
A partir da recente inauguração do novo pavilhão multiusos de Gondomar e após uma breve visita ao edifício, aproveito para estabelecer um paralelo entre as duas obras recentes de conteúdo desportivo do arquitecto Álvaro Siza: o Parc Esportiu Llobregat e o Pavilhão Multiusos de Gondomar.
Aquilo que desde logo transparece de uma leitura rápida dos dois edifícios é que ambos são criados não para zonas de cidade já consolidada mas, de forma a regular a construção de um plano urbanístico que redesenhará cada uma das zonas nos próximos anos. Estes edifícios são por isso excepções, os elementos de identificação de um território, o erguer da pedra como marcação de um lugar. Neste sentido, estas obras estabelecem desde logo uma ruptura com a envolvente tomando o devido protagonismo enquanto edifícios de carácter colectivo e social. Esta relação com a envolvente torna-se importante para a análise das obras uma vez que ambas se desenvolvem para o seu interior, encerrando em si os espaços interiores e exteriores do edifício, protegendo-os do ambiente urbano.
O Parc Esportiu Llobregat é, desde logo, um edifício que se deverá entender como um conjunto de elementos que na sua totalidade formam o programa previsto. Desta forma, o arquitecto solta o edifício dos limites do quarteirão, criando momentos de abertura, formas de percepção dos diferentes espaços do edifício, recolhendo a entrada para uma zona retirada dos limites. De forma a organizar racionalmente as diferentes partes do programa, o arquitecto recorre a um elemento longitudinal que permite estabelecer ligações a partir do momento de entrada no edifício, às zonas de balneários e finalmente à piscina e ao campo de jogos. De uma forma bastante clara estabelece-se logo este organigrama funcional que definirá tanto a organização espacial como a formalização volumétrica do edifício. O corpo do campo do jogos assume-se através de uma massa compacta no exterior que permite encerrar os espaços internos onde se desenrolam as actividades. A piscina assume aqui uma posição de destaque. Sem nada a que se agarrar, a piscina surge quase como um elemento amorfo, uma membrana que se solta e que se expande livremente para fora do edifício. É então que surge uma vontade de a controlar. Urge a necessidade de a cercar, de a isolar de todo o entorno do edificado. Surge assim o culminar de uma composição que se desenrola horizontalmente, com momentos de ruptura, onde o arquitecto livremente desenha através de um único gesto um corpo curvo que encerra o espaço exterior da piscina. É como que um abraçar, um encerrar entre braços algo que nos é precioso. Torna-se uma peça primordial na composição e não a podemos imaginar sem ela. Não fará mais sentido…
O Pavilhão Multiusos de Gondomar surge claramente relacionado com a forma de pensar anterior e chega mesmo a reinterpretar alguns elementos que se encontram no edifício de Barcelona. A forma elíptica do corpo principal do edifício pretende mais uma vez remeter para uma forma primitiva de demarcação de uma espaço. É um abraçar, um gesto caloroso que encerra o seu núcleo de forma a guardá-lo do exterior. Os outros volumes vêm complementar esta composição escultórica, tornando-a horizontal, dissipando a sua monumentalidade, humanizando-a. É através desta atitude de relação com o homem que poderemos interpretar o elemento de excepção de toda a composição. É como que através do desenhar da trajectória de uma bola a cair no chão que se materializa de forma espantosa a pala curva (claro está!), culminando através de um gesto escultórico num elemento de recolha de água que se desliga (aparentemente) da pala curva, revelando uma imagem de leveza que remeterá certamente para um desenho expressivo característico de Niemeyer. Aqui é a entrada. Desenha-se a partir de um gesto único e seguro.
Por outro lado toda esta massa construída nos faz pensar em Khan. Faz-nos sentir aquele gesto duro e rigoroso presente nas obras do Bangladesh e da Índia, a aparente primordialidade do gesto, da forma, da função. Aqui Siza demarca um território e estabelece um lugar. O resto deverá adaptar-se ao seu gesto, seguir as orientações traçadas e deixá-lo ser único em si próprio.
Se por um lado, no edifício de Barcelona a qualidade da obra acompanha o rigor do desenho, no edifício de Gondomar, surpreendentemente, a obra pouco enobrece o desenho. Desvendam-se falhas de rigor, falta de acompanhamento, falta de orçamento, algo incomum em Siza e que nos faz pensar até que ponto poderá a concretização da obra dignificar ou danificar o desenho? Teria vontade de ver este edifício executado com o rigor do anterior. Mas, de certo modo, mesmo assim esta obra demonstra uma vontade crítica. Parte de um gesto e desenha-se para o concretizar. Encerra-se do exterior voltando-se para si, para os seus acontecimentos. Quer parecer-se estranha (e é), fazendo-nos querer entrar. Não será tudo isto também arquitectura?
por João Sousa




