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Serpentine Gallery Pavilion 2009, SANAA

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Os que tiveram a oportunidade de passar por Londres durante o Verão e até ao final de Outubro, tiveram a oportunidade de visitar o mais recente pavilhão da Serpentine Gallery. Tendo tido a oportunidade de usufruir diversas vezes desta obra, venho deste modo, estabelecer uma análise das impressões que foram sendo recolhidas in loco, sobre a forma e a função de uma arquitectura que através de uma simples ideia, se transforma numa experiência única da percepção de um espaço construído, em simbiose com o jardim envolvente.

O desenho de um pavilhão é, antes de mais, um desafio. Propor a um arquitecto a criação de uma pequena estrutura efémera, construída a baixos custos e que se possa tornar num ícone temporario do local onde se implanta, é algo que à partida parece simples, mas que se revela extremamente complexo com o desenrolar do projecto. A problemática aqui centra-se sobretudo em como fazer muito com pouco. Ou antes, entenda-se, em como fazer algo extraordinário através de um pequeno e subtil gesto. A iniciativa da Serpentine Gallery em Londres tem sido de grande importância para o desenvolvimento de um pensamento e de uma linguagem arquitectural, associada não só à contemporaneidade, mas enquanto paradigma da obra do seu autor. É desta forma que, um grupo de arquitectos reconhecidos em todo mundo, tem tido a oportunidade de construir no Reino Unido, abrindo novas fronteiras à sua obra e acima de tudo, aproximando a sua obra de um público amplamente vasto.

No entanto, pondo de parte a questão da divulgação e promoção da Arquitectura e de determinado arquitecto, esta ideia de construir um pavilhão temporário de verão, que vem sendo desenvolvida ao longo de alguns anos, tem trazido algumas experiências interessantes em torno da prática arquitectónica contemporânea. Pois aqui, para um local que tem sido constante a cada ano, temos assistido a uma série de propostas que, pela sua multiplicidade de ideias, tem servido para aguçar o parecer crítico tanto dos arquitectos como dos cidadãos, em relação à obra de Arquitectura. Vamos assistindo assim, à construção de uma colecção de Arquitectura, que a cada ano, vagueia entre intenções minimalistas e provocações puramente formais. No entanto, contendo mais ou menos condimentos, aquilo a que temos assistido aqui é, acima de tudo, à evocação de uma imagem com a assinatura de tal Arquitecto e que quase invariavelmente tem trazido algo de novo ao panorama arquitectural ou ao próprio portfolio do seu autor.
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O pavilhão que este ano foi elaborado pelo atelier SANAA de Kazuyo Sejima e Ryue Nishizawa traz, a meu ver, um interessante exemplo daquilo que estes arquitectos têm já desenvolvido ao longo da sua obra. A sua proposta para um pavilhão de jardim é tão somente a definição de uma superfície coberta, que se desmaterializa através da uma relação constante com o que a envolve. Uma ideia tão simples e porém, tão susceptível de ser destruída ao mínimo erro. Isto porque, como temos verificado inúmeras vezes, é na síntese que tudo se torna mais complexo, através da abolição dos aspectos superficiais ou mesmo ornamentais. A síntese é atingida quando o outro entende a nossa mensagem de uma forma clara e directa. Não querendo afirmar que tudo deverá estar exposto à partida, entende-se que pelo menos as intenções do projecto deverão ser efectivamente claras para que as pessoas consigam usufruir da Arquitectura, ao mesmo tempo em que esta se torna invisível.
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A questão põe-se então, em como construir algo que tão levemente se suporta num terreno e em como de uma forma tão natural, essa mesma estrutura possa ser permeável a tudo a que a envolve. Colocando a questão de outro modo, como poderemos nós projectar uma arquitectura transparente? É a esta questão primordial que, entendo eu, os arquitectos visionaram a sua obra e que claramente atingiram o seu objectivo. Mas, perante esta questão complexa, não se pense que as soluções deverão ser elas próprias extremamente complexas, ou mesmo ridiculamente básicas. Isto porque esta interrogação levanta essencialmente dois problemas: seja a realização de uma transparência visual como, por outro lado a (in)definição de uma transparência física. A transparência visual, é vulgarmente atingida através do uso de materiais cujas propriedades principais são, obviamente, a transparência. A própria transparência física, mais complexa, requer uma maior reflexão, mas também ela é possível de ser atingida através de um desenho que se conjugue totalmente com aquilo o que o rodeia. Neste caso, estas duas noções são trabalhadas de uma forma bastante clara e que provavelmente qualquer pessoa poderá tirar essas conclusões. O pavilhão não se encerra, como também quase que desaparece por entre as árvores que o envolvem. Isto porque os autores, inteligentemente, decidiram introduzir um outro factor de complexidade: o reflexo. O reflexo é aqui entendido não só como forma de duplicar tudo aquilo que se acerca como, é através deste que o pavilhão se torna permeável a tudo o que o envolve. Através do reflexo, a estrutura construída funde-se com a paisagem, torna-se incolor e de certa forma, atinge um grau de subjectividade que fez despertar a atenção.
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Ao escrever sobre esta obra, reflicto também sobre a recente obra de Eduardo Souto de Moura e Ângelo de Sousa para a 11ª Bienal de Arquitectura de Veneza. Curiosamente uma obra também ela efémera e que partilha de uma mesma ideia: o reflexo como forma de tornar uma superfície permeável ao que a envolve. No entanto, em Veneza o reflexo duplica uma realidade de uma forma quase abstracta, enquanto que em Londres, o reflexo é usado como forma de tornar permeável uma estrutura construída através da duplicação do ambiente envolvente. Esta ideia de permeabilidade surge aqui, de duas formas que me parecem interessantes salientar. Seja de uma forma visual, em que o edifício se desmaterializa no seu contexto, tornando-se quase invisível. Seja através do desenho formal do edifício, que não impõe limites físicos na sua implantação.
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Ao desenvolver o pavilhão apenas através de uma cobertura que se suporta num conjunto de pontos dispersos pela área do jardim, os arquitectos conseguem, assim, que a estrutura possa ser apropriada de uma forma bastante natural, tanto pela paisagem, como pelas pessoas, contrariando assim a ideia de pavilhão-caixa. É então, pela indefinição de limites físicos e visuais, que esta obra consegue, a meu ver, concretizar a ideia de transparência na sua relação para com o visitante e a envolvente existente. Agora restam apenas as memórias e claro os registos fotográficos.

João Pereira de Sousa

a casa que não se vê

“A origem da arquitectura não está na caverna ou na mítica ‘Casa de Adão no Paraíso’: antes de transformar o esteio em coluna, a cobertura em coluna, a cobertura em tímpano, antes de pôr pedra sobre pedra, o homem pôs a pedra sobre a terra para reconhecer o lugar no universo desconhecido, para medi-lo e modificá-lo.” (p. 101)

A Arquitectura não pode existir sem programa e sem propósito. Tanto é que sem condicionalismos, uma obra de arquitectura torna-se obsoleta à partida, não passando de uma mera construção. Será, pois, através da mão do arquitecto que uma ideia se poderá materializar e que de um simples pavilhão se poderá definir um espaço de habitar. É aquilo a que se pode designar de Poética na Arquitectura: a capacidade de transformar algo, atribuindo-lhe um campo de significados que transcendem a matéria física de uma obra. A Arquitectura surge assim, do programa e da ideia, mas vive através da sua materialidade e poética.
A habitação (ou o habitar) é a razão da Arquitectura. Uma obra de Arquitectura só faz sentido quando é pensada nos termos da sua habitabilidade. Dessa forma, por mais pequeno e (aparentemente) simples que seja, o tema da casa unifamiliar é uma questão central da prática e estudo da Arquitectura

Refiro-me a este tema uma vez que me interessa estabelecer uma reflexão sobre as casas em Caminha projectadas pelo arquitecto Sérgio Fernandez, a partir do livro Só nós e Santa Tecla”, recentemente editado pela Dafne Editora. Assim, desde logo surge uma questão que interessa abordar: Poderá a Arquitectura ser entendida através de palavras? Após me ter deleitado com a leitura deste livro, posso afirmar com segurança de que sim. A poesia na Arquitectura poderá expressar-se através de um esquisso, de uma representação ortogonal ou mesmo, ao longo das 173 páginas de um livro repleto de reflexões e de memórias subjectivas, sobre uma obra que marcou uma geração de arquitectos e que em boa altura se volta a destacar. Esta subjectividade nas análises e nos discursos dos diferentes intervenientes deste livro é, para mim, essencial no entendimento dos significados desta Arquitectura. É na subjectividade e na experiência de cada autor que o leitor vai desenvolvendo uma imagem mental destas casas e que, por breves instantes, imagina mesmo que já a habitou, mesmo que nunca lá tenha estado.
Digo eu, que esta é uma casa que não se vê, mas que se sente. Na verdade, a casa não foi pensada para ser vista, mas antes, surge enquanto espectador na paisagem, como uma plataforma que cria um diálogo com a envolvente, acabando por desaparecer. É neste “esquecimento” da casa que se referenciam as suas virtudes. Ela é um objecto quase metafísico, que ao mesmo tempo “constrói a textura da paisagem” (p. 29) e faz com que nos sintamos moradores desse mesmo entorno. E, desta forma, perante o sufoco que seria apreender a vista do horizonte de forma declaradamente moderna (em “cinemascópio”), a presença desta “cenografia” é devidamente “filtrada e sucessiva, convidando o espectador a procurá-la, a sair e puxar o estar para o logradouro” (p. 49). Aqui as janelas enquadram o horizonte tal como a secção do corredor das alcovas enquadra justamente aquele falso Miró.

fotografia de Luís Ferreira Alves

“Se pensarmos bem, isto é, se pensarmos várias vezes testando e experimentando o pensamento, voltamos sempre à origem: uma-casa-no-cimo-de-um-monte-voltada-para-um-mar-onde-o-Sol-imerge. O imperativo da paisagem que origina a casa, que a domina, que fantocheia o humilde arquitecto penitente e submisso ao gesto aparentemente incontornável: o projecto assenta fundamentalmente na ideia de paisagem. Poderia ser de outro modo?” (p. 63)

A particularidade funcional destas casas é a forma como se promove uma vida comunitária, justificada pelo contexto socio-cultural em que se vivia na altura. De facto, quase podemos dizer que estas casas são um prenúncio de uma revolução ideológica que ainda estava por acontecer. E neste sentido, as casas de Caminha são de facto uma “renovação” do pensar e do viver modernos no Portugal da ditadura. É este “realismo” da obra que podemos encontrar na forma como se tratam os contextos externos e se organiza programaticamente o seu núcleo. Do aparente tradicionalismo (ou das lições da Escola do Porto) exterior, apercebe-se um interior de contornos modernos. Há uma continuidade dos espaços internos que torna toda a casa percorrível e habitável. É essa mesma continuidade que se encontra na relação interior/exterior, onde o logradouro não é mais do que uma extensão dos espaços sociais da casa, desta vez descobertos. A própria forma como se desenham os espaços de dormir, as alcovas (ou “armários de dormir”), é um reflexo deste pensamento projectual, onde o arquitecto estabelece uma relação de continuidade dos espaços, de forma a promover as relações inter-pessoais. Do quarto apenas lhe resta a função de dormir e na casa o interesse está nas relações sociais e da paisagem. Tudo está reduzido ao mínimo. É o essencial.

Deste modo, porque a Arquitectura não se esgota na sua forma e função, este livro (que tenho vindo a citar) é uma confirmação de como os espaços que se projectam são muito mais do que simples linhas no papel ou do que as paredes que os encerram. De facto a Arquitectura só faz sentido enquanto é vivida e experienciada. O resultado encontra-se assim registado neste livro, através das mais diversas abordagens e experiências. São essas impressões, mais ou menos nítidas, com maior ou menor subjectividade, que nos permitem realmente entender o propósito de uma arquitectura que, desta forma, dificilmente se explica por poucas palavras.

fotografia de Inês d’Orey

“Da acção do arquitecto espera-se, pois, o desenho de um marco habitável – não existe arquitectura sem projecto, não existe projecto sem memória, não existe memória sem ideias, não existe arquitectura sem habitante.” (p. 124)

Todas as citações deste artigo foram retiradas do livro “Só nós e Santa Tecla”

João Pereira de Sousa

Da Arquitectura Sustentável

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A sustentabilidade, como noção ecológica, veio para ficar. Por necessidade, por moda ou porque se pretende pensar dessa forma, a noção de sustentabilidade ecológica aliada à arquitectura faz já parte do nosso dia-a-dia. Enganem-se aqueles que julgam que me refiro ao uso de tecnologias complexas ou de materiais altamente tecnológicos. A “sustentabilidade” só é sustentável através da sua simplicidade, pela forma como, com poucos recursos se consegue materializar uma construção que funciona, que dura e que certamente continuará a funcionar na perfeição, não dependendo dos numerosos factores externos que são imprescindíveis à maior parte das nossas casas. Algures numa entrevista, Eduardo Souto de Moura vê-se confrontado com a questão sobre a sustentabilidade e, de uma forma bastante segura afirma que a “sustentabilidade” deveria ser algo intrínseco à obra de arquitectura. Da mesma forma que a arquitectura pretende responder a problemas sociais e funcionais, deveria por si só ser sustentável. É esse o seu propósito. Sustentável a nível económico, ambiental, funcional, etc. A noção de sustentabilidade é plural e como tal interessa saber a que se refere e de que forma se comporta na relação com a arquitectura.

Tendo já tido alguma formação em bio-arquitectura e construção sustentável, não deixo de estar interessado em evoluir os meus conhecimentos nesta matéria e por isso mesmo já há uns meses que vou mantendo um link aqui no blog para outro blog de grande interesse pelo nome de: Casa em Arruda dos Vinhos – Diário de Obra da Autoria do Plano B Arquitectura. Ora este blog, antes de mais, é uma excelente fonte de informação (e de formação) sobre construção (sustentável), baseada na apresentação ilustrada e descritiva das fases de obra de uma casa projectada pelo atelier Plano B Arquitectura. Raro em Portugal, este atelier tem no seu currículo uma série de projectos cuja matéria prima é a terra ou a madeira aliadas a métodos de construção tradicional. Esta aproximação à arquitectura através da sua simplicidade e eficácia dos métodos construtivos constitui uma vertente sobre a qual este atelier procura trabalhar, desenvolvendo uma arquitectura com uma finalidade ecológica.

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A Casa em Arruda dos Vinhos, a qual tenho vindo a acompanhar através do seu blog, é bastante interessante pelo facto de se partir de uma construção em madeira com paredes em tabique e adobe, aliada a materiais contemporâneos como o policarbonato, o aço e o betão, dando origem aqui a uma grande riqueza espacial, aliada à sua simplicidade formal. Outro aspecto aqui interessante é o facto dos próprios arquitectos participarem na obra e de serem eles também os que contribuem para a tornar real, participando na prática de construção, demonstrando que o arquitecto tem de ir para além dos seus desenhos e das suas idealizações, concretizando-as com as suas próprias mãos.

Este projecto trata-se de uma reconstrução a partir de uma ruína existente. Como o terreno se encontra em reserva ecológica, qualquer intervenção deveria ser feita apenas no perímetro da antiga construção. Como tal, os arquitectos propuseram uma reconstrução, abolindo a ruína mas suportando-se dela para as fundações da nova casa. Assim, de uma forma quase natural se substituíram as paredes de pedra antigas por uma estrutura em madeira de eucalipto cuja volumetria veio igualar a anterior, conforme os regulamentos. Esta simples habitação unifamiliar é composta por um espaço amplo com cozinha e sala com uma organização livre e uma instalação sanitária encerrada.

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O uso de técnicas construtivas (ditas) tradicionais e o uso de materiais orgânicos na materialização da estrutura da casa foi desde sempre a necessidade para a materialização deste projecto. Partindo da estrutura de madeira que definiu a forma geral do edifício, as paredes foram enchidas com adobe num sistema de tabiques de forma a gerar uma grande inércia térmica. Do lado exterior a parede recebeu ainda um revestimento de placas de aglomerado de cortiça com 5 centímetros de espessura, de forma a isolar eficazmente as pontes térmicas, seguido do revestimento final com placas de policarbonato ondulado contra a penetração de água a partir do exterior. O revestimento interior é conseguido através da textura deixada pelo sistema de tabique com o adobe, sendo que posteriormente foi pintado de branco. Assim, através de uma secção de parede bastante simples e económica se conseguiu estabelecer um sistema eficaz de isolamentos permitindo que o ambiente interior da casa permaneça o mais estável possível.

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Fica então aqui a sugestão de visita do blog Casa em Arruda dos Vinhos – Diário de Obra da Autoria do Plano B Arquitectura.

por João Pereira de Sousa

Watercube, PTW Architects + ARUP Australia

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Da forma como a informação se processa hoje em dia, através dos mass media e da internet, as imagens são cada vez mais um processo de comunicação imediato. A arquitectura não está alheia a este facto e isso é claramente visível nos mega-projectos que se suportam de imagens altamente elaboradas e estudadas minuciosamente como forma de marketing aliado à comunicação da arquitectura. Nesta cultura imagética dificilmente ficamos alheios à tentação da representação gráfica. É através dela que os arquitectos se expressam e é através dela que uma linguagem técnica se desmaterializa de forma a abranger públicos-alvo. Assim, torna-se extremamente difícil a apreciação, entendimento e crítica de determinado projecto ignorando as imagens síntese que constantemente nos assombram (para o bem e para o mal). E se dizemos vulgarmente que uma imagem vale mais do que mil palavras, por vezes são necessárias milhares de palavras para dissecar e justificar essa imagem.

O Watercube em Pequim é uma obra que deverá ser analisada muito para além das imagens de apresentação. Se por um lado se consegue comunicar um conceito forte e uma iconografia através de uma imagem, por outro essa imagem consegue ser quase dispensável quando começamos a entender as ideias e os processos criativos por detrás desta obra. Mais do que aquilo que à partida transparece, o Watercube é uma obra que parte de uma ideia única que é trabalhada exaustivamente de forma a construir toda a complexidade programática, aliada a uma consciência local que transparece finalmente em toda a estrutura edificada. Mais do que a criação de um ícone, interessa aqui dissecar e analisar um processo criativo que parte de um conceito básico que é elaborado de forma a constituir uma obra altamente coerente e merecedora de uma atenção especial.

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Enquanto centro de desportos aquáticos o Watercube parte da ideia de água como motivo temático e estrutural onde ao contrário das estruturas de desporto tradicionais, apoiadas sobre pilares, vigas e cabos aplicando-se posteriormente uma pele, aqui o conceito, a estrutura e a pele são o mesmo elemento. Interessa neste caso salientar então a forma como se re-aplicam conceitos tradicionais da construção num edifício completamente novo. Deste modo, tal como na arquitectura tradicional, a forma está directamente relacionada com a estrutura sendo que tudo o que é fachada é auto-portante e portanto nada é acessório e tudo o que existe tem uma função. Ainda, a forma como se processa este edifício está directamente relacionada com um pensar e uma cultura chinesas. Desde a forma primitiva da casa quadrada, presente na tradição chinesa, à ideia da água como símbolo de prosperidade e à dualidade que estabelece com o estádio projectado por Herzog & DeMeuron, onde este é fogo (ou masculino) por oposição à água (ou feminino), alusivos ao yin-yang, são aspectos que se traduzem numa busca que vai para além de mero um desenvolvimento formal, onde aqui se procurou que o conceito inicial estivesse presente em todas as fases do processo de projectação.

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Assim, partindo de uma concepção claramente tecnológica e de grande complexidade, o Watercube é ao mesmo tempo um edifício poético, quase surreal, que se vai descobrindo aos poucos. E de forma a conseguir transmitir esta ideia de um bloco de moléculas de água, a tecnologia revelou-se essencial, tendo sido desenvolvida maioritariamente pela equipa da ARUP. A forma encontrada para construir o edifício e a sua imagem parte essencialmente da geometria de Weaire-Phelan, composta por duas células tetraédricas diferentes que se repetem indefinidamente. Através de um processo simples de cortes neste conjunto geométrico, aparentemente aleatório, chega-se a um bloco quadrangular completamente sustentável através da sua geometria. Deste modo foi possível prever ainda em fase de concurso a exequibilidade do projecto apoiado num sistema estrutural racional e único, onde a imagem virtual conseguiu ser altamente fiável em relação ao resultado final.

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Muito mais que um exercício formal, desde o início do processo se denota uma preocupação com a a forma de construção do edifício, com a matéria e a sua forma de funcionamento. Deste modo, esta obra teria que funcionar como uma estufa isolada termicamente que absorvesse a radiação solar e evitasse as fugas de calor. Ao mesmo tempo os projectistas queriam utilizar ao máximo a luz natural e minimizar os reflexos na água e as reverberações de som. A partir destes requisitos, o uso da película polímera ETFE foi a solução material mais indicada para revestir toda a pele exterior e interior do edifício conferindo à obra a imagem evanescente planeada em fase de concurso. Desta forma a passagem do virtual ao material é conseguida graças à tecnologia de construção que chega ao ponto de traduzir literalmente a imagem conceptual sem desvirtuar o processo de trabalho nem o funcionamento do edifício. Aqui o edifício assume-se como uma “natureza artificial” em que se parte de um fenómeno natural para construir o artificial baseado nos mesmo aspectos e características mas com um aumento da escala. No final aquilo que se projectou e construiu foi ao mesmo tempo um reflexo dos processos da natureza trazidos para a prática arquitectónica onde o resultado funcional e formal adveio de um único processo que se traduz em toda a obra.

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Como conclusão será interessante citar sobre este tema o discurso de Michael Wienstock aqui traduzido para espanhol: “Se intuye un cambio de sistema, donde la frontera de lo “natural” y lo “manufacturado” ya no existirá. La interacción compleja entre forma, material y estructura de los sistemas materiales naturales ha generado nuevos procesos industriales “biomiméticos”, generando materiales innovadores de alto rendimiento. (…) En la escala de grandes proyectos arquitectónicos, el énfasis sobre el proceso se convierte no sólo en reducir los datos de diseño para la construcción. Las estrategias Biomiméticas que integran forma, material y estructura en un único proceso son tomadas de la nanoescala para diseñar y construir grandes edificios”. Valerá sempre a pena conhecer e estudar processos de projecto distintos dos mais óbvios.

por João Pereira de Sousa

Casa K em Stocksund, Tham & Videgård Hansson Arkitekter

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Não é a primeira vez que me impressiono ao conhecer e analisar habitações unifamiliares na Suécia. Há qualquer coisa, nos locais, nos materiais, nas texturas, nos métodos que me cativa imenso em determinadas construções escandinavas. Esta casa desde logo se fixou na minha memória através das imagens e textos que encontrei no blog Arkinetia.

A aparência exterior monolítica é-nos apresentada de uma forma exacta, totalmente perceptível no seu conjunto. Trata-se de um grande paralelepípedo forrado a madeira pontuado por aberturas que ora nos deixam antever o interior ora expelem a luz para o exterior. No entanto, esta aparente simplicidade volumétrica exterior revela uma enorme riqueza a nível dos espaços interiores da casa. (Aqui interessa realçar que quando pensamos a habitação unifamiliar há que ir para além do óbvio. Não querendo com isto dizer que devemos complicar, muito pelo contrário, devemos partir de esquemas simples de funcionamento e transpô-los para o espaço de forma a gerar uma maior riqueza espacial que contribua para o bem-estar dos seus habitantes.)


Refiro isto porque nesta obra, apesar da forma exterior ser compacta e facilmente perceptível, o interior é tratado com uma grande dinâmica de forma a gerar espaços interessantes e harmoniosos. A partir de um esquema de funcionamento bastante simples e comum, os arquitectos abordaram o desenho da casa sempre tendo em conta a terceira dimensão, indo para lá do desenho em planta. Ora, claro está que ao olharmos para as plantas apercebemos directamente as diferentes áreas e a forma de organização da casa: o piso inferior é composto por três elementos, a zona de garagem, as áreas de cozinha, banho, entrada e circulações verticais e a grande área de sala sem definição de zonas de uso; o piso superior segue a métrica do anterior e define áreas de quartos com uma circulação central transversal. Nada de novo, é um desenho bastante claro e funcional. No entanto é a partir daqui que eu entendo que a casa começa a ganhar maior valor. Através de uma definição esquemática dos volumes que compõem o interior, os arquitectos partem deste paralelepípedo e recortam-no de forma a gerar novas situações espaciais. Definem deste modo uma organização espacial do
open-space da sala através das zonas de dupla altura que ao permitirem novas entradas de luz, definem “espaços-núcleo” organizando o programa da sala e tornam toda esta área mais rica e definida.

Ainda aquilo que gostaria de destacar é a forma de materialização dos espaços interiores e do exterior do edifício. Através de uma construção simples e económica de betão armado isolado termicamente em ambas as faces, a pele exterior é construída através de placas de madeira dispostas em escama de forma a anularem juntas visíveis, permitindo que tanto a chuva como a neve não penetrem no interior da parede. Os interiores são tratados de forma bastante contida, sendo revestidos na sua totalidade a gesso cartonado pintado de branco onde ainda no piso inferior é definido um lambrim de madeira dando continuação ao soalho do chão gerando uma sensação de conforto através presença deste material.

Poderíamos chegar quase ao ponto de justificar aqui a noção de less is more, não no domínio estético, mas pelo uso de ideias simples, de métodos construtivos baratos e de materiais usuais de forma a conseguir expressões espaciais ricas e uma linguagem clara e sintética. Mas apesar de esta ser mais uma forma desenhar uma habitação, temos sempre algo a aprender e a estudar enquanto modelo.

por João Pereira de Sousa

The Portable Light, Sheila Kennedy

A recente conferência de Sheila Kennedy, no auditório do Museu de Serralves, revelou-se uma excelente descoberta no que diz respeito às preocupações da arquitectura e do design para pelo menos 2 biliões de pessoas neste mundo. Aliás, toda a exposição ‘Design For The Other 90%‘ patente no Cooper-Hewit National Museum em Nova Iorque merece uma atenta visita, para aqueles que tenham a oportunidade de lá ir.

Aquilo que realmente me cativou na exposição de Sheila Kennedy foi uma peça de design que o atelier KVA MATx está a desenvolver de forma a poder torná-la um objecto de grande distribuição e com preços mais acessíveis. Este projecto intitula-se de ‘The Portable Light‘ e tem como objectivo ser um dispositivo de iluminação que possa ser usado em locais onde não existe qualquer distribuição eléctrica, nomeadamente em povoações rurais isoladas, em países subdesenvolvidos.

O projecto ‘The Portable Light‘ consiste num tecido reflector que utiliza a luz do sol para gerar energia eléctrica renovável, armazenando-a e transformando-a em luz através de duas pequenas lâmpadas, podendo ser usado numa escala global em zonas onde não existe rede eléctrica. O tecido que compõe este objecto é totalmente adaptável e leve de tal forma que os arquitectos criaram protótipos que pudessem ser enviados e transportados segundo normas estandardizadas, podendo assim chegar facilmente a qualquer parte do mundo. A grande vantagem deste produto encontra-se no facto de ser extremamente maleável e transportável, podendo ser usado por qualquer pessoa, tornando-se um objecto essencial no seu dia-a-dia.

Este projecto foi apresentado através de uma equipa de arquitectos, antropólogos, engenheiros e médicos, à comunidade indígena Huichol (Wirrárica), a qual vive numa área remota da Sierra Madre no México. A elevada adaptabilidade destes objectos tornou-se importante já que estas tribos se deslocam constantemente em zonas remotas de muito difícil acesso, podendo assim servir as suas necessidades, transportando-os durante o dia e usando-os à noite quando esta é a única luz disponível. Aquilo que realmente demonstra a força deste projecto é o facto destas comunidades se adaptarem imediatamente a este produto, integrando-o nos seus costumes e quotidiano, tornando-o praticamente indispensável nos dias de hoje. Através de esta experiência podemos ver famílias reunidas durante a noite, crianças a estudar, as mulheres a cozinhar e todo um desenvolvimento de práticas sociais nocturnas possíveis de serem realizadas através desta tecnologia.

Acima de tudo aquilo que importa reter deste projecto é o facto de através de uma tecnologia já existente ser possível uma reinterpretação e uma adaptação a necessidades específicas. Este projecto está a dar que falar e tornou-se indispensável para as comunidades que usufruem dele. Resta-nos incentivar e promover o desenvolvimento de projectos como este que de forma tão simples modificam hábitos, trazem qualidade de vida e tornam mais digna a vida de pessoas como nós.

Portable Light Project

por João Sousa