palavras da arquitectura | um olhar sobre a arquitectura contemporânea | João Pereira de Sousa palavrasdaarquitectura@gmail.com


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Watercube, PTW Architects + ARUP Australia

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Da forma como a informação se processa hoje em dia, através dos mass media e da internet, as imagens são cada vez mais um processo de comunicação imediato. A arquitectura não está alheia a este facto e isso é claramente visível nos mega-projectos que se suportam de imagens altamente elaboradas e estudadas minuciosamente como forma de marketing aliado à comunicação da arquitectura. Nesta cultura imagética dificilmente ficamos alheios à tentação da representação gráfica. É através dela que os arquitectos se expressam e é através dela que uma linguagem técnica se desmaterializa de forma a abranger públicos-alvo. Assim, torna-se extremamente difícil a apreciação, entendimento e crítica de determinado projecto ignorando as imagens síntese que constantemente nos assombram (para o bem e para o mal). E se dizemos vulgarmente que uma imagem vale mais do que mil palavras, por vezes são necessárias milhares de palavras para dissecar e justificar essa imagem.

O Watercube em Pequim é uma obra que deverá ser analisada muito para além das imagens de apresentação. Se por um lado se consegue comunicar um conceito forte e uma iconografia através de uma imagem, por outro essa imagem consegue ser quase dispensável quando começamos a entender as ideias e os processos criativos por detrás desta obra. Mais do que aquilo que à partida transparece, o Watercube é uma obra que parte de uma ideia única que é trabalhada exaustivamente de forma a construir toda a complexidade programática, aliada a uma consciência local que transparece finalmente em toda a estrutura edificada. Mais do que a criação de um ícone, interessa aqui dissecar e analisar um processo criativo que parte de um conceito básico que é elaborado de forma a constituir uma obra altamente coerente e merecedora de uma atenção especial.

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Enquanto centro de desportos aquáticos o Watercube parte da ideia de água como motivo temático e estrutural onde ao contrário das estruturas de desporto tradicionais, apoiadas sobre pilares, vigas e cabos aplicando-se posteriormente uma pele, aqui o conceito, a estrutura e a pele são o mesmo elemento. Interessa neste caso salientar então a forma como se re-aplicam conceitos tradicionais da construção num edifício completamente novo. Deste modo, tal como na arquitectura tradicional, a forma está directamente relacionada com a estrutura sendo que tudo o que é fachada é auto-portante e portanto nada é acessório e tudo o que existe tem uma função. Ainda, a forma como se processa este edifício está directamente relacionada com um pensar e uma cultura chinesas. Desde a forma primitiva da casa quadrada, presente na tradição chinesa, à ideia da água como símbolo de prosperidade e à dualidade que estabelece com o estádio projectado por Herzog & DeMeuron, onde este é fogo (ou masculino) por oposição à água (ou feminino), alusivos ao yin-yang, são aspectos que se traduzem numa busca que vai para além de mero um desenvolvimento formal, onde aqui se procurou que o conceito inicial estivesse presente em todas as fases do processo de projectação.

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Assim, partindo de uma concepção claramente tecnológica e de grande complexidade, o Watercube é ao mesmo tempo um edifício poético, quase surreal, que se vai descobrindo aos poucos. E de forma a conseguir transmitir esta ideia de um bloco de moléculas de água, a tecnologia revelou-se essencial, tendo sido desenvolvida maioritariamente pela equipa da ARUP. A forma encontrada para construir o edifício e a sua imagem parte essencialmente da geometria de Weaire-Phelan, composta por duas células tetraédricas diferentes que se repetem indefinidamente. Através de um processo simples de cortes neste conjunto geométrico, aparentemente aleatório, chega-se a um bloco quadrangular completamente sustentável através da sua geometria. Deste modo foi possível prever ainda em fase de concurso a exequibilidade do projecto apoiado num sistema estrutural racional e único, onde a imagem virtual conseguiu ser altamente fiável em relação ao resultado final.

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Muito mais que um exercício formal, desde o início do processo se denota uma preocupação com a a forma de construção do edifício, com a matéria e a sua forma de funcionamento. Deste modo, esta obra teria que funcionar como uma estufa isolada termicamente que absorvesse a radiação solar e evitasse as fugas de calor. Ao mesmo tempo os projectistas queriam utilizar ao máximo a luz natural e minimizar os reflexos na água e as reverberações de som. A partir destes requisitos, o uso da película polímera ETFE foi a solução material mais indicada para revestir toda a pele exterior e interior do edifício conferindo à obra a imagem evanescente planeada em fase de concurso. Desta forma a passagem do virtual ao material é conseguida graças à tecnologia de construção que chega ao ponto de traduzir literalmente a imagem conceptual sem desvirtuar o processo de trabalho nem o funcionamento do edifício. Aqui o edifício assume-se como uma “natureza artificial” em que se parte de um fenómeno natural para construir o artificial baseado nos mesmo aspectos e características mas com um aumento da escala. No final aquilo que se projectou e construiu foi ao mesmo tempo um reflexo dos processos da natureza trazidos para a prática arquitectónica onde o resultado funcional e formal adveio de um único processo que se traduz em toda a obra.

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Como conclusão será interessante citar sobre este tema o discurso de Michael Wienstock aqui traduzido para espanhol: “Se intuye un cambio de sistema, donde la frontera de lo “natural” y lo “manufacturado” ya no existirá. La interacción compleja entre forma, material y estructura de los sistemas materiales naturales ha generado nuevos procesos industriales “biomiméticos”, generando materiales innovadores de alto rendimiento. (…) En la escala de grandes proyectos arquitectónicos, el énfasis sobre el proceso se convierte no sólo en reducir los datos de diseño para la construcción. Las estrategias Biomiméticas que integran forma, material y estructura en un único proceso son tomadas de la nanoescala para diseñar y construir grandes edificios”. Valerá sempre a pena conhecer e estudar processos de projecto distintos dos mais óbvios.

por João Pereira de Sousa

Casa K em Stocksund, Tham & Videgård Hansson Arkitekter

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Não é a primeira vez que me impressiono ao conhecer e analisar habitações unifamiliares na Suécia. Há qualquer coisa, nos locais, nos materiais, nas texturas, nos métodos que me cativa imenso em determinadas construções escandinavas. Esta casa desde logo se fixou na minha memória através das imagens e textos que encontrei no blog Arkinetia.

A aparência exterior monolítica é-nos apresentada de uma forma exacta, totalmente perceptível no seu conjunto. Trata-se de um grande paralelepípedo forrado a madeira pontuado por aberturas que ora nos deixam antever o interior ora expelem a luz para o exterior. No entanto, esta aparente simplicidade volumétrica exterior revela uma enorme riqueza a nível dos espaços interiores da casa. (Aqui interessa realçar que quando pensamos a habitação unifamiliar há que ir para além do óbvio. Não querendo com isto dizer que devemos complicar, muito pelo contrário, devemos partir de esquemas simples de funcionamento e transpô-los para o espaço de forma a gerar uma maior riqueza espacial que contribua para o bem-estar dos seus habitantes.)


Refiro isto porque nesta obra, apesar da forma exterior ser compacta e facilmente perceptível, o interior é tratado com uma grande dinâmica de forma a gerar espaços interessantes e harmoniosos. A partir de um esquema de funcionamento bastante simples e comum, os arquitectos abordaram o desenho da casa sempre tendo em conta a terceira dimensão, indo para lá do desenho em planta. Ora, claro está que ao olharmos para as plantas apercebemos directamente as diferentes áreas e a forma de organização da casa: o piso inferior é composto por três elementos, a zona de garagem, as áreas de cozinha, banho, entrada e circulações verticais e a grande área de sala sem definição de zonas de uso; o piso superior segue a métrica do anterior e define áreas de quartos com uma circulação central transversal. Nada de novo, é um desenho bastante claro e funcional. No entanto é a partir daqui que eu entendo que a casa começa a ganhar maior valor. Através de uma definição esquemática dos volumes que compõem o interior, os arquitectos partem deste paralelepípedo e recortam-no de forma a gerar novas situações espaciais. Definem deste modo uma organização espacial do
open-space da sala através das zonas de dupla altura que ao permitirem novas entradas de luz, definem “espaços-núcleo” organizando o programa da sala e tornam toda esta área mais rica e definida.

Ainda aquilo que gostaria de destacar é a forma de materialização dos espaços interiores e do exterior do edifício. Através de uma construção simples e económica de betão armado isolado termicamente em ambas as faces, a pele exterior é construída através de placas de madeira dispostas em escama de forma a anularem juntas visíveis, permitindo que tanto a chuva como a neve não penetrem no interior da parede. Os interiores são tratados de forma bastante contida, sendo revestidos na sua totalidade a gesso cartonado pintado de branco onde ainda no piso inferior é definido um lambrim de madeira dando continuação ao soalho do chão gerando uma sensação de conforto através presença deste material.

Poderíamos chegar quase ao ponto de justificar aqui a noção de less is more, não no domínio estético, mas pelo uso de ideias simples, de métodos construtivos baratos e de materiais usuais de forma a conseguir expressões espaciais ricas e uma linguagem clara e sintética. Mas apesar de esta ser mais uma forma desenhar uma habitação, temos sempre algo a aprender e a estudar enquanto modelo.

por João Pereira de Sousa

Trabalhar com arquitecto?

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Há dias descobri este fórum: forumdacasa. E com ele comecei também a tomar conhecimento real sobre o pensamento do ser humano comum perante esta espécie (aparentemente) tão dispensável que é o Arquitecto. No meio de tantas afirmações de revolta, de ignorância, de incompreensão ou simplesmente de desinteresse, resolvi quase como em forma de manifesto explicar em palavras comuns o porquê de se trabalhar com um Arquitecto:

“Todos nós queremos ter a casa dos nossos sonhos, como aquela que vimos algures numa revista, talvez sem piscina, mas com um belo jardim. Talvez sem paredes de vidro, mas com janelas pontuadas nos alçados. Talvez com cobertura plana ou mesmo inclinada.

Ora, porquê contratar um arquitecto se afinal de contas já todos nós sabemos o que queremos? Porque não falar ao amigo do nosso primo que tem jeito para o desenho e dizer-lhe que nos faça um rabisco com três quartos, uma sala, uma cozinha e casas de banho? Porque não falar ao tio de um amigo nosso que é empreiteiro e que faz as obras num instante e a baixo custo?

Porquê?

Porque passamos horas a fio a folhear revistas de automóveis para escolher o modelo que nos serve? Porque visitamos inúmeras lojas de roupa em busca daquilo que gostamos? Porque ficamos horas a experimentar sofás a ver se nos servem? Porque afinal de contas tudo aquilo que compramos é um investimento para o futuro!

Já pensaram bem no que é uma casa? Olhem para a vossa casa e reflictam sobre aquilo que acham que está bem e aquilo que está mal. Agora pensem como a poderiam melhorar. Se vão construir uma casa, essa (teoricamente) será a vossa casa durante muitos e muitos anos! Ora, vão querer ter um lar perfeitamente adaptado às vossas necessidades, que a longo prazo possa ser sustentável, que vos permita criar e viver com a vossa família em harmonia. Será essa a casa dos vossos sonhos? Então façam um investimento agora para poderem lucrar no futuro!

O Arquitecto é o único profissional apto a projectar devidamente um espaço de habitar. É o único profissional com formação para isso, o único profissional com sensibilidade para tal, o único profissional capaz de pensar e desenvolver os espaços da casa à vossa medida. O único profissional que pensará no vosso lar de forma sustentável e rentável a longo prazo. Como tal o Arquitecto é o elemento-chave de qualquer projecto de arquitectura. É a única pessoa artisticamente capaz de conceber, desenvolver, discutir, pensar e desenhar uma casa: a vossa casa.

Então porque tentamos sempre evitá-lo? E porque é que passamos horas e gastamos milhões de euros a personalizar os nossos carros, a buscar objectos que nos agradam e que se identificam connosco? Porque é que quando pensamos em construir a nossa casa, nunca pensamos que será ali que para o bem e para o mal iremos Viver? Será que há algo mais importante para se investir do que na nossa qualidade de vida?

Qualquer trabalho profissional tem um preço. Esse preço deverá estar de acordo com as capacidades profissionais de quem o faz. O que acontece quando queremos remediar? Não queremos gastar dinheiro em desenhos, em coisas que à partida não têm grande importância, queremos é ter quatro paredes, um chão e um tecto para dormir e mais nada. Por isso queremos é alguém que as construa! E a vossa casa fica construída, custou-vos muito pouco e até pagaram umas cervejas aos trabalhadores. Ao fim de 2 anos essa casa está absolutamente insustentável. Há humidades, frio no Inverno, calor no Verão, afinal de contas agora a casa já não tem aquela mística que ao inicio teria. Basicamente o vosso investimento foi um desastre. Gastaram uns trocos para a construir, mas a médio prazo a vossa casa tornou-se um “barraco”. É impossível lá viver sem um aquecedor, não há muita luz durante o dia, os quartos ora são grandes demais ou demasiado pequenos: A vossa casa não foi pensada!

Então porque falo em investimento? Antes demais deveremos sempre pensar a casa como investimento, não porque pretendemos vendê-la daqui a uns anos, mas um investimento para a nossa qualidade de vida e consequentemente para as nossas carteiras! Assim, fará todo o sentido procurar um profissional honesto e capaz de pensar a habitação como nós tínhamos em mente. Um profissional que sugira alterações de forma a tornar a casa sustentável. Um profissional que planeie a casa a longo prazo. Isto resultará seguramente num investimento que será inicialmente aparentemente caro, mas que em poucos anos iremos olhar para trás e pensar que ainda bem que o fizemos porque hoje em dia a casa funciona perfeitamente, é confortável, os quartos foram dimensionados como queríamos, a cozinha é versátil e o terraço que o arquitecto tinha sugerido afinal até tem sido bastante utilizado naqueles dias de verão!

Devemos então investir para ter lucros. Não é sempre assim que os negócios funcionam? Uma construção funciona também assim. Um bom material irá durar mais tempo, espaços bem desenhados e pensados serão mais confortáveis, o planeamento da casa para a nossa vida futura irá torná-la adaptável ao longo dos tempos.

Então porque não dar valor ao trabalho do Arquitecto e em troca recebermos a casa dos nossos sonhos, tenha sido ela pensada a baixo ou a médio custo?

Agora atenção! Há bons e mais profissionais! Nunca escolham um Arquitecto só porque ele é Arquitecto! Assim como escolhem um opel ou um ford, irão escolhê-lo pelas suas características! Deverão procurar sempre um conjunto de Arquitectos e solicitar-lhes o seu portfolio de forma a poder entender as características do seu trabalho, as suas preocupações e principalmente a sua ética e honestidade perante o trabalho que irá fazer!”

por João Pereira de Sousa

The Portable Light, Sheila Kennedy

A recente conferência de Sheila Kennedy, no auditório do Museu de Serralves, revelou-se uma excelente descoberta no que diz respeito às preocupações da arquitectura e do design para pelo menos 2 biliões de pessoas neste mundo. Aliás, toda a exposição ‘Design For The Other 90%‘ patente no Cooper-Hewit National Museum em Nova Iorque merece uma atenta visita, para aqueles que tenham a oportunidade de lá ir.

Aquilo que realmente me cativou na exposição de Sheila Kennedy foi uma peça de design que o atelier KVA MATx está a desenvolver de forma a poder torná-la um objecto de grande distribuição e com preços mais acessíveis. Este projecto intitula-se de ‘The Portable Light‘ e tem como objectivo ser um dispositivo de iluminação que possa ser usado em locais onde não existe qualquer distribuição eléctrica, nomeadamente em povoações rurais isoladas, em países subdesenvolvidos.

O projecto ‘The Portable Light‘ consiste num tecido reflector que utiliza a luz do sol para gerar energia eléctrica renovável, armazenando-a e transformando-a em luz através de duas pequenas lâmpadas, podendo ser usado numa escala global em zonas onde não existe rede eléctrica. O tecido que compõe este objecto é totalmente adaptável e leve de tal forma que os arquitectos criaram protótipos que pudessem ser enviados e transportados segundo normas estandardizadas, podendo assim chegar facilmente a qualquer parte do mundo. A grande vantagem deste produto encontra-se no facto de ser extremamente maleável e transportável, podendo ser usado por qualquer pessoa, tornando-se um objecto essencial no seu dia-a-dia.

Este projecto foi apresentado através de uma equipa de arquitectos, antropólogos, engenheiros e médicos, à comunidade indígena Huichol (Wirrárica), a qual vive numa área remota da Sierra Madre no México. A elevada adaptabilidade destes objectos tornou-se importante já que estas tribos se deslocam constantemente em zonas remotas de muito difícil acesso, podendo assim servir as suas necessidades, transportando-os durante o dia e usando-os à noite quando esta é a única luz disponível. Aquilo que realmente demonstra a força deste projecto é o facto destas comunidades se adaptarem imediatamente a este produto, integrando-o nos seus costumes e quotidiano, tornando-o praticamente indispensável nos dias de hoje. Através de esta experiência podemos ver famílias reunidas durante a noite, crianças a estudar, as mulheres a cozinhar e todo um desenvolvimento de práticas sociais nocturnas possíveis de serem realizadas através desta tecnologia.

Acima de tudo aquilo que importa reter deste projecto é o facto de através de uma tecnologia já existente ser possível uma reinterpretação e uma adaptação a necessidades específicas. Este projecto está a dar que falar e tornou-se indispensável para as comunidades que usufruem dele. Resta-nos incentivar e promover o desenvolvimento de projectos como este que de forma tão simples modificam hábitos, trazem qualidade de vida e tornam mais digna a vida de pessoas como nós.

Portable Light Project

por João Sousa

o Sol do Estoril

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A partir do que seria mais um comentário ao artigo publicado sobre o vídeo promocional do futuro complexo Estoril Sol no AspirinaLight, decidi torná-lo mais abrangente a abrir um pouco mais a discussão.


Quanto ao vídeo, pouco se poderá dizer. Tenhamos nós suficiente auto-crítica para nos distanciarmos de tantos clichés e observemos o desenlace ridículo que todo este vídeo promocional nos proporciona. Pretende desde logo atingir um tipo de mercado (outra coisa não seria de esperar), mercado esse definido pelas duas personagens femininas com sotaque à la Cascais, digno das melhores (tristes) tias de Portugal. As quais certamente nos seus minutos de repouso entre sessões de spa e de ioga com personal trainer pensarão intensamente em como seria acordar e ver o mar; lavar os dentes e ver o mar; tomar banho e ver o mar; tomar o pequeno-almoço e ver o mar; ler uma revista e ver o mar; ver televisão e por detrás desta, ver o mar. E para aquelas que bem convenceram os maridos de que esta é a casa ideal ainda poderão ter uma piscina que se estende para o mar!

Como poderemos nós subjugar-nos a tamanho desfile de futilidades encontradas em palavras-chave como “jardim paradisíaco”, “a definição de excelência”, “viver numa obra de arte”, “enormes superfícies transparentes”, como definição de um standard de vida sem que caiamos num mísero desespero de afirmação de um status social digno daquilo que pensamos ser? Queremos nós ser tão diferentes do povo, “viver na zona mais bem localizada de sempre”, de forma a ghettizarmo-nos, a idolatrarmo-nos, a sermos símbolos de uma nova “obra de arte” que marcará a paisagem nos próximos anos? E como se o mar não chegasse ainda temos imagens do mar dentro do elevador!

E as questões colocam-se. Não estaremos nós a criar um novo Estoril Sol, condenado ao fracasso como o que está a ser demolido actualmente? Será esta a visão que queremos ter da Baía de Cascais e do Vale da Ribeira da Castelhana? Então para que queremos uma praia privativa onde entre a nossa habitação e a praia temos uma marginal e uma linha de comboio? Será assim tão convidativa? Não estaremos nós a Dubaízar a paisagem de Cascais, a querer ter ainda mais do que aquilo que o lugar nos oferece?

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O problema coloca-se agora no lado dos arquitectos. Que visão urbana deveremos ter perante aquele lugar uma vez que não é o antigo Estoril Sol que desejamos? Será de bom senso destruir esta antiga aberração e criar uma nova construção tão ou mais densa que a anterior? Aqui claramente os valores urbanos e arquitectónicos foram suplantados pela pressão imobiliária imposta. Tenho dificuldade em crer que um arquitecto como o Gonçalo Byrne acredite que esta será a melhor opção para o local, criando um enorme bloco sólido de betão e vidro que se debruça sobre a estrada e o mar. E numa época em que tanto se fala de sustentabilidade, por vezes surgem projectos (como este) que desafiam estes conceitos, ignorando à partida questões tão essenciais como o conforto térmico das habitações, resolvendo-o através de climatizações tão banais, provenientes da necessidade de ter todos os alçados em vidro, sejam eles a norte ou a sul.

E desta forma se exprime a “excelência”, aquilo que é viver numa “obra de arte”. A arquitectura surge aqui como obra máxima do poder imobiliário, utilizam-se termos e nomes que nos fazem crer que é realmente algo de excepcional viver num complexo destes. Ser abraçado pelo mar, dia e noite, durante 24 horas, banalizando-o, tornando-o tão comum quanto as paredes da nossa casa. Sejamos racionais!

por João Sousa

Trienal de Arquitectura de Lisboa

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A temática global, os “vazios urbanos” foi algo que por diversas razões esteve sempre presente ao longo das exposições desta Trienal. Aliás, as cidades só existem pela conjugação dos vazios e cheios que as compõem, que lhes dão identidade e as individualizam. No entanto, nestes “vazios urbanos”, é possível notar algumas particularidades que os definem e lhes dão forma e carácter. Mas antes de mais o que são “vazios urbanos” e como poderemos identificá-los? Serão apenas espaços livres de ocupação por entre construções? Poderão ser praças, largos, ruas, vielas, rios, lagos, montes, jardins, parques, que encontramos em diversas cidades? Assim sendo, um “vazio urbano” poderá ter mais do que um significado, poderá ser benéfico ou não para a cidade, poderá ser utilizável ou não, … Deveremos então poder identificar claramente o que são “vazios urbanos” maus e bons, por assim dizer. Sob os quais deveremos intervir mais, ou menos, de forma a que mesmo um “vazio” se encha de identidade e carácter que permita uma função e um uso.
Desde as primeiras cidades que podemos observar uma proliferação de vazios que, com usos distintos, são essenciais à vivência das mesmas. É num “vazio” que se cria o comércio, que se estabelecem laços e relações e que se faz a vida social urbana. Ora, aquilo que herdamos de milénios de história são modus operandi que originaram aglomerados urbanos, construções e vazios, diferentes aspectos que levaram as cidades históricas ao que são hoje e que as conduzem numa evolução sistemática ao longo dos tempos.

O que se pôde observar através uma visita atempada à exposição principal no pavilhão de Portugal foi uma diversidade de aproximações aos aspectos vazios de cidades distintas que resultam em projectos mais ou menos inventivos onde aquilo que se torna mais interessante é precisamente entender a posição dos autores dos projectos em conjunto com as políticas urbanas dos países e a ideologia inerente ao uso da cidade.
Começando pela secção da Irlanda, são apresentados vários projectos de ocupação e de desocupação de cidades numa tentativa de resposta aos critérios da exposição. Salienta-se aqui uma atitude perante o “vazio”, a construção em altura como forma de reaproveitamento do espaço público. A secção da Holanda apresenta uma diversidade de projectos urbanos que realçam as preocupações urbanas deste país. Com cada vez menos espaço disponível para a construção, os holandeses vêem-se forçados a ser cada vez mais organizados de forma a poderem usufruir dos vazios enquanto expandem as suas cidades. Aqui é notória uma atitude, o horror vacuí enquanto elemento de dispersão urbana. Pretende-se dar uso a todos os espaços da cidade e numa tentativa quase desesperada, de reocupar e reordenar os centros das cidades, gerando implosões urbanas. O Canadá exibe uma atitude claramente contrastante com as anteriores e que se revela de grande interesse no desenrolar da exposição. Através de uma instalação audiovisual pretendem retratar cinco rios urbanos do Canadá enquanto “vazios” geradores de habitats de fauna e flora essenciais ao equilíbrio biológico das cidades. Tornam-se por isso “vazios” necessários por si só e essenciais para o aparecimento e desenvolvimento destas cidades. Por outro lado, o Chile pretende mostrar que é um território de imensos contrastes territoriais. Desde florestas tropicais a desertos secos e massas de gelo, o Chile adquiriu uma identidade territorial altamente diversificada. Com poucas cidades, grande parte deste país vive na sua plenitude natural onde aqui a arquitectura não se pretende impor ao lugar, mas pretende fazer parte desse lugar, habitando o vazio.

O Pólo Cascais XXI apresentava uma exposição de projectos culturais de diversas autorias para o novo século. Aqui salienta-se claramente uma aposta na renovação urbana como factor de criação de novos pólos culturais. Destacam-se deste modo o projecto dos Aires Mateus para o Farol Museu de Santa Marta, um edifício recentemente inaugurado conferindo uma nova imagem, mais limpa, ao local, dignificando esta parte da paisagem de Cascais. Torna-se no entanto uma proposta demasiado formalista (como é habitual) que a certa altura ignora aspectos funcionais básicos para acompanhar uma ideia conceptual. Também a futura Casa das Histórias e Desenhos de Paula Rego projectada pelo arquitecto Eduardo Souto de Moura se encontrava em exposição, revelando ser um edifício de implantação segura no local, marcado apenas por dois grandes volumes verticais que se erguem na paisagem. Destaca-se também a reabilitação da Fortaleza da Luz pelos arquitectos Cristina Guedes e Francisco Vieira de Campos onde, numa intervenção quase mínima, pretendem tornar os espaços do forte em espaços de contemplação e de introspecção, através de percursos circundantes e instalações de luzes que tornam a matéria viva e expressiva.

O Pólo da Cordoaria Nacional foi analisado com menos tempo do que o necessário, mas ainda assim se revelou uma exposição de bastante interesse sobre a actualidade das cidades portuguesas. Acima de tudo aquilo que ficou expresso através do longo percurso contínuo de imagens, desenhos e maquetas é que a arquitectura em Portugal está viva e que felizmente há um contínuo pensar sobre a cidade, mesmo que por uma pequena minoria de profissionais. Destacam-se projectos tão distintos como o pavilhão Multiusos de Gondomar ao novo Santurário de Fátima e do projecto de reabilitação da baixa do Porto às propostas urbanas para cidades como S. João da Madeira ou Santa Maria da Feira.

Em jeito de conclusão, há aspectos que se destacam nas exposições e que interessa reflectir. De uma forma geral aquilo que mais transparece nesta trienal dedicada aos “vazios urbanos” é uma atitude, já anteriormente comentada, de Horror Vacuí. Deste modo é frequentemente visível uma mesma atitude perante um vazio: dar-lhe forma. Mas será que um “vazio” não poderá ser caracterizado e usado enquanto ausência de massa tendo em si próprio uma função benéfica para a cidade? Tal como foi demonstrado na exposição do Canadá, os “vazios” são essenciais às cidades, à nossa vida, são essenciais por serem assim mesmo: vazios de massa mas cheios de conteúdo. Enquanto atitude de combate ao “vazio urbano”, os projectos holandeses demonstram uma posição extrema no que diz respeito à gestão desses mesmos “vazios”. De forma bastante objectiva e regrada são definidos “vazios urbanos” essenciais à cidade, assegurando funções especificas para cada um deles na tentativa de evitar situações de desordenamento urbano. Mas serão estas cidades, privadas de “vazios urbanos”, tão ou mais interessantes que as cidades convencionais, retrato de uma evolução histórica sistemática? Teremos de esperar para ver.

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por João Sousa