
A cidade do Porto tem sido um recente alvo de uma série de batalhas urbanísticas entre o poder, o povo e os privados. E apesar dos alvos de algumas destas batalhas serem distintos, na sua génese o problema é o mesmo. Como (Re)transformar a cidade a partir do seu património construído? A resposta, aparentemente simples, torna-se complicada quando uma diversidade de interesses intervém para esse objectivo. O termo Reabilitar está na base de qualquer resposta a este problema, no entanto, aqui o problema reside no entendimento e nas ideias sobre a noção de Reabilitação.
É do senso comum que qualquer cidade necessita de se renovar constantemente, de forma a gerar novas dinâmicas da vida urbana, a captar novos frequentadores, residentes, trabalhadores, turistas, investidores, … Porque a cidade vive desta multiplicidade de intervenientes, nas suas fundações terá de haver um núcleo em constante mutação, de forma a acompanhar as ideias e as vontades da população urbana. É esse magma que se necessita estimular, abrindo caminhos a novas erupções que sucessivamente (Re)transformam o espaço urbano e as vivências do mesmo.
A própria noção de cidade é, na sua génese, contrária à ideia de corpo estático. A cidade é uma forma viva e os cidadãos são o seu sangue, a matéria-prima para o seu desenvolvimento. Sem pessoas não existem investimentos nem construções, sem pessoas simplesmente deixa de haver cidade. Isto porque antes de qualquer tipo de estrutura, a cidade funda-se a partir da necessidade humana de se estabelecer num local, de forma a poder armazenar bens e a estabelecer elos de comércio externo à sua comunidade.
E quando se fala em Reabilitação a que nos referimos? À Reabilitação de estruturas construídas? À Reabilitação de um estilo de vida? À Reabilitação cultural? À Reabilitação de infraestruturas urbanas? À Reabilitação das relações humanas? À Reabilitação económica? À Reabilitação de uma ideia de nostalgia?
A noção de Reabilitação é tão vasta e abrangente que provavelmente nenhum de nós saberá ao certo quando começa uma e acaba outra, sendo que, quando vulgarmente se fala em Reabilitação, referimo-nos à Reabilitação de uma estrutura construída existente na cidade, mas que sozinha não é nem faz cidade. Os edifícios, praças, ruas, largos e avenidas existem nas cidades, fazem parte delas, sustentam-nas nas suas mais variadas actividades, no entanto não podemos pensar que heroicamente são estas as estruturas que definem e identificam uma cidade. De igual forma, não deveremos pensar que o termo Reabilitar se aplica somente à matéria construída, ignorando todos os diversos agentes que compõem a cidade e que provavelmente necessitarão eles também de uma Reabilitação.
As vivências urbanas e o uso que as pessoas fazem da cidade e dos espaços urbanos é tão importante quanto a existência e qualidade desses mesmos espaços. São corpos inseparáveis e auto-dependentes. Desta forma, quando se intervém em qualquer estrutura da cidade, está-se a modificar todo um sistema de relações e inter-relações sociais, que se apoiam nos diversos palcos urbanos.
fotografias gentilmente cedidas por Roberta Venier
Ora, no caso concreto do Mercado do Bolhão, teremos de pensar que esta estrutura é muito mais do que uma construção histórica, é ela própria um palco de interacções sociais e de existência urbana. É aquilo a que se poderá apelidar de um pólo de interacção urbana. Durante a sua evolução, para além das paredes construídas, o Mercado tornou-se um agente social da vivência da cidade e com enorme interesse para a própria cidade. Desde sempre foi um pólo de reunião de cidadãos que recorriam a ele para satisfazer as suas necessidades diárias. Tornou-se uma paragem obrigatória, como qualquer mercado o seria, desde as horas de abertura em plena madrugada até ao seu fecho ao início da tarde. Toda a vida que se foi desenrolando em torno desta estrutura deu origem a uma florescência de novos tipos de comércio em ruas adjacentes, gerando finalmente uma enorme centralidade, vocacionada para o comércio.
Com a evolução dos tempos e estilos de vida e com o afastamento populacional para os subúrbios e zonas periféricas da cidade, esta foi-se assumindo cada vez mais como um centro de serviços terciários, muito mais que uma base para uma diversidade de actividades ligadas às necessidades e rotinas sociais. A cidade foi-se tornando cada vez mais num lugar de frequentação em vez de um lugar de permanência. Por sua vez, as periferias passaram a ser os locais onde o cidadão pode facilmente satisfazer as suas necessidades diárias, baseados neste sistema de subúrbio e de centro. Ao retirarmos residentes da cidade, começamos aos poucos a condená-la à sua própria extinção enquanto estrutura social. A cidade deixa de ser uma necessidade e passa a ser um parque de diversões, uma atracção turística. A sua estrutura deixa de ser funcional e passa a estar envolta num manto de nostalgia que capta certamente outras populações em busca das riquezas de um passado que a própria cidade não soube conservar enquanto tal.
A partir daqui tudo é possível. Uma vez que a cidade não nos pertence e que esta se parece cada vez mais distante em termos temporais e espaciais, começamos agora a questionar se realmente interessará preservar aquilo que ainda resiste. Ou se de uma forma ou de outra (Reabilitando ou construindo de novo) deveremos substituir as velhas construções por novas estruturas contemporâneas, adaptadas às necessidades actuais, em função da própria realidade actual. Ora, o Mercado do Bolhão enquanto reflexo de uma vida passada, está claramente em decadência. A culpa não será certamente da estrutura física nem das pessoas que ao longo dos tempos lhe deram uso. Tal facto está a acontecer porque nós próprios nos transformamos e transformamos os usos da cidade. Porque irá um comum habitante da periferia comprar alimentos a um mercado central quando terá certamente uma cadeia de supermercados ou mesmo uma mercearia a cinco minutos de sua casa? Não faz sentido. E deixa de fazer sentido quando a grande maioria da população que usufrui da cidade é de fora ou habita em periferias. No entanto, tal não implica que o Mercado deixe de existir como até agora sempre existiu. Pois, por entre um ou outro turista que nostalgicamente o visita, encontramos diariamente cidadãos que usufruem do Mercado enquanto tal.
fotografias gentilmente cedidas pelo Movimento Cívico e Estudantil do Porto
Então como poderemos Reabilitar uma estrutura como o Mercado do Bolhão, que cada vez mais se encontra em decadência não só em termos estruturais mas também em termos de uso? Não será certamente tomando uma posição extrema de não só demolir a sua estrutura física como também o seu programa específico. Passará sim por formular uma ideia de um equipamento social baseado na estrutura programática de mercado, mas dotando-o de sub-programas (necessidades) que possam tornar sustentável uma vida e uma interacção social entre o equipamento, a cidade e a população. Passará certamente por abri-lo ainda mais à cidade, ao invés de o encerrar num esquema de centro comercial, igual a tantos outros espalhados pela cidade e efémero como o próprio conceito de centro comercial o é. Passará sobretudo pela criação de uma identidade forte e única, pela criação de um pólo catalisador dos mais diversos públicos, tornando-o polivalente nas suas mais diversas actividades, mas centralizador enquanto equipamento social. Tratar-se-á sobretudo de re-inventar o conceito de Mercado urbano, aliando-o a outras funções sociais que permitam uma regeneração das suas actividades, reabilitando a sua identidade enquanto agente social. Passará essencialmente pela criação de laços dinâmicos de relação com a cidade.
fotografias gentilmente cedidas por Roberta Venier
E ainda assim continuamos a fazer os mesmos erros… Haverá ainda esperança?
João Pereira de Sousa
Referência: Manifesto Bolhão






Parabéns pelo blog.
De uma sensibilidade e inteligência crítica bastante interessantes, e que é cada vez mais necessária na arquitectura.