Archive for May, 2008

a cor do verde

As questões energéticas e as políticas de sustentabilidade estão, hoje em dia, claramente em voga. As preocupações que há décadas têm vindo a ser discutidas pela comunidade científica e que nos tentam transmitir, mais ou menos, uma visão realista de um futuro próximo, começam finalmente a ser ouvidas e valorizadas. Mas, apesar desta aparente consciencialização por parte dos orgãos governamentais, há um claro nervosismo e mesmo um certo histerismo, no que toca a repensar os nossos hábitos de produção e de consumo energético. Com isto, assistimos hoje a uma autêntica corrida frenética pela medalha “verde”. Não que essa distinção tenha como objectivos primeiros uma melhor qualidade de vida, mas sim uma meta de sustentabilidade económica para os diversos membros da União Europeia (neste caso).
Já todos nós nos habituamos às diferentes formas de produção de energia e também à evolução constante neste campo. Desde as centrais eléctricas a carvão, a petróleo, a gás natural, às barragens hidroeléctricas, centrais nucleares até às mais recentes de energia solar, das marés e eólicas. Ora, uma vez que esta consciencialização pela conservação do planeta só há algumas décadas é que começou a ser encarada, desde a Revolução Industrial que a sociedade industrializada tem vindo a usar e a abusar dos métodos mais directos e fáceis de produção energética (e consequentemente os mais poluentes). Durante décadas foi este o pensamento (e ainda o é) do enquanto podemos, vamos usufruir ao máximo dos recursos. Não que o fim esteja próximo, mas pelo menos há que garantir que as gerações futuras possam (sobre)viver, assim como nos foi garantido a nós. Afinal todos fazemos parte de uma comunidade global, mesmo que ainda não tenhamos aprendido a agir como tal.
Assim, neste grito de desespero, perante esta constatação inevitável da realidade, tentam-se ao máximo mudar os paradigmas. Esta evolução contínua de quase 150 anos, onde praticamente ninguém nos ensinou a questionar a nossa existência ou mesmo a entender o funcionamento dos sistemas naturais, chega agora a uma ruptura. Finalmente entendemos (alguns de nós) que algo tem de ser feito e que há que mudar consideravelmente o nosso estilo de vida. Por mais que todos queiramos dar seguimento ao “American Way of Life”, esse conceito é já bastante velho e completamente desactualizado.
E quase que por milagre, começa-se a falar na utilização da energia dos ventos, dos raios ultravioleta e das ondas do mar. E, encarnados na figura do novo deus salvador, de um dia para o outro começamos a ver implantadas as primeiras turbinas eólicas, aqui e ali. A novidade é tal que até os passeios de domingo passam de uma tarde à beira-mar para uma peregrinação a estas novas estruturas. E o ciclo continua, cada vez mais turbinas eólicas são implantadas; há que lutar pelas estatísticas. E quando damos por isso e quando reflectimos um pouco, damos conta de que já rara é a paisagem onde não se aviste ao longe (pelo menos) uma série de turbinas eólicas que calmamente giram pela nossa salvação. Refiro isto porque para além das claras vantagens na utilização desta tecnologia há que ter em conta numerosos factores que constantemente são ignorados. Pois enquanto até agora as centrais eléctricas se centravam em locais específicos, temos cada vez mais uma enorme central eléctrica que se estende por todo o país, por toda a paisagem urbana ou rural, sem qualquer respeito ou consideração para com a natureza. Será este verde da cor que esperaríamos? Ou estaremos nós a colocar uma camada de verde por cima daquilo que não queremos que se veja? Estas preocupações justificam-se, pois esta busca pelo rótulo “verde”, onde tudo o que tenha a designação “reciclado”, “ecológico”, …, é imediatamente aceite como regra sem que para isso se façam os devidos estudos e se pesem as consequências. Porque milagres não existem. E desta forma se destrói a paisagem, alteram-se legislações e já poucos são os festos que permanecem intactos desta praga (ecológica). Estaremos nós na mesma a usar e a abusar dos métodos mais directos e fáceis de produção energética?
Afinal de contas o que é que queremos? Compensar os estragos que temos vindo a fazer na natureza ou continuar a garantir para nós um futuro mais ou menos sustentável escravizando (como sempre) a natureza? Há muito para pensar, para discutir, para estudar, antes de se começar a agir desta forma. Continuamos a ser os mesmos, a pensar da mesma forma, mas com cada vez mais tecnologia. O que mudou?

por João Pereira de Sousa