palavras da arquitectura | um olhar sobre a arquitectura contemporânea | João Pereira de Sousa palavrasdaarquitectura@gmail.com




Da Arquitectura Sustentável

head.jpg

A sustentabilidade, como noção ecológica, veio para ficar. Por necessidade, por moda ou porque se pretende pensar dessa forma, a noção de sustentabilidade ecológica aliada à arquitectura faz já parte do nosso dia-a-dia. Enganem-se aqueles que julgam que me refiro ao uso de tecnologias complexas ou de materiais altamente tecnológicos. A “sustentabilidade” só é sustentável através da sua simplicidade, pela forma como, com poucos recursos se consegue materializar uma construção que funciona, que dura e que certamente continuará a funcionar na perfeição, não dependendo dos numerosos factores externos que são imprescindíveis à maior parte das nossas casas. Algures numa entrevista, Eduardo Souto de Moura vê-se confrontado com a questão sobre a sustentabilidade e, de uma forma bastante segura afirma que a “sustentabilidade” deveria ser algo intrínseco à obra de arquitectura. Da mesma forma que a arquitectura pretende responder a problemas sociais e funcionais, deveria por si só ser sustentável. É esse o seu propósito. Sustentável a nível económico, ambiental, funcional, etc. A noção de sustentabilidade é plural e como tal interessa saber a que se refere e de que forma se comporta na relação com a arquitectura.

Tendo já tido alguma formação em bio-arquitectura e construção sustentável, não deixo de estar interessado em evoluir os meus conhecimentos nesta matéria e por isso mesmo já há uns meses que vou mantendo um link aqui no blog para outro blog de grande interesse pelo nome de: Casa em Arruda dos Vinhos – Diário de Obra da Autoria do Plano B Arquitectura. Ora este blog, antes de mais, é uma excelente fonte de informação (e de formação) sobre construção (sustentável), baseada na apresentação ilustrada e descritiva das fases de obra de uma casa projectada pelo atelier Plano B Arquitectura. Raro em Portugal, este atelier tem no seu currículo uma série de projectos cuja matéria prima é a terra ou a madeira aliadas a métodos de construção tradicional. Esta aproximação à arquitectura através da sua simplicidade e eficácia dos métodos construtivos constitui uma vertente sobre a qual este atelier procura trabalhar, desenvolvendo uma arquitectura com uma finalidade ecológica.

01.jpg

A Casa em Arruda dos Vinhos, a qual tenho vindo a acompanhar através do seu blog, é bastante interessante pelo facto de se partir de uma construção em madeira com paredes em tabique e adobe, aliada a materiais contemporâneos como o policarbonato, o aço e o betão, dando origem aqui a uma grande riqueza espacial, aliada à sua simplicidade formal. Outro aspecto aqui interessante é o facto dos próprios arquitectos participarem na obra e de serem eles também os que contribuem para a tornar real, participando na prática de construção, demonstrando que o arquitecto tem de ir para além dos seus desenhos e das suas idealizações, concretizando-as com as suas próprias mãos.

Este projecto trata-se de uma reconstrução a partir de uma ruína existente. Como o terreno se encontra em reserva ecológica, qualquer intervenção deveria ser feita apenas no perímetro da antiga construção. Como tal, os arquitectos propuseram uma reconstrução, abolindo a ruína mas suportando-se dela para as fundações da nova casa. Assim, de uma forma quase natural se substituíram as paredes de pedra antigas por uma estrutura em madeira de eucalipto cuja volumetria veio igualar a anterior, conforme os regulamentos. Esta simples habitação unifamiliar é composta por um espaço amplo com cozinha e sala com uma organização livre e uma instalação sanitária encerrada.

02.jpg

O uso de técnicas construtivas (ditas) tradicionais e o uso de materiais orgânicos na materialização da estrutura da casa foi desde sempre a necessidade para a materialização deste projecto. Partindo da estrutura de madeira que definiu a forma geral do edifício, as paredes foram enchidas com adobe num sistema de tabiques de forma a gerar uma grande inércia térmica. Do lado exterior a parede recebeu ainda um revestimento de placas de aglomerado de cortiça com 5 centímetros de espessura, de forma a isolar eficazmente as pontes térmicas, seguido do revestimento final com placas de policarbonato ondulado contra a penetração de água a partir do exterior. O revestimento interior é conseguido através da textura deixada pelo sistema de tabique com o adobe, sendo que posteriormente foi pintado de branco. Assim, através de uma secção de parede bastante simples e económica se conseguiu estabelecer um sistema eficaz de isolamentos permitindo que o ambiente interior da casa permaneça o mais estável possível.

03.jpg

Fica então aqui a sugestão de visita do blog Casa em Arruda dos Vinhos – Diário de Obra da Autoria do Plano B Arquitectura.

por João Pereira de Sousa

7 Responses to “Da Arquitectura Sustentável”


  1. 1 fernando lara

    prezado Joao,

    muito bom seu texto e melhor ainda a ideia do blog documentando a evolucao da casinha. Mas se por um lado voce tem razao ao afirmar que a sustentabilidade veio para ficar e que toda arquitetura deveria ser sustentavel desde o principio, cabe tambem perguntar como resolver o problema habitacional em larga escala usando materiais como adobe. Me parece um pouco romantico e “insustentavel” diante da a necessidade de densidade (transporte, infra-estrutura, etc). Na minha opiniao, a chave esta na mesclagem entre materiais tradicionais e industrializados, como o policarbonato (a prova d’agua) revestindo o adobe (inercia termica). Gostei do blog e pretendo voltar. Fernando Lara

  2. 2 João Sousa

    Olá Fernando,

    É isso mesmo, não vamos construir edifícios de habitação colectiva com técnicas tradicionais, necessitamos de rigidez, de uma boa estrutura, de sistemas de esgotos, etc. No entanto também aqui é a simplicidade que torna todo o sistema sustentável. As orientações solares, os materiais, os sistemas de aquecimento e arrefecimento passivos etc… Há muito para onde nos viramos e tantas formas de o fazer que na minha opinião nada disto são constrangimentos ao desenho de um edifício, mas por outro lado são mais dados para a resolução de problemas.

    cumprimentos

  3. 3 Francisco Freire

    Caro João,

    Nós (plano b) desconhecíamos o ‘palavras da arquitectura’ e foi com surpresa e agrado que demos com o artigo!

    Em primeiro, obrigado pelas considerações acerca do nosso trabalho e parabéns pelo blog – ao qual voltaremos com regularidade.

    Segundo, permita-nos comentar – em tom de correcção – uma frase a propósito da nossa prática na qual se refere que desenvolvemos uma “arquitectura com uma finalidade ecológica”. Na verdade, não encaramos que os nossos projectos devam ter uma finalidade ecológica – se bem que a ideia de pensar à partida num ‘fim’ (no tempo) de uma construção é algo que nos agrada. Expressões como ‘arquitectura sustentável, bioclimática ou ecológica’ são termos que nos causam algum embaraço quando associados ao que fazemos. O princípio do plano b foi desde sempre muito claro: associar materiais naturais a materiais industriais de uma forma simbiótica. Há seis anos, começámos carregados de alguma carga ideológica ‘eco’ mas, gradualmente – por via da experiência e algum amadurecimento -, temo-nos livrado dela. Pensamos agora que a maior vantagem do nosso principio-activo é conceptual – uma forma de reflectir/criticar sobre a nossa condição pós-industrial. Não procuramos uma resposta para os problemas do mundo, mas gostamos de agitar as águas, correndo o risco de sermos ‘engraçadinhos’.

    Em terceiro, mais um comentário a um comentário que advoga “simplicidade e economia” à casa de Arruda. Infelizmente, também não podemos concordar – apesar de ter sido essa a nossa ideia aquando da proposta inicial. O que aparentemente é um processo construtivo simples verificou-se bastante complexo e moroso; e quanto à economia, se podemos dizer que os materiais foram ‘baratos qb’, a mão-de-obra não o foi e deparámo-nos com uma derrapagem significativa nos custos previstos. Contudo, estamos todos – cliente incluído – muito orgulhosos do percurso construtivo e do resultado da coisa!

    Finalmente, e em quarto lugar, a propósito do debate (e o consenso) nos comentários acerca da Não construção com técnicas tradicionais “em larga escala” ou em “habitação colectiva”. E porque não? Não por romantismo ou sequer pela sustentabilidade mas por uma Ideia Contemporânea, simplesmente?

    Francisco Freire

  4. 4 Márcio Santos

    Boas,

    Já tinha conhecimento deste projecto e devo dizer que gostei muito do resultado e do conceito que lhe está associado. Reparei, que não existem referências ao construtor e à empresa que efectuou a estrutura de madeira, será possível fornecerem estas referências?

  5. 5 João Sousa

    Olá Márcio,

    De facto a não existem referências à empresa construtora, pois tal não era relevante para o texto em questão. Dessa forma sugiro que contactes directamente o atelier de arquitectura Plano B que te poderão informar sobre isso. PLANO B

  6. 6 Luis

    Boa tarde

    Gostava de saber se voce era Membro da Escola Livre de Filosofia.

  1. 1 Judit Bellostes : de madera y adobe - house in Arruda dos Vinhos

Leave a Reply