
A partir do caderno de viagem que fui escrevendo aquando de um inter-rail que realizei em 2006 no final do mês de Fevereiro, achei interessante publicar aqui as reportagens que ia fazendo a cada dia que passava, demonstrando os sítios por onde passei e as descobertas que ia fazendo ao longo da viagem. As memórias ficaram assim registadas em palavras, desenhos e fotografias e a cada vez que as revejo, recordo-me perfeitamente de todos os acontecimentos passados.
Decidi então partilhar para que todos nós sintamos também esta vontade enorme de viajar, de conhecer, de explorar. Só assim é que crescemos como pessoas e como Arquitectos.
Saída de Bruxelas
Aachen A primeira paragem foi de imediato na primeira cidade alemã à saída da Bélgica. Aachen é uma cidade de origem romana, bastante pequena mas com grandes edifícios históricos. Com apenas 55 minutos para a visitar enquanto esperávamos um comboio, fizemos a nossa visita-relâmpago ao centro e à Catedral onde se encontram as relíquias de Carlos Magno.
Hannover Tínhamos apenas 3 horas para visitar a cidade e esteve sempre a chover. Decidimos então dar uma volta pela cidade ainda de mochila às costas e descobrimos uma quantidade enorme de espaços públicos de qualidade (que tanta falta fazem em Portugal). Desde logo nos apercebemos das memórias da história recente alemã. Uma igreja do século XIV onde só restavam apenas as paredes exteriores depois de 1945. Seguimos até ao Rathaus onde estavam expostas quatro maquetas da cidade: uma do século XIV onde se viam dois núcleos, um muralhado e outro em expansão; outra de 1939, antes da guerra, com uma cidade já bem consolidada; outra de 1945 agora completamente devastada pela guerra; e a última com a cidade actual, com as suas grandes avenidas. Seguimos até à Catedral, um edifício todo revestido a tijolo com um órgão enormíssimo, quase arquitectural. E, debaixo de chuva fomos até às ruas comerciais onde comemos pela primeira vez uma Bratwurst! Voltamos finalmente à estação após muita chuva para beber um chocolate quente enquanto (calmamente) perdíamos o comboio das 19.40 por termos visto mal o horário. Após algum nervosismo encontramos outro comboio de alta velocidade que iria fazer a ligação a Hamm para que pudéssemos continuar viagem.
København Depois de uma noite passada no Nachtzug, sem dormir muito tempo seguido, ora porque havia barulho, ora porque faziam uma vistoria ao comboio e nos pediam os BI e os bilhetes, chegamos a Copenhaga pelas 10 horas, com um ar gelado e alguma neve na paisagem. Já tínhamos ideia de alugar uma bicicleta, mas não fazia ideia da quantidade enorme de bicicletas que se viam aqui (incrível). Todas as ruas estão equipadas de faixas em cada sentido para bicicletas e toda a gente as utiliza para andar de bicicleta (parece que entramos em algum mundo extraterrestre!). Fomos dar entrada no albergue e alugar as três bicicletas. Depois de andarmos um pouco pela cidade, meio perdidos, decidimos ir procurar alguns edifícios recentes com interesse, mas pelo caminho encontramos a igreja de Christiania e seguidamente a cidade anarquista de Christiania. Aquilo que em tempos foi um complexo industrial, tornou-se num abrigo de gente que apelava à liberdade sexual e de espírito, mas que foi evoluindo para se tornar num espaço onde pessoas à margem da sociedade vivem em comunidade, praticamente sem contacto com o exterior, como se o tempo por eles não tivesse passado. Por entre casas pintadas a graffiti e bicicletas desmontadas, víamos os seus habitantes, que se moviam com gestos lentos e bucólicos. Subitamente também se encontravam turistas (como nós) e curiosamente uns portugueses que estavam a estudar em Lund na Suécia. Depois de termos visto a Royal Library, atravessamos o canal e deparamo-nos com a obra dos PLOT para os banhos públicos da cidade, inseridos num parque fluvial bastante cuidado. Seguindo por esse parque encontramos um edifício de habitação dos MVRDV que foi construído a partir de uns silos antigos. A próxima paragem seria Ørestad, a zona de expansão da cidade em direcção à Suécia. Reparamos que havia um parque enorme que separava a zona onde estávamos da estrada que seguia para Ørestad. E nem a neve nos fez hesitar! Seguimos então nas bicicletas por trilhos completamente cobertos de neve até que chegamos à estrada que conecta a cidade de Copenhaga à cidade de Malmö na Suécia. Por entre casas e jardins nórdicos se começa a adivinhar dois edifícios enormes, praticamente todos envidraçados e onde se podia observar perfeitamente tudo o que se passava no interior das casas. Após termos dado umas voltas junto aos edifícios, de os termos fotografado, subitamente alguém se dirige a nós em espanhol. Era uma espanhola que ali morava e que prontamente se ofereceu para nos mostrar o edifício V em detalhe. Subimos então até ao 9º andar e entramos na habitação V68, mas sem antes deixarmos os sapatos no exterior, seguindo o costume dinamarquês. O apartamento era completamente atravessado pela luz que entrava pelas duas fachadas em vidro e, das varandas triangulares se tinha uma vista sobre a península e também sobre todos os interiores dos apartamentos do edifício. Acabamos então o dia pelo centro da cidade, visitando-a à noite. No segundo dia, como ainda tínhamos tempo para utilizar as bicicletas, decidimos fazer um percurso assumidamente turístico e ir até à zona do castelo onde está a famosa estátua da sereia que, ao contrário do que as imagens mostram, do outro lado da água encontrava-se um horizonte cheio de chaminés de fábricas que nos surpreendeu. Após termos devolvido as bicicletas, voltamos a mover-nos a pé e fomos conhecer mais algumas partes da cidade. Descobrimos então o National Barnk do Arne Jacobsen, com o seu hall de entrada absolutamente monumental. Tínhamos pensado ainda apanhar o metro para ir até ao clube aquático dos PLOT, mas perante os preços dos bilhetes,decidimos fazer um plano alternativo e aproveitar o nosso bilhete de comboio. Apanhamos então um comboio que nos levou ao extremo da ilha onde se encontra Copenhaga. Chegamos a Helsingør, onde se localiza o castelo que serve de cenário a Hamlet e com uma vista esplêndida para a Suécia, do outro lado do mar báltico. Voltamos a apanhar o comboio para irmos até Humlebæk, uma vila junto ao mar onde se encontra um museu com grandes obras de arte contemporânea, mas cujo preço do bilhete era de 10€. Após esta pequena viagem, voltamos à gare central de Copenhaga onde decidimos mudar alguns planos para o dia seguinte e apanhar um comboio nocturno para Colónia, para depois fazermos a ligação para Hamburgo.

Århus Chegamos a esta cidade e tínhamos ideia de ir ver o edifício da câmara municipal, obra de Arne Jacobsen. Do exterior este edifício era absolutamente contrastante com a envolvente. Bastante pesado e encerrado em si próprio. No entanto, o interior estava inundado de luz bastante trabalhada, fazendo com que tudo parecesse mais leve. Continuamos a caminhar pela cidade e descobrimos que esta era bastante distinta da cidade de Copenhaga. Bastante mais pequena, de ruas sinuosas e com alguma desorganização na implantação dos edifícios.
Aalborg Após mais umas horas a viajar num comboio inter-cidades bastante confortável, chegamos a Aalborg. Não tínhamos qualquer referência sobre esta cidade, apenas queríamos ir o mais possível em direcção ao norte e expandir os nossos limites latitudinais. No entanto esta cidade, atravessada por um Fjord, tornou-se bastante mais interessante que a anterior. Apresentava um núcleo histórico bem conservado, repleto de pequeno comércio e de alguns edifícios mais recentes que se conjugavam harmoniosamente com os mais antigos. Seguimos daqui a viagem de volta para a Alemanha, onde foi necessário apanhar um comboio nocturno até Colónia e de seguida apanhar outro que em quatro horas nos levaria a Hamburgo.
Hamburg Passamos mais uma noite no comboio nocturno, após termos estado 30 minutos à espera em Kolding por causa de um atraso. Quando finalmente entramos no comboio e vimos que tínhamos um compartimento só para nós gritamos de contentes mesmo depois da controladora dinamarquesa nos ter dito que umas paragens mais à frente viriam mais duas pessoas. No entanto, toda essa excitação teve um fim quando chegaram duas mulheres alemãs decididas a passar toda a noite acordadas até Colónia. Enquanto nós tentávamos forçosamente dormir, as duas alemãs insistiam em falar e fumar, … Chegamos finalmente a Colónia e saímos fugazmente do comboio para entrar no que nos levaria a Hamburgo em 4 horas, onde finalmente pudemos dormir um pouco. Chegados à cidade, seguimos directamente para o centro. Começamos a caminhar por ruas enormes, com passeios larguíssimos, com bastante gente nas ruas repletas de lojas luxuosas. No horizonte encontrávamos sempre uma grande quantidade de torres, sendo que nos dirigimos em direcção a uma torre gótica. Quando lá chegamos, aquilo que provavelmente seria uma grande igreja, era apenas uma estrutura em ruínas na qual restava apenas a sua torre sineira e algumas paredes exteriores. Um marco impressionante numa cidade devastada pela guerra. Seguimos então para ver o edifício ChileHaus do arquitecto Fritz Höger. Um grande edifício revestido a tijolo com uma imagem imponente e com um desenho interessante nos pormenores das fachadas. Decidimos então seguir junto ao rio, passando pelas imensas pontes e barcos que se encontravam no maior porto da Alemanha. Fomos então em direcção à zona de Sankt Pauli, passando por alguns edifícios interessantes e visitando algumas igrejas. Pela noite ainda passamos por um Jazz Club com música ao vivo antes de irmos para o albergue onde dormimos num dormitório com 25 camas.

Berlin Depois de termos tido alguns problemas em relação à direcção do comboio para Berlim, chegamos finalmente à cidade, depois das 13h. Passamos pelo albergue e decidimos ir a pé até à zona do Zoologischer Garten, porque aí tínhamos o itinerário para fazer. Mesmo antes de chegar ao início do itinerário, passamos por uma zona da cidade altamente frequentada, com centenas de pessoas a caminhar nos passeios. Passamos por uma igreja destruída onde apenas restava uma torre, rodeada de altos edifícios de mau gosto, provavelmente dos anos 70. Seguimos até ao bairro Hansa, o bairro modernista de cidade-jardim. Logo à entrada situava-se o edifício curvo do Gropius e mais à frente o edifício do Alvar Aalto, destacando-se dos restantes pela sua forma. Mais à frente, situava-se o grande bloco de habitação de Oscar Niemeyer, verdadeiramente funcionalista. Fomos na direcção da grandiosa coluna da Vitória na Grosser Stern e depois atravessamos o Tiegarten até à Budapesterstrasse onde se encontravam os edifícios das embaixadas dos países nórdicos e do México, bastante interessantes formalmente. Continuamos a descer até ao Bauhaus Arkiv, o museu da história da Bauhaus. Seguimos então junto ao Spree até chegarmos ao magnífico edifício da National Galerie de Mies Van der Rohe, com a sua enormíssima cobertura plana apoiada nos enormes pilares negros que abriam o um enorme espaço livre no interior, parcialmente ocupado por uma sala de concertos. Logo ao lado estava a famosa Philharmonik de Hans Scharoun e também a Biblioteca de Berlim, mas estavam as duas fechadas, para nosso desgosto. Continuamos em direcção à Potsdamer Platz pelo Sony Hall até chegar finalmente à praça onde estava a grande edifício de Hans Kollhof. E pela primeira vez vimos um troço do muro de Berlim, debaixo de um vento gelado. Fomos em direcção ao Checkpoint Charlie, que se encontra como memória real desde a queda do muro. Daqui seguimos em direcção ao museu judaico do Daniel Libeskind. No entanto, enquanto aqui andávamos a conhecer o edifício e o jardim, fomos “gentilmente” corridos por um segurança que praticamente nos empurrou porta fora porque já estava fechado. Dirigimo-nos então até Friedrichstrasse para norte, passando pelos quarteirões das lojas mais luxuosas da cidade até à Unter den Linden onde jantamos e, finalmente nos dirigimos para o albergue.
por João Pereira de Sousa





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