
(Berlin) O segundo dia acordou sob um manto branco de neve, que se estendia pelos jardins e passeios avistados desde a janela onde tomávamos o pequeno-almoço. A neve que caia ia formando uma película branca no chão enquanto nos dirigíamos para a Unter den Linden. Desta grande avenida avistamos a porta de Brandeburgo e dirigimo-nos na sua direcção. Quando lá chegamos vimos a primeira manifestação de Carnaval com alguma música e ambiente festivo. Aqui se situava o branco projectado por Ghery e a academia de Artes. E logo ao lado esquerdo da Porta encontrava-se a magnífica obra de Eisenman, o memorial do Holocausto. Desde logo nos impressionou esta simplicidade formal, onde através de uma sucessão de blocos de betão com alturas distintas e ligeiramente inclinados, foi possível gerar um espaço fantástico de percurso e de reflexão onde a neve ia preenchendo os espaços das juntas de pavimento sobre a topografia incerta do terreno. De certa forma este contraste gerado entre a simplicidade formal do memorial e a envolvente caótica de edifícios adjacentes, parece fazer algum sentido… Seguimos assim, em direcção ao Reichstag, onde começamos a perceber uma fila interminável de pessoas para entrar no edifício e subir à cúpula projectada por Foster. Decidimos então que mais valia continuar a passear e fomos sempre junto ao rio até à zona da ilha dos museus, onde segundo havíamos percebido através de uns apontamentos, estaria o edifício de Siza Vieira. Após algum tempo a procurar, sem sucesso, perguntamos a duas senhoras que nos disseram que estava bem mais distante de onde estávamos, pois nem sequer aparecia no mapa que tínhamos. Decidimos então ir ver a ilha dos museus. Logo ao lado da ponte situava-se a Catedral, verdadeiramente imponente e toda retalhada depois de ter sido atacada durante a guerra. A entrada custava 3 euros, o que achamos um abuso e por isso seguimos para o próximo edifício. Tratava-se o Altes Museum projectado pelo Schinkel, com um aspecto bastante clássico e onde estava exposto o busto de Nefrodite. De seguida continuamos a ver outros museus e entramos no Deutsches Historisches Museum do I. M. Pei. Parecia interessante, no entanto um pouco extravagante a nível formal. Foi então que vimos que estava a começar a passar um enorme cortejo de Carnaval. Fomos até lá e estava toda a gente aglomerada de mãos no ar, debaixo de uma chuva de chocolates, rebuçados, pipocas e outras guloseimas, que saltavam disparadas dos carros decorados e animados do cortejo. E ficamos lá, a fazer como todos os outros, recolhendo os presentes que tombavam, até que depois fomos atrás do cortejo até à Alexander Platz. Chegamos até à zona da Mite Tower, a famosa torre de televisão que se vê de qualquer parte de Berlim. Decidimos entrar, mas custava 6,50 euros para subir, assim que saímos. Seguimos em direcção à alexander Platz que, segundo o que todos dizem, é o segundo centro de Berlim. No entanto, esta praça de dimensões colossais não correspondeu ao que imaginávamos. Era simplesmente um enorme espaço vazio, atravessado por uma avenida de largas dimensões, sem passeios para as pessoas percorrerem, mas antes com percursos subterrâneos de atravessamento da avenida. Da praça apenas se viam enormes blocos de apartamentos, sem qualquer relação de vizinhança. Seguimos então daqui em direcção à embaixada da Holanda projectado pelo OMA. Decidimos abordar o edifício pelo outro lado do rio, para ver que efeito teria nesse pedaço de cidade. E enquanto o observávamos, avistamos um manto negro de corvos que se dirigiam para o cume das árvores, ficando equilibrados no topo dos mais finos ramos. Após termos atravessado para a outra margem e de termos chegado junto do edifício, vimos que realmente apresentava uma forma interessante, contida e com uma grande precisão a nível de detalhe, como seria de esperar. De seguida decidimos ir até ao edifício de habitação do Siza e fomos apanhar o metro. E qual não é o nosso espanto, dentro do metro, que vimos acercar-se um indivíduo diante de nós segurando um cartão na mão a pedir para ver os bilhetes! A nossa sorte é que na noite anterior tínhamos decidido comprar o bilhete mais barato mas sem o validar, então fazendo-nos de turistas desorientados fizemos crer ao controlador à paisana que não sabíamos que se tinha de validar e ele lá nos deixou seguir dizendo apenas que deveríamos ter comprado um bilhete de mais zonas e que deveríamos validá-lo. Chegados ao “Bonjour Tristesse” do Siza, vimos que já todo ele tinha sofrido o peso do tempo com graffitis e enormes anúncios publicitários que adulteravam a imagem a que estávamos habituados. No entanto, conseguia-se ainda distinguir a criatividade formal desta obra. Seguimos então em direcção ao albergue onde conhecemos uma nova hóspede brasileira que estava de passagem pela Europa.

Potsdam Saímos de Berlim e apanhamos o comboio para Potsdam. A única referência que aí tínhamos era da Einstein Turm de Erich Mendelsohn, onde já na estação aparecia uma placa a indicar a sua direcção. Após termos caminhado um pedaço com as mochilas às costas decidimos ver se encontrávamos alguém para perguntar se estávamos no caminho correcto. Reparamos que estávamos um pouco enganados no caminho e que ainda faltava bastante para lá chegarmos. Então, com um pequeno mapa fotocopiado, seguimos a pé pelo meio de um bosque, até chegarmos a um centro de investigação onde conseguimos ver, finalmente, a torre que com as suas formas orgânicas surgia do chão em direcção ao céu. Posteriormente, decidimos aproveitar o resto da manhã para visitar a cidade, assim que, tivemos de fazer o caminho oposto para lá chegar. Entrando pela cidade, fomos até junto de um lago enorme que estava completamente gelado, onde andava uma senhora de patins de gelo. Não pudemos deixar de ir experimentar andar em cima de um lago gelado, tomando partido daquela realidade. Quando reparamos, tivemos de fazer uma espécie de corrida até à estação para seguirmos para Dessau.
Dessau A cidade da escola Artística mais conhecida do mundo. Nunca pensei que um dia iria passar por aqui, mas quando me dei conta, já estávamos a descer do comboio e a placa em frente dizia, com letras bem grandes, “Dessau Hbf”. Saímos da estação e fomos à procura de um mapa, pois seguramente estaria assinalado aquilo que procurávamos. Seguimos então pela Bauhausstrasse, a rua que ia dar directamente à escola. Quando a avistamos, estava à nossa frente a casa de ateliers, seguida do grande edifício projectado por Gropius para albergar a primeira escola de vanguarda de artes, design e arquitectura. Diante das famosas letras “Bauhaus” entramos no edifício e logo vimos que estava parcialmente em recuperação. Subimos pela escadaria principal e atravessamos o corredor que levava ao outro edifício, mas que estava fechado. Dirigimo-nos à biblioteca e depois à parte de baixo onde estava uma pequena exposição e uma livraria. Saímos e aproveitamos para comer sentados nas escadas da entrada enquanto admirávamos o edifício e relembrávamos toda a sua história e as suas transformações. De seguida fomos ver o conjunto de habitações projectadas por Gropius para os professores da Bauhaus. Todas elas projectadas num estilo funcionalista, em 1925, sendo que permanecem perfeitamente actuais. Dirigimo-nos então para a estação pois tínhamos visto um edifício interessante junto a esta. Era um edifício relacionado com o ministério do ambiente e todo ele tinha sido pensado de forma a usar energias renováveis. Depois como ainda tínhamos tempo fomos até ao centro da cidade, mas sinceramente não vimos nada de realmente interessante no resto da cidade.
Dresden Chegamos a Dresden depois de uma viagem relâmpago a Leipzig em 40 minutos. Chegamos à estação já de noite e deparamo-nos com as obras de reconstrução para a futura estação projectada por Norman Foster. Ficamos de nos encontrar com duas amigas que estavam a viver aí e nos iam albergar essa noite. Após algum tempo de espera fomos até à residência de estudantes mais perto onde pousamos as coisas. Os quartos eram bastante mínimos, com uma dimensão adequada para dormir e trabalhar: largura de 2 metros onde a cama estava num topo e uma janela no outro topo com uma mesa e um armário à direita. Fomos então comer para a cozinha comum que estava voltada para a estação e aproveitamos para descansar um pouco. Depois decidimos ir até ao centro a um bar. O único problema é que já com metade da viagem feita, os nossos corpos já começavam a acusar algum cansaço e então, no bar, apesar do bom ambiente, nós os três estávamos já bastante esgotados e um pouco dormidos. Chegamos finalmente a casa às 4.30h da manhã, completamente desfeitos e deitamo-nos com os nossos sacos-cama no chão. No dia seguinte acordamos às 12h ainda um pouco cansados e após algum tempo que levamos preparar-nos fomos tomar o pequeno-almoço. Por volta das 15h chegamos ao centro da cidade para passear enquanto passamos pela nova sinagoga de Dresden, com uma forma interessante. Seguimos até à zona histórica onde estão localizados os palácios barrocos hiper-decorados, com os seus grandes jardins junto ao rio. No entanto logo ao lado a cidade cresce, desmesurada e um pouco caótica com os grandes blocos de apartamentos e de escritórios. Seguimos então para a parte mais central da cidade onde estão os aglomerados mais antigos, com as suas ruas bem mais interessantes. E com esta caminhada toda, já um pouco cansados decidimos ir comer algo bastante “típico” da Alemanha contemporânea, um döner kebap. De volta à residência estivemos a conversar com outras pessoas que lá viviam e começamos a arrumar as nossas coisas para então apanhar o comboio nocturno que nos levaria a Munique. E chegados à estação já lá estava à espera o City Night Line, dos melhores comboios nocturnos da Alemanha, assim que nos instalamos e seguimos viagem durante toda a noite para chegarmos às 6.23h a Munique.

München/Füssen Chegamos a Munique às 6.23h da manhã e o que poderíamos fazer a essa hora numa cidade desconhecida? Olhamos para os horários dos comboios e decidimos improvisar um pouco e apanhar o comboio que ia para Füssen, nos alpes germânicos, às 7.30h. Foi uma viagem bastante agradável onde vimos o amanhecer debaixo de um grande nevão que branqueava toda a paisagem por onde passávamos. Chegados a Füssen reparamos que isto mais parecia uma estação de ski, com tudo coberto de neve, altas montanhas brancas e algumas pessoas preparadas para fazer ski de fundo. A nossa ideia era ir ver os castelos construídos para o rei Ludwig, durante o século XIX, nas encostas alpinas (um pouco como o Palácio da Pena em Sintra). Apanhamos um autocarro com mais dois mexicanos que conhecemos enquanto esperávamos e com um enorme grupo de japoneses. Vimos logo que aquilo era demasiado turístico em relação ao que tínhamos pensado, mas a paisagem da montanha repleta de neve fazia-nos esquecer isso e apreciar o lugar. Decidimos não pagar os 8 euros para entrar nos castelos e em vez disso fomos subindo por entre a neve até à entrada, fugindo discretamente dos grupos de turistas. Chegados à entrada de um dos castelos estivemos a apreciar a paisagem e descobrimos no meio das montanhas uma ponte que ligava dois desfiladeiros, uma imagem típica de postal. Como tínhamos um comboio para voltar para Munique às 11.16h, fomos descendo para apanhar o autocarro que já havia passado há uns minutos. Como teríamos de esperar quase uma hora ao frio e iríamos perder o comboio, decidimos fazer o percurso a pé até à estação e apreciar deste modo a paisagem. Fomos caminhando e numa parte árida de neve vimos grupos de pessoas a fazer calmamente ski de fundo. Ainda tivemos tempo para dar umas voltas pela cidadela antes de voltarmos para a estação. E com a neve a cair voltamos de comboio para Munique. Chegados a Munique, decidimos usar a técnica de sair da estação e seguir em frente até chegarmos ao centro por uma rua comercial pedonal. A cidade estava cheia de neve e íamos seguindo a apreciar a sua vida. Visitamos duas Igrejas e fomos procurar um sítio para comer as nossas sandes. Decidimos ir em direcção ao rio e conhecer essa zona. Tudo estava branco e as crianças andavam de trenó nos jardins enquanto outros andavam mesmo de bicicleta sobre a neve. Já noutro jardim maior assistimos ao cair da noite com uma paisagem bastante agradável e seguimos até um café para tomar algo. Escolhemos desta vez um dos cafés mais requintados da cidade para bebermos cada um uma cerveja de meio litro da Baviera. Ficamos por lá cerca de duas horas e seguimos para a estação pois íamos apanhar um comboio nocturno para Viena às 23.44
Wien Após termos feito mais uma viagem nocturna, agora com um companheiro brasileiro, em que finalmente consegui dormir um pouco melhor, chegamos às 6h da manhã a Viena, a cidade da cultura e das artes. Como ainda chegamos antes do raiar do sol, ficamos sentados na estação a tomar o nosso pequeno-almoço e a esperar que fossem horas decentes para irmos para a cidade. Por fim lá saímos e dirigimo-nos ao albergue. Era uma casa antiga, transformada em albergue onde em cada quarto havia uma imensidão de camas, uma sala de estar, uma cozinha e uma casa de banho. Quem estava à frente daquilo era uma senhora de 30 e poucos anos que aparentava um ar um pouco desconfiado. Após termos falado sobre as condições e de termos pago, pousamos as coisas e fomos visitar a cidade. Percorremos algumas ruas até chegar ao edifício Secession, um exemplo conhecido da arte nova naquela cidade. Caminhando por ali fomos encontrando algumas das estações de metro originais de Otto Wagner e olhando para o lado, um grande edifício de habitação chamado Wohnhaus, do mesmo arquitecto, com aspectos decorativos bastante interessantes. Tínhamos desenhado um pequeno itinerário pelas obras de Loos e então seguimos pela Opernstrasse, passando pelo edifício da Ópera, até chegarmos a uma zona de grandes edifícios imperiais e onde se encontrava o edifício do banco de Adolf Loos, de 1910, bastante interessante a nível formal. De lá, fomos em direcção à Catedral, passando pelas ruas pedonais envolventes repletas de anúncios de lojas. Entramos na Catedral de estilo Gótico e quando saímos fomos abordados por um homem que nos falava em espanhol e com sotaque italiano, querendo-nos vender bilhetes para um concerto de música clássica (claro está!). Toda esta zona estava cheia de pessoas a fazer o mesmo género de trabalho. Então, após termos insistido que não queríamos os bilhetes e dele ter insistido que nos fazia cada vez mais barato, acabamos por ficar com dois bilhetes grátis e um pelo preço de 38€ (nada mau!). Como já tínhamos então um plano para a noite, continuamos a andar para encontrar o American Bar do Loos. Era apenas um pequeno tipicamente loosiano, bastante pesado a nível de texturas. De seguida fomos comer as nossas sandes e decidimos dar umas voltas pelo centro e ir até ao canal do Danúbio. Por esta altura já estávamos completamente exaustos e fomos apenas ao supermercado comprar alguma comida para o jantar e seguimos para o albergue para descansar um pouco antes de ir ao concerto. Chegados lá, conhecemos algumas pessoas que passavam por lá, entre os quais um alemão que estava a viver lá temporariamente enquanto trabalhava como bibliotecário. Estivemos um tempo a descansar e a dormitar e após tomar um banho e comer mais umas sandes, partimos para o concerto de música clássica de compositores vienenses. Fomos a pé através do “ring” e estávamos lá às 19h, num edifício neo-gótico do início do século XIX. As pessoas começaram a chegar e fomo-nos encaminhando para a sala de concerto, bastante mais pequena do que parecia na foto. De repente surge um grupo de quatro espanhóis que mesmo antes de se sentarem ao meu lado já estavam a embirrar com tudo o que viam. O concerto começou e por entre composições de Mozart, Strauss e outros, aquelas pessoas a meu lado não paravam quietas nem deixavam de falar uns com os outros. Mas mesmo assim, no final valeu a pena ter ido ao concerto e voltamos de novo para o albergue desta vez para dormir…

por João Pereira de Sousa





Olá João,
Que grande artigo… grande no conteúdo e na sua extensão.
Tive a oportunidade de passar por alguns dos locais que referiste no meu primeiro ano… excelente recordação das peripécias!
Aproveito para deixar uma sugestão:
Confesso que enquanto leitor assíduo do blog, se torna um pouco monótono ler tudo de uma vez… talvez fosse mais interessante subdividires em artigos mais pequenos integrando mais elementos gráficos.
Abraço,
Joao Morgado