palavras da arquitectura | um olhar sobre a arquitectura contemporânea | João Pereira de Sousa palavrasdaarquitectura@gmail.com




A Cidade Invisível

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Estávamos perto do verão e a cidade encontrava-se vazia. Apesar das temperaturas estarem amenas e de uma leve brisa soprar, as ruas escasseavam de vida. Raras eram as pessoas que deambulavam pelas praças e ruas que povoavam o centro da cidade. Os automóveis, esses circulavam, as lojas apesar de vazias estavam abertas e os cafés, fóruns de um passado recente, teimavam em dispor cadeiras e mesas nos passeios apesar destas permanecerem infinitamente vagas. Mas engane-se quem pensa que as ruas povoadas de automóveis estacionados e em compasso de espera são sinónimo de vida urbana. Estes não são mais do que cápsulas que rompem pelo tecido urbano ligando pontos distantes dentro e fora da cidade. Não fazem uso dela e no entanto estão lá, ocupam-na friamente e preenchem os vazios deixados pelas pessoas.

Mas porque razão não estavam as pessoas a caminhar pelas ruas? Porque permaneciam as lojas inutilmente abertas? Porque é que os bancos e as sombras das árvores que povoam as praças continuavam de vago? E porque é que os cafés teimavam em chamar os transeuntes que por lá não passam? Era estranho… ou talvez não. Teria que ver com algum acontecimento? Algum evento que teria transportado as pessoas para algum outro local? Ou será que a cidade havia deixado de ter significado enquanto estrutura socio-cultural de uma comunidade que a usa e que dela depende? Mas o que era feito das comunidades? Onde estavam elas? A cidade estava deserta… E no entanto vislumbravam-se grupos de pessoas que percorriam as ruas e praças, parando aqui e ali, olhando de um lado para o outro e fotografando cada detalhe do que se lhes aparecia à frente. Afinal as pessoas estavam lá, as comunidades existiam, as ruas eram atravessadas e nas praças juntavam-se grupos de pessoas com interesses comuns. Mas que estranhos seres eram estes que insistiam em contrariar a monotonia em que a cidade se tinha transformado? Que faziam eles a caminhar pelas ruas e a entrar nos cafés? Não saberão que já ninguém caminha pelas ruas ou se senta nas praças? Não pareciam habitar a cidade, mas já há muito que se tornaram parte do quotidiano desta. Insistiam em percorrer as ruas à procura de uma realidade passada, de uma vida que se esgotou por entre as fachadas de granito que se elevam das calçadas. Suportavam-se de livros ilustrados com indicações do que deviam ver, por onde deviam passar e do que deviam comer e cheirar. Mas tudo continuava a estar desprovido de conteúdo, as estruturas da cidade continuavam a viver, mas já não havia quem vivesse nelas. A cidade tinha-se tornado num parque de atracções. Vinham turistas de toda a parte para experimentar aquilo que lhes disseram que a cidade foi. Mas as ruas e as praças estavam vazias, pontuadas com postos de venda de postais que ilustravam as mesmas praças povoadas e úteis. Mas a cidade estava esquecida…

Por isso criavam-se, cada vez mais, novas estruturas para albergar todos os visitantes que desejavam dirigir-se às mesmas praças e ruas que conheceram através de um álbum de recordações vendido numa qualquer parte do mundo. Uma vez que a cidade tinha deixado de ter habitantes, transformavam-se as suas estruturas e convertiam-se os seus edifícios públicos em hotéis, centros comerciais, postos de turismo e lojas de souvenirs. Mas mantinham-se as fachadas e tudo aquilo a que os visitantes pagaram para ver. Não os podíamos desapontar, tudo fazia parte do pacote que escolheram. E os mercados? E as lojas? Também eles não escapavam. Tudo ia sendo reciclado. Do velho tornava-se a novo e do vazio, conseguia-se esvaziar ainda mais. Afinal as únicas pessoas que ainda percorriam as ruas eram esses turistas, que seguiam rotas e percursos estabelecidos, ao longo de fachadas que se assemelhavam a molduras esquecidas algures numa galeria, também ela algures esquecida. E sem que se notasse, tudo ia sendo transfigurado. E a memória, essa já há muito que havia fugido da cidade. Foi provavelmente a primeira, antes das pessoas. Pois só quando a memória foi esquecida é que a cidade se tornou neste deserto de granito, onde já nem sequer aqueles que aí haviam nascido conseguiram resistir à tentação de dali fugir.

Terá sido apenas um sonho?

João Pereira de Sousa

3 Responses to “A Cidade Invisível”


  1. 1 andreramos

    já é assim João,
    olha, aqui tão perto o “novo” centro histórico de Gaia é assim
    o teu falso sonho está muito bem estruturado ( escrito), mas está muito ensonado, entendo que queiras realçar com essa forma de escrita que podia mesmo ser um sonho, foi intensional?

  2. 2 João Sousa

    Olá André

    Obrigado pelo comentário! Não querendo retirar a mística ao que foi escrito, é claro que o “sonho” se trata de uma análise da realidade urbana algures num Portugal perto de nós. Talvez o distanciamento obtido através de uma presença não colaborante, neste caso o sonho, seja uma forma de interiorizar aquilo que nós todos os dias vemos, mas em que raramente pensamos.

  3. 3 Instituto de Tecnologia Comportamental

    O INTEC, pelo presente gostaria de divulgar as 2.ª e 3.ª Edições do Curso de Auditores de “Espaços Públicos de Qualidade”, que decorrerão já em Outubro e Novembro próximos, em Lisboa e no Porto, respectivamente.

    Dada a afinidade deste curso com a arquitectura, deixamo-vos esta informação e convidamos a visitarem o nosso site em http://www.intec.org.pt/, na secção “Produtos”, subsecção “High Quality Public Spaces”. Obrigada!

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