
Há dias descobri este fórum: forumdacasa. E com ele comecei também a tomar conhecimento real sobre o pensamento do ser humano comum perante esta espécie (aparentemente) tão dispensável que é o Arquitecto. No meio de tantas afirmações de revolta, de ignorância, de incompreensão ou simplesmente de desinteresse, resolvi quase como em forma de manifesto explicar em palavras comuns o porquê de se trabalhar com um Arquitecto:
“Todos nós queremos ter a casa dos nossos sonhos, como aquela que vimos algures numa revista, talvez sem piscina, mas com um belo jardim. Talvez sem paredes de vidro, mas com janelas pontuadas nos alçados. Talvez com cobertura plana ou mesmo inclinada.
Ora, porquê contratar um arquitecto se afinal de contas já todos nós sabemos o que queremos? Porque não falar ao amigo do nosso primo que tem jeito para o desenho e dizer-lhe que nos faça um rabisco com três quartos, uma sala, uma cozinha e casas de banho? Porque não falar ao tio de um amigo nosso que é empreiteiro e que faz as obras num instante e a baixo custo?
Porquê?
Porque passamos horas a fio a folhear revistas de automóveis para escolher o modelo que nos serve? Porque visitamos inúmeras lojas de roupa em busca daquilo que gostamos? Porque ficamos horas a experimentar sofás a ver se nos servem? Porque afinal de contas tudo aquilo que compramos é um investimento para o futuro!
Já pensaram bem no que é uma casa? Olhem para a vossa casa e reflictam sobre aquilo que acham que está bem e aquilo que está mal. Agora pensem como a poderiam melhorar. Se vão construir uma casa, essa (teoricamente) será a vossa casa durante muitos e muitos anos! Ora, vão querer ter um lar perfeitamente adaptado às vossas necessidades, que a longo prazo possa ser sustentável, que vos permita criar e viver com a vossa família em harmonia. Será essa a casa dos vossos sonhos? Então façam um investimento agora para poderem lucrar no futuro!
O Arquitecto é o único profissional apto a projectar devidamente um espaço de habitar. É o único profissional com formação para isso, o único profissional com sensibilidade para tal, o único profissional capaz de pensar e desenvolver os espaços da casa à vossa medida. O único profissional que pensará no vosso lar de forma sustentável e rentável a longo prazo. Como tal o Arquitecto é o elemento-chave de qualquer projecto de arquitectura. É a única pessoa artisticamente capaz de conceber, desenvolver, discutir, pensar e desenhar uma casa: a vossa casa.
Então porque tentamos sempre evitá-lo? E porque é que passamos horas e gastamos milhões de euros a personalizar os nossos carros, a buscar objectos que nos agradam e que se identificam connosco? Porque é que quando pensamos em construir a nossa casa, nunca pensamos que será ali que para o bem e para o mal iremos Viver? Será que há algo mais importante para se investir do que na nossa qualidade de vida?
Qualquer trabalho profissional tem um preço. Esse preço deverá estar de acordo com as capacidades profissionais de quem o faz. O que acontece quando queremos remediar? Não queremos gastar dinheiro em desenhos, em coisas que à partida não têm grande importância, queremos é ter quatro paredes, um chão e um tecto para dormir e mais nada. Por isso queremos é alguém que as construa! E a vossa casa fica construída, custou-vos muito pouco e até pagaram umas cervejas aos trabalhadores. Ao fim de 2 anos essa casa está absolutamente insustentável. Há humidades, frio no Inverno, calor no Verão, afinal de contas agora a casa já não tem aquela mística que ao inicio teria. Basicamente o vosso investimento foi um desastre. Gastaram uns trocos para a construir, mas a médio prazo a vossa casa tornou-se um “barraco”. É impossível lá viver sem um aquecedor, não há muita luz durante o dia, os quartos ora são grandes demais ou demasiado pequenos: A vossa casa não foi pensada!
Então porque falo em investimento? Antes demais deveremos sempre pensar a casa como investimento, não porque pretendemos vendê-la daqui a uns anos, mas um investimento para a nossa qualidade de vida e consequentemente para as nossas carteiras! Assim, fará todo o sentido procurar um profissional honesto e capaz de pensar a habitação como nós tínhamos em mente. Um profissional que sugira alterações de forma a tornar a casa sustentável. Um profissional que planeie a casa a longo prazo. Isto resultará seguramente num investimento que será inicialmente aparentemente caro, mas que em poucos anos iremos olhar para trás e pensar que ainda bem que o fizemos porque hoje em dia a casa funciona perfeitamente, é confortável, os quartos foram dimensionados como queríamos, a cozinha é versátil e o terraço que o arquitecto tinha sugerido afinal até tem sido bastante utilizado naqueles dias de verão!
Devemos então investir para ter lucros. Não é sempre assim que os negócios funcionam? Uma construção funciona também assim. Um bom material irá durar mais tempo, espaços bem desenhados e pensados serão mais confortáveis, o planeamento da casa para a nossa vida futura irá torná-la adaptável ao longo dos tempos.
Então porque não dar valor ao trabalho do Arquitecto e em troca recebermos a casa dos nossos sonhos, tenha sido ela pensada a baixo ou a médio custo?
Agora atenção! Há bons e mais profissionais! Nunca escolham um Arquitecto só porque ele é Arquitecto! Assim como escolhem um opel ou um ford, irão escolhê-lo pelas suas características! Deverão procurar sempre um conjunto de Arquitectos e solicitar-lhes o seu portfolio de forma a poder entender as características do seu trabalho, as suas preocupações e principalmente a sua ética e honestidade perante o trabalho que irá fazer!”
por João Pereira de Sousa






Infelizmente a sociedade Portuguesa não está preparada para investir no que quer que seja… veja-se pelos carros, roupa, férias…
Créditos atrás de créditos, dívidas, saldos, fuga aos impostos… um verdadeiro salve-se quem puder.
Cada dia vejo mais pessoas que procuram um retorno rápido, baixo investimento, comodismo…
Cabe-nos a nós, arquitectos e futuros arquitectos, mudar esse panorama e não ceder.
Abraços
Nunca li um texto com tanta verdade! mas infelizmente o espirito do portugues ainda é fazer hoje e “remediar” amanha.. Alterar mentes é uma meta a cumprir!
ta bien joao, es una pena porque creo que este blog lo leen principalmente arquitectos, lo deberían leer la gente de a pie para darse cuenta de que es verdad lo que dices
Mas que grande post!
Os meus sinceros parabéns.
Isto seria tudo verdade num mundo perfeito. No mundo em que vivemos, os arquitectos estão mais preocupados em concepções teóricas sobre a casa ideal e em projectos supostamente artisticos ou da moda que os catapulte não sei bem para onde (tal como diz: «É a única pessoa artisticamente capaz de conceber…»). E toda a gente sabe que a casa ideal, ou a dos nossos sonhos, NÃO EXISTE. Toda e qualquer casa é um conjunto de concessões entre o que se gosta muito e o que se gosta menos. Se tivermos sorte fica o não gosta nada de fora.
Aquilo que vejo constantemente acontecer é os orçamentos das construções das casas projectadas por arquitectos serem 2 ou 3 vezes superiores ao plafond fornecido pelos clientes, impossibilitando a construção da casa. Fica então o cliente com um «sustentável» projecto em mãos que serve para absolutamente nada.
Isto acontece porque os arquitectos projectam sem qualquer contenção orçamental, sucumbindo a exercicios estilisticos, usando soluções arquitectónicas caras e materiais de revestimento ainda mais caros. Assim, explodem, sem qualquer respeito, os limites orçamentais dos clientes.
Esta é a razão pela qual as pessoas fogem dos arquitectos.
Tiago: Respeito essa opinião, no entanto é sustentada segundo generalidades e maus exemplos. Em todos os ofícios existem bons e maus profissionais, por isso aquilo que devemos salientar ou são bons ou maus exemplos. Infelizmente sempre teremos profissionais que projectarão independentemente de custos e/ou necessidades. No entanto por isso é que eu friso que antes de se fazer este investimento deveremos saber escolher perfeitamente qual será o profissional que se ocupará do nosso projecto.
A questão de que “os arquitectos projectam sem qualquer contenção orçamental, sucumbindo a exercicios estilisticos, usando soluções arquitectónicas caras e materiais de revestimento ainda mais caros” é bastante clara do pensamento do senso comum. Agora se queremos ter uma boa casa, temos não só de escolher um arquitecto à altura (do desafio) como também teremos de ser capazes de coordenar o projecto de acordo com as nossas necessidades. São tudo questões a ser debatidas com o arquitecto e a serem aferidas nas primeiras reuniões. Eu não deixaria nunca brincarem com o meu dinheiro, mas quereria uma casa que a longo prazo fosse sustentável para as minhas economias.
Deveremos ver para além do evidente.
É óbvio que generalizei quando resolvi deixar a minha opinião neste blog. Também sei que a generalização tende para a injustiça.
Deixei-me ir na esteira que lançou no seu post. Ou quando transforma em «barracos» todas as casas não projectadas por arquitectos está a dar exemplos baseados em rigor?
O problema que genericamente abordei está patente, sobre outra perspectiva, na sua resposta logo a seguir à parte em que me cita. O cliente do arquitecto não sabe nada de arquitectura e não tem de saber coordenar o projecto mas tão só apresentar as suas necessidades.
Para isso está lá o técnico – que é o arquitecto.
1. Quando o cliente apresenta as suas necessidades e elabora com o arquitecto um programa base fazendo-o acompanhar de um plafond para a construção, é obrigação do arquitecto respeitá-los (programa e plafond) ou dizer à partida que não projecta para aquele plafond.
2. Quando o arquitecto sugere determinados materiais ou soluções arquitectónicas, sabendo de antemão, tendo em conta a sua experiencia profissional, que farão ultrapassar o plafond fornecido pelo cliente, não pode depois dizer que foram devidamente aprovadas por este.
O arquitecto não pode demitir-se da sua qualidade de técnico e de coordenador do projecto.
Aqui vão duas regras que os arquitectos deviam interiorizar para que o senso comum sobre estas questões se modificasse.
Completo o comentário anterior afirmando que “Existem bons e maus arquitectos, tal como existem bons e maus profissionais noutras áreas e sectores.”
Há dias, na secção de Arquitectura de uma livraria, ouvi um senhor que dizia para uma amiga: “Eles alteraram aquilo tudo, não ficou nada como eu queria! Está visto que vai ficar uma porcaria… quero lá saber, não sou eu que lá vou morar!”
Acho que esta forma de pensar diz tudo.
Abraços
Tiago: e nesse sentido estamos totalmente de acordo! Se existe um acordo entre o cliente e o arquitecto, tal como um contrato, esse acordo é para cumprir.. Mais uma vez existirão bons e maus exemplos.
Quando digo que o cliente deverá coordenar a evolução do projecto refiro-me ao facto de que quando o Arquitecto começa a colocar as ideias no papel, o cliente deverá acompanhar em parte esse processo e não deixar andar durante semanas ou meses e esperar logo por um resultado final. É muito mais vantajoso se o cliente está interessado em ter um bom projecto e participa activamente nesse processo, estabelecendo boas relações com o arquitecto (e vice-versa), podendo a tempo sugerir alterações, discutir ideias, do que esperar pelo o produto final e só aí dizer que o projecto está fora dos orçamentos pedidos.
A respeito desta relação arquitecto-cliente sugiro a visita atenta do blog Casa em Arruda dos Vinhos, que demonstra um percurso de projecto e obra de grande sucesso de grande inspiração entre arquitecto e cliente. Não só a casa é precisamente aquilo que o cliente queria (como aparece expresso pelas palavras do mesmo), como foi feita com custos bastante controlados.
Estando completamente de acordo com o essencial do texto, parece-me no entanto que se procura deseperadamente, a certa altura, apresentar argumentos já não para convencer alguém, mas para deseperadamente auto-justificar a importância do Arquitecto, quando isso é um facto consumado. E quem não o aceita não é obrigado a fazê-lo. Afinal vivemos numa democracia. Gente tacanha há de sempre haver. Um dos grandes males, senão o maior, do mundo da Arquitectura, e que afasta o indivíduo anónimo deste mundo é o facto de os arquitectos não terem muitas vezes a noção de se mover num meio hermético, avesso a contactos com o mundo exterior. Parece que somos os detentores da Verdade. Quem lê a Arquitectura e Vida? Quem lê o Jornal dos Arquitectos? Quem vai às conferências de Arquitectura? É um meio elitista, apesar da profusão de cursos actual, e o contacto com o muundo real, o mundo do cidadão comum e desinformado é essencial para evitar uma abordagem arrogante e nefasta ao longo do processo de projectar. Há que dar o benefício da dúvida ao cliente, e não partir do pessuposto que o Arquitecto é o iluminado que lhe vai indicar a luz. Talvez o cliente possa ajudar mais do que à partida o profissional esperaria. Mas cada caso é um caso. E cada casa é uma casa.
Creio que o post surge da necessidade do arquitecto se promover, como se tratasse de um anúncio publicitario, pois a crise nao pára só no cliente, mas fortemente sobre arquitecto, que se vê “à rasca” pra conseguir trabalhar.
Parece-me bem esta política de se publicitarem uma vez que como toda a gente, precisam de trabalhar.
No entanto os arquitectos só foram vítimas do seu proprio elitismo, ao contrario dos engenheiros que, ao absterem-se dessa posição de estrelato, continuam a ter imenso trabalho, e não sao poucos, a fazer trabalho de arquitecto.
Procuro um arquitecto. Alguém que me ajude a construir o projecto para a casa que desejo.
Mas parto de um ponto diferente do comum mortal, sou Eng.Civil e faço direcção de obra. Na ultima década houve uma alteração das “maneiras” e passei a construir projectos de arquitectos ou equipas de projecto (são coisas diferentes, acreditem).
E posso dizer que tenho trabalhado para grandes projectistas portuguesas, em edifícios que se querem modernos, sustentáveis, e financeiramente eficientes.
Mas tenho concluído que os arquitectos são ainda muito conceptuais, muito afastados do utilizador final, muito afastados dos restantes projectistas e intervenientes da obra.
Houve um dia, que uma arquitecta, me confidenciou, que me estava a obrigar a fazer o que estava no projecto, porque lhe foi ensinado na faculdade que teriam de se impor na obra…mas era uma asneira, e acabou por ser alterado, para servir os interesses do cliente.
Porque precisamos de ser tão arrogantes e autistas. Porque não se é capaz de fazer equipa, e compreender que os técnicos, que esteticamente não estarão tão preparados, tecnicamente podem dar um contributo positivo.
Deixo a nota, que tornar arquitectos coordenadores de projecto, poderá não ser a melhor solução. Em minha casa não será a solução decerto. Falta-lhe uma abrangência técnica maior, ou a humildade de aceitar que existem necessidade técnicas que têm de ser cumpridas. Mas também não aceito que seja um técnico, pois tendem a facilitar e com isso estragar a concepção. Deveria ser uma equipa, de duas pessoas.
Existe ainda outro aspecto que os arquitectos têm de evoluir. Eles estão a construir o sonho de outra pessoa!, não o deles. As pessoas têm limitações financeiras e objectivos específicos. Estou farto de edificar projectos, que temos de alterar acabamentos, porque afinal o cliente não tem dinheiro para tudo. Ou alterar a arquitectura interior, porque ninguém compatibilizou as peças, e aquela conduta passa ali.
Na minha casa, procuro um colega, que conjuntamente com a minha experiência, me ajude a conceber a minha casa. Conjuntamente, porque eu quero estar presente, quero garantir que os custos estão controlados e que os aspectos técnicos estão garantidos. Mas quero um arquitecto, porque não tenho formação nem capacidade técnica, que garanta um resultado estético e funcional do projecto.
Da procura até este momento tenho tido surpresas engraçadas. O arquitecto com mais obras executadas e maior curriculum, é o mais barato?!, os arquitectos menos experientes, são os mais caros. Estranho, mas a verdade.
Espero que a arquitectura cresça, amadureça, que finalmente tenha projectos de execução.