
Da forma como a informação se processa hoje em dia, através dos mass media e da internet, as imagens são cada vez mais um processo de comunicação imediato. A arquitectura não está alheia a este facto e isso é claramente visível nos mega-projectos que se suportam de imagens altamente elaboradas e estudadas minuciosamente como forma de marketing aliado à comunicação da arquitectura. Nesta cultura imagética dificilmente ficamos alheios à tentação da representação gráfica. É através dela que os arquitectos se expressam e é através dela que uma linguagem técnica se desmaterializa de forma a abranger públicos-alvo. Assim, torna-se extremamente difícil a apreciação, entendimento e crítica de determinado projecto ignorando as imagens síntese que constantemente nos assombram (para o bem e para o mal). E se dizemos vulgarmente que uma imagem vale mais do que mil palavras, por vezes são necessárias milhares de palavras para dissecar e justificar essa imagem.
O Watercube em Pequim é uma obra que deverá ser analisada muito para além das imagens de apresentação. Se por um lado se consegue comunicar um conceito forte e uma iconografia através de uma imagem, por outro essa imagem consegue ser quase dispensável quando começamos a entender as ideias e os processos criativos por detrás desta obra. Mais do que aquilo que à partida transparece, o Watercube é uma obra que parte de uma ideia única que é trabalhada exaustivamente de forma a construir toda a complexidade programática, aliada a uma consciência local que transparece finalmente em toda a estrutura edificada. Mais do que a criação de um ícone, interessa aqui dissecar e analisar um processo criativo que parte de um conceito básico que é elaborado de forma a constituir uma obra altamente coerente e merecedora de uma atenção especial.

Enquanto centro de desportos aquáticos o Watercube parte da ideia de água como motivo temático e estrutural onde ao contrário das estruturas de desporto tradicionais, apoiadas sobre pilares, vigas e cabos aplicando-se posteriormente uma pele, aqui o conceito, a estrutura e a pele são o mesmo elemento. Interessa neste caso salientar então a forma como se re-aplicam conceitos tradicionais da construção num edifício completamente novo. Deste modo, tal como na arquitectura tradicional, a forma está directamente relacionada com a estrutura sendo que tudo o que é fachada é auto-portante e portanto nada é acessório e tudo o que existe tem uma função. Ainda, a forma como se processa este edifício está directamente relacionada com um pensar e uma cultura chinesas. Desde a forma primitiva da casa quadrada, presente na tradição chinesa, à ideia da água como símbolo de prosperidade e à dualidade que estabelece com o estádio projectado por Herzog & DeMeuron, onde este é fogo (ou masculino) por oposição à água (ou feminino), alusivos ao yin-yang, são aspectos que se traduzem numa busca que vai para além de mero um desenvolvimento formal, onde aqui se procurou que o conceito inicial estivesse presente em todas as fases do processo de projectação.

Assim, partindo de uma concepção claramente tecnológica e de grande complexidade, o Watercube é ao mesmo tempo um edifício poético, quase surreal, que se vai descobrindo aos poucos. E de forma a conseguir transmitir esta ideia de um bloco de moléculas de água, a tecnologia revelou-se essencial, tendo sido desenvolvida maioritariamente pela equipa da ARUP. A forma encontrada para construir o edifício e a sua imagem parte essencialmente da geometria de Weaire-Phelan, composta por duas células tetraédricas diferentes que se repetem indefinidamente. Através de um processo simples de cortes neste conjunto geométrico, aparentemente aleatório, chega-se a um bloco quadrangular completamente sustentável através da sua geometria. Deste modo foi possível prever ainda em fase de concurso a exequibilidade do projecto apoiado num sistema estrutural racional e único, onde a imagem virtual conseguiu ser altamente fiável em relação ao resultado final.

Muito mais que um exercício formal, desde o início do processo se denota uma preocupação com a a forma de construção do edifício, com a matéria e a sua forma de funcionamento. Deste modo, esta obra teria que funcionar como uma estufa isolada termicamente que absorvesse a radiação solar e evitasse as fugas de calor. Ao mesmo tempo os projectistas queriam utilizar ao máximo a luz natural e minimizar os reflexos na água e as reverberações de som. A partir destes requisitos, o uso da película polímera ETFE foi a solução material mais indicada para revestir toda a pele exterior e interior do edifício conferindo à obra a imagem evanescente planeada em fase de concurso. Desta forma a passagem do virtual ao material é conseguida graças à tecnologia de construção que chega ao ponto de traduzir literalmente a imagem conceptual sem desvirtuar o processo de trabalho nem o funcionamento do edifício. Aqui o edifício assume-se como uma “natureza artificial” em que se parte de um fenómeno natural para construir o artificial baseado nos mesmo aspectos e características mas com um aumento da escala. No final aquilo que se projectou e construiu foi ao mesmo tempo um reflexo dos processos da natureza trazidos para a prática arquitectónica onde o resultado funcional e formal adveio de um único processo que se traduz em toda a obra.

Como conclusão será interessante citar sobre este tema o discurso de Michael Wienstock aqui traduzido para espanhol: “Se intuye un cambio de sistema, donde la frontera de lo “natural” y lo “manufacturado” ya no existirá. La interacción compleja entre forma, material y estructura de los sistemas materiales naturales ha generado nuevos procesos industriales “biomiméticos”, generando materiales innovadores de alto rendimiento. (…) En la escala de grandes proyectos arquitectónicos, el énfasis sobre el proceso se convierte no sólo en reducir los datos de diseño para la construcción. Las estrategias Biomiméticas que integran forma, material y estructura en un único proceso son tomadas de la nanoescala para diseñar y construir grandes edificios”. Valerá sempre a pena conhecer e estudar processos de projecto distintos dos mais óbvios.
por João Pereira de Sousa




