Archive for the 'projectos' Category

Centro Documental de Madrid - Mansilla & Tuñón

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O Centro Documental dos arquitectos Luis Mansilla e Emilio Tuñón surge como o remate sul do eixo cultural da castellana em Madrid, composto pelo Museu do Prado, o Museu Thyssen, o Museu Reina Sofia e a Estação de Atocha. Este projecto iniciou-se, na fase de concurso, como sendo um centro cultural que comportaria 5 equipamentos culturais (Biblioteca, Escola de Design, Escola de Artes Cénicas, …) a serem implantados no quarteirão da antiga fábrica de cerveja El Águila. Este conjunto fabril, composto de edifícios históricos teve início em 1917 com o edifício-forno da cevada, sendo que a última construção, os silos metálicos, é datada dos anos 60. Desde logo, o programa a concurso se apresentava demasiado ambicioso para o local e tornava-se impossível de conseguir implantar todos os equipamentos na área das fábricas. Assim, a partir do momento em que os arquitectos ganharam o concurso, passaram 2 anos ao longo dos quais o programa se foi modificando (à excepção da biblioteca) passando no final de Centro Cultural para Centro Cocumental de Madrid. Assim, tornou-se possível conjugar na área pré-destinada este conjunto composto de Biblioteca, Arquivos documentais, Auditório e Depósito Legal, aproveitando todas as construções existentes e adicionando novas construções ao conjunto.

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O projecto do Centro Documental compõem-se então de 6 edifícios independentes que formam a totalidade da obra, num diálogo entre as pré-existências e as novas estruturas. A partir da entrada, junto ao edifício do depósito legal, consegue-se ter uma percepção geral das características principais da obra. Percepciona-se, antes de mais, um eixo principal feito através de dois edifícios antigos, o da Biblioteca à esquerda e o da administração à direita, que culmina numa nova intervenção onde se destaca a constante estrutura modular revestida a vidro que se irá revelar mais presente ao longo dos percursos. Um aspecto interessante desta obra é precisamente a implantação dos edifícios já existentes que, sendo de origem fabril, não respeitam regulamentos de espaçamentos entre eles, criando espaços-corredor que se intensificam pela altura dos diversos volumes edificados. Aquilo que os arquitectos tomaram como regra de implantação foi este jogo de interstícios de espaços entre os edifícios, implantando as novas volumetrias de acordo com um desenhar de percursos onde a cada momento se descobrem novas perspectivas, valorizando as pré-existências enquanto permitem um diálogo com as novas formas.

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A Biblioteca assume-se como o edifício público do conjunto arquitectónico. É formada por um grande corpo da fábrica cujo um dos topos é o edifício-forno de 1917, pelo volume dos silos de metal, por outro volume fabril e finalmente por um novo volume que remata o conjunto. Deste modo os arquitectos puderam organizar determinadamente os diferentes espaços que compõem o conjunto da biblioteca. Assim, cada volume assume uma parte do programa. O corpo principal alberga o vestíbulo e as salas de uso público da biblioteca, cuja caracterização é feita através de elementos industriais que foram restaurados, permanecendo como memória do local. O corpo dos silos é de acesso restrito e engloba as salas de arquivo da biblioteca. O volume pré-existente ao corpo principal é organizado com salas de leitura complementares e com o principal acesso vertical público, fazendo a partir daí a distribuição para as salas de leitura do corpo principal. O novo volume na extremidade do edifício é ocupado pela administração da biblioteca, tendo este já a linguagem adoptada para todas as novas construções.

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Os edifícios do Centro Documental surgem com uma linguagem decididamente distinta das pré-existências, permitindo uma diferenciação de épocas de construção que está também presente ao longo dos edifícios antigos que adoptam métricas diferentes consoante a altura em que foram construídos. As construções novas são edificadas a partir de uma estrutura rígida de betão branco aparente que traça uma grelha contínua ao longo dos alçados. As fachadas são posteriormente compostas por painéis de vidro de secção em U que cobrem toda a estrutura das novas construções, criando fachadas ventiladas e permitindo um jogo de transparências e de luminosidades entre o interior e o exterior, intensificando o contraste entre as construções novas e as antigas. No volume do Arquivo a fachada adopta zonas de excepção onde surgem as escadas. Aqui os arquitectos substituem os vidros anteriores por cortinas de vidro transparente deixando antever as escadas em cada um dos extremos do edifício. Também a volumetria mais baixa da proposta e que colmata toda uma frente de rua acaba por se destacar quando num dos extremos os arquitectos criam um elemento volumétrico vertical fazendo com que se crie um remate de maior importância e relacionando então esta volumetria com o resto das construções.

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Em suma, este projecto ganha interesse pela coerência que atravessa toda a proposta. Torna-se interessante o diálogo que se cria entre as construções antigas que são reabilitadas deixando a sua materialidade original e as novas construções que se assumem no seu contraste mas que criam uma complementaridade a nível do quarteirão formando, portanto, um conjunto coeso e único. De valorizar é também o tratamento dos espaços exteriores que se sublinham pela sua subtileza, como palco dos diferentes acontecimentos em torno dos edifícios, tornando os percursos interessantes e em diálogo com as construções. Em termos urbanos esta proposta assume um carácter de excepção já que o programa assim o direcciona. Situado numa malha de cidade consolidada de quarteirões, os edifícios suportam-se dos limites do terreno mas soltam-se de forma a dignificar a sua importância em relação às construções adjacentes tornando-se perceptível pela sua individualidade.

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por João Sousa

Dragspelhuset - 24h architecture

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Usualmente podemos observar que quantos mais constrangimentos existem para um projecto, sejam eles de ordem regulamentar ou de carácter natural, a obra de arquitectura se torna cada vez mais interessante e com uma maior razão de ser. Deste modo, uma arquitectura feita em total liberdade corre o risco de se tornar demasiado pobre, num contexto onde aparentemente deveria ser excepcional. Obras como a “casa em Modelo” de Souto de Moura, a “casa Tóló” de Álvaro Leite Siza ou mesmo a “casa da cascata” de Frank Lloyd Wright, tornam-se objectos de referência pelo seu carácter de excepção em resposta a problemas e programas específicos.

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A obra do atelier holandês 24h Architecture que se pretende analisar intitula-se Dragspelhuset e situa-se no lago Övre Gla, na reserva natural de Glaskogen na Suécia. Trata-se antes de mais de uma obra de aumento de uma antiga casa do século XIX, condicionando desde logo a intervenção a uma série de regulamentações. De acordo com os regulamentos locais, não é permitido nenhum tipo de construção em margens de lagos a não ser que se trate de aumentos a edifícios pré-existentes. Estando localizado numa reserva natural, a área permitida para construção é bastante pequena e necessita de uma distância livre de construção de 4,5 metros a partir dos limites do terreno.

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Esta pequena casa, de formas orgânicas surge então como resposta a uma encomenda de extensão do antigo edifício, formalizando-se através das regras impostas, mas ganhando uma dinâmica formal completamente nova, interagindo intrinsecamente com todo o ambiente natural. Como forma de jogar com as dificuldades regulamentares de implantação, o edifício torna-se autónomo em si mesmo, soltando-se do solo, tornando-se mutável e adaptável às condições ambientais de cada estação através de parte da volumetria que se desloca para dentro ou para fora do volume principal, abrindo novas vistas, estendendo o espaço interior, ou recolhendo-se do exterior, aconchegando o interior.

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Toda a construção da obra é feita através de um esqueleto em madeira que define a volumetria geral, sendo posteriormente revestido com diversas camadas de isolamentos térmicos. O revestimento exterior é feito através de uma técnica local de revestimento em madeira chamada “stickor”, funcionando em escamas de madeira que permitem um isolamento eficaz das paredes exteriores ao mesmo tempo que a própria madeira vai adquirindo novas tonalidades através dos anos.

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Em comunicação aberta com todo o meio natural, esta casa torna-se notável pelas qualidades espaciais mutáveis que permitem uma vivência adaptada às condições ambientais. Encontramos aqui uma atitude orgânica muito mais profunda do que apenas a organicidade formal. Deste modo a obra assemelha-se a um ser vivo, expande-se em direcção da luz, deixando antever parte do seu interior ou, pelo contrário, contrai-se, aconchegando-se do frio, da neve, deixando um ambiente confortável e caloroso no interior. Ao mesmo tempo que se assume como construção, solta-se da terra, procurando não modificar a paisagem natural, atingindo uma imagem única que se entrelaça com toda a paisagem envolvente.

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dragspelhuset.com

por João Sousa

kunsthaus bregenz - peter zumthor

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Situado ao longo do lago Konstance numa pequena cidade alpina da Áustria, o Kunthaus de Bregenz adivinha-se facilmente pela sua singularidade formal em relação às construções envolventes. Percepciona-se antes de mais como uma caixa de vidro que se solta do solo e se ergue para o céu, enfatizando a sua presença e mostrando o seu carácter. Perpendicularmente a este edifício situa-se o pavilhão da livraria e cafetaria numa expressão diferente, complementando a imagem do museu e criando à sua volta uma praça regular com um carácter singular.

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Falar deste edifício é falar sobre os valores intrínsecos da arquitectura. Não será possível manter um discurso sobre esta obra sem nos remetermos directamente para as bases da linguagem arquitectónica. A Arquitectura faz-se de Matéria, Luz e Espaço. São estas as condições essenciais desta obra singular e subtil.

Matéria

O edifício do Kunsthaus constrói-se essencialmente de dois materiais: Betão e Vidro. O exterior reveste-se em placas de vidro assentes numa estrutura metálica de suporte, que permitem o atravessamento de ar e a entrada de luz. O interior é constituído essencialmente pela cor e textura das paredes em betão polido que sustentam a construção. Em termos estruturais, esta obra merece destaque pela forma como o espaço é pensado e projectado em comunhão com os elementos estruturais que permitem a sustentação de todo o edifício. A aparente simplicidade e despojamento interiores são conseguidos essencialmente através de três paredes estruturais que, na sua disposição específica, sustentam todo o conjunto, permitindo a formalização de um espaço contínuo, sem barreiras visuais. As salas do museu são construídas como caixas de betão que se apoiam nas três paredes estruturais, escondendo os acessos verticais, conferindo uma aparência sólida e de forte carácter ao espaço.

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Luz

A aparente leveza perceptível do exterior, a partir das fachadas vidradas esconde no seu interior toda uma estrutura sólida de betão que se reflecte nas salas de exposição. O tratamento da luz neste edifício merece especial destaque pela forma como o arquitecto cria uma modelação subtil da luz natural para o interior do edifício. Assim, a partir do piso de entrada é possível perceber-se todo um entorno luminoso que se transmite directamente através da fachada vidrada que filtra a luz, conferindo uma atmosfera pacífica e regular ao longo do dia. Já nas salas de exposição e nas escadas, a luz é trabalhada de forma homogénea a partir de todo o tecto, conferindo uma dimensão sensorial distinta a estes espaços pelo tratamento da luz em conjunto com a matéria das paredes e chão.

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Espaço

A análise espacial que se pretende fazer não é em termos de áreas ou volumes mas sim em termos sensoriais e do domínio da percepção física e visual. Assim, Os diferentes espaços desta obra são identificados de uma forma inteiramente original através da sua matéria e da luz. O espaço por si só já é objecto de contemplação. É importante que num museu os espaços expositivos estejam dotados de um carácter próprio para que sejam eles próprios, ao mesmo tempo a moldura e a obra de arte. No Kunsthaus de Bregenz, as exposições são feitas em função dos espaços expositivos. Encontram-se aqui obras únicas que foram criadas especialmente para o museu, através das suas particularidades espaciais. Deste modo os espaços do museu distanciam-se da ideia abstracta de “cubo branco”, que durante décadas foi a base espacial de diversos museus e, caracterizam-se por serem uma fonte de inspiração e eles próprios o objecto e a própria arte.

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Esta obra de Peter Zumthor, vencedora do prémio Mies Van der Rohe, revela-se assim subtil pela forma e tratamento espacial e, de como as diferentes dimensões da arquitectura são tratadas de modo a concretizar um todo através do tratamento da luz, dos espaços e da matéria onde, o detalhe e o rigor atingem aqui uma importância extrema na definição da obra e da ideia conceptual.

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 por João Sousa

Avenida dos Aliados

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 A Avenida dos Aliados no Porto, traçada pela mão do inglês Barry Parker em inícios do século XIX e edificada segundo o arquitecto portuense Marques da Silva, desde logo tomou a designação do boulevard do Porto. Foi sem dúvida o maior espaço público urbano projectado na cidade invicta até então. Tratava-se portanto da avenida central da cidade, de gosto cosmopolita, ladeada por fachadas de edifícios ao gosto beaux-artiano, abrindo espaço para a renovação da cidade do porto, uma cidade burguesa.

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O Porto, ao contrário de cidades como Lisboa ou Coimbra, desde logo tem um carácter distinto que adveio da sua própria cultura mercantil e comercial. Tornou-se, por norma, numa cidade burguesa, onde grande parte da população vivia do comércio ou da indústria. Com a progressiva instalação de comerciantes ingleses na cidade em busca da riqueza das vinhas do Douro, o Porto iniciou a sua transformação para a cidade novecentista abrindo rumos para a criação de novos traçados urbanos e novos programas arquitectónicos. Surgem os Almadas que terão um enorme impacto na renovação e expansão da cidade e, através da influência inglesa começam-se a construir obras ao gosto internacional.

Aquilo que realmente distingue esta cidade das outras cidades portuguesas é a sua matéria. Ao contrário do que se encontra a sul do Mondego, no Norte de Portugal predominam os solos graníticos. Esta será desde logo a matéria fundamental para a construção da cidade. Assim sendo, a cor, a textura e o odor do Porto são de granito e não de qualquer outra pedra calcária. Com a construção da avenida dos Aliados, fez-se no Porto o que se fez em numerosas colónias portuguesas: importou-se um modo de fazer calçada em pedra, posteriormente referida como à portuguesa.

Posto isto, passemos à análise da Avenida dos Aliados:

O que existia antes?

Uma avenida edificada em inícios do século XIX, ao gosto internacional e ladeada de grandes edifícios de linhas orientadoras beaux-artianas. O ambiente da avenida e da praça era traçado pelo pavimento em basalto com os desenhos alusivos aos descobrimentos e à colonização, feito como um enorme mosaico que só a mestria de alguns pedreiros portugueses permitia que tal fosse possível. Os jardins e as árvores enriqueciam este ambiente tornando-o bucólico e simbólico da cidade através da estátua equestre de D. Pedro IV apontando para o Brasil.

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O que é que se encontrava naquele local antes da intervenção?

Uma avenida cada vez mais atravessada por pessoas, carros e autocarros. Os passeios agora desnivelados, pedras que já não existiam, jardins pouco cuidados. Uma faixa central pouco convidativa à deslocação de pessoas, usada maioritariamente para repousar mesmo entre o caos de táxis, autocarros e carros em constante passagem. Uma avenida que em dias de festa (S. João, passagem de ano, vitórias de clubes de Futebol) não conseguia conter o enorme fluxo de pessoas que aí se deslocavam, mesmo com as suas enormes dimensões.

O que era necessário fazer?

Necessitava-se revitalizar a baixa, fazer passar o metro por debaixo da avenida, dar uma imagem renovada e criar uma ordem em todo aquele espaço público. De forma a tornar o projecto coerente e valioso para a cidade, os dois arquitectos responsáveis (Siza Vieira e Souto de Moura) decidiram juntar-se e pensar as suas intervenções em conjunto.

O que existe agora?

O que se percepciona hoje em dia é uma avenida notoriamente urbana, bem regrada, feita para as pessoas, para os automóveis e para metro, permitindo de uma forma absolutamente nova visualizar toda a riqueza arquitectural dos edifícios que formam a fachada da avenida e que até então nunca tínhamos tido a percepção.
Transpondo esta ideia para o que se tem feito a nível europeu, existe um enorme interesse na remodelação de uma avenida como esta e com as dimensões que esta tem. O facto da faixa central estar livre permite que as pessoas não andem só pelos passeios laterais, mas que façam o seu percurso pela faixa central. Ao descer a avenida tem-se a percepção da Sé do Porto que se lança no céu, tem-se os enfiamentos das ruas transversais à avenida que mantêm a sua riqueza arquitectural, tem-se a noção de se estar num espaço urbano, rico em história e que privilegia o fluxo de pessoas permitindo que o tráfego de automóveis siga de forma contida e regrada. A nova avenida dos aliados torna-se assim num espaço não só funcional mas de criação. Torna-se num espaço de expressão artística, social e cultural, num espaço urbano no verdadeiro sentido do termo. A nova configuração da avenida permite, de uma forma nova, albergar toda a variedade de acontecimentos que acontecem regularmente e que não podem passar despercebidos pois fazem parte da cultura urbana do porto. À semelhança de outras cidades europeias, a existência de um grande espaço público central na cidade origina uma dinâmica urbana, permitindo diferentes acontecimentos sociais e culturais que incitam a uma interacção social mais rica e evidenciam a vitalidade da cidade. Tem-se assistido já a pequenos eventos novos nesta avenida que, de uma forma tímida vão sensibilizando os cidadãos para uma vivência maior daquele espaço urbano. Será este o caminho a seguir para que este espaço se torne realmente num centro social e urbano da baixa portuense, permitindo uma culturização das pessoas e uma maior permanência neste espaço público.

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No entanto, esta nova intervenção tem alguns aspectos ambíguos. A fonte que foi criada no eixo central da praça torna-se um elemento estranho à imagem geral da intervenção. Pretende ter um desenho minimalista, mas acaba por perder o seu sentido quando se observa de longe parecendo apenas um buraco. Apenas quando se está junto a ela é que se consegue percepcionar o seu desenho e a sua função. Também as duas estátuas já existentes a meio da avenida acabaram por ficar um pouco desnudadas pela falta de envolvência. No entanto evidenciam o alinhamento principal do eixo central da avenida. Em termos de mobiliário urbano considero a opção usada no topo da avenida uma mais valia para o espaço público pois, ao utilizar mesas e cadeiras semi-amovivéis, permite o agrupamento de pessoas naquele espaço. Ao mesmo tempo torna-se uma provocação ao bom senso e à responsabilidade dos cidadãos. Em termos de vegetação, os arquitectos limparam a praça central para permitir uma maior dinâmica nos usos da praça. Toda a vegetação rasteira foi retirada e acabou por se tornar vantajoso pois torna o espaço mais passível de ser utilizado de diferentes formas, limpando-o de barreiras físicas. Também se retiraram as árvores da praça central, plantando-se mais árvores ao longo dos passeios laterais agora mais largos e no topo da avenida junto à fonte. Torna-se também uma forma de ordenar o espaço público permitindo que as árvores cresçam desafogadamente e que criem espaços de sombra onde são necessários.

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Em suma, a intervenção na Avenida dos Aliados é acima de tudo uma posição de vanguarda perante uma cidade histórica e de fortes raízes com o passado. Os arquitectos tiveram a visão de criar um espaço com reais valores urbanos sem que caíssem na tentação de re-fazer o que já lá estava antes e que não resultava. Também é de salientar a opção da escolha dos materiais para a constituição dos pavimentos já que todos os pavimentos anteriores foram retirados. Numa cidade com um forte carácter como o Porto, a renovação da Avenida dos Aliados veio vincar ainda mais este ambiente citadino do Porto ao utilizar o material mais característico desta cidade e resolvendo-o a nível de desenho de uma forma bastante criativa e rica.

por João Sousa

Moderna Museet - Rafael Moneo

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A construção de obras novas num local com grande história e de pré-existências, exige sempre, por parte do arquitecto, uma grande sensibilidade e um saber que lhe permita projectar em conjunto com a paisagem, tornando a obra de arquitectura não como um objecto mas como uma membrana que estabelece ligações entre os diversos aspectos caracterizadores do local.
Quando o júri do concurso para o novo museu de arte moderna de Estocolmo nomeou o presente projecto como vencedor, não fazia ideia de que a pessoa por detrás do projecto seria um arquitecto não escandinavo, nomeadamente espanhol. Pois a forma como o projecto é concebido, em intrínseca relação com o lugar, com a cultura escandinava e com a luz da Suécia, denota uma especial sensibilidade e compreensão, como se o autor fosse nativo deste país. Tal poderá ter que ver com o facto de Moneo ter trabalhado em tempos com Utzon e de, na sua obra haver sempre algumas referências aaltianas.

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O Moderna Museet implanta-se na ilha de Skeppsholmen, uma das ilhas que formam a cidade de Estocolmo, junto ao edifício histórico Tyghuset, um antigo arsenal militar, tomando-o como referência para o desenrolar de todo o edifício do museu. Ao contrário da maior parte dos projectos a concurso, Moneo desde logo quis retirar destaque visual à sua obra, afastando-a na extremidade da ilha, envolvendo-a em torno de edifícios históricos, sendo então quase imperceptível a presença do edifício do museu na ilha. A forma como o edifício indicia uma existência e convida à entrada é feita através de uma pala que se solta do interior e se extende para fora até ao limite do edifícios vizinhos, permitindo uma primeira visão da obra de onde se avista um extenso vão vidrado que acompanha o grande espaço de circulação junto às salas de exposição. Uma vez no interior, o museu divide-se em duas partes, o Moderna Museet e o Arkitekturmuseet que se instala num dos edifícios pré-existentes ao qual Moneo encostou a sua obra. Desde logo, a partir da zona do foyer se tem uma percepção quase total do comprimento do museu. Na direcção da entrada encontra-se a zona da cafetaria, um espaço de especial interesse pela interacção que promove com o exterior e o rio, criando um ambiente relaxado acompanhado de uma esplanada que se projecta para o exterior. Dirigindo-se para as zonas expositivas, somos confrontados com um espaço alongado especialmente trabalhado a nível da iluminação natural, caracterizado por um vão a todo o comprimento que permite uma entrada de luz expressiva que vai caracterizar todo o espaço. É através deste local que se faz o acesso às diferentes salas expositivas e é a ele que se volta sempre que se sai de cada sala.

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Aquilo que realmente tem interesse abordar em termos de organização espacial do programa do museu é como o arquitecto resolveu toda uma série de percursos, tornando-os intuitivos e fáceis de percorrer. Ao criar 4 módulos de salas expositivas, Moneo recorreu a um elemento que as interligasse. É ele todo espaço do alçado sul que permite a criação de um percurso exterior às salas, dando-lhes acesso, facilitando a circulação. Quando finalmente se sai do último módulo de salas volta-se de novo a esse percurso, desta vez em direcção ao foyer, podendo deste modo fazer-se o regresso à entrada do museu sem ter de se passar outra vez pelas salas de exposição. O que confere uma nova dimensão de percurso, pois desta vez o visitante pode ter uma percepção de atmosferas diferentes, com uma forte interacção com o exterior.
Aquilo que pode ser considerado um elemento de novidade e uma forma criativa de criar os espaços do museu é a forma como Moneo organizou e formalizou as salas expositivas. Assim, foram criados 4 módulos que contém diferentes salas expositivas. O primeiro módulo, junto ao foyer constitui a sala de exposições temporárias. É então um espaço totalmente livre que permite uma certa flexibilidade. Aquilo que realmente caracteriza este espaço é a forma como foi trabalhada a luz. Através de um conjunto de lanternins que ocupam toda a superfície do tecto da sala, é possível a entrada de uma luz filtrada, permitindo uma iluminação homogénea de todo o espaço. Os 3 módulos seguintes partem da mesma ideia conceptual e materializam-se de formas semelhantes. Assim, como estes módulos se destinam a exposições permanentes, estão divididos em salas de diferentes dimensões que permitem uma certa flexibilidade em termos de ocupação. Assim, como cada módulo está encerrado para o exterior, a forma de permitir a entrada de luz foi, mais uma vez, através da utilização de lanternins para a entrada de luz zenital. Aquilo que vai caracterizar cada sala dos respectivos módulos é precisamente o desenho do lanternim. É esse o elemento de mais força e aquilo que realmente dá interesse ao espaço. Consegue-se criar então uma atmosfera de luz difusa que tem ligeiras nuances conforme as dimensões das salas e, consequentemente dos lanternins.

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Os lanternins tornam-se nos elementos de destaque e de caracterização do edifício a partir do exterior, pois como já foi referido, todo o edifício está praticamente tapado pelas construções antigas, denotando-se apenas o telhado com os seus lanternins. Moneo sabia que estes elementos seriam de facto aquilo que caracterizaria melhor o edifício e trabalhou-os de forma a terem uma expressão interessante de relacionando-se com a paisagem. O telhado do museu é então trabalhado em função dos elementos de entrada de luz. Aquilo que anteriormente seria um telhado plano sem expressão, tornou-se agora um conjunto de pequenas coberturas de quatro águas encimadas por um elemento vertical de entrada de luz, um pouco alusivo à cobertura da igreja vizinha. Assim, a visão externa do museu torna-se mais difusa e comunicativa com a envolvente pelo facto da linguagem ser semelhante.

O Moderna Museet em Estocolmo pode ser então considerado como uma boa forma de intervir num património natural e urbano, pela forma como se associa às pré-existências, reduzindo a sua notoriedade, mas conferindo espaços de interesse, mesmo albergando o programa extenso de um museu de arte moderna. A nível da solução espacial também é interessante a forma como os percursos foram pensados, nunca se repetindo um mesmo percurso, dando uma visão contínua do museu. A nível da solução de iluminação, esta tornou-se o elemento que acabou por caracterizar todo o edifício denotando-se um grande trabalho na forma como os lanternins se relacionam com o exterior e com o interior. No entanto, a intensidade de luz no interior não permite uma clara iluminação das salas, já que em Estocolmo a intensidade solar é bastante menor do que em Espanha. Foi então necessário recorrer à iluminação artificial de forma a complementar a intensidade luminosa. Não deixa, no entanto de ser uma obra com grande interesse e de certo modo inovadora pelos aspectos analisados.

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por João Sousa