da exposição era constituída por uma grande estrutura em andaimes que formavam os espaços de uma casa à medida que se subia de piso. Assim, no primeiro patamar encontrava-se a cozinha, elaborada de uma forma original, com materiais recicláveis, subindo ao segundo patamar encontrava-se o espaço de sala de estar, o terceiro patamar continha o quarto antes de a estrutura perfurar o tecto do edifício da exposição e de nos encaminhar para o andar seguinte, este agora exterior que encimava a fachada principal do pavilhão e que continha de um lado a casa de banho, a meio uma plataforma que nos projectava para fora dos limites do edifício e, do outro lado um espaço de sauna, solário e ainda piscina. Ainda neste piso havia um novo acesso para uma continuação da estrutura desta vez em forma de torre que culminava numa cama de rede onde se poderia deitar e apreciar toda a paisagem dos Giardini. Era uma intervenção bastante interessante, uma reinvenção da estrutura em andaimes usualmente usada para obras em edifícios mas, que neste caso ela mesmo se torna o edifício, gerando e organizando espaços.

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Após toda esta visita ainda ficaram por ver alguns pavilhões que certamente teriam exposições interessantes, mas chegadas as 18 horas fomos avisados de que já tudo estava fechado e não poderíamos continuar a ver as exposições. Ainda assim, o bilhete da Bienal ainda permitia a entrada na segunda parte da exposição situada no Arsenal. Mas isso seria no dia seguinte, agora só nos restava gozar o famoso pôr-do-sol amarelo de Veneza.

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www.labiennale.org/it/architettura/ www.venicesuperblog.net/

por João Sousa

VM housing – PLOT

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Os edifícios VM em Copenhaga constituem uma nova forma de conceber edifícios de habitação colectiva. A obra, construída em Ørestad, situa-se na zona de expansão sul da cidade de Copenhaga, o ponto mais a Leste da Dinamarca e é uma zona importante na ligação entre esta e a Suécia. Assim, Ørestad é atravessada por um eixo viário de linha de comboio, metro e auto-estrada que se dirige para Malmö e também cruzada perpendicularmente pela auto-estrada E20 que liga Copenhaga ao aeroporto da cidade. O eixo viário de conexão à Suécia define também a ocupação desta zona deixando a oeste uma extensão verde que corresponde ao parque da cidade e a leste toda uma zona ocupada por habitação singular até ao aeroporto de Copenhaga. A sul ainda há uma forte ocupação industrial em direcção ao mar.

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Assim, os edifícios VM situam-se no cruzamento dos dois eixos viários, na zona de transição entre o espaço verde, industrial e habitacional e, eles mesmo fazem parte dessa transição, tendo como ideia criar uma melhor transição e dissimilar o impacto do extenso viaduto do comboio e metro que atravessa a zona.

A forma distinta dos edifícios advém na ideia de contrariar o frente-a-frente entre dois edifícios de blocos de habitação. Estando inseridos num espaço rectangular, os arquitectos decidiram que a melhor forma de ocupar o local seria puxar os edifícios em direcção ao centro do terreno, criando vistas diagonais. Assim, o edifício V é puxado a meio para o interior do terreno, criando uma rótula a meio, sendo o edifício M uma dupla repetição do edifício V. Deste modo os arquitectos conseguiram pegar no ideia de dois blocos de habitação próximos e dar-lhes mais dinâmica criando vistas diagonais em todas as fachadas e contrariando o frente-a-frente entre os dois edifícios, permitindo uma exposição menor dos apartamentos.

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A nível volumétrico estes edifícios pretendem fazer uma transição de escalas entre a grande zona habitacional de casas com dois pisos e a zona industrial pontuada por alguns edifícios altos e torres de escritórios. Deste modo, os edifícios adaptam-se às duas escalas e assim, passam de 11 andares de um lado para 4 andares do outro lado, criando uma série de terraços nas coberturas. O rés-do-chão dos edifícios é praticamente todo aberto, menos no edifício M que é ocupado por um jardim-de-infância.

Em termos de organização interior dos edifícios, os arquitectos de PLOT propõem algo verdadeiramente distinto. Eles tinham a ideia de projectar para o maior número de pessoas diferentes, por isso conceberam uma série de apartamentos diferentes com organizações distintas. Assim, eles criaram um total de 73 (V = 34 ; M = 39) apartamentos diferentes que, por vezes se repetem dentro dos edifícios e que, no final, acabam por conseguir responder a uma grande variedade de tipologias, podendo ser ocupados por diversos tipos familiares. Deste modo, todos os apartamentos são projectados como peças singulares que podem estar encaixadas com conjuntos diferentes e que no seu conjunto criam as formas finais dos dois edifícios. Ainda assim, os dois edifícios são organizados de formas distintas: no edifício V o acesso vertical é feito por três zonas distintas que, em cada dois pisos ligam a um corredor exterior de acesso às habitações, permitindo uma visualização exterior do conjunto habitacional enquanto se acede à casa; no edifício M há cinco pontos de acesso vertical que posteriormente ligam a cada dois pisos a corredores internos que perfuram diagonalmente o edifício e que permitem um acesso interior a todos os apartamentos deste edifício. Neste caso é clara a referência à “Unité d’habitation” de Le Corbusier no tratamento e utilização de corredores internos, mas os PLOT conseguiram dar uma nova dimensão a esta ideia, criando uma nova dinâmica e permitindo uma maior flexibilidade de organização interior do edifício.

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Em relação às habitações, todos eles foram projectados segundo uma série de regras criadas pelos arquitectos de forma a responder às necessidades locais e também às exigências do mercado. Assim, praticamente todos os apartamentos têm uma altura dupla a norte, deixando a fachada sul só com um piso, de forma a controlar melhor a incidência solar e as pontes térmicas. Todos os apartamentos são tratados interiormente de uma forma livre, reduzindo ao mínimo todos os obstáculos de forma a obter espaços amplos, com grande luz e ar. Esta organização está também de acordo com um certo extracto de sociedade para a qual os arquitectos projectaram estes edifícios. Assim, para além da organização livre dos espaços interiores, já com uma ocupação dos espaços proposta, os PLOT ainda sugerem para cada apartamento outra variante, com mais divisões de forma a se poder criar ainda mais outro quarto ou a cerrar mais alguns espaços.

Em suma, estes edifícios apresentam um carácter inovador pela forma como é encarada a habitação colectiva, pelas diversas preocupações nos diferentes níveis do projecto que levaram os arquitectos a projectar uma grande diversidade de habitações para que pudesse existir um grande número de famílias diferentes a viver num mesmo edifício. Ainda, a forma como o edifício se relaciona com um exterior absolutamente plano é interessante na medida em que as habitações se abrem para fora à procura das melhores vistas e de forma a aproveitar ao máximo a exposição solar. De salientar ainda a forma como o edifício e os apartamentos são tratados, com o mínimo de detalhes, utilizando materiais comuns e não muito caros, mas utilizados com criatividade e com um grande sentido estético. Foi através de todos estes aspectos que os PLOT conseguiram criar um conjunto habitacional digno de ser estudado e que responde às necessidades actuais. O sucesso destes edifícios foi também notório pelo facto de, após duas horas de vendas, 80% das habitações terem sido logo compradas!

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www.plot.dk www.vm-husene.dk

por João Sousa

palavras da arquitectura

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