
As cidades evoluem e, se há uma forma de perceber essa evolução é constatar a forma como as pessoas se deslocam na cidade. As bicicletas, como se pode ver neste documentário são um dos meios mais práticos, seguros e limpos de se deslocar dentro das cidades. Isto tudo associado a um sistema de transportes bem distribuído e regular, permite que uma cidade seja plenamente usufruída sem a necessidade caprichosa do carro privado.
Após ter estado em Copenhaga e em Amsterdam é notório o contraste destas cidades para com as cidades do sul da Europa, neste caso Portugal. Há um número insignificante de viaturas automóveis nas ruas e por conseguinte, o meio de transporte mais utilizado é a bicicleta. Os centros das cidades sofreram uma reestruturação ao nível dos transportes, sendo apenas permitida a passagem de pessoas e bicicletas, deixando os carros fora dos centros em numerosos parques de estacionamento subterrâneos. Isto resulta numa ocupação dos centros muito mais civilizada e de respeito para com os valores históricos, permitindo que as pessoas se desloquem em meios não motorizados, fomentando a interacção social e a diversidade. Os dois exemplos localizam-se em topografias planas, o que por um lado favorece a utilização das bicicletas, no entanto isto só é possível através de uma forte aposta política na mentalização das pessoas de que este é um meio perfeitamente subsistente e acima de tudo, que será o meio preferencial de se deslocar em cada vez mais cidades dentro de alguns anos.
Transpondo a situação para o nosso país, o que nos diferencia não se trata de uma questão de topografia ou de clima. É uma questão social, política, de planeamento e de ’status’. Um português não anda de bicicleta a não ser ao domingo, para fazer desporto e mostrar a sua boa aparência. O problema nem é chegar cansado ao trabalho pelo facto de ter feito umas subidas e descidas, trata-se de que em Portugal só anda de bicicleta diariamente quem não tem dinheiro para ter carro e/ou andar de transportes públicos. Nunca aqui se vê nenhum homem de negócios a dirigir-se com o seu computador portátil, de bicicleta para o seu escritório xpto no 34º andar de uma torre na zona mais in da cidade, com vistas para o mar. Porque? Porque em Portugal essa caricatura não encaixa no perfil de uma pessoa com esse estatuto!
O que se vê em cidades como em Copenhaga, Munique, ou mesmo Viena é uma grande diversidade social que se desloca em bicicleta, sem preconceitos ou juízos de valor sobre o facto de irem num meio de transporte em que eles mesmos são a sua força propulsora. Só assim se torna possível observar pessoas que vão trabalhar vestidos de fato, ao lado de crianças que vão para a escola, que seguem atrás de alguém que vem do supermercado ou algum turista de passagem, todos eles em bicicleta e deslocando-se em vias criadas para esse propósito, separados dos automóveis e desfrutando ao mesmo tempo de aspectos da cidade que se tornam únicos ao serem percorridos de bicicleta.
À questão do ‘status’ social que inibe as pessoas de se deslocarem em bicicleta em Portugal, acrescenta-se a inexistência de uma política de incentivo para o uso das mesmas. Neste país raros são os exemplos onde governos ou autarquias incentivam o uso de bicicletas através da criação de condições e estruturas para que os ciclistas se possam deslocar seguramente e sem o contacto directo com os automóveis. Nos casos em que estes incentivos são incrementados (Aveiro, por exemplo), acontece usualmente uma infeliz falta de civismo e de respeito pelo domínio público que deriva por um lado de uma fraca adesão inicial da população a este meio de transporte e por outro a uma falta de educação no que diz respeito à aceitação e promoção de novas iniciativas públicas urbanas.
Assim, encontramo-nos neste impasse onde queremos a todo o custo não sermos considerados um país na cauda da Europa mas, ao mesmo tempo não somos capazes de nos reinventar, de pararmos e fazermos um ponto de situação e de evoluirmos de forma a melhorar as nossas condições de vida. Esta questão não pertence a um único domínio público mas diz respeito a todos nós e, são os cidadãos que devem acima de tudo tomar a iniciativa e exigir melhores estruturas ciclo-viárias, políticas de despromoção do automóvel nas cidades e demonstrar que estão interessados em se actualizar. É um trabalho não só do âmbito político mas principalmente do âmbito sociológico e do planeamento urbano e, são os arquitectos, os urbanistas e outros intervenientes directos no meio público, que são responsáveis pela promoção, desenvolvimento e implantação de mudanças na evolução natural das nossas cidades para que possamos cada vez mais melhorar a nossa qualidade de vida, ao mesmo tempo que preservamos o ambiente.
por João Sousa





Caro joão, de facto dou-lhe muita razão quanto ao comentário, mas após ter estado em algumas dessas cidades que comparou, também me apraz dizer que, todas, ou quase todas são de topografia suave - venho a pé para o meu local de trabalho, se viesse de bicicleta, o ultimo km seria um autêntico prémio de montanha - também o pavimento dessas cidades, as condições para deslocação em bicicleta que partiram de um politica de apoio ao uso da mesma, tornam-las cidades agradáveis para a deslocação em bicicleta. Quanto a Lx, por mim continuo no meu comboio/metro e o meu ultimo km a pé!
LLopes, obrigado por comentar, estas cidades que enunciei realmente não têm topografias acidentadas, mas o que queria realmente exemplificar é que o que por vezes indicia a uma mudança de mentalidades nem é tanto o facto de haver subidas e descidas ao longo das cidades, mas definitivamente de uma aposta política e educativa de forma a convencer as pessoas que é mais saudavel utilizar meios de deslocação ecológicos do que poluentes. Trata-se portanto de criar condições para tal. Ao nível das estradas, parques de bicicletas, rede de transportes públicos e, outro tipo de incentivos que podem ser aplicados em diversos casos.
Olá!
Se voces se revoltam com a falta de ciclovis, apoio, legislação, etc, etc, aqui no Brasil é umpouco pior, há algumas ciclovias, mas estas em sua maioria acabam em precipicios, autoestradas, locais onde nõ deveriamacabar, os condutores nãso respeitam as bicicletas, ~quem as dirige não conhece a legislação e o pior…. não se podemdeixar em nenhum sitio, pois sempre são roubadas…..triste este facto, mas obrigam-nos a andar sempre a conduzir ou a andar a pé ou de auto carro, que muitas vezes são assaltados e queimados, basta ver os noticiarios, ainda esta semana a ministra do superior tribunal foi assaltada e sua comitiva teve o carro roubado….. (não acharam os assaltantes, embora tenham matado dois!!!!
que dizer?
Antes de mais queria dar-lhe as minhas felicitações pelo blog, bem escrito, bons grafismos, merece ter um lugar na minha blogroll, em http://engenium.wordpress.com/
Agora falando de coisas sérias…
Barreiras Arquitectónicas, têm tudo e nada a ver com isto mas foi a imagem que me veio à cabeça quando passei um olhar pelo texto.
Há uns tempos foi aprovado o Decreto-Lei nº163/2006 sobre a eliminação de barreiras arquitectónicas (se não me engano), que normalmente, se as coisas funcionassem, deveria servir para alguma coisa (a ver vamos).
Mas a verdade é que num país de tugas é tudo feito em cima do joelho ou numa mesa da taberna da esquina, quero com isto dizer que, na altura procurei conhecer um pouco melhor a questão das barreiras arquitectónicas e o modo de as atenuar, mas “NÃO HÁ NADA DE JEITO”, não há dados estatísticos nem informação organizada, nada!
Não sei se foi a minha pesquisa que foi muito limitada, mas parece-me ser mesmo o facto do Google ainda não ter a capacidade de encontrar milagres! Pois no que diz respeito ao planeamento.. uiii… os tugas são uns senhores!!
Caro João.
Penso que existe uma lista muito grande em que as apostas socio-politicas e educacionais são fulcrais na mentalidade dos portugueses e se quiseres nos desígnios da “urbe”, assim sendo, parece me que o tema da bicicleta não será o mais feliz.
Contudo, confesso, que estagiei 6 meses em Amsterdam, por isso reconheco as diferenças culturais. Também tinha a minha bicicleta - coisa impensável no Porto, pois os prémios de montanha matam qualquer um. A mentalidade Holandesa foi imperativa no séc. XIX, quando o uso da bicicleta e a “mentalidade alternativa” (red light district, culture) incentivada pelos marinheiros, entre outros factores históricos, modelaram o que hoje (re)conhecemos como diferença cultural.
Abraço e parabéns pelo Blog.
JM.
Claro que é uma questão de mantalidades, mas não só. Vivo na Holanda há quase 20 anos, também sou arquitecta e como tal olho atentamente paa estas questões do urbanismo. Primeiro acho que é uma questão geográfica (este país é plano). Segundo desde a Segunda Guerra que aqui a bicicleta fazia parte do mobiliário urbano (a bicicleta não foi introduzida por questões ambientais ou para resolver os problemas de tráfego - as crianças na escola têm de ter um ‘diploma’ para andarem de bicicleta). Terceiro se quiserem que em Portugal se ande de bicicleta teria de haver esforços dos planeadores no sentido de criarem ciclovias. Eu ando todos os dia de bicicleta. Tenho uma amiga que viveu em Amsterdão e agora vive em Lisboa. Uma das coisas que ela sente saudades é de puder anda de bicicleta.
Gostei deste blog. Prometo visitar mais vezes.