Archive for the 'palavras da arquitectura' Category

o Sol do Estoril

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A partir do que seria mais um comentário ao artigo publicado sobre o vídeo promocional do futuro complexo Estoril Sol no AspirinaLight, decidi torná-lo mais abrangente a abrir um pouco mais a discussão.


Quanto ao vídeo, pouco se poderá dizer. Tenhamos nós suficiente auto-crítica para nos distanciarmos de tantos clichés e observemos o desenlace ridículo que todo este vídeo promocional nos proporciona. Pretende desde logo atingir um tipo de mercado (outra coisa não seria de esperar), mercado esse definido pelas duas personagens femininas com sotaque à la Cascais, digno das melhores (tristes) tias de Portugal. As quais certamente nos seus minutos de repouso entre sessões de spa e de ioga com personal trainer pensarão intensamente em como seria acordar e ver o mar; lavar os dentes e ver o mar; tomar banho e ver o mar; tomar o pequeno-almoço e ver o mar; ler uma revista e ver o mar; ver televisão e por detrás desta, ver o mar. E para aquelas que bem convenceram os maridos de que esta é a casa ideal ainda poderão ter uma piscina que se extende para o mar!

Como poderemos nós subjugar-nos a tamanho desfile de futilidades encontradas em palavras-chave como “jardim paradisíaco”, “a definição de excelência”, “viver numa obra de arte”, “enormes superfícies transparentes”, como definição de um standard de vida sem que caiamos num mísero desespero de afirmação de um status social digno daquilo que pensamos ser? Queremos nós ser tão diferentes do povo, “viver na zona mais bem localizada de sempre”, de forma a ghettizarmo-nos, a idolatrarmo-nos, a sermos símbolos de uma nova “obra de arte” que marcará a paisagem nos próximos anos? E como se o mar não chegasse ainda temos imagens do mar dentro do elevador!

E as questões colocam-se. Não estaremos nós a criar um novo Estoril Sol, condenado ao fracasso como o que está a ser demolido actualmente? Será esta a visão que queremos ter da Baía de Cascais e do Vale da Ribeira da Castelhana? Então para que queremos uma praia privativa onde entre a nossa habitação e a praia temos uma marginal e uma linha de comboio? Será assim tão convidativa? Não estaremos nós a Dubaízar a paisagem de Cascais, a querer ter ainda mais do que aquilo que o lugar nos oferece?

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O problema coloca-se agora no lado dos arquitectos. Que visão urbana deveremos ter perante aquele lugar uma vez que não é o antigo Estoril Sol que desejamos? Será de bom senso destruir esta antiga aberração e criar uma nova construção tão ou mais densa que a anterior? Aqui claramente os valores urbanos e arquitectónicos foram suplantados pela pressão imobiliária imposta. Tenho dificuldade em crer que um arquitecto como o Gonçalo Byrne acredite que esta será a melhor opção para o local, criando um enorme bloco sólido de betão e vidro que se debruça sobre a estrada e o mar. E numa época em que tanto se fala de sustentabilidade, por vezes surgem projectos (como este) que desafiam estes conceitos, ignorando à partida questões tão essenciais como o conforto térmico das habitações, resolvendo-o através de climatizações tão banais, provenientes da necessidade de ter todos os alçados em vidro, sejam eles a norte ou a sul.

E desta forma se exprime a “excelência”, aquilo que é viver numa “obra de arte”. A arquitectura surge aqui como obra máxima do poder imobiliário, utilizam-se termos e nomes que nos fazem crer que é realmente algo de excepcional viver num complexo destes. Ser abraçado pelo mar, dia e noite, durante 24 horas, banalizando-o, tornando-o tão comum quanto as paredes da nossa casa. Sejamos racionais!

por João Sousa

Trienal de Arquitectura de Lisboa

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A temática global, os “vazios urbanos” foi algo que por diversas razões esteve sempre presente ao longo das exposições desta Trienal. Aliás, as cidades só existem pela conjugação dos vazios e cheios que as compõem, que lhes dão identidade e as individualizam. No entanto, nestes “vazios urbanos”, é possível notar algumas particularidades que os definem e lhes dão forma e carácter. Mas antes de mais o que são “vazios urbanos” e como poderemos identificá-los? Serão apenas espaços livres de ocupação por entre construções? Poderão ser praças, largos, ruas, vielas, rios, lagos, montes, jardins, parques, que encontramos em diversas cidades? Assim sendo, um “vazio urbano” poderá ter mais do que um significado, poderá ser benéfico ou não para a cidade, poderá ser utilizável ou não, … Deveremos então poder identificar claramente o que são “vazios urbanos” maus e bons, por assim dizer. Sob os quais deveremos intervir mais, ou menos, de forma a que mesmo um “vazio” se encha de identidade e carácter que permita uma função e um uso.
Desde as primeiras cidades que podemos observar uma proliferação de vazios que, com usos distintos, são essenciais à vivência das mesmas. É num “vazio” que se cria o comércio, que se estabelecem laços e relações e que se faz a vida social urbana. Ora, aquilo que herdamos de milénios de história são modus operandi que originaram aglomerados urbanos, construções e vazios, diferentes aspectos que levaram as cidades históricas ao que são hoje e que as conduzem numa evolução sistemática ao longo dos tempos.

O que se pôde observar através uma visita atempada à exposição principal no pavilhão de Portugal foi uma diversidade de aproximações aos aspectos vazios de cidades distintas que resultam em projectos mais ou menos inventivos onde aquilo que se torna mais interessante é precisamente entender a posição dos autores dos projectos em conjunto com as políticas urbanas dos países e a ideologia inerente ao uso da cidade.
Começando pela secção da Irlanda, são apresentados vários projectos de ocupação e de desocupação de cidades numa tentativa de resposta aos critérios da exposição. Salienta-se aqui uma atitude perante o “vazio”, a construção em altura como forma de reaproveitamento do espaço público. A secção da Holanda apresenta uma diversidade de projectos urbanos que realçam as preocupações urbanas deste país. Com cada vez menos espaço disponível para a construção, os holandeses vêem-se forçados a ser cada vez mais organizados de forma a poderem usufruir dos vazios enquanto expandem as suas cidades. Aqui é notória uma atitude, o horror vacuí enquanto elemento de dispersão urbana. Pretende-se dar uso a todos os espaços da cidade e numa tentativa quase desesperada, de reocupar e reordenar os centros das cidades, gerando implosões urbanas. O Canadá exibe uma atitude claramente contrastante com as anteriores e que se revela de grande interesse no desenrolar da exposição. Através de uma instalação audiovisual pretendem retratar cinco rios urbanos do Canadá enquanto “vazios” geradores de habitats de fauna e flora essenciais ao equilíbrio biológico das cidades. Tornam-se por isso “vazios” necessários por si só e essenciais para o aparecimento e desenvolvimento destas cidades. Por outro lado, o Chile pretende mostrar que é um território de imensos contrastes territoriais. Desde florestas tropicais a desertos secos e massas de gelo, o Chile adquiriu uma identidade territorial altamente diversificada. Com poucas cidades, grande parte deste país vive na sua plenitude natural onde aqui a arquitectura não se pretende impor ao lugar, mas pretende fazer parte desse lugar, habitando o vazio.

O Pólo Cascais XXI apresentava uma exposição de projectos culturais de diversas autorias para o novo século. Aqui salienta-se claramente uma aposta na renovação urbana como factor de criação de novos pólos culturais. Destacam-se deste modo o projecto dos Aires Mateus para o Farol Museu de Santa Marta, um edifício recentemente inaugurado conferindo uma nova imagem, mais limpa, ao local, dignificando esta parte da paisagem de Cascais. Torna-se no entanto uma proposta demasiado formalista (como é habitual) que a certa altura ignora aspectos funcionais básicos para acompanhar uma ideia conceptual. Também a futura Casa das Histórias e Desenhos de Paula Rego projectada pelo arquitecto Eduardo Souto de Moura se encontrava em exposição, revelando ser um edifício de implantação segura no local, marcado apenas por dois grandes volumes verticais que se erguem na paisagem. Destaca-se também a reabilitação da Fortaleza da Luz pelos arquitectos Cristina Guedes e Francisco Vieira de Campos onde, numa intervenção quase mínima, pretendem tornar os espaços do forte em espaços de contemplação e de introspecção, através de percursos circundantes e instalações de luzes que tornam a matéria viva e expressiva.

O Pólo da Cordoaria Nacional foi analisado com menos tempo do que o necessário, mas ainda assim se revelou uma exposição de bastante interesse sobre a actualidade das cidades portuguesas. Acima de tudo aquilo que ficou expresso através do longo percurso contínuo de imagens, desenhos e maquetas é que a arquitectura em Portugal está viva e que felizmente há um contínuo pensar sobre a cidade, mesmo que por uma pequena minoria de profissionais. Destacam-se projectos tão distintos como o pavilhão Multiusos de Gondomar ao novo Santurário de Fátima e do projecto de reabilitação da baixa do Porto às propostas urbanas para cidades como S. João da Madeira ou Santa Maria da Feira.

Em jeito de conclusão, há aspectos que se destacam nas exposições e que interessa reflectir. De uma forma geral aquilo que mais transparece nesta trienal dedicada aos “vazios urbanos” é uma atitude, já anteriormente comentada, de Horror Vacuí. Deste modo é frequentemente visível uma mesma atitude perante um vazio: dar-lhe forma. Mas será que um “vazio” não poderá ser caracterizado e usado enquanto ausência de massa tendo em si próprio uma função benéfica para a cidade? Tal como foi demonstrado na exposição do Canadá, os “vazios” são essenciais às cidades, à nossa vida, são essenciais por serem assim mesmo: vazios de massa mas cheios de conteúdo. Enquanto atitude de combate ao “vazio urbano”, os projectos holandeses demonstram uma posição extrema no que diz respeito à gestão desses mesmos “vazios”. De forma bastante objectiva e regrada são definidos “vazios urbanos” essenciais à cidade, assegurando funções especificas para cada um deles na tentativa de evitar situações de desordenamento urbano. Mas serão estas cidades, privadas de “vazios urbanos”, tão ou mais interessantes que as cidades convencionais, retrato de uma evolução histórica sistemática? Teremos de esperar para ver.

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por João Sousa

Pavilhão Multiusos - Álvaro Siza Vieira

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A partir da recente inauguração do novo pavilhão multiusos de Gondomar e após uma breve visita ao edifício, aproveito para estabelecer um paralelo entre as duas obras recentes de conteúdo desportivo do arquitecto Álvaro Siza: o Parc Esportiu Llobregat e o Pavilhão Multiusos de Gondomar.

Aquilo que desde logo transparece de uma leitura rápida dos dois edifícios é que ambos são criados não para zonas de cidade já consolidada mas, de forma a regular a construção de um plano urbanístico que redesenhará cada uma das zonas nos próximos anos. Estes edifícios são por isso excepções, os elementos de identificação de um território, o erguer da pedra como marcação de um lugar. Neste sentido, estas obras estabelecem desde logo uma ruptura com a envolvente tomando o devido protagonismo enquanto edifícios de carácter colectivo e social. Esta relação com a envolvente torna-se importante para a análise das obras uma vez que ambas se desenvolvem para o seu interior, encerrando em si os espaços interiores e exteriores do edifício, protegendo-os do ambiente urbano.

O Parc Esportiu Llobregat é, desde logo, um edifício que se deverá entender como um conjunto de elementos que na sua totalidade formam o programa previsto. Desta forma, o arquitecto solta o edifício dos limites do quarteirão, criando momentos de abertura, formas de percepção dos diferentes espaços do edifício, recolhendo a entrada para uma zona retirada dos limites. De forma a organizar racionalmente as diferentes partes do programa, o arquitecto recorre a um elemento longitudinal que permite estabelecer ligações a partir do momento de entrada no edifício, às zonas de balneários e finalmente à piscina e ao campo de jogos. De uma forma bastante clara estabelece-se logo este organigrama funcional que definirá tanto a organização espacial como a formalização volumétrica do edifício. O corpo do campo do jogos assume-se através de uma massa compacta no exterior que permite encerrar os espaços internos onde se desenrolam as actividades. A piscina assume aqui uma posição de destaque. Sem nada a que se agarrar, a piscina surge quase como um elemento amorfo, uma membrana que se solta e que se expande livremente para fora do edifício. É então que surge uma vontade de a controlar. Urge a necessidade de a cercar, de a isolar de todo o entorno do edificado. Surge assim o culminar de uma composição que se desenrola horizontalmente, com momentos de ruptura, onde o arquitecto livremente desenha através de um único gesto um corpo curvo que encerra o espaço exterior da piscina. É como que um abraçar, um encerrar entre braços algo que nos é precioso. Torna-se uma peça primordial na composição e não a podemos imaginar sem ela. Não fará mais sentido…

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O Pavilhão Multiusos de Gondomar surge claramente relacionado com a forma de pensar anterior e chega mesmo a reinterpretar alguns elementos que se encontram no edifício de Barcelona. A forma elíptica do corpo principal do edifício pretende mais uma vez remeter para uma forma primitiva de demarcação de uma espaço. É um abraçar, um gesto caloroso que encerra o seu núcleo de forma a guardá-lo do exterior. Os outros volumes vêm complementar esta composição escultórica, tornando-a horizontal, dissipando a sua monumentalidade, humanizando-a. É através desta atitude de relação com o homem que poderemos interpretar o elemento de excepção de toda a composição. É como que através do desenhar da trajectória de uma bola a cair no chão que se materializa de forma espantosa a pala curva (claro está!), culminando através de um gesto escultórico num elemento de recolha de água que se desliga (aparentemente) da pala curva, revelando uma imagem de leveza que remeterá certamente para um desenho expressivo característico de Niemeyer. Aqui é a entrada. Desenha-se a partir de um gesto único e seguro.
Por outro lado toda esta massa construída nos faz pensar em Khan. Faz-nos sentir aquele gesto duro e rigoroso presente nas obras do Bangladesh e da Índia, a aparente primordialidade do gesto, da forma, da função. Aqui Siza demarca um território e estabelece um lugar. O resto deverá adaptar-se ao seu gesto, seguir as orientações traçadas e deixá-lo ser único em si próprio.

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Se por um lado, no edifício de Barcelona a qualidade da obra acompanha o rigor do desenho, no edifício de Gondomar, surpreendentemente, a obra pouco enobrece o desenho. Desvendam-se falhas de rigor, falta de acompanhamento, falta de orçamento, algo incomum em Siza e que nos faz pensar até que ponto poderá a concretização da obra dignificar ou danificar o desenho? Teria vontade de ver este edifício executado com o rigor do anterior. Mas, de certo modo, mesmo assim esta obra demonstra uma vontade crítica. Parte de um gesto e desenha-se para o concretizar. Encerra-se do exterior voltando-se para si, para os seus acontecimentos. Quer parecer-se estranha (e é), fazendo-nos querer entrar. Não será tudo isto também arquitectura?

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por João Sousa

A Habitação Social: uma introdução às suas problemáticas

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“Habitar é o objectivo e a justificação existencial da Arquitectura” *

A casa, desde sempre se formulou como princípio primordial da Arquitectura, transformando lugares, evidenciando culturas e justificando-se em si própria na sua função de habitar. Deste modo, o habitar encontra-se na génese da arquitectura, implicando assim uma circunscrição de um espaço, gerador de uma dualidade interior e exterior. A habitação define-se, portanto, não como um mero refúgio, mas como um espaço que permite a permanência e a vida.

Ao longo de séculos a casa urbana foi sendo esquecida pelos arquitectos, não sendo considerada propriamente arquitectura pois era construída como forma de resposta imediata a necessidades sociais. Só a partir do século XX é que vemos na casa uma temática de interesse de procura para os arquitectos, protagonizada pelo movimento moderno enquanto resposta concreta a problemáticas sociais. Ora, aquilo que moveu os arquitectos para uma especial atenção pela casa foi a Revolução Industrial e consequentes problemas sociais. A partir da Revolução Industrial, o desenvolvimento das indústrias levou a uma enorme afluência dos grandes centros urbanos e industriais do mundo, gerando assim problemas a nível do funcionamento das cidades e da sua estrutura social. Perante este facto, as cidades deixaram de poder garantir uma qualidade salubre de vida, abrindo terreno para formas de sobre-ocupação dos espaços urbanos como forma de albergar toda a crescente imigração. Iniciou-se então um movimento de arquitectos para que se reflectisse e fizessem propostas para novos modelos de habitação social. Deste modo, a casa deixou de ser o local onde se vive e se trabalha para passar a ser o lugar da família, espaço de encontro privado e de fraca permanência, em contraste com as ruas e praças que tomam agora um carácter cada vez mais colectivo.

Em Portugal, os efeitos da Revolução Industrial só se fizeram sentir em finais do século XIX e inícios do século XX. O aumento das indústrias nas principais cidades do país obrigou a um êxodo rural e a uma consequente procura de habitação na cidade, até então habitada por classes sociais burguesas. Esta acção levou consequentemente a uma sobre-ocupação das cidades que, não podendo albergar todos os novos habitantes, foram sendo conduzidas a formas de ocupação ilegal dos espaços dos quarteirões, formando aquilo a que chamamos de “ilhas”. Estas “ilhas” na sua maior parte surgiam em interiores de logradouros privados ou em terrenos possuídos pelas indústrias de forma a permitir uma permanência mínima aos operários que trabalhavam e que necessitavam de morar na cidade. Tornou-se de tal forma um fenómeno urbano e social que ainda hoje existem inúmeros exemplos que continuam a ser habitados dessa forma.


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No Porto, cidade burguesa por excelência, a habitação para operários ganha algum peso nas discussões políticas de inícios do século XX. Até então não havia sequer um pensamento filantrópico sobre o que deveria ser a habitação para operários ou mesmo sobre se deveria mesmo existir um tipo de habitação para tal. Só raramente podemos encontrar exemplos de algumas fábricas têxteis que se preocuparam com a construção de casas operárias a partir do século XX. Uma outra iniciativa na cidade do Porto para a construção de bairros surge graças a uma subscrição lançada pelo jornal “O Comércio do Porto” com o apoio municipal para a disponibilização de terrenos. Esta ideia formula-se a partir de 1899, quando da epidemia da peste bubónica que devastou a cidade. Por isso mesmo tornou-se imperativo uma acção perante as condições de vida dos operários de forma a proteger a ordem social. Como forma de higienizar as condições da habitação operária, foram pensados diversos bairros de casas individuais onde as famílias pudessem viver de forma isolada sem contacto directo com os vizinhos, de forma a controlar epidemias ou contágios.
Se por um lado a preservação da ideia de casa individual como habitação operária se ligava com formas de evitar propagações de doenças, por outro, a casa individual evitava a promiscuidade física e socialmente perigosa. Seria assim igualmente propícia ao reforço da ordem social pelo acesso à propriedade e pela consolidação da instituição da família. É deste modo que as políticas de Salazar, a partir dos anos 30, se vão basear para a instituição de um modelo de casa operária de acordo com valores fascistas e de salvaguarda dos valores familiares e nacionais.


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É a partir deste contexto que surgem os primeiros projectos de habitação social que interessa analisar. Respondendo a problemas específicos de cada período e feitos de forma a encontrar soluções eficazes tanto a nível social como político. Modelos como o Bairro de Monte Pedral (1900) de Marques da Silva no Porto, o Bairro Económico (1925) de Carlos Ramos em Olhão e o Bairro do Alvito (1938) de Paulino Montez em Lisboa tornam-se referências de intervenção na cidade e na estrutura sócio-política da primeira metade do século XX.

por João Sousa

* frase retirada do artigo Morada: rua, casa de Ricardo Carvalho, publicado na revista JA 224, p.34

Centro Documental de Madrid - Mansilla & Tuñón

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O Centro Documental dos arquitectos Luis Mansilla e Emilio Tuñón surge como o remate sul do eixo cultural da castellana em Madrid, composto pelo Museu do Prado, o Museu Thyssen, o Museu Reina Sofia e a Estação de Atocha. Este projecto iniciou-se, na fase de concurso, como sendo um centro cultural que comportaria 5 equipamentos culturais (Biblioteca, Escola de Design, Escola de Artes Cénicas, …) a serem implantados no quarteirão da antiga fábrica de cerveja El Águila. Este conjunto fabril, composto de edifícios históricos teve início em 1917 com o edifício-forno da cevada, sendo que a última construção, os silos metálicos, é datada dos anos 60. Desde logo, o programa a concurso se apresentava demasiado ambicioso para o local e tornava-se impossível de conseguir implantar todos os equipamentos na área das fábricas. Assim, a partir do momento em que os arquitectos ganharam o concurso, passaram 2 anos ao longo dos quais o programa se foi modificando (à excepção da biblioteca) passando no final de Centro Cultural para Centro Cocumental de Madrid. Assim, tornou-se possível conjugar na área pré-destinada este conjunto composto de Biblioteca, Arquivos documentais, Auditório e Depósito Legal, aproveitando todas as construções existentes e adicionando novas construções ao conjunto.

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O projecto do Centro Documental compõem-se então de 6 edifícios independentes que formam a totalidade da obra, num diálogo entre as pré-existências e as novas estruturas. A partir da entrada, junto ao edifício do depósito legal, consegue-se ter uma percepção geral das características principais da obra. Percepciona-se, antes de mais, um eixo principal feito através de dois edifícios antigos, o da Biblioteca à esquerda e o da administração à direita, que culmina numa nova intervenção onde se destaca a constante estrutura modular revestida a vidro que se irá revelar mais presente ao longo dos percursos. Um aspecto interessante desta obra é precisamente a implantação dos edifícios já existentes que, sendo de origem fabril, não respeitam regulamentos de espaçamentos entre eles, criando espaços-corredor que se intensificam pela altura dos diversos volumes edificados. Aquilo que os arquitectos tomaram como regra de implantação foi este jogo de interstícios de espaços entre os edifícios, implantando as novas volumetrias de acordo com um desenhar de percursos onde a cada momento se descobrem novas perspectivas, valorizando as pré-existências enquanto permitem um diálogo com as novas formas.

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A Biblioteca assume-se como o edifício público do conjunto arquitectónico. É formada por um grande corpo da fábrica cujo um dos topos é o edifício-forno de 1917, pelo volume dos silos de metal, por outro volume fabril e finalmente por um novo volume que remata o conjunto. Deste modo os arquitectos puderam organizar determinadamente os diferentes espaços que compõem o conjunto da biblioteca. Assim, cada volume assume uma parte do programa. O corpo principal alberga o vestíbulo e as salas de uso público da biblioteca, cuja caracterização é feita através de elementos industriais que foram restaurados, permanecendo como memória do local. O corpo dos silos é de acesso restrito e engloba as salas de arquivo da biblioteca. O volume pré-existente ao corpo principal é organizado com salas de leitura complementares e com o principal acesso vertical público, fazendo a partir daí a distribuição para as salas de leitura do corpo principal. O novo volume na extremidade do edifício é ocupado pela administração da biblioteca, tendo este já a linguagem adoptada para todas as novas construções.

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Os edifícios do Centro Documental surgem com uma linguagem decididamente distinta das pré-existências, permitindo uma diferenciação de épocas de construção que está também presente ao longo dos edifícios antigos que adoptam métricas diferentes consoante a altura em que foram construídos. As construções novas são edificadas a partir de uma estrutura rígida de betão branco aparente que traça uma grelha contínua ao longo dos alçados. As fachadas são posteriormente compostas por painéis de vidro de secção em U que cobrem toda a estrutura das novas construções, criando fachadas ventiladas e permitindo um jogo de transparências e de luminosidades entre o interior e o exterior, intensificando o contraste entre as construções novas e as antigas. No volume do Arquivo a fachada adopta zonas de excepção onde surgem as escadas. Aqui os arquitectos substituem os vidros anteriores por cortinas de vidro transparente deixando antever as escadas em cada um dos extremos do edifício. Também a volumetria mais baixa da proposta e que colmata toda uma frente de rua acaba por se destacar quando num dos extremos os arquitectos criam um elemento volumétrico vertical fazendo com que se crie um remate de maior importância e relacionando então esta volumetria com o resto das construções.

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Em suma, este projecto ganha interesse pela coerência que atravessa toda a proposta. Torna-se interessante o diálogo que se cria entre as construções antigas que são reabilitadas deixando a sua materialidade original e as novas construções que se assumem no seu contraste mas que criam uma complementaridade a nível do quarteirão formando, portanto, um conjunto coeso e único. De valorizar é também o tratamento dos espaços exteriores que se sublinham pela sua subtileza, como palco dos diferentes acontecimentos em torno dos edifícios, tornando os percursos interessantes e em diálogo com as construções. Em termos urbanos esta proposta assume um carácter de excepção já que o programa assim o direcciona. Situado numa malha de cidade consolidada de quarteirões, os edifícios suportam-se dos limites do terreno mas soltam-se de forma a dignificar a sua importância em relação às construções adjacentes tornando-se perceptível pela sua individualidade.

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por João Sousa