palavras da arquitectura | um olhar sobre a arquitectura contemporânea | João Pereira de Sousa palavrasdaarquitectura@gmail.com


Arquivo de June, 2008

do desenho intemporal

Há um texto que Adolf Loos escreveu em 1913 e que eu considero particularmente interessante na forma como expõe, pedagogicamente, um método de intervenção dos arquitectos na paisagem natural, mais precisamente na montanha (referindo-se à região dos Alpes). Quase em jeito de manifesto, o autor intitula o seu texto em “Regras para Construir nas Montanhas” (Reglen für den, der in der Bergen baut), que passo a citar:

‘Do not build in a picturesque manner. Leave such effects to the walls, the mountains and the sun. A person who dresses to be picturesque is not picturesque but looks like an oaf. The farm labourer does not dress to be picturesque. But he is.
Build as well as you can. No better. Do not outstretch yourself. And no worse. Do not deliberately express yourself on a more base level than the one with which you were brought up and educated. This also applies when you go into the mountains. Speak with the locals in your own language. The Viennese lawyer that speaks to the locals in a country bumpkin’s accent in beneath contempt.
Pay attention to the forms in which the locals build. For they are the fruits of wisdom gleaned from the past. But look for the origin of the form. If technological advances made it possible to improve the form, then always use this improvement. The flail is being replaced by the threshing machine.
Flatlands demand a vertical structural articulation; mountains, a horizontal one. The work of man must not attempt to compete with the hand of God. The Hapsburg watch tower disturbs the skyline of the Viennese Woods, but the Husarentempel harmonises will within it.
Do not think about the roof, think about rain and snow. That’s how the locals think, and so they build the flattest roofs they can using the know-how they have. In the mountains the snow must not slide when it wants to but when the locals want it to. The roof should be safely accessible for shovelling away the snow. We also have to create the flattest roof possible using the know-how and experience at our disposal.
Be true! Nature only tolerates truth. It copes well with iron truss bridges, but rejects Gothic arched bridges with turrets and defensive slits. Have no fear of being chastised as outdated. Changes in the old building techniques are only allowed when they mean an improvement on them, otherwise remain with the old. For even if it is hundreds of years old the truth has more connection with our innermost feelings than mendacity, which paces alongside us.’

(in 2G, n.14, 2000/II, “Rules for Building in the Mountains”, Adolf Loos)

A partir de uma leitura atenta deste texto, é possível fazer uma série de anotações que nos permite elaborar uma análise sobre um posicionamento teórico defendido por Loos, como “Regras” sobre as quais os arquitectos se deveriam basear de forma a poderem projectar coerentemente uma arquitectura na paisagem. Não deixa de ser curioso em como um arquitecto que baseou praticamente toda a sua obra ao meio urbano, abrindo caminhos para a definição das práticas modernas de arquitectura, reflicta desta forma sobre o carácter vernáculo e romântico que aproxima a arquitectura contemporânea (de cada época) às construções rurais (intemporais).
Desde logo Loos estabelece o seu posicionamento de que a arquitectura não deverá ser pitoresca. De que não nos devemos deixar levar pelo romantismo do ambiente, fazendo um exercício de colagem, de pastiche do antigo com o novo. Propõe então que devemos construir da melhor forma possível, sem excessos nem extravagâncias, de forma a que a paisagem seja o protagonista e não a mera obra de arquitectura. Loos refere ainda que antes de qualquer tipo de forma, devemos procurar uma linguagem arquitectónica que se adeque ao local onde se implanta, sem que para isso a obra perca o seu carácter contemporâneo. Defende, portanto,que devemos ser verdadeiros. Verdadeiros com aquilo que fazemos e para quem o fazemos, pois foi sempre assim que a gente local construiu. As formas advém das necessidades e a imagem da função. Tudo aquilo que nos parece tão característico e que nos tentamos a copiar é tão só a verdade da construção, a forma como se solucionam problemas comunicando através de uma linguagem directa e humilde.
Apesar deste texto ter perto de cem anos de existência, é perfeitamente possível extrapolá-lo para o nosso tempo e, mesmo que não defendamos na totalidade estas ideias, serve-nos de chamada de atenção ou mesmo de referência para a nossa prática actual. É este tipo de método de trabalho que também entendo que deveria ser praticado pelos arquitectos contemporâneos. Muito antes de se começar a desenhar deveremos saber sobre que papel estamos a riscar. Quais as suas características, a sua história e os seus valores. Em Portugal houve uma geração que não abdicou destes princípios. Onde na construção da sua arquitectura os valores do lugar foram constrangimentos obrigatórios para o desenho e definição de uma linguagem arquitectónica. Algo que se tem vindo a perder com os anos, com interesses (ou falta de interesse) e que certamente merece uma nova aposta e uma nova consciencialização. No entanto, mesmo hoje será possível encontrar um número reduzido de arquitectos em Portugal, cujas preocupações não são tão dogmáticas como refere Loos, mas que no seu entendimento do lugar, desenham obras de grande riqueza e que certamente se tornarão numa referência, posteriormente.
Não defendendo um tipo único de abordagem, torna-se necessária a formulação de um pensamento teórico que nos permita, numa multiplicidade de relações, estabelecer um posicionamento claro perante um problema, de forma a gerar soluções que muito antes de uma forma ou função serão certamente Arquitectura.

por João Pereira de Sousa