Depois de ter sido bastante estudado e experimentado nos anos 60, os contentores voltam a dar que falar actualmente sobre a cidade e o habitar. Será apenas uma moda? Ou poderá realmente tornar-se num método de fazer cidade ou de responder à vida cada vez mais nómada do Homem?
A reflexão e experimentação sobre o habitat móbil e modulável não é nenhuma novidade. Nem sequer a ideia do cidadão nómada. Estas duas noções foram até bastante exploradas durante os anos 20 na França. Nessa altura, o construtor de automóveis Gabriel Voisin publicou anúncios sobre casas móveis, que poderiam ser transportadas por camiões, prontas a habitar em 3 dias após a encomenda. Mas na Europa, esse tipo de casa nunca alcançou um grande sucesso, ao contrário dos Estados Unidos, onde certas cidades foram e continuam a ser unicamente constituídas de casas móveis em madeira.
Foi necessário esperar até aos anos 60, através da criatividade do grupo Archigram para que renascesse o interesse pelo habitat modulável e móbil. Este colectivo de arquitectos desenvolve as noções de Plug-in City, Walking-City e Instant-City ligadas ao conceito de mobilidade espacio-temporal que se reflectem em projectos mais no domínio da ficção-científica que do planeamento urbano, tentando dar novas ideias aos planeadores de cidade, fazendo-os reflectir sobre novos territórios urbanos.
O habitat modulável manteve-se desde então esquecido até há alguns anos atrás que uma série de ateliers de arquitectura e artistas decidiram voltar a apostar na ideia de habitat nómada e modulável. Assim, nos Estados Unidos, o atelier Jones & Partners propõem um sistema chamado “Pro/Com package Home”, baseando-se sobre contentores que poderiam ser encomendados conforme as necessidades de cada proprietário. Podendo-se criar assim uma diversidade de casas-contentor, associando vários contentores em formas mais ou menos funcionais. Por outro lado, o atelier americano LOT/EK Architecture vai-se basear na utilização massiva de contentores desenvolvendo, para isso, um sistema estrutural que pudesse encaixar um número diverso de elementos aos quais poderiam ser dados diversos usos que não só o de habitat. Surge então a noção de Cidade-Contentor.
Este atelier cujo nome remete para “low tech” ou em português “baixa tecnologia”, é constituído por dois arquitectos italianos Ada Tolla e Guiseppe Lignano, tendo sede em Nova Iorque. Fortemente ligados entre arquitectura, design e arte, estes arquitectos desenvolvem as suas investigações em torno da reciclagem urbana e da transformação de produtos industriais. Os arquitectos procuram, assim, possibilitar a criação de um habitat funcional, propondo novos esquemas programáticos, aliados às novas tecnologias, procurando sempre encontrar soluções adaptáveis à realidade do nosso século.
Na base da sua pesquisa sobre o habitat, os arquitectos criaram uma unidade de base chamada “Mobile Dwelling Unit” (MDU). Esta unidade, bastante baseada em conceitos desenvolvidos por Le Corbusier, ocupa um espaço numa estrutura adaptada a uma sociedade global, conferindo-lhe a particularidade de ser móbil. Assim, os LOT/EK reportam-se para um elemento base da nossa sociedade industrial que utiliza estes dois conceitos: o contentor. Este módulo de habitação tem a volumetria de um contentor, expandindo-se quando está a ser usado e recolhendo-se para as medidas standard internacionais de transporte marítimo quando se pretende transportar. Uma vez que se pretende fixar o módulo, este vai-se integrar numa grelha (MDU Tower), equipada de elevadores, escadas, electricidade, água e sistemas de controlo de aquecimento, luz, ventilação e telecomunicações. O CHS “Container Housing System” pode ser materializado de diversas formas seguindo duas direcções: a vertical e a horizontal, cada uma com vantagens e inconvenientes. A estrutura vertical necessita que cada contentor se monte em cima do anterior para formar uma estrutura auto-portante, que poderá atingir alturas variáveis, podendo-se ainda deslocar os contentores horizontalmente, permitindo a criação de espaços exteriores públicos ou privados. A estrutura horizontal permite que os contentores possam ser dispostos mais livremente já que cada elemento é por si só estável, permitindo uma composição mais aberta, dando mais liberdade formal.
Estas propostas apresentadas pretendem ser algo que nos permita reflectir sobre novas formas de ocupação e mobilidade urbana, de como é que as metrópoles e as megapolis poderão evoluir de forma a responder a um contínuo crescente de novos cidadãos e ao mesmo tempo, de como proporcionar uma relação global entre diferentes pontos do planeta. Poderá ser esta uma solução para o futuro? Teremos nós de enfrentar a problemática do habitat urbano de uma tão funcional que nos obrigue a viver em Cidades-Contentor? Deixo estas questões em aberto.
por João Sousa

















Olá,
Antes de mais, tenho que te dar os parabéns pela forma cuidada como expões os temas.
Creio que este tema dos contentores e habitação modular não passa do que tu mesmo mencionaste, uma moda.
É a questão da reutilização, do consumismo levada ao extremo, em busca de uma ideia de “Ecológia”, “Eco-Habitação”…
Parece-me em certo ponto que existe uma tentativa de inverter a imagem que “temos” da habitação precária actual feita em contentores. A ideia de um contentor habitável surge habitualmente associada aos estaleiros de obra.
Por outro lado peca pela falta de personalização, em prol de um gesto que apela à massificação e degradação do ambiente urbano.
O tratamento das superficies exteriores deixam também muito a desejar, na medida em que todo o interior é dissecado, mas a “pele” exterior é intocável. Desta forma creio que o “contentor” em si, torna-se um objecto em si, sendo vítima dessa mesma moda.
Porquê só utilizar contentores e não (por exemplo) fuselagens de aviões, manilhas de esgotos ou tantos outros elementos modulares?
Abraços