palavras da arquitectura / um olhar sobre a arquitectura contemporãnea / João Pereira de Sousa palavrasdaarquitectura@gmail.com


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a casa que não se vê

“A origem da arquitectura não está na caverna ou na mítica ‘Casa de Adão no Paraíso’: antes de transformar o esteio em coluna, a cobertura em coluna, a cobertura em tímpano, antes de pôr pedra sobre pedra, o homem pôs a pedra sobre a terra para reconhecer o lugar no universo desconhecido, para medi-lo e modificá-lo.” (p. 101)

A Arquitectura não pode existir sem programa e sem propósito. Tanto é que sem condicionalismos, uma obra de arquitectura torna-se obsoleta à partida, não passando de uma mera construção. Será, pois, através da mão do arquitecto que uma ideia se poderá materializar e que de um simples pavilhão se poderá definir um espaço de habitar. É aquilo a que se pode designar de Poética na Arquitectura: a capacidade de transformar algo, atribuindo-lhe um campo de significados que transcendem a matéria física de uma obra. A Arquitectura surge assim, do programa e da ideia, mas vive através da sua materialidade e poética.
A habitação (ou o habitar) é a razão da Arquitectura. Uma obra de Arquitectura só faz sentido quando é pensada nos termos da sua habitabilidade. Dessa forma, por mais pequeno e (aparentemente) simples que seja, o tema da casa unifamiliar é uma questão central da prática e estudo da Arquitectura

Refiro-me a este tema uma vez que me interessa estabelecer uma reflexão sobre as casas em Caminha projectadas pelo arquitecto Sérgio Fernandez, a partir do livro Só nós e Santa Tecla”, recentemente editado pela Dafne Editora. Assim, desde logo surge uma questão que interessa abordar: Poderá a Arquitectura ser entendida através de palavras? Após me ter deleitado com a leitura deste livro, posso afirmar com segurança de que sim. A poesia na Arquitectura poderá expressar-se através de um esquisso, de uma representação ortogonal ou mesmo, ao longo das 173 páginas de um livro repleto de reflexões e de memórias subjectivas, sobre uma obra que marcou uma geração de arquitectos e que em boa altura se volta a destacar. Esta subjectividade nas análises e nos discursos dos diferentes intervenientes deste livro é, para mim, essencial no entendimento dos significados desta Arquitectura. É na subjectividade e na experiência de cada autor que o leitor vai desenvolvendo uma imagem mental destas casas e que, por breves instantes, imagina mesmo que já a habitou, mesmo que nunca lá tenha estado.
Digo eu, que esta é uma casa que não se vê, mas que se sente. Na verdade, a casa não foi pensada para ser vista, mas antes, surge enquanto espectador na paisagem, como uma plataforma que cria um diálogo com a envolvente, acabando por desaparecer. É neste “esquecimento” da casa que se referenciam as suas virtudes. Ela é um objecto quase metafísico, que ao mesmo tempo “constrói a textura da paisagem” (p. 29) e faz com que nos sintamos moradores desse mesmo entorno. E, desta forma, perante o sufoco que seria apreender a vista do horizonte de forma declaradamente moderna (em “cinemascópio”), a presença desta “cenografia” é devidamente “filtrada e sucessiva, convidando o espectador a procurá-la, a sair e puxar o estar para o logradouro” (p. 49). Aqui as janelas enquadram o horizonte tal como a secção do corredor das alcovas enquadra justamente aquele falso Miró.

fotografia de Luís Ferreira Alves

“Se pensarmos bem, isto é, se pensarmos várias vezes testando e experimentando o pensamento, voltamos sempre à origem: uma-casa-no-cimo-de-um-monte-voltada-para-um-mar-onde-o-Sol-imerge. O imperativo da paisagem que origina a casa, que a domina, que fantocheia o humilde arquitecto penitente e submisso ao gesto aparentemente incontornável: o projecto assenta fundamentalmente na ideia de paisagem. Poderia ser de outro modo?” (p. 63)

A particularidade funcional destas casas é a forma como se promove uma vida comunitária, justificada pelo contexto socio-cultural em que se vivia na altura. De facto, quase podemos dizer que estas casas são um prenúncio de uma revolução ideológica que ainda estava por acontecer. E neste sentido, as casas de Caminha são de facto uma “renovação” do pensar e do viver modernos no Portugal da ditadura. É este “realismo” da obra que podemos encontrar na forma como se tratam os contextos externos e se organiza programaticamente o seu núcleo. Do aparente tradicionalismo (ou das lições da Escola do Porto) exterior, apercebe-se um interior de contornos modernos. Há uma continuidade dos espaços internos que torna toda a casa percorrível e habitável. É essa mesma continuidade que se encontra na relação interior/exterior, onde o logradouro não é mais do que uma extensão dos espaços sociais da casa, desta vez descobertos. A própria forma como se desenham os espaços de dormir, as alcovas (ou “armários de dormir”), é um reflexo deste pensamento projectual, onde o arquitecto estabelece uma relação de continuidade dos espaços, de forma a promover as relações inter-pessoais. Do quarto apenas lhe resta a função de dormir e na casa o interesse está nas relações sociais e da paisagem. Tudo está reduzido ao mínimo. É o essencial.

Deste modo, porque a Arquitectura não se esgota na sua forma e função, este livro (que tenho vindo a citar) é uma confirmação de como os espaços que se projectam são muito mais do que simples linhas no papel ou do que as paredes que os encerram. De facto a Arquitectura só faz sentido enquanto é vivida e experienciada. O resultado encontra-se assim registado neste livro, através das mais diversas abordagens e experiências. São essas impressões, mais ou menos nítidas, com maior ou menor subjectividade, que nos permitem realmente entender o propósito de uma arquitectura que, desta forma, dificilmente se explica por poucas palavras.

fotografia de Inês d’Orey

“Da acção do arquitecto espera-se, pois, o desenho de um marco habitável – não existe arquitectura sem projecto, não existe projecto sem memória, não existe memória sem ideias, não existe arquitectura sem habitante.” (p. 124)

Todas as citações deste artigo foram retiradas do livro “Só nós e Santa Tecla”

João Pereira de Sousa

dois anos

O ‘palavras da arquitectura’ faz hoje dois anos de existência. Aquilo que começou por ser um simples espaço de discussão e publicação de reflexões e análises críticas sobre o estado da arquitectura e cultura contemporâneas (em formato blog), com o tempo foi evoluindo para algo mais concreto; tendo em conta não só as temáticas de discussão actuais, mas também a minha própria evolução enquanto actor social.

Durante este ano, mesmo não tendo existido uma periodicidade constante, todos os artigos escritos e publicados foram sendo feitos com bastantes esforços pessoais por entre pequenos espaços de tempo livre, entre as diferentes actividades que me vão ocupando constantemente. Espero, neste novo ano, poder dedicar-me um pouco mais a este espaço de discussão, para que os próprios leitores se sintam motivados não só a tecer comentários, como também a aderir a novas discussões sobre as matérias abordadas.

Finalmente, o blog encontra-se neste momento entre uma ligeira mudança de visual, sendo que se espera que prontamente abra as suas portas com uma cara lavada e com novos conteúdos!

João Pereira de Sousa

Objectivo: Bolhão

A cidade do Porto tem sido um recente alvo de uma série de batalhas urbanísticas entre o poder, o povo e os privados. E apesar dos alvos de algumas destas batalhas serem distintos, na sua génese o problema é o mesmo. Como (Re)transformar a cidade a partir do seu património construído? A resposta, aparentemente simples, torna-se complicada quando uma diversidade de interesses intervém para esse objectivo. O termo Reabilitar está na base de qualquer resposta a este problema, no entanto, aqui o problema reside no entendimento e nas ideias sobre a noção de Reabilitação.

É do senso comum que qualquer cidade necessita de se renovar constantemente, de forma a gerar novas dinâmicas da vida urbana, a captar novos frequentadores, residentes, trabalhadores, turistas, investidores, … Porque a cidade vive desta multiplicidade de intervenientes, nas suas fundações terá de haver um núcleo em constante mutação, de forma a acompanhar as ideias e as vontades da população urbana. É esse magma que se necessita estimular, abrindo caminhos a novas erupções que sucessivamente (Re)transformam o espaço urbano e as vivências do mesmo.

A própria noção de cidade é, na sua génese, contrária à ideia de corpo estático. A cidade é uma forma viva e os cidadãos são o seu sangue, a matéria-prima para o seu desenvolvimento. Sem pessoas não existem investimentos nem construções, sem pessoas simplesmente deixa de haver cidade. Isto porque antes de qualquer tipo de estrutura, a cidade funda-se a partir da necessidade humana de se estabelecer num local, de forma a poder armazenar bens e a estabelecer elos de comércio externo à sua comunidade.

E quando se fala em Reabilitação a que nos referimos? À Reabilitação de estruturas construídas? À Reabilitação de um estilo de vida? À Reabilitação cultural? À Reabilitação de infraestruturas urbanas? À Reabilitação das relações humanas? À Reabilitação económica? À Reabilitação de uma ideia de nostalgia?
A noção de Reabilitação é tão vasta e abrangente que provavelmente nenhum de nós saberá ao certo quando começa uma e acaba outra, sendo que, quando vulgarmente se fala em Reabilitação, referimo-nos à Reabilitação de uma estrutura construída existente na cidade, mas que sozinha não é nem faz cidade. Os edifícios, praças, ruas, largos e avenidas existem nas cidades, fazem parte delas, sustentam-nas nas suas mais variadas actividades, no entanto não podemos pensar que heroicamente são estas as estruturas que definem e identificam uma cidade. De igual forma, não deveremos pensar que o termo Reabilitar se aplica somente à matéria construída, ignorando todos os diversos agentes que compõem a cidade e que provavelmente necessitarão eles também de uma Reabilitação.
As vivências urbanas e o uso que as pessoas fazem da cidade e dos espaços urbanos é tão importante quanto a existência e qualidade desses mesmos espaços. São corpos inseparáveis e auto-dependentes. Desta forma, quando se intervém em qualquer estrutura da cidade, está-se a modificar todo um sistema de relações e inter-relações sociais, que se apoiam nos diversos palcos urbanos.

fotografias gentilmente cedidas por Roberta Venier

Ora, no caso concreto do Mercado do Bolhão, teremos de pensar que esta estrutura é muito mais do que uma construção histórica, é ela própria um palco de interacções sociais e de existência urbana. É aquilo a que se poderá apelidar de um pólo de interacção urbana. Durante a sua evolução, para além das paredes construídas, o Mercado tornou-se um agente social da vivência da cidade e com enorme interesse para a própria cidade. Desde sempre foi um pólo de reunião de cidadãos que recorriam a ele para satisfazer as suas necessidades diárias. Tornou-se uma paragem obrigatória, como qualquer mercado o seria, desde as horas de abertura em plena madrugada até ao seu fecho ao início da tarde. Toda a vida que se foi desenrolando em torno desta estrutura deu origem a uma florescência de novos tipos de comércio em ruas adjacentes, gerando finalmente uma enorme centralidade, vocacionada para o comércio.
Com a evolução dos tempos e estilos de vida e com o afastamento populacional para os subúrbios e zonas periféricas da cidade, esta foi-se assumindo cada vez mais como um centro de serviços terciários, muito mais que uma base para uma diversidade de actividades ligadas às necessidades e rotinas sociais. A cidade foi-se tornando cada vez mais num lugar de frequentação em vez de um lugar de permanência. Por sua vez, as periferias passaram a ser os locais onde o cidadão pode facilmente satisfazer as suas necessidades diárias, baseados neste sistema de subúrbio e de centro. Ao retirarmos residentes da cidade, começamos aos poucos a condená-la à sua própria extinção enquanto estrutura social. A cidade deixa de ser uma necessidade e passa a ser um parque de diversões, uma atracção turística. A sua estrutura deixa de ser funcional e passa a estar envolta num manto de nostalgia que capta certamente outras populações em busca das riquezas de um passado que a própria cidade não soube conservar enquanto tal.

A partir daqui tudo é possível. Uma vez que a cidade não nos pertence e que esta se parece cada vez mais distante em termos temporais e espaciais, começamos agora a questionar se realmente interessará preservar aquilo que ainda resiste. Ou se de uma forma ou de outra (Reabilitando ou construindo de novo) deveremos substituir as velhas construções por novas estruturas contemporâneas, adaptadas às necessidades actuais, em função da própria realidade actual. Ora, o Mercado do Bolhão enquanto reflexo de uma vida passada, está claramente em decadência. A culpa não será certamente da estrutura física nem das pessoas que ao longo dos tempos lhe deram uso. Tal facto está a acontecer porque nós próprios nos transformamos e transformamos os usos da cidade. Porque irá um comum habitante da periferia comprar alimentos a um mercado central quando terá certamente uma cadeia de supermercados ou mesmo uma mercearia a cinco minutos de sua casa? Não faz sentido. E deixa de fazer sentido quando a grande maioria da população que usufrui da cidade é de fora ou habita em periferias. No entanto, tal não implica que o Mercado deixe de existir como até agora sempre existiu. Pois, por entre um ou outro turista que nostalgicamente o visita, encontramos diariamente cidadãos que usufruem do Mercado enquanto tal.

fotografias gentilmente cedidas pelo Movimento Cívico e Estudantil do Porto

Então como poderemos Reabilitar uma estrutura como o Mercado do Bolhão, que cada vez mais se encontra em decadência não só em termos estruturais mas também em termos de uso? Não será certamente tomando uma posição extrema de não só demolir a sua estrutura física como também o seu programa específico. Passará sim por formular uma ideia de um equipamento social baseado na estrutura programática de mercado, mas dotando-o de sub-programas (necessidades) que possam tornar sustentável uma vida e uma interacção social entre o equipamento, a cidade e a população. Passará certamente por abri-lo ainda mais à cidade, ao invés de o encerrar num esquema de centro comercial, igual a tantos outros espalhados pela cidade e efémero como o próprio conceito de centro comercial o é. Passará sobretudo pela criação de uma identidade forte e única, pela criação de um pólo catalisador dos mais diversos públicos, tornando-o polivalente nas suas mais diversas actividades, mas centralizador enquanto equipamento social. Tratar-se-á sobretudo de re-inventar o conceito de Mercado urbano, aliando-o a outras funções sociais que permitam uma regeneração das suas actividades, reabilitando a sua identidade enquanto agente social. Passará essencialmente pela criação de laços dinâmicos de relação com a cidade.

fotografias gentilmente cedidas por Roberta Venier

E ainda assim continuamos a fazer os mesmos erros… Haverá ainda esperança?

João Pereira de Sousa

Referência: Manifesto Bolhão

do desenho intemporal

Há um texto que Adolf Loos escreveu em 1913 e que eu considero particularmente interessante na forma como expõe, pedagogicamente, um método de intervenção dos arquitectos na paisagem natural, mais precisamente na montanha (referindo-se à região dos Alpes). Quase em jeito de manifesto, o autor intitula o seu texto em “Regras para Construir nas Montanhas” (Reglen für den, der in der Bergen baut), que passo a citar:

‘Do not build in a picturesque manner. Leave such effects to the walls, the mountains and the sun. A person who dresses to be picturesque is not picturesque but looks like an oaf. The farm labourer does not dress to be picturesque. But he is.
Build as well as you can. No better. Do not outstretch yourself. And no worse. Do not deliberately express yourself on a more base level than the one with which you were brought up and educated. This also applies when you go into the mountains. Speak with the locals in your own language. The Viennese lawyer that speaks to the locals in a country bumpkin’s accent in beneath contempt.
Pay attention to the forms in which the locals build. For they are the fruits of wisdom gleaned from the past. But look for the origin of the form. If technological advances made it possible to improve the form, then always use this improvement. The flail is being replaced by the threshing machine.
Flatlands demand a vertical structural articulation; mountains, a horizontal one. The work of man must not attempt to compete with the hand of God. The Hapsburg watch tower disturbs the skyline of the Viennese Woods, but the Husarentempel harmonises will within it.
Do not think about the roof, think about rain and snow. That’s how the locals think, and so they build the flattest roofs they can using the know-how they have. In the mountains the snow must not slide when it wants to but when the locals want it to. The roof should be safely accessible for shovelling away the snow. We also have to create the flattest roof possible using the know-how and experience at our disposal.
Be true! Nature only tolerates truth. It copes well with iron truss bridges, but rejects Gothic arched bridges with turrets and defensive slits. Have no fear of being chastised as outdated. Changes in the old building techniques are only allowed when they mean an improvement on them, otherwise remain with the old. For even if it is hundreds of years old the truth has more connection with our innermost feelings than mendacity, which paces alongside us.’

(in 2G, n.14, 2000/II, “Rules for Building in the Mountains”, Adolf Loos)

A partir de uma leitura atenta deste texto, é possível fazer uma série de anotações que nos permite elaborar uma análise sobre um posicionamento teórico defendido por Loos, como “Regras” sobre as quais os arquitectos se deveriam basear de forma a poderem projectar coerentemente uma arquitectura na paisagem. Não deixa de ser curioso em como um arquitecto que baseou praticamente toda a sua obra ao meio urbano, abrindo caminhos para a definição das práticas modernas de arquitectura, reflicta desta forma sobre o carácter vernáculo e romântico que aproxima a arquitectura contemporânea (de cada época) às construções rurais (intemporais).
Desde logo Loos estabelece o seu posicionamento de que a arquitectura não deverá ser pitoresca. De que não nos devemos deixar levar pelo romantismo do ambiente, fazendo um exercício de colagem, de pastiche do antigo com o novo. Propõe então que devemos construir da melhor forma possível, sem excessos nem extravagâncias, de forma a que a paisagem seja o protagonista e não a mera obra de arquitectura. Loos refere ainda que antes de qualquer tipo de forma, devemos procurar uma linguagem arquitectónica que se adeque ao local onde se implanta, sem que para isso a obra perca o seu carácter contemporâneo. Defende, portanto,que devemos ser verdadeiros. Verdadeiros com aquilo que fazemos e para quem o fazemos, pois foi sempre assim que a gente local construiu. As formas advém das necessidades e a imagem da função. Tudo aquilo que nos parece tão característico e que nos tentamos a copiar é tão só a verdade da construção, a forma como se solucionam problemas comunicando através de uma linguagem directa e humilde.
Apesar deste texto ter perto de cem anos de existência, é perfeitamente possível extrapolá-lo para o nosso tempo e, mesmo que não defendamos na totalidade estas ideias, serve-nos de chamada de atenção ou mesmo de referência para a nossa prática actual. É este tipo de método de trabalho que também entendo que deveria ser praticado pelos arquitectos contemporâneos. Muito antes de se começar a desenhar deveremos saber sobre que papel estamos a riscar. Quais as suas características, a sua história e os seus valores. Em Portugal houve uma geração que não abdicou destes princípios. Onde na construção da sua arquitectura os valores do lugar foram constrangimentos obrigatórios para o desenho e definição de uma linguagem arquitectónica. Algo que se tem vindo a perder com os anos, com interesses (ou falta de interesse) e que certamente merece uma nova aposta e uma nova consciencialização. No entanto, mesmo hoje será possível encontrar um número reduzido de arquitectos em Portugal, cujas preocupações não são tão dogmáticas como refere Loos, mas que no seu entendimento do lugar, desenham obras de grande riqueza e que certamente se tornarão numa referência, posteriormente.
Não defendendo um tipo único de abordagem, torna-se necessária a formulação de um pensamento teórico que nos permita, numa multiplicidade de relações, estabelecer um posicionamento claro perante um problema, de forma a gerar soluções que muito antes de uma forma ou função serão certamente Arquitectura.

por João Pereira de Sousa

a cor do verde

As questões energéticas e as políticas de sustentabilidade estão, hoje em dia, claramente em voga. As preocupações que há décadas têm vindo a ser discutidas pela comunidade científica e que nos tentam transmitir, mais ou menos, uma visão realista de um futuro próximo, começam finalmente a ser ouvidas e valorizadas. Mas, apesar desta aparente consciencialização por parte dos órgãos governamentais, há um claro nervosismo e mesmo um certo histerismo, no que toca a repensar os nossos hábitos de produção e de consumo energético. Com isto, assistimos hoje a uma autêntica corrida frenética pela medalha “verde”. Não que essa distinção tenha como objectivos primeiros uma melhor qualidade de vida, mas sim uma meta de sustentabilidade económica para os diversos membros da União Europeia (neste caso).
Já todos nós nos habituamos às diferentes formas de produção de energia e também à evolução constante neste campo. Desde as centrais eléctricas a carvão, a petróleo, a gás natural, às barragens hidroeléctricas, centrais nucleares até às mais recentes de energia solar, das marés e eólicas. Ora, uma vez que esta consciencialização pela conservação do planeta só há algumas décadas é que começou a ser encarada, desde a Revolução Industrial que a sociedade industrializada tem vindo a usar e a abusar dos métodos mais directos e fáceis de produção energética (e consequentemente os mais poluentes). Durante décadas foi este o pensamento (e ainda o é) do enquanto podemos, vamos usufruir ao máximo dos recursos. Não que o fim esteja próximo, mas pelo menos há que garantir que as gerações futuras possam (sobre)viver, assim como nos foi garantido a nós. Afinal todos fazemos parte de uma comunidade global, mesmo que ainda não tenhamos aprendido a agir como tal.
Assim, neste grito de desespero, perante esta constatação inevitável da realidade, tentam-se ao máximo mudar os paradigmas. Esta evolução contínua de quase 150 anos, onde praticamente ninguém nos ensinou a questionar a nossa existência ou mesmo a entender o funcionamento dos sistemas naturais, chega agora a uma ruptura. Finalmente entendemos (alguns de nós) que algo tem de ser feito e que há que mudar consideravelmente o nosso estilo de vida. Por mais que todos queiramos dar seguimento ao “American Way of Life”, esse conceito é já bastante velho e completamente desactualizado.
E quase que por milagre, começa-se a falar na utilização da energia dos ventos, dos raios ultravioleta e das ondas do mar. E, encarnados na figura do novo deus salvador, de um dia para o outro começamos a ver implantadas as primeiras turbinas eólicas, aqui e ali. A novidade é tal que até os passeios de domingo passam de uma tarde à beira-mar para uma peregrinação a estas novas estruturas. E o ciclo continua, cada vez mais turbinas eólicas são implantadas; há que lutar pelas estatísticas. E quando damos por isso e quando reflectimos um pouco, damos conta de que já rara é a paisagem onde não se aviste ao longe (pelo menos) uma série de turbinas eólicas que calmamente giram pela nossa salvação. Refiro isto porque para além das claras vantagens na utilização desta tecnologia há que ter em conta numerosos factores que constantemente são ignorados. Pois enquanto até agora as centrais eléctricas se centravam em locais específicos, temos cada vez mais uma enorme central eléctrica que se estende por todo o país, por toda a paisagem urbana ou rural, sem qualquer respeito ou consideração para com a natureza. Será este verde da cor que esperaríamos? Ou estaremos nós a colocar uma camada de verde por cima daquilo que não queremos que se veja? Estas preocupações justificam-se, pois esta busca pelo rótulo “verde”, onde tudo o que tenha a designação “reciclado”, “ecológico”, …, é imediatamente aceite como regra sem que para isso se façam os devidos estudos e se pesem as consequências. Porque milagres não existem. E desta forma se destrói a paisagem, alteram-se legislações e já poucos são os festos que permanecem intactos desta praga (ecológica). Estaremos nós na mesma a usar e a abusar dos métodos mais directos e fáceis de produção energética?
Afinal de contas o que é que queremos? Compensar os estragos que temos vindo a fazer na natureza ou continuar a garantir para nós um futuro mais ou menos sustentável escravizando (como sempre) a natureza? Há muito para pensar, para discutir, para estudar, antes de se começar a agir desta forma. Continuamos a ser os mesmos, a pensar da mesma forma, mas com cada vez mais tecnologia. O que mudou?

por João Pereira de Sousa