Ser ou Não Ser Moderno

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Com cada vez maior frequência, nos dias que correm, somos confrontados com uma dicotomia aparentemente inofensiva mas que na realidade acaba por ser uma das maiores discussões (ou indecisões) da arquitectura contemporânea. A questão do ter ou não ter uma linguagem moderna, do ter ou não ter uma atitude moderna, surge hoje em dia como um problema corrente da prática arquitectónica que interessa analisar e entender a sua definição.

As primeiras referências a uma linguagem moderna surgiram durante o primeiro período da história onde se realizou a primeira revolução ideológica com impacto em todas as dimensões do Homem. Esta modernidade antropológica coincide com o período que em arquitectura designamos de Renascimento. O novo modo de pensar, baseado no Homem e não em Deus, constituiu a grande revolução desta época e originou novos modos de conceber e de pensar a arquitectura, designados de modernos.

Uma nova modernidade advém, como a anterior, de uma revolução, desta vez a nível social. A partir da Revolução Industrial (RI), o desenvolvimento das indústrias levou a uma enorme afluência dos grandes centros industriais do mundo, gerando desta vez problemas a nível do funcionamento das cidades e da sua estrutura social. Esta modernidade sociológica vai permitir novos rumos na Arquitectura que atravessava um grande período de indecisão se esta deveria ou não interferir directamente na estrutura social das cidades.

Só em 1928, com o primeiro Congrès Internacional d’Architecture Moderne (CIAM) surge um grupo de arquitectos que pretende atribuir um papel preponderante na arquitectura para a resolução dos problemas sociais que advinham da RI. Os arquitectos propunham-se intervir na sociedade de forma estritamente profissional, apelando a uma arquitectura de carácter social, rompendo então com o academismo que vigorava desde o século XV.

Nos dias de hoje vivemos mais uma vez um período de instabilidade a nível social, cultural e tecnológico. A arquitectura que vem sendo feita é de uma pluralidade até então nunca vista: se por um lado temos um Siza ou um Zumthor, por outro existe um Koolhas ou um Holl. Assistimos a uma diversidade de linguagens e de aproximações à arquitectura que me faz, antes de mais, crer que vivemos num período de transição, de incerteza, para com uma nova modernidade. A revolução que vivemos hoje é de igual ou maior importância de todas as anteriores, a sociedade está a sofrer mudanças profundas na sua estrutura, as comunicações estão a evoluir de uma forma alucinante e a globalização veio para ficar. Poderá a arquitectura adaptar-se aos novos tempos de forma a tomar um papel preponderante na vida social, cultural e económica das cidades? Se sim, como?

A Post-Modernidade (enunciada por Pedro Vieira de Almeida) que se inicia agora destaca-se das duas modernidades anteriores através da evolução dos tempos e dos pensares. No final do século XX assistimos ao surgimento de uma nova noção por Henry Laborit, a da 3ª cultura. Até então nunca identificada, a 3ª cultura é a cultura de massas, a que a maior parte da população pertence e a que menos valores culturais detém. Se até então a arquitectura era feita para sectores sociais da 1ª cultura (humanista) e da 2ª cultura (científica), desde os finais do século XX que a arquitectura vem esbarrando com a noção da 3ª cultura.

Pode-se estabelecer uma analogia entre as formas arquitecturais do movimento pós-modernista e a 3ª cultura pois estão intimamente ligados e reflectem um pouco de certas “arquitecturas” que se fazem hoje. A cultura de massas é uma cultura que não se referencia nem na história nem no espaço, não tem uma reflexão própria e por isso mesmo consome (não cria) produtos externos, provenientes das outras duas culturas. Assim, procede-se a uma generalização dos valores e produtos culturais que se reflectem hoje em dia sob a forma de Globalização. Ora a arquitectura “da globalização” é uma arquitectura (aparentemente) sem referências, nem históricas nem culturais. Está voltada para o consumismo massificado e para uma aceitação imediata, não reflexiva. Deste modo, a arquitectura perde o seu carácter local e específico para valores genericamente globais de uma cultura de massas. Será esta a direcção a seguir nesta nova modernidade? Com total segurança acredito que não. No entanto são características da sociedade actual e que devemos considerar.

Deste modo, Kenneth Frampton evoca no seu livro a noção de “Regionalismo Crítico”, insurgindo-se perante esta ideia de universalização cultural. Esta expressão insere-se perfeitamente neste contexto pois só faz sentido nesta nova modernidade. O “Regionalismo Crítico” é, tal como a expressão diz, “a promoção de valores de registo local (Regionalismo), ao nível da linguagem internacional (Crítico). Pretende-se com isto clarificar que, mais do que aceitar uma universalização cultural, é imperativo haver um reconhecimento da validade dos valores culturais regionais que tem de ser, desde logo, conjugado com uma consciência dos valores internacionais. Tornando assim mais ricos os valores culturais regionais com valores internacionais.

Assim, mais do que defender uma globalização, deveríamos defender um internacionalismo, pois este implica simplesmente a troca e a inter-influência de valores, contrariamente à posição de exportação de valores globais generalizados.

Esta noção de “Regionalismo Crítico” considero-a particularmente importante para a definição de uma arquitectura deste tempo, na medida em que só com o conhecimento e a percepção dos valores regionais e internacionais é possível conceber uma arquitectura moderna alheia a linguagens, a movimentos e a modas.

Em jeito de conclusão cito uma frase de Emile Schreiber já várias vezes citada e que tem particular interesse neste contexto: “Pénétration internacionale, interprétation nationale, voilá tout le secret du monde de demain”.

por João Sousa

4 Responses to “Ser ou Não Ser Moderno”


  1. 1 Sérgio Dias Silva

    A ideia do Regionalismo Crítico tem o seu interesse, mas é uma “gaveta” perigosa; que, aliás, os “engavetados” rejeitam (Siza é um deles). Sendo uma resposta possível, é preciso não esquecer, olhando o caso da arquitectura portuguesa, que esta foi sempre de reinterpretação e adaptação de modelos internacionais. E se assim foi, e se nunca chegamos a estar inteiramente em sintonia com as discussões “lá de fora”, então se calhar, somos Regionalistas Críticos desde o século X…

  2. 2 João Sousa

    Sérgio: tens razão no que dizes, mas precisamente aquilo que dizes é o contrário do regionalismo crítico, é precisamente o regionalismo sem sentido crítico.

    Não revejo o arquitecto Siza Vieira num Regionalismo sem sentido crítico, será talvez o arquitecto português expoente máximo do Regionalismo Crítico e por isso mesmo tem o devido reconhecimento.

    Agora aquilo que acontece em Portugal e que por exemplo em Espanha já não acontece tanto é a falta desse sentido crítico perante uma cultura local e uma arquitectura internacional. Aí temos muito que pensar e muito que aprender com outros.

    A propósito da noção do Regionalismo Crítico, Pedro Vieira de Almeida introduz ainda a noção de “internacionalismo Crítico” que é precisamente a mesma atitude crítica que devemos ter perante as influências de fora como a que devemos ter com as influências locais. Penso que é neste equilíbrio que nos devemos situar pois cada um dos extremos perde sempre sempre uma das dimensões críticas.

  3. 3 Sérgio Dias Silva

    Eu não falava da situação actual Portuguesa; aí concordo contigo, que somos muito menos críticos, actualmente, em relação às influências que adoptamos do que os espanhóis. O que eu tentava dizer é que o Siza tem uma arma que outros não tiveram, que é a divulgação internacional, porque a posição que o Siza tem em relação à arquitectura sempre existiu em Portugal. Claro que Siza associa a essa posição uma genialidade que ultrapassa as fronteiras portuguesas, mas, pegando no Pedro Vieira de Almeida, poderás ver o texto dele sobre a obra do Viana de Lima, no catálogo da exposição da Gulbenkian, de onde se pode tirar que havia, também, uma leitura crítica dos modelos internacionais e uma adaptação a uma realidade de brandos costumes como é a Portuguesa (e o caso do Viana de Lima, tendo colaborado com o Corbusier, é particularmente interessante).

    E aquilo em que eu insisto é que essa atitude não é de agora, nem sequer é do século XX. Georges Kubler é considerado um dos historiadores que melhor entendeu a unicidade da arquitectura portuguesa e o livro sobre o Estilo Chão reflecte precisamente sobre o mesmo tema: o conhecimento que os Portugueses revelavam dos modelos internacionais seus contemporâneos associado a uma capacidade muito própria, muito lusa, de os transformar numa outra arquitectura, mais contida, mais pragmática, mas não com menos valor do que a original.

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