Usualmente podemos observar que quantos mais constrangimentos existem para um projecto, sejam eles de ordem regulamentar ou de carácter natural, a obra de arquitectura se torna cada vez mais interessante e com uma maior razão de ser. Deste modo, uma arquitectura feita em total liberdade corre o risco de se tornar demasiado pobre, num contexto onde aparentemente deveria ser excepcional. Obras como a “casa em Modelo” de Souto de Moura, a “casa Tóló” de Álvaro Leite Siza ou mesmo a “casa da cascata” de Frank Lloyd Wright, tornam-se objectos de referência pelo seu carácter de excepção em resposta a problemas e programas específicos.
A obra do atelier holandês 24h Architecture que se pretende analisar intitula-se Dragspelhuset e situa-se no lago Övre Gla, na reserva natural de Glaskogen na Suécia. Trata-se antes de mais de uma obra de aumento de uma antiga casa do século XIX, condicionando desde logo a intervenção a uma série de regulamentações. De acordo com os regulamentos locais, não é permitido nenhum tipo de construção em margens de lagos a não ser que se trate de aumentos a edifícios pré-existentes. Estando localizado numa reserva natural, a área permitida para construção é bastante pequena e necessita de uma distância livre de construção de 4,5 metros a partir dos limites do terreno.
Esta pequena casa, de formas orgânicas surge então como resposta a uma encomenda de extensão do antigo edifício, formalizando-se através das regras impostas, mas ganhando uma dinâmica formal completamente nova, interagindo intrinsecamente com todo o ambiente natural. Como forma de jogar com as dificuldades regulamentares de implantação, o edifício torna-se autónomo em si mesmo, soltando-se do solo, tornando-se mutável e adaptável às condições ambientais de cada estação através de parte da volumetria que se desloca para dentro ou para fora do volume principal, abrindo novas vistas, estendendo o espaço interior, ou recolhendo-se do exterior, aconchegando o interior.
Toda a construção da obra é feita através de um esqueleto em madeira que define a volumetria geral, sendo posteriormente revestido com diversas camadas de isolamentos térmicos. O revestimento exterior é feito através de uma técnica local de revestimento em madeira chamada “stickor”, funcionando em escamas de madeira que permitem um isolamento eficaz das paredes exteriores ao mesmo tempo que a própria madeira vai adquirindo novas tonalidades através dos anos.
Em comunicação aberta com todo o meio natural, esta casa torna-se notável pelas qualidades espaciais mutáveis que permitem uma vivência adaptada às condições ambientais. Encontramos aqui uma atitude orgânica muito mais profunda do que apenas a organicidade formal. Deste modo a obra assemelha-se a um ser vivo, expande-se em direcção da luz, deixando antever parte do seu interior ou, pelo contrário, contrai-se, aconchegando-se do frio, da neve, deixando um ambiente confortável e caloroso no interior. Ao mesmo tempo que se assume como construção, solta-se da terra, procurando não modificar a paisagem natural, atingindo uma imagem única que se entrelaça com toda a paisagem envolvente.
por João Sousa





Simplesmente genial! sem palavras.
Bem a casa está muito bem projectada, mas há um senão!
O interior é feito de peles verdadeiras?
Na minha opinião é o que estraga completamente a genialidade inicial do projecto!