palavras da arquitectura / um olhar sobre a arquitectura contemporãnea / João Pereira de Sousa palavrasdaarquitectura@gmail.com


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Avenida dos Aliados

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A Avenida dos Aliados no Porto, traçada pela mão do inglês Barry Parker em inícios do século XIX e edificada segundo o arquitecto portuense Marques da Silva, desde logo tomou a designação do boulevard do Porto. Foi sem dúvida o maior espaço público urbano projectado na cidade invicta até então. Tratava-se portanto da avenida central da cidade, de gosto cosmopolita, ladeada por fachadas de edifícios ao gosto beaux-artiano, abrindo espaço para a renovação da cidade do porto, uma cidade burguesa.

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O Porto, ao contrário de cidades como Lisboa ou Coimbra, desde logo tem um carácter distinto que adveio da sua própria cultura mercantil e comercial. Tornou-se, por norma, numa cidade burguesa, onde grande parte da população vivia do comércio ou da indústria. Com a progressiva instalação de comerciantes ingleses na cidade em busca da riqueza das vinhas do Douro, o Porto iniciou a sua transformação para a cidade novecentista abrindo rumos para a criação de novos traçados urbanos e novos programas arquitectónicos. Surgem os Almadas que terão um enorme impacto na renovação e expansão da cidade e, através da influência inglesa começam-se a construir obras ao gosto internacional.

Aquilo que realmente distingue esta cidade das outras cidades portuguesas é a sua matéria. Ao contrário do que se encontra a sul do Mondego, no Norte de Portugal predominam os solos graníticos. Esta será desde logo a matéria fundamental para a construção da cidade. Assim sendo, a cor, a textura e o odor do Porto são de granito e não de qualquer outra pedra calcária. Com a construção da avenida dos Aliados, fez-se no Porto o que se fez em numerosas colónias portuguesas: importou-se um modo de fazer calçada em pedra, posteriormente referida como à portuguesa.

Posto isto, passemos à análise da Avenida dos Aliados:

O que existia antes?

Uma avenida edificada em inícios do século XIX, ao gosto internacional e ladeada de grandes edifícios de linhas orientadoras beaux-artianas. O ambiente da avenida e da praça era traçado pelo pavimento em basalto com os desenhos alusivos aos descobrimentos e à colonização, feito como um enorme mosaico que só a mestria de alguns pedreiros portugueses permitia que tal fosse possível. Os jardins e as árvores enriqueciam este ambiente tornando-o bucólico e simbólico da cidade através da estátua equestre de D. Pedro IV apontando para o Brasil.

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O que é que se encontrava naquele local antes da intervenção?

Uma avenida cada vez mais atravessada por pessoas, carros e autocarros. Os passeios agora desnivelados, pedras que já não existiam, jardins pouco cuidados. Uma faixa central pouco convidativa à deslocação de pessoas, usada maioritariamente para repousar mesmo entre o caos de táxis, autocarros e carros em constante passagem. Uma avenida que em dias de festa (S. João, passagem de ano, vitórias de clubes de Futebol) não conseguia conter o enorme fluxo de pessoas que aí se deslocavam, mesmo com as suas enormes dimensões.

O que era necessário fazer?

Necessitava-se revitalizar a baixa, fazer passar o metro por debaixo da avenida, dar uma imagem renovada e criar uma ordem em todo aquele espaço público. De forma a tornar o projecto coerente e valioso para a cidade, os dois arquitectos responsáveis (Siza Vieira e Souto de Moura) decidiram juntar-se e pensar as suas intervenções em conjunto.

O que existe agora?

O que se percepciona hoje em dia é uma avenida notoriamente urbana, bem regrada, feita para as pessoas, para os automóveis e para metro, permitindo de uma forma absolutamente nova visualizar toda a riqueza arquitectural dos edifícios que formam a fachada da avenida e que até então nunca tínhamos tido a percepção.
Transpondo esta ideia para o que se tem feito a nível europeu, existe um enorme interesse na remodelação de uma avenida como esta e com as dimensões que esta tem. O facto da faixa central estar livre permite que as pessoas não andem só pelos passeios laterais, mas que façam o seu percurso pela faixa central. Ao descer a avenida tem-se a percepção da Sé do Porto que se lança no céu, tem-se os enfiamentos das ruas transversais à avenida que mantêm a sua riqueza arquitectural, tem-se a noção de se estar num espaço urbano, rico em história e que privilegia o fluxo de pessoas permitindo que o tráfego de automóveis siga de forma contida e regrada. A nova avenida dos aliados torna-se assim num espaço não só funcional mas de criação. Torna-se num espaço de expressão artística, social e cultural, num espaço urbano no verdadeiro sentido do termo. A nova configuração da avenida permite, de uma forma nova, albergar toda a variedade de acontecimentos que acontecem regularmente e que não podem passar despercebidos pois fazem parte da cultura urbana do porto. À semelhança de outras cidades europeias, a existência de um grande espaço público central na cidade origina uma dinâmica urbana, permitindo diferentes acontecimentos sociais e culturais que incitam a uma interacção social mais rica e evidenciam a vitalidade da cidade. Tem-se assistido já a pequenos eventos novos nesta avenida que, de uma forma tímida vão sensibilizando os cidadãos para uma vivência maior daquele espaço urbano. Será este o caminho a seguir para que este espaço se torne realmente num centro social e urbano da baixa portuense, permitindo uma culturização das pessoas e uma maior permanência neste espaço público.

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No entanto, esta nova intervenção tem alguns aspectos ambíguos. A fonte que foi criada no eixo central da praça torna-se um elemento estranho à imagem geral da intervenção. Pretende ter um desenho minimalista, mas acaba por perder o seu sentido quando se observa de longe parecendo apenas um buraco. Apenas quando se está junto a ela é que se consegue percepcionar o seu desenho e a sua função. Também as duas estátuas já existentes a meio da avenida acabaram por ficar um pouco desnudadas pela falta de envolvência. No entanto evidenciam o alinhamento principal do eixo central da avenida. Em termos de mobiliário urbano considero a opção usada no topo da avenida uma mais valia para o espaço público pois, ao utilizar mesas e cadeiras semi-amovivéis, permite o agrupamento de pessoas naquele espaço. Ao mesmo tempo torna-se uma provocação ao bom senso e à responsabilidade dos cidadãos. Em termos de vegetação, os arquitectos limparam a praça central para permitir uma maior dinâmica nos usos da praça. Toda a vegetação rasteira foi retirada e acabou por se tornar vantajoso pois torna o espaço mais passível de ser utilizado de diferentes formas, limpando-o de barreiras físicas. Também se retiraram as árvores da praça central, plantando-se mais árvores ao longo dos passeios laterais agora mais largos e no topo da avenida junto à fonte. Torna-se também uma forma de ordenar o espaço público permitindo que as árvores cresçam desafogadamente e que criem espaços de sombra onde são necessários.

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Em suma, a intervenção na Avenida dos Aliados é acima de tudo uma posição de vanguarda perante uma cidade histórica e de fortes raízes com o passado. Os arquitectos tiveram a visão de criar um espaço com reais valores urbanos sem que caíssem na tentação de re-fazer o que já lá estava antes e que não resultava. Também é de salientar a opção da escolha dos materiais para a constituição dos pavimentos já que todos os pavimentos anteriores foram retirados. Numa cidade com um forte carácter como o Porto, a renovação da Avenida dos Aliados veio vincar ainda mais este ambiente citadino do Porto ao utilizar o material mais característico desta cidade e resolvendo-o a nível de desenho de uma forma bastante criativa e rica.

por João Sousa

Moderna Museet - Rafael Moneo

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A construção de obras novas num local com grande história e de pré-existências, exige sempre, por parte do arquitecto, uma grande sensibilidade e um saber que lhe permita projectar em conjunto com a paisagem, tornando a obra de arquitectura não como um objecto mas como uma membrana que estabelece ligações entre os diversos aspectos caracterizadores do local.
Quando o júri do concurso para o novo museu de arte moderna de Estocolmo nomeou o presente projecto como vencedor, não fazia ideia de que a pessoa por detrás do projecto seria um arquitecto não escandinavo, nomeadamente espanhol. Pois a forma como o projecto é concebido, em intrínseca relação com o lugar, com a cultura escandinava e com a luz da Suécia, denota uma especial sensibilidade e compreensão, como se o autor fosse nativo deste país. Tal poderá ter que ver com o facto de Moneo ter trabalhado em tempos com Utzon e de, na sua obra haver sempre algumas referências aaltianas.

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O Moderna Museet implanta-se na ilha de Skeppsholmen, uma das ilhas que formam a cidade de Estocolmo, junto ao edifício histórico Tyghuset, um antigo arsenal militar, tomando-o como referência para o desenrolar de todo o edifício do museu. Ao contrário da maior parte dos projectos a concurso, Moneo desde logo quis retirar destaque visual à sua obra, afastando-a na extremidade da ilha, envolvendo-a em torno de edifícios históricos, sendo então quase imperceptível a presença do edifício do museu na ilha. A forma como o edifício indicia uma existência e convida à entrada é feita através de uma pala que se solta do interior e se estende para fora até ao limite do edifícios vizinhos, permitindo uma primeira visão da obra de onde se avista um extenso vão vidrado que acompanha o grande espaço de circulação junto às salas de exposição. Uma vez no interior, o museu divide-se em duas partes, o Moderna Museet e o Arkitekturmuseet que se instala num dos edifícios pré-existentes ao qual Moneo encostou a sua obra. Desde logo, a partir da zona do foyer se tem uma percepção quase total do comprimento do museu. Na direcção da entrada encontra-se a zona da cafetaria, um espaço de especial interesse pela interacção que promove com o exterior e o rio, criando um ambiente relaxado acompanhado de uma esplanada que se projecta para o exterior. Dirigindo-se para as zonas expositivas, somos confrontados com um espaço alongado especialmente trabalhado a nível da iluminação natural, caracterizado por um vão a todo o comprimento que permite uma entrada de luz expressiva que vai caracterizar todo o espaço. É através deste local que se faz o acesso às diferentes salas expositivas e é a ele que se volta sempre que se sai de cada sala.

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Aquilo que realmente tem interesse abordar em termos de organização espacial do programa do museu é como o arquitecto resolveu toda uma série de percursos, tornando-os intuitivos e fáceis de percorrer. Ao criar 4 módulos de salas expositivas, Moneo recorreu a um elemento que as interligasse. É ele todo espaço do alçado sul que permite a criação de um percurso exterior às salas, dando-lhes acesso, facilitando a circulação. Quando finalmente se sai do último módulo de salas volta-se de novo a esse percurso, desta vez em direcção ao foyer, podendo deste modo fazer-se o regresso à entrada do museu sem ter de se passar outra vez pelas salas de exposição. O que confere uma nova dimensão de percurso, pois desta vez o visitante pode ter uma percepção de atmosferas diferentes, com uma forte interacção com o exterior.
Aquilo que pode ser considerado um elemento de novidade e uma forma criativa de criar os espaços do museu é a forma como Moneo organizou e formalizou as salas expositivas. Assim, foram criados 4 módulos que contém diferentes salas expositivas. O primeiro módulo, junto ao foyer constitui a sala de exposições temporárias. É então um espaço totalmente livre que permite uma certa flexibilidade. Aquilo que realmente caracteriza este espaço é a forma como foi trabalhada a luz. Através de um conjunto de lanternins que ocupam toda a superfície do tecto da sala, é possível a entrada de uma luz filtrada, permitindo uma iluminação homogénea de todo o espaço. Os 3 módulos seguintes partem da mesma ideia conceptual e materializam-se de formas semelhantes. Assim, como estes módulos se destinam a exposições permanentes, estão divididos em salas de diferentes dimensões que permitem uma certa flexibilidade em termos de ocupação. Assim, como cada módulo está encerrado para o exterior, a forma de permitir a entrada de luz foi, mais uma vez, através da utilização de lanternins para a entrada de luz zenital. Aquilo que vai caracterizar cada sala dos respectivos módulos é precisamente o desenho do lanternim. É esse o elemento de mais força e aquilo que realmente dá interesse ao espaço. Consegue-se criar então uma atmosfera de luz difusa que tem ligeiras nuances conforme as dimensões das salas e, consequentemente dos lanternins.

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Os lanternins tornam-se nos elementos de destaque e de caracterização do edifício a partir do exterior, pois como já foi referido, todo o edifício está praticamente tapado pelas construções antigas, denotando-se apenas o telhado com os seus lanternins. Moneo sabia que estes elementos seriam de facto aquilo que caracterizaria melhor o edifício e trabalhou-os de forma a terem uma expressão interessante de relacionando-se com a paisagem. O telhado do museu é então trabalhado em função dos elementos de entrada de luz. Aquilo que anteriormente seria um telhado plano sem expressão, tornou-se agora um conjunto de pequenas coberturas de quatro águas encimadas por um elemento vertical de entrada de luz, um pouco alusivo à cobertura da igreja vizinha. Assim, a visão externa do museu torna-se mais difusa e comunicativa com a envolvente pelo facto da linguagem ser semelhante.

O Moderna Museet em Estocolmo pode ser então considerado como uma boa forma de intervir num património natural e urbano, pela forma como se associa às pré-existências, reduzindo a sua notoriedade, mas conferindo espaços de interesse, mesmo albergando o programa extenso de um museu de arte moderna. A nível da solução espacial também é interessante a forma como os percursos foram pensados, nunca se repetindo um mesmo percurso, dando uma visão contínua do museu. A nível da solução de iluminação, esta tornou-se o elemento que acabou por caracterizar todo o edifício denotando-se um grande trabalho na forma como os lanternins se relacionam com o exterior e com o interior. No entanto, a intensidade de luz no interior não permite uma clara iluminação das salas, já que em Estocolmo a intensidade solar é bastante menor do que em Espanha. Foi então necessário recorrer à iluminação artificial de forma a complementar a intensidade luminosa. Não deixa, no entanto de ser uma obra com grande interesse e de certo modo inovadora pelos aspectos analisados.

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por João Sousa

la biennale di Venezia - 10. mostra di architettura (dia 2)

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O segundo dia de visita a Veneza estava destinado a ver a parte principal da exposição da Bienal de Arquitectura, com a temática das cidades. Sendo assim, chegados à zona do Arsenale, dirigimo-nos para a entrada da exposição que começava no edifício da cordoaria. Neste edifício estava a exposição principal da Bienal relativa às cidades, arquitectura e sociedade. Assim, ao longo do edifício eram analisadas um conjunto de 16 metrópoles segundo parâmetros geográficos, sociológicos, antropológicos, de planeamento, … Toda a exposição estava assim organizada segundo o eixo longitudinal do edifício da cordoaria, fazendo-nos caminhar sempre num sentido à medida que a exposição se ia desenrolando. Para cada metrópole eram apresentados os mesmos gráficos, mapas à mesma escala, instalações audiovisuais, fotografias diversas e projectos propostos para zonas específicas. Estiveram então em análise 16 metrópoles de todo o mundo: Mumbai (Índia), Tóquio (Japão), Cidade do México (México), São Paulo (Brasil), Cairo (Egipto), Nova Iorque (Estados Unidos), Shangai (China), Los Angeles (Estados Unidos), Istanbul (Turquia), Bogotá (Colômbia), Londres (Reino Unido), Barcelona (Espanha), Joanesburgo (África do Sul), Caracas (Venezuela), Berlim (Alemanha) e Milão (Iália).

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Esta exposição de enorme interesse, analisava exaustivamente cada cidade, apresentando índices de crescimento da população, onde se podia observar a forma como as cidades se desenvolviam, havendo uma clara distinção entre as cidades europeias e as asiáticas, por exemplo. Outro aspecto interessante de análise eram os tipos de malha urbana em cada cidade. Podia-se observar malhas bastante regulares e ortogonais como em Nova Iorque e ao mesmo tempo um tipo de expansão orgânica que se observa na cidade do Cairo. Era possível ainda observar cidades em que havia enormes discrepâncias a nivel de organização urbana e social tal como na Cidade do México, São Paulo ou Caracas e, ao mesmo tempo poderia-se comparar com as cidades asiáticas onde não há uma distinção social tão clara que afecte dessa forma a ocupação do território. Todos estes factores são condicionados por questões económicas, religiosas, políticas, de acontecimentos históricos, … e, vão-se reflectir na forma como as pessoas usam a cidade e, como a própria cidade se estrutura. Assim, dezenas de gráficos mostravam qual era a distribuição da população ao longo da cidade e dos tempos, que percentagem de meios de transporte usam, que índices de consumo energético apresentam, quais as emissões de CO2 per capita, a distribuição etária, a percentagem de literados, o crescimento do produto interno bruto, a esperança de vida, a mortalidade infantil, … Cabia então às pessoas presentes estabelecerem relações entre os vários exemplos apresentados e tirarem as suas próprias conclusões.

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Há então significativas diferenças nas cidades de cada continente que revelam uma ocupação do solo e uma utilização da cidade completamente distintas. Se por um lado na cidade de Los Angeles, 10% da população utiliza o transporte público, em Tóquio essa percentagem eleva-se a 75% da população. Se, cidades europeias como Berlim ou Milão apresentam ao longo de 50 anos uma tendência para baixar a população, cidades como Cairo e Shangai apresentam uma explosão demográfica que contrasta por completo com as duas anteriores e revelam modos de organização social completamente distintos. Em cidades como São Paulo ou Caracas é possível observar uma clara distinção social através de imagens que revelam torres de habitação luxuosa rodeadas no piso térreo por uma topografia de telhados baixos de construções ilegais que se extendem por diversas áreas da cidade. Ao mesmo tempo, em Bogotá é impressionante a ocupação de favelas que existe em todo o terreno circundante da cidade, criando uma nova paisagem humanizada. Na cidade do México imagens impressionantes mostram como as pessoas comuns vivem, em territórios sem fim, marcados por ruas paralelas que separam e organizam as fracas construções de tijolos e chapa. Também em Joanesburgo é notória a forma como as pessoas vivem em enormes blocos de habitação que pontuam a cidade em extensos conjuntos dormitórios. Em tóquio destaca-se a problemática da poluíção visual e da sobre-ocupação do espaço da cidade, conferindo-lhe o estatuto de cidade mais cara do mundo. E a cidade de Istanbul que se encontra no limiar da Europa e do Médio Oriente que, por um lado se quer adaptar aos modelos europeus, mas que terá talvez mais relações com outras cidades muçulmanas.

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Após se percorrer esta exposição extensa e, no final, cansativa, dirigimo-nos para o pavilhão de Itália que continha uma exposição de um worpshop realizado com arquitectos italianos para a concepção de uma cidade utópica, remetendo primeiro para uma aproximação temporal sobre os variados exemplos de cidades útopicas concebidas ao longo da história. Assim, ao longo desta exposição eram apresentados separadamente os projectos de cada equipa que se situavam em fragmentos da malha da cidade e, que no final culminava na maquete do conjunto da cidade com todos os projectos inseridos pretendendo dar a noção da cidade utópica. No entanto, aquilo que se salientava era o contraste entre cada uma das propostas, mais do que a percepção do conjunto formado não por uma ideia de cidade, mas por fragmentos, de intervenções que se consolidavam num território.

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Outras exposições mostravam ainda projectos de concursos internacionais como por exemplo o ‘METRÒ-POLIS’ onde os participantes desenvolveram projectos para uma estação de metro em duas cidades italianas, onde se destacava a proposta de Álvaro Siza e Eduardo Souto de Moura pelo contraste formal com as outras propostas.

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No remate final da exposição do Arsenal encontrava-se discretamente o pavilhão da China. Composto por uma superfície inclinada de telhas cinzentas tradicionais, suportada por uma estrutura em bambú e um percurso que levava as pessoas até ao centro dessa superfície. Esta peça destacava-se pela sua subtileza no tratamento formal e na sua relação com a paisagem envolvente, havendo quase como que uma união entre o elemento artificial e os elementos naturais. Esta intervenção era uma clara provocação à exposição dos pavilhões da Bienal, onde cada país apresentava o que de mais avançado e melhor tinha no seu país. Neste pavilhão os autores não pretendiam mostrar os avanços ténicos e tecnológicos presentes nos edifícios chineses mas, pretenderam demonstrar como é possível utilizar uma tecnologia tradicional, simples e barata para a construção de espaço e paisagem.

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No final a Bienal de Arquitectura foi extremamente positiva pela forma como foi tratada toda a exposição sobre as cidades, fazendo-nos reflectir e permitindo um ensinamento global de cidades tão distintas e distantes. Pelo facto da exposição “Habitar Portugal” não estar enquadrada nos recintos da Bienal, foi extremamente difícil de chegar à casa que a albergava pelo que, uma vez lá chegados estava já encerrada. Assim, concluimos que são necessários mais do que dois dias para se poder ver toda a Bienal, no entanto não deixou de ser extremamente interessante e será uma experiência claramente a repetir.

www.labiennale.org/it/architettura/ www.venicesuperblog.net/

por João Sousa

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Depois de ter sido bastante estudado e experimentado nos anos 60, os contentores voltam a dar que falar actualmente sobre a cidade e o habitar. Será apenas uma moda? Ou poderá realmente tornar-se num método de fazer cidade ou de responder à vida cada vez mais nómada do Homem?

A reflexão e experimentação sobre o habitat móbil e modulável não é nenhuma novidade. Nem sequer a ideia do cidadão nómada. Estas duas noções foram até bastante exploradas durante os anos 20 na França. Nessa altura, o construtor de automóveis Gabriel Voisin publicou anúncios sobre casas móveis, que poderiam ser transportadas por camiões, prontas a habitar em 3 dias após a encomenda. Mas na Europa, esse tipo de casa nunca alcançou um grande sucesso, ao contrário dos Estados Unidos, onde certas cidades foram e continuam a ser unicamente constituídas de casas móveis em madeira.

Foi necessário esperar até aos anos 60, através da criatividade do grupo Archigram para que renascesse o interesse pelo habitat modulável e móbil. Este colectivo de arquitectos desenvolve as noções de Plug-in City, Walking-City e Instant-City ligadas ao conceito de mobilidade espacio-temporal que se reflectem em projectos mais no domínio da ficção-científica que do planeamento urbano, tentando dar novas ideias aos planeadores de cidade, fazendo-os reflectir sobre novos territórios urbanos.

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O habitat modulável manteve-se desde então esquecido até há alguns anos atrás que uma série de ateliers de arquitectura e artistas decidiram voltar a apostar na ideia de habitat nómada e modulável. Assim, nos Estados Unidos, o atelier Jones & Partners propõem um sistema chamado “Pro/Com package Home”, baseando-se sobre contentores que poderiam ser encomendados conforme as necessidades de cada proprietário. Podendo-se criar assim uma diversidade de casas-contentor, associando vários contentores em formas mais ou menos funcionais. Por outro lado, o atelier americano LOT/EK Architecture vai-se basear na utilização massiva de contentores desenvolvendo, para isso, um sistema estrutural que pudesse encaixar um número diverso de elementos aos quais poderiam ser dados diversos usos que não só o de habitat. Surge então a noção de Cidade-Contentor.

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Este atelier cujo nome remete para “low tech” ou em português “baixa tecnologia”, é constituído por dois arquitectos italianos Ada Tolla e Guiseppe Lignano, tendo sede em Nova Iorque. Fortemente ligados entre arquitectura, design e arte, estes arquitectos desenvolvem as suas investigações em torno da reciclagem urbana e da transformação de produtos industriais. Os arquitectos procuram, assim, possibilitar a criação de um habitat funcional, propondo novos esquemas programáticos, aliados às novas tecnologias, procurando sempre encontrar soluções adaptáveis à realidade do nosso século.

Na base da sua pesquisa sobre o habitat, os arquitectos criaram uma unidade de base chamada “Mobile Dwelling Unit” (MDU). Esta unidade, bastante baseada em conceitos desenvolvidos por Le Corbusier, ocupa um espaço numa estrutura adaptada a uma sociedade global, conferindo-lhe a particularidade de ser móbil. Assim, os LOT/EK reportam-se para um elemento base da nossa sociedade industrial que utiliza estes dois conceitos: o contentor. Este módulo de habitação tem a volumetria de um contentor, expandindo-se quando está a ser usado e recolhendo-se para as medidas standard internacionais de transporte marítimo quando se pretende transportar. Uma vez que se pretende fixar o módulo, este vai-se integrar numa grelha (MDU Tower), equipada de elevadores, escadas, electricidade, água e sistemas de controlo de aquecimento, luz, ventilação e telecomunicações. O CHS “Container Housing System” pode ser materializado de diversas formas seguindo duas direcções: a vertical e a horizontal, cada uma com vantagens e inconvenientes. A estrutura vertical necessita que cada contentor se monte em cima do anterior para formar uma estrutura auto-portante, que poderá atingir alturas variáveis, podendo-se ainda deslocar os contentores horizontalmente, permitindo a criação de espaços exteriores públicos ou privados. A estrutura horizontal permite que os contentores possam ser dispostos mais livremente já que cada elemento é por si só estável, permitindo uma composição mais aberta, dando mais liberdade formal.

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Estas propostas apresentadas pretendem ser algo que nos permita reflectir sobre novas formas de ocupação e mobilidade urbana, de como é que as metrópoles e as megapolis poderão evoluir de forma a responder a um contínuo crescente de novos cidadãos e ao mesmo tempo, de como proporcionar uma relação global entre diferentes pontos do planeta. Poderá ser esta uma solução para o futuro? Teremos nós de enfrentar a problemática do habitat urbano de uma tão funcional que nos obrigue a viver em Cidades-Contentor? Deixo estas questões em aberto.

www.lot-ek.com

por João Sousa

a cidade e as bicicletas

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As cidades evoluem e, se há uma forma de perceber essa evolução é constatar a forma como as pessoas se deslocam na cidade. As bicicletas, como se pode ver neste documentário são um dos meios mais práticos, seguros e limpos de se deslocar dentro das cidades. Isto tudo associado a um sistema de transportes bem distribuído e regular, permite que uma cidade seja plenamente usufruída sem a necessidade caprichosa do carro privado.

Após ter estado em Copenhaga e em Amsterdam é notório o contraste destas cidades para com as cidades do sul da Europa, neste caso Portugal. Há um número insignificante de viaturas automóveis nas ruas e por conseguinte, o meio de transporte mais utilizado é a bicicleta. Os centros das cidades sofreram uma reestruturação ao nível dos transportes, sendo apenas permitida a passagem de pessoas e bicicletas, deixando os carros fora dos centros em numerosos parques de estacionamento subterrâneos. Isto resulta numa ocupação dos centros muito mais civilizada e de respeito para com os valores históricos, permitindo que as pessoas se desloquem em meios não motorizados, fomentando a interacção social e a diversidade. Os dois exemplos localizam-se em topografias planas, o que por um lado favorece a utilização das bicicletas, no entanto isto só é possível através de uma forte aposta política na mentalização das pessoas de que este é um meio perfeitamente subsistente e acima de tudo, que será o meio preferencial de se deslocar em cada vez mais cidades dentro de alguns anos.

Transpondo a situação para o nosso país, o que nos diferencia não se trata de uma questão de topografia ou de clima. É uma questão social, política, de planeamento e de ’status’. Um português não anda de bicicleta a não ser ao domingo, para fazer desporto e mostrar a sua boa aparência. O problema nem é chegar cansado ao trabalho pelo facto de ter feito umas subidas e descidas, trata-se de que em Portugal só anda de bicicleta diariamente quem não tem dinheiro para ter carro e/ou andar de transportes públicos. Nunca aqui se vê nenhum homem de negócios a dirigir-se com o seu computador portátil, de bicicleta para o seu escritório xpto no 34º andar de uma torre na zona mais in da cidade, com vistas para o mar. Porque? Porque em Portugal essa caricatura não encaixa no perfil de uma pessoa com esse estatuto!

O que se vê em cidades como em Copenhaga, Munique, ou mesmo Viena é uma grande diversidade social que se desloca em bicicleta, sem preconceitos ou juízos de valor sobre o facto de irem num meio de transporte em que eles mesmos são a sua força propulsora. Só assim se torna possível observar pessoas que vão trabalhar vestidos de fato, ao lado de crianças que vão para a escola, que seguem atrás de alguém que vem do supermercado ou algum turista de passagem, todos eles em bicicleta e deslocando-se em vias criadas para esse propósito, separados dos automóveis e desfrutando ao mesmo tempo de aspectos da cidade que se tornam únicos ao serem percorridos de bicicleta.

À questão do ‘status’ social que inibe as pessoas de se deslocarem em bicicleta em Portugal, acrescenta-se a inexistência de uma política de incentivo para o uso das mesmas. Neste país raros são os exemplos onde governos ou autarquias incentivam o uso de bicicletas através da criação de condições e estruturas para que os ciclistas se possam deslocar seguramente e sem o contacto directo com os automóveis. Nos casos em que estes incentivos são incrementados (Aveiro, por exemplo), acontece usualmente uma infeliz falta de civismo e de respeito pelo domínio público que deriva por um lado de uma fraca adesão inicial da população a este meio de transporte e por outro a uma falta de educação no que diz respeito à aceitação e promoção de novas iniciativas públicas urbanas.

Assim, encontramo-nos neste impasse onde queremos a todo o custo não sermos considerados um país na cauda da Europa mas, ao mesmo tempo não somos capazes de nos reinventar, de pararmos e fazermos um ponto de situação e de evoluirmos de forma a melhorar as nossas condições de vida. Esta questão não pertence a um único domínio público mas diz respeito a todos nós e, são os cidadãos que devem acima de tudo tomar a iniciativa e exigir melhores estruturas ciclo-viárias, políticas de despromoção do automóvel nas cidades e demonstrar que estão interessados em se actualizar. É um trabalho não só do âmbito político mas principalmente do âmbito sociológico e do planeamento urbano e, são os arquitectos, os urbanistas e outros intervenientes directos no meio público, que são responsáveis pela promoção, desenvolvimento e implantação de mudanças na evolução natural das nossas cidades para que possamos cada vez mais melhorar a nossa qualidade de vida, ao mesmo tempo que preservamos o ambiente.

por João Sousa