Archive for December, 2006

Moderna Museet - Rafael Moneo

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A construção de obras novas num local com grande história e de pré-existências, exige sempre, por parte do arquitecto, uma grande sensibilidade e um saber que lhe permita projectar em conjunto com a paisagem, tornando a obra de arquitectura não como um objecto mas como uma membrana que estabelece ligações entre os diversos aspectos caracterizadores do local.
Quando o júri do concurso para o novo museu de arte moderna de Estocolmo nomeou o presente projecto como vencedor, não fazia ideia de que a pessoa por detrás do projecto seria um arquitecto não escandinavo, nomeadamente espanhol. Pois a forma como o projecto é concebido, em intrínseca relação com o lugar, com a cultura escandinava e com a luz da Suécia, denota uma especial sensibilidade e compreensão, como se o autor fosse nativo deste país. Tal poderá ter que ver com o facto de Moneo ter trabalhado em tempos com Utzon e de, na sua obra haver sempre algumas referências aaltianas.

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O Moderna Museet implanta-se na ilha de Skeppsholmen, uma das ilhas que formam a cidade de Estocolmo, junto ao edifício histórico Tyghuset, um antigo arsenal militar, tomando-o como referência para o desenrolar de todo o edifício do museu. Ao contrário da maior parte dos projectos a concurso, Moneo desde logo quis retirar destaque visual à sua obra, afastando-a na extremidade da ilha, envolvendo-a em torno de edifícios históricos, sendo então quase imperceptível a presença do edifício do museu na ilha. A forma como o edifício indicia uma existência e convida à entrada é feita através de uma pala que se solta do interior e se extende para fora até ao limite do edifícios vizinhos, permitindo uma primeira visão da obra de onde se avista um extenso vão vidrado que acompanha o grande espaço de circulação junto às salas de exposição. Uma vez no interior, o museu divide-se em duas partes, o Moderna Museet e o Arkitekturmuseet que se instala num dos edifícios pré-existentes ao qual Moneo encostou a sua obra. Desde logo, a partir da zona do foyer se tem uma percepção quase total do comprimento do museu. Na direcção da entrada encontra-se a zona da cafetaria, um espaço de especial interesse pela interacção que promove com o exterior e o rio, criando um ambiente relaxado acompanhado de uma esplanada que se projecta para o exterior. Dirigindo-se para as zonas expositivas, somos confrontados com um espaço alongado especialmente trabalhado a nível da iluminação natural, caracterizado por um vão a todo o comprimento que permite uma entrada de luz expressiva que vai caracterizar todo o espaço. É através deste local que se faz o acesso às diferentes salas expositivas e é a ele que se volta sempre que se sai de cada sala.

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Aquilo que realmente tem interesse abordar em termos de organização espacial do programa do museu é como o arquitecto resolveu toda uma série de percursos, tornando-os intuitivos e fáceis de percorrer. Ao criar 4 módulos de salas expositivas, Moneo recorreu a um elemento que as interligasse. É ele todo espaço do alçado sul que permite a criação de um percurso exterior às salas, dando-lhes acesso, facilitando a circulação. Quando finalmente se sai do último módulo de salas volta-se de novo a esse percurso, desta vez em direcção ao foyer, podendo deste modo fazer-se o regresso à entrada do museu sem ter de se passar outra vez pelas salas de exposição. O que confere uma nova dimensão de percurso, pois desta vez o visitante pode ter uma percepção de atmosferas diferentes, com uma forte interacção com o exterior.
Aquilo que pode ser considerado um elemento de novidade e uma forma criativa de criar os espaços do museu é a forma como Moneo organizou e formalizou as salas expositivas. Assim, foram criados 4 módulos que contém diferentes salas expositivas. O primeiro módulo, junto ao foyer constitui a sala de exposições temporárias. É então um espaço totalmente livre que permite uma certa flexibilidade. Aquilo que realmente caracteriza este espaço é a forma como foi trabalhada a luz. Através de um conjunto de lanternins que ocupam toda a superfície do tecto da sala, é possível a entrada de uma luz filtrada, permitindo uma iluminação homogénea de todo o espaço. Os 3 módulos seguintes partem da mesma ideia conceptual e materializam-se de formas semelhantes. Assim, como estes módulos se destinam a exposições permanentes, estão divididos em salas de diferentes dimensões que permitem uma certa flexibilidade em termos de ocupação. Assim, como cada módulo está encerrado para o exterior, a forma de permitir a entrada de luz foi, mais uma vez, através da utilização de lanternins para a entrada de luz zenital. Aquilo que vai caracterizar cada sala dos respectivos módulos é precisamente o desenho do lanternim. É esse o elemento de mais força e aquilo que realmente dá interesse ao espaço. Consegue-se criar então uma atmosfera de luz difusa que tem ligeiras nuances conforme as dimensões das salas e, consequentemente dos lanternins.

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Os lanternins tornam-se nos elementos de destaque e de caracterização do edifício a partir do exterior, pois como já foi referido, todo o edifício está praticamente tapado pelas construções antigas, denotando-se apenas o telhado com os seus lanternins. Moneo sabia que estes elementos seriam de facto aquilo que caracterizaria melhor o edifício e trabalhou-os de forma a terem uma expressão interessante de relacionando-se com a paisagem. O telhado do museu é então trabalhado em função dos elementos de entrada de luz. Aquilo que anteriormente seria um telhado plano sem expressão, tornou-se agora um conjunto de pequenas coberturas de quatro águas encimadas por um elemento vertical de entrada de luz, um pouco alusivo à cobertura da igreja vizinha. Assim, a visão externa do museu torna-se mais difusa e comunicativa com a envolvente pelo facto da linguagem ser semelhante.

O Moderna Museet em Estocolmo pode ser então considerado como uma boa forma de intervir num património natural e urbano, pela forma como se associa às pré-existências, reduzindo a sua notoriedade, mas conferindo espaços de interesse, mesmo albergando o programa extenso de um museu de arte moderna. A nível da solução espacial também é interessante a forma como os percursos foram pensados, nunca se repetindo um mesmo percurso, dando uma visão contínua do museu. A nível da solução de iluminação, esta tornou-se o elemento que acabou por caracterizar todo o edifício denotando-se um grande trabalho na forma como os lanternins se relacionam com o exterior e com o interior. No entanto, a intensidade de luz no interior não permite uma clara iluminação das salas, já que em Estocolmo a intensidade solar é bastante menor do que em Espanha. Foi então necessário recorrer à iluminação artificial de forma a complementar a intensidade luminosa. Não deixa, no entanto de ser uma obra com grande interesse e de certo modo inovadora pelos aspectos analisados.

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por João Sousa

la biennale di Venezia - 10. mostra di architettura (dia 2)

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O segundo dia de visita a Veneza estava destinado a ver a parte principal da exposição da Bienal de Arquitectura, com a temática das cidades. Sendo assim, chegados à zona do Arsenale, dirigimo-nos para a entrada da exposição que começava no edifício da cordoaria. Neste edifício estava a exposição principal da Bienal relativa às cidades, arquitectura e sociedade. Assim, ao longo do edifício eram analisadas um conjunto de 16 metrópoles segundo parâmetros geográficos, sociológicos, antropológicos, de planeamento, … Toda a exposição estava assim organizada segundo o eixo longitudinal do edifício da cordoaria, fazendo-nos caminhar sempre num sentido à medida que a exposição se ia desenrolando. Para cada metrópole eram apresentados os mesmos gráficos, mapas à mesma escala, instalações audiovisuais, fotografias diversas e projectos propostos para zonas específicas. Estiveram então em análise 16 metrópoles de todo o mundo: Mumbai (Índia), Tóquio (Japão), Cidade do México (México), São Paulo (Brasil), Cairo (Egipto), Nova Iorque (Estados Unidos), Shangai (China), Los Angeles (Estados Unidos), Istanbul (Turquia), Bogotá (Colômbia), Londres (Reino Unido), Barcelona (Espanha), Joanesburgo (África do Sul), Caracas (Venezuela), Berlim (Alemanha) e Milão (Iália).

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Esta exposição de enorme interesse, analisava exaustivamente cada cidade, apresentando índices de crescimento da população, onde se podia observar a forma como as cidades se desenvolviam, havendo uma clara distinção entre as cidades europeias e as asiáticas, por exemplo. Outro aspecto interessante de análise eram os tipos de malha urbana em cada cidade. Podia-se observar malhas bastante regulares e ortogonais como em Nova Iorque e ao mesmo tempo um tipo de expansão orgânica que se observa na cidade do Cairo. Era possível ainda observar cidades em que havia enormes discrepâncias a nivel de organização urbana e social tal como na Cidade do México, São Paulo ou Caracas e, ao mesmo tempo poderia-se comparar com as cidades asiáticas onde não há uma distinção social tão clara que afecte dessa forma a ocupação do território. Todos estes factores são condicionados por questões económicas, religiosas, políticas, de acontecimentos históricos, … e, vão-se reflectir na forma como as pessoas usam a cidade e, como a própria cidade se estrutura. Assim, dezenas de gráficos mostravam qual era a distribuição da população ao longo da cidade e dos tempos, que percentagem de meios de transporte usam, que índices de consumo energético apresentam, quais as emissões de CO2 per capita, a distribuição etária, a percentagem de literados, o crescimento do produto interno bruto, a esperança de vida, a mortalidade infantil, … Cabia então às pessoas presentes estabelecerem relações entre os vários exemplos apresentados e tirarem as suas próprias conclusões.

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Há então significativas diferenças nas cidades de cada continente que revelam uma ocupação do solo e uma utilização da cidade completamente distintas. Se por um lado na cidade de Los Angeles, 10% da população utiliza o transporte público, em Tóquio essa percentagem eleva-se a 75% da população. Se, cidades europeias como Berlim ou Milão apresentam ao longo de 50 anos uma tendência para baixar a população, cidades como Cairo e Shangai apresentam uma explosão demográfica que contrasta por completo com as duas anteriores e revelam modos de organização social completamente distintos. Em cidades como São Paulo ou Caracas é possível observar uma clara distinção social através de imagens que revelam torres de habitação luxuosa rodeadas no piso térreo por uma topografia de telhados baixos de construções ilegais que se extendem por diversas áreas da cidade. Ao mesmo tempo, em Bogotá é impressionante a ocupação de favelas que existe em todo o terreno circundante da cidade, criando uma nova paisagem humanizada. Na cidade do México imagens impressionantes mostram como as pessoas comuns vivem, em territórios sem fim, marcados por ruas paralelas que separam e organizam as fracas construções de tijolos e chapa. Também em Joanesburgo é notória a forma como as pessoas vivem em enormes blocos de habitação que pontuam a cidade em extensos conjuntos dormitórios. Em tóquio destaca-se a problemática da poluíção visual e da sobre-ocupação do espaço da cidade, conferindo-lhe o estatuto de cidade mais cara do mundo. E a cidade de Istanbul que se encontra no limiar da Europa e do Médio Oriente que, por um lado se quer adaptar aos modelos europeus, mas que terá talvez mais relações com outras cidades muçulmanas.

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Após se percorrer esta exposição extensa e, no final, cansativa, dirigimo-nos para o pavilhão de Itália que continha uma exposição de um worpshop realizado com arquitectos italianos para a concepção de uma cidade utópica, remetendo primeiro para uma aproximação temporal sobre os variados exemplos de cidades útopicas concebidas ao longo da história. Assim, ao longo desta exposição eram apresentados separadamente os projectos de cada equipa que se situavam em fragmentos da malha da cidade e, que no final culminava na maquete do conjunto da cidade com todos os projectos inseridos pretendendo dar a noção da cidade utópica. No entanto, aquilo que se salientava era o contraste entre cada uma das propostas, mais do que a percepção do conjunto formado não por uma ideia de cidade, mas por fragmentos, de intervenções que se consolidavam num território.

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Outras exposições mostravam ainda projectos de concursos internacionais como por exemplo o ‘METRÒ-POLIS’ onde os participantes desenvolveram projectos para uma estação de metro em duas cidades italianas, onde se destacava a proposta de Álvaro Siza e Eduardo Souto de Moura pelo contraste formal com as outras propostas.

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No remate final da exposição do Arsenal encontrava-se discretamente o pavilhão da China. Composto por uma superfície inclinada de telhas cinzentas tradicionais, suportada por uma estrutura em bambú e um percurso que levava as pessoas até ao centro dessa superfície. Esta peça destacava-se pela sua subtileza no tratamento formal e na sua relação com a paisagem envolvente, havendo quase como que uma união entre o elemento artificial e os elementos naturais. Esta intervenção era uma clara provocação à exposição dos pavilhões da Bienal, onde cada país apresentava o que de mais avançado e melhor tinha no seu país. Neste pavilhão os autores não pretendiam mostrar os avanços ténicos e tecnológicos presentes nos edifícios chineses mas, pretenderam demonstrar como é possível utilizar uma tecnologia tradicional, simples e barata para a construção de espaço e paisagem.

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No final a Bienal de Arquitectura foi extremamente positiva pela forma como foi tratada toda a exposição sobre as cidades, fazendo-nos reflectir e permitindo um ensinamento global de cidades tão distintas e distantes. Pelo facto da exposição “Habitar Portugal” não estar enquadrada nos recintos da Bienal, foi extremamente difícil de chegar à casa que a albergava pelo que, uma vez lá chegados estava já encerrada. Assim, concluimos que são necessários mais do que dois dias para se poder ver toda a Bienal, no entanto não deixou de ser extremamente interessante e será uma experiência claramente a repetir.

www.labiennale.org/it/architettura/ www.venicesuperblog.net/

por João Sousa