palavras da arquitectura | um olhar sobre a arquitectura contemporânea | João Pereira de Sousa palavrasdaarquitectura@gmail.com




o porquê e o para quê da forma*

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Inundados de imagens, é assim que nos encontramos. Nada é passível de ser entendido ou apreciado sem uma imagem, sem um registo gráfico. Veneram-se formas, procuram-se significados, razões e maneiras de traduzir uma forma em palavras. A Arquitectura é na generalidade entendida hoje como um jogo de formas (muito mais que o jogo de volumes proposto pelo movimento moderno). Formas essas que a todo o custo procuram ser justificadas, que procuram ser ideias quando na realidade as formas deveriam traduzir ideias (e não o inverso). Procura-se uma arquitectura forte, intensa, formal, quase pictórica, esquecendo para isso a ideia, o fio condutor, a razão, o propósito e a função da arquitectura. Enquadramo-nos cada vez mais numa era barroca em que tudo é visual, excessivo e desproporcionado. Procura-se uma arquitectura virtuosa.

Venera-se uma arquitectura de formas complexas, de imagens compostas, de um excesso de desenho que remete para o supérfluo, para o ornamental, escondendo inteligentemente o seu propósito, a sua razão, alegando que a sua justificação é expressa pela forma, muito mais que pela ideia. Vendem-se formas e a imagem prevalece, ninguém pensa, ninguém lê, ninguém estuda e a arquitectura esvazia-se, aprende-se nas formas, da maneira mais acessível e útil para qualquer um de nós.

Mas raros são os que reflectem, os que tomam o tempo para o estudo e análise de um problema. Os que muito antes de uma forma buscam a satisfação das necessidades do homem, a contextualização, a racionalidade e a economia da criação arquitectónica. Os que não esgotam a arquitectura em si mesma mas que a desenvolvem desde os seus pressupostos racionais até à poética inerente a uma verdadeira obra de arquitectura, tornando cada vez mais simples algo tão complexo.

A Arquitectura sempre acompanhou os avanços da Tecnologia. A evolução da história da arquitectura corresponde à evolução tecnológica mundial. Uma não vive sem a outra, no entanto uma é mais importante que a outra. E porque nos rendemos nós à tecnologia? Porque deixamos que seja a tecnologia a protagonista em vez da Arquitectura? Procura-se uma arquitectura sempre original, vanguardista, suportada nos mais avançados processos tecnológicos e no entanto esquecemo-nos da distância que separa a Arquitectura da Tecnologia. Que a Tecnologia não é um fim mas um meio. Que a Arquitectura está e sempre estará na vontade, no processo e no resultado. Que quando a Tecnologia surge como protagonista resulta apenas a forma, um esqueleto que por mais belo que seja não consegue respirar por si próprio.

Vivemos uma época de constantes revoluções tecnológicas, onde a cada dia surgem novos processos, novos materiais e as possibilidades são infinitas. Perante isto sentimo-nos cada vez mais livres, mais originais. Sentimos que cada vez menos nos impõem limites, que podemos expressar livremente a nossa arte, afirmando-nos como uma nova geração. Mas a Arquitectura vive das suas limitações, das suas relações, do seu propósito. Os verdadeiros materiais que compõem a Arquitectura continuam a ser os mesmos desde sempre: a Gravidade que define o espaço e a Luz que o temporaliza. De que nos serve a tecnologia se não conseguimos trabalhar com os materiais mais básicos da arquitectura? Se muito antes que a “casca” interessa pensar e desenvolver a “polpa”, porque insistimos nós na ornamentação, no supérfluo?

A Arquitectura é uma das artes do desenho. Mas é única através das suas condicionantes, da sua funcionalidade, do seu propósito. Não é só forma como também não é só função. Será certamente difícil para todos nós encontrar-lhe uma definição (talvez por isso muitos de nós não saibamos ao certo aquilo que fazemos). No entanto a Arquitectura é visível, é palpável, tem odor e existe no tempo. Ela existe e não é apenas através da forma. É tudo aquilo que não se vê mas que se sente.

Será isso provavelmente aquilo que nos custa a entender.

por João Pereira de Sousa

* expressão transcrita do livro “A Ideia Construída” de Alberto Campo Baeza

8 Responses to “o porquê e o para quê da forma*”


  1. 1 Pedro Santos

    hoje em dia, e depois de estudar alguns dos arquitectos que desenvolvem este ” barroco contemporâneo”, temos jovens arquitectos que seguem esta linha, da forma pela forma e não pela função/conceito/intensões.
    Hoje é “importante” criar uma “máscara” para cobrir o projecto, não existe uma forma que seja condição de um conceito. Vemos em n exemplos de arquitectura contemporânea e , progressivamente, na arquitectura académica de seguir modelos “excitantes” e que nso cativam.
    Não digo que é na simplicidade está a verdadeira arquitectura, pelo contrário, na nossa sociedade,os condicionantes e influências são tantas que devemos (e somos quase “obrigados”) a respondermos a todos estes pontos.
    Mas o que falas no artigo é bem verdade, hoje são raros os exemplos onde a forma advém de todas as condicionantes e não por um estimulo ou algo intuitivo. É pena isso acontecer, mas como em todos os movimentos/acções supérflas o tempo vai fazer com que os mesmos caiam no esquecimento.
    A meu ver, existe sempre um lado positivo em cada movimento, seja ele curto ou longo na sua duração, a quando da sua “extinção” o que retirarmos dele, vai ser a polpa para o nosso sumo, o que é, sempre, muito positivo na aprendizagem.

  2. 2 João Morgado

    Já dizia o mestre Távora:

    “… projectar, planear, desenhar, não deverão traduzir-se para o arquitecto na criação de formas vazias de sentido, impostas por capricho da moda ou por capricho de qualquer outra natureza. As formas que ele criará deverão resultar, antes, de um equilíbrio sábio entre a sua visão e a circunstância que o envolve e para tanto ele deverá conhecê-la intensamente, tão intensamente que conhecer e ser se confundem…” in Da organização do espaço

    Parece-me uma conclusão brilhante para o teu artigo.
    Abraço

  3. 3 João Pedro Silva

    Excelente artigo. Muito bem escrito e com conteúdo importante.. Parabéns!

  4. 4 Félix Máximo

    “A Arquitectura sempre acompanhou os avanços da Tecnologia. A evolução da história da arquitectura corresponde à evolução tecnológica mundial.” Esta sua afirmação, encontra-se um pouco descontextualizada, para além de não ser verdadeira…o artigo é deveras interesante, mas longe vão os tempos em que Louis Sullivan dizia: “forma segue a função” e, hoje em dia, sem querer defender o “formalismo”, essa afirmação do grande mestre de Chicago não deve ser seguida à letra…

  5. 5 João Sousa

    Félix, também não entendo bem a sua resposta e creio que não me fiz entender com essa afirmação. Explicando um pouco melhor, aquilo que salientava era o facto da arquitectura nunca estar alheia à história e por isso mesmo à tecnologia. Sempre viveram e conviveram juntas. O que estava a destacar mais à frente era o facto de por vezes a arquitectura deixar de ser a razão dando protagonismo à tecnologia. Nada disto tem que ver com as noções de forma e função, antes, tem que ver com as resoluções tecnológicas que se aliam à arquitectura. Podemos falar quase de um novo “Hi-Tech”, este muito menos racional e muito mais formal.

    Sobre a forma e função, o arquitecto Pedro Vieira de Almeida tem uma definição de Arquitectura deveras interessante e que faz todo o sentido: “A Arquitectura é uma longa hesitação entre forma e função”. Penso que será difícil enquadrar melhor este campo.

  6. 6 Carlos

    boa noite, eu sou estudante de arquitectura, estou no 3 ano, e neste momento estou a desenvolver um trabalho para a cadeira de teoria da arquitectura, que é sobre a identidade da forma. achei este artigo deveras interessante e muito cativante, pondo as pessoas a reflectir naquilo que esta aqui escrito.
    Gostaria de saber se me poderia ajudar, mostrando-me mais alguns artigos seus dentro deste tema ou alguns links com outros artigos interessantes.
    Agradeço a ajuda, com os melhores cumprimentos

  7. 7 Notícias de Arquitectura

    Continuo a acreditar no nosso grande mestre internacional Mies Van der rhoe ao afirmar que num projecto “menos é mais” com tudo o que isso implica no pensamento e concepção.

    No entanto não deixo de cada vez mais constatar de que a tradicional definição de arquitectura como espelho do viver e fazer do homem na sociedade onde se insere, enfim, como habita e existe, tem todo o seu sentido e ainda mais hoje.

    Ora partindo do pressuposto de que estamos a chegar ao limiar duma sociedade excessivamente consumista, onde tudo é efémero, veloz e profundamente marcantes mas durante curtos espaços de tempo não seria de admirar que a arquitectura contemporanea traduzisse isso mesmo á letra.

    O tempo encarregar-se-á de escolher e deixar as “melhores” obras pois mesmo as opiniões e críticas de hoje que amanhã mudarão não são mais válidas numa sociedade em permanente mutação no modo como comunica e se informa.

    Na minha opinião o problema da teoria e crítica de arquitectura hoje, é o não saber lidar com as linguagens que forçosamente se definem e redefinem a uma velocidade estrondosamente maior e sem preconceitos que inevitavelmente vão marcando estilos mesmo que sejam estilos de moda que como aparecem assim desaparecem deixando abalados muitas vezes alguns conceitos clássicos de arquitectura como a fenomenologia, o lugar, o programa, as materialidades, pois tudo parece ser posto á prova ao mesmo tempo em todos os quadrantes e em sucessivas layers sobrepostas pelas diversas culturas.

  1. 1 Links de Fim de Semana [19/04/08] « Blog Arqfeevale

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