
Temos de admitir que somos um povo do “desenrasca”. Quando nos surge um problema somos os melhores a resolvê-lo no instante, mas no entanto, sem pensar a longo prazo. Vemos esta atitude aliada a praticamente tudo o que fazemos e como não podia deixar de ser, os resultados vêem-se, à distância! Somos um país com um território repleto de particularidades: de um lado o mar, do outro as florestas; a norte as montanhas e a sul as planícies. Quase que podemos dizer que temos de tudo. Ora, com tanta diversidade geográfica presente dentro de fronteiras, modelos não nos faltam de como gerir o território e planear o seu desenvolvimento sustentável.
Antes de mais interessa aqui pensar sucintamente na forma como a cultura portuguesa se expandiu por esse mundo fora desde há 500 anos atrás. Há um certa humildade na forma como colonizamos (irónico?) os diversos territórios por onde passámos. Isso revela-se no relacionamento típico dos colonizadores para com os colonos e ainda mais na forma como se estabeleceram cidades nas diversas colónias. Ao contrário dos outros colonizadores europeus, os portugueses edificaram as suas cidades numa profunda coerência entre a geografia local e a cultura nacional. Quer isto dizer que o modo como se planeavam as cidades tinha mais a ver com os modelos de cidade em território português do que com os modelos de cidade colonial projectados por alguém que nem sequer sabia onde se iria localizar a futura urbe. Esta atitude de entender determinado território e de projectar para as especificidades do mesmo está fortemente ligada à forma de pensar as cidades no nosso país. Veja-se desde logo a imensa diversidade de modelos ancestrais que existem de norte a sul. Desde as cidades pesqueiras, às cidades fabris, às cidades aristocráticas, …, existiu desde sempre uma relação intima entre a geografia, a função e o tempo de cada cidade. De facto, o nosso savoir-faire não surge do acaso. Aprendemos com a presença celta, desenvolvemo-nos com a ocupação romana e evoluímos através das invasões visigóticas e árabes. Podemos concluir que de facto somos um país rico em história e com uma sabedoria diversificada.
© Google Earth, Braga: a confluência entre o rural, o urbano e o industrial
Então o que se passou para chegarmos ao estado actual?
Há que ver que a história não se ficou pelo que atrás foi mencionado. Portugal foi fundado em 1143 e desde então fomos evoluindo através dos nossos feitos e legados até ao século XXI. Já em finais do século XIX, o país enfrentava uma sucessão de desgostos à medida que íamos perdendo as antigas colónias e se começavam a enfrentar novas dificuldades económicas. Com o regime do Estado Novo gera-se uma nova situação. A partir dos novos valores defendidos, gerou-se um enorme centralismo no país que se reflectiu no desenvolvimento das diversas cidades portuguesas. Lisboa passou a estar claramente na proa do barco enquanto o resto de Portugal ficou esquecido bem ao fundo da ré. Agravando o facto de se estar a incutir ao país uma ideia una do nacionalismo. Ora, deste modo, tudo o que estava dentro de fronteiras teria de ser igual de norte a sul e de este a oeste. Ignorou-se a extrema diversidade do nosso país e sucessivamente construiriam-se obras que na sua coerência linguística não se integravam geograficamente em lado nenhum a não ser apenas na ideia errada de que esses modelos eram validos para todo o país. A certa altura as cidades começaram a ser cada vez mais semelhantes. Encontramos os mesmos elementos que as caracterizam de norte a sul, numa tentativa de lhes dar uma unidade formal. E enquanto em Lisboa se assistiu ao rasgar de enormes avenidas e à edificação das grandes obras do estado, Portugal é quase deixado ao abandono perante tanta dedicação à capital.
Com a revolução de 1974 e com a descoberta de uma nova liberdade por parte do povo português, as próprias cidades começaram também a respirar uma nova liberdade formal. Uma vez que grande parte dos valores locais tinham sido já castrados ao longo do século, desenvolve-se uma ideia de que se pode fazer qualquer coisa e em qualquer sítio (agora tudo é possível). É preciso notar também que em termos globais, estávamos numa fase em que o modernismo já não se conseguia dissociar da ideia de que apenas servia para um sector da sociedade (mesmo que contrário aos seus próprios princípios).
© Google Earth, Vila Nova de Gaia: a desproporção da nova escala urbana e a confluência com a pequena escala
Numa época pós-moderna, que se estende até aos nossos dias, a evolução dos nossos centros urbanos e dos modelos de ocupação territorial em Portugal encontra-se em claro declínio. Durante décadas usamos e abusamos de todo o espaço e bom-senso disponível e o resultado é bem visível: poucos são os locais no nosso território que ainda mantém, de alguma forma, um carácter de preservação natural, cultural e histórica. A nossa demanda de evolução para acompanhar a Europa desenvolvida é tão sôfrega que apenas nos vai distanciando cada vez mais desse objectivo.
O Urbanismo é feito por interesses. Fazem-se planos democratas, baseados nos melhores modelos urbanos, no entanto, aqui quem manda é quem fala mais alto. Se é necessário mudar ou ignorar o plano para responder aos interesses de alguém em particular, isso faz-se na maior das liberdades e perante todos os olhares. E o resultado está à vista: se não se pode construir em determinada zona, então altera-se a sua designação para que seja agora legal a construção. Isto porque quem faz as leis também tem o poder para as modificar. E com tantos interesses, com tantas oportunidades, com tantas ocasiões, as nossas cidades são hoje profundamente difusas e desenquadradas territorialmente. As atenções focam-se continuamente nos seus centros históricos (quando ainda resistem), abrindo espaço para o circo nas periferias, onde tudo é possível fazer, sem ordenamento, sem previsões, sem planeamento. À medida que as cidades se distanciam dos seus centros mais antigos, os valores mudam e as preocupações (erradamente) também mudam ou apenas ficam esquecidas. A pouco e pouco uma enorme malha desordenada habita o território nacional, de Norte a Sul, de Este a Oeste e sem que percebamos, vivemos continuamente na urbanidade, seja ela difusa e desordenada ou centrada e mais ou menos planeada. O Urbanismo constrói-se assim, a partir das oportunidades e dos interesses maioritariamente privados, gerado em conflitos e vivendo de forma autista perante o território.
João Pereira de Sousa






Caro João,
Infelizmente, apenas hoje tomei conhecimento do site Palavras da Arquitectura. Digo infelizmente porque, dos 3 ou 4 textos que tive tempo de ler (até agora), todos eles me interessaram, tanto no conteúdo, como na forma de exposição – clara e simples.
Sou Arquitecto Paisagista, e, a par com a actividade no atelier que estou a montar, a Terramorfose, também tenho um blog onde publico algumas coisas. E talvez por isso reconheço tão inequivocamente o seu esforço.
Parabéns pelo trabalho!
o problema português deriva em grande parte de uma falta de disciplina crónica, que o território nacional parece exponenciar. advém de uma mentalidade que oscila entre a utopia e a descrença generalisada, não existindo um ponto intermédio que seria a realidade.
quanto à questão dos interesses, essa é uma questão que percorre qualquer país.
o ser humano tem como primordial o seu instinto de sobrevivência, donde advêm todos os interesses que corrompem o pensamento global de interesse colectivo.
também não concordo com a ideia de que tentamos “acompanhar a Europa”, como se a Europa fosse um organismo estranho e exterior.
Portugal em geral olha demasiado para si e de menos para os outros, e quando olha para os outros, a tal “Europa” ou o “estrangeiro” vê apenas ideias abstractas de ambientes que funcionam bem.
Espanha, França, Alemanha, Reino Unido, Itália, etc. são todos países que têm graves problemas de urbanismo, cada um dos países com questões diferentes, mas nenhum deles se pode gabar de não ter problemas idênticos aos de Portugal. Tanto nas cidades pequenas como nas grandes metrópoles.
Não podemos levar os nossos erros de uma forma tão catastrófica. E não quero com isto dizer que os devemos olhar de forma complacente.
Penso que o artigo faz um traçado histórico interessante, mas as críticas levantadas, embora concordando comelas, tenho que dizer que não se registam apenas no nosso país e muito menos são o reflexo de uma nossa tentativa de perseguir “o que se faz lá fora”.
e a melhor maneira de combater o autismo face ao nosso território é tentar fazer novas propostas, começando pelas pequenas, que possam gradualmente alterar o existente. Os arquitectos em geral têm grande responsabilidade pelo estado actual das cidades, somos também nós que aceitamos as regras do jogo e não rejeitamos fazer parte de grandes programas de “renovação urbana” para os quais contribuimos com edifícios icónicos, quer se trate de um museu, um auditório ou uma pequeno posto de venda de revistas…
(quero com isto dizer que hoje em dia é uma tarefa dificil a de encontrar um arquitecto que realmente se disponha a fazer cidade com um edifício ao invés de tentar fazer sempre uma nova cidade com cada edifício)
Tiago Trigo, obrigado pelo comentário/crítica ao artigo. Faz sempre bem ler alguma retórica àquilo que se pensa e se escreve. Devo dizer que concordo claramente com o que dizes, salientando que com este artigo não quis de forma alguma apelar que nós é que somos maus e os nossos vizinhos é que são bons. Basta irmos por esse mundo fora e vermos como nenhuma cidade escapa aos interesses, pressões ou fantasias de quem paga e de quem projecta. Apenas note-se que apesar de ser esse o caminho que tomamos, não será certamente assim que se criarão condições melhores para a evolução positiva das cidades no futuro. E exemplo disso é o ponto de ruptura em que se encontram as cidades (em geral) entre o “centro” ou a cidade mais consolidada e todas as periferias e novos centros que radialmente se acopulam e que em termos territoriais ocupam diversas vezes mais espaço que a cidade propriamente dita. E aí, como no nosso senso comum essas periferias já não são cidade, nem sequer pensamos nos problemas urbanos que as mesmas têm e que se multiplicam nas suas relações com outras periferias e centros urbanos.
Joao, Tiago e demais apóstolos,
me encanta o pragmatismo portugues. Do outro lado do atlântico temos no Brasil a mesma obcessão em perceber mais verde a grama do vizinho enquanto adiamos para sempre a discussão das nossas proprias raizes. Na america a diferença entre as cidades portuguesas e as espanholas é gritante e o que era um defeito em tempos passados, a ausência de ortogonalidade confundida com ausência de organização, é muito mais um valor nos tempos atuais. Estudemos pois Lisboa, Porto, Salvador, Rio de Janeiro, Luanda, Macau e Goa. Acredito que estas cidades tem tantos problemas quanto respostas para os mesmos.
abraços,
Fernando