palavras da arquitectura | um olhar sobre a arquitectura contemporânea | João Pereira de Sousa palavrasdaarquitectura@gmail.com


Arquivo de February, 2008

o porquê e o para quê da forma*

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Inundados de imagens, é assim que nos encontramos. Nada é passível de ser entendido ou apreciado sem uma imagem, sem um registo gráfico. Veneram-se formas, procuram-se significados, razões e maneiras de traduzir uma forma em palavras. A Arquitectura é na generalidade entendida hoje como um jogo de formas (muito mais que o jogo de volumes proposto pelo movimento moderno). Formas essas que a todo o custo procuram ser justificadas, que procuram ser ideias quando na realidade as formas deveriam traduzir ideias (e não o inverso). Procura-se uma arquitectura forte, intensa, formal, quase pictórica, esquecendo para isso a ideia, o fio condutor, a razão, o propósito e a função da arquitectura. Enquadramo-nos cada vez mais numa era barroca em que tudo é visual, excessivo e desproporcionado. Procura-se uma arquitectura virtuosa.

Venera-se uma arquitectura de formas complexas, de imagens compostas, de um excesso de desenho que remete para o supérfluo, para o ornamental, escondendo inteligentemente o seu propósito, a sua razão, alegando que a sua justificação é expressa pela forma, muito mais que pela ideia. Vendem-se formas e a imagem prevalece, ninguém pensa, ninguém lê, ninguém estuda e a arquitectura esvazia-se, aprende-se nas formas, da maneira mais acessível e útil para qualquer um de nós.

Mas raros são os que reflectem, os que tomam o tempo para o estudo e análise de um problema. Os que muito antes de uma forma buscam a satisfação das necessidades do homem, a contextualização, a racionalidade e a economia da criação arquitectónica. Os que não esgotam a arquitectura em si mesma mas que a desenvolvem desde os seus pressupostos racionais até à poética inerente a uma verdadeira obra de arquitectura, tornando cada vez mais simples algo tão complexo.

A Arquitectura sempre acompanhou os avanços da Tecnologia. A evolução da história da arquitectura corresponde à evolução tecnológica mundial. Uma não vive sem a outra, no entanto uma é mais importante que a outra. E porque nos rendemos nós à tecnologia? Porque deixamos que seja a tecnologia a protagonista em vez da Arquitectura? Procura-se uma arquitectura sempre original, vanguardista, suportada nos mais avançados processos tecnológicos e no entanto esquecemo-nos da distância que separa a Arquitectura da Tecnologia. Que a Tecnologia não é um fim mas um meio. Que a Arquitectura está e sempre estará na vontade, no processo e no resultado. Que quando a Tecnologia surge como protagonista resulta apenas a forma, um esqueleto que por mais belo que seja não consegue respirar por si próprio.

Vivemos uma época de constantes revoluções tecnológicas, onde a cada dia surgem novos processos, novos materiais e as possibilidades são infinitas. Perante isto sentimo-nos cada vez mais livres, mais originais. Sentimos que cada vez menos nos impõem limites, que podemos expressar livremente a nossa arte, afirmando-nos como uma nova geração. Mas a Arquitectura vive das suas limitações, das suas relações, do seu propósito. Os verdadeiros materiais que compõem a Arquitectura continuam a ser os mesmos desde sempre: a Gravidade que define o espaço e a Luz que o temporaliza. De que nos serve a tecnologia se não conseguimos trabalhar com os materiais mais básicos da arquitectura? Se muito antes que a “casca” interessa pensar e desenvolver a “polpa”, porque insistimos nós na ornamentação, no supérfluo?

A Arquitectura é uma das artes do desenho. Mas é única através das suas condicionantes, da sua funcionalidade, do seu propósito. Não é só forma como também não é só função. Será certamente difícil para todos nós encontrar-lhe uma definição (talvez por isso muitos de nós não saibamos ao certo aquilo que fazemos). No entanto a Arquitectura é visível, é palpável, tem odor e existe no tempo. Ela existe e não é apenas através da forma. É tudo aquilo que não se vê mas que se sente.

Será isso provavelmente aquilo que nos custa a entender.

por João Pereira de Sousa

* expressão transcrita do livro “A Ideia Construída” de Alberto Campo Baeza