Archive for the 'viagens' Category

Memórias de um Inter-Rail (parte 2/3)

(Berlin) O segundo dia acordou sob um manto branco de neve, que se estendia pelos jardins e passeios avistados desde a janela onde tomávamos o pequeno-almoço. A neve que caia ia formando uma película branca no chão enquanto nos dirigíamos para a Unter den Linden. Desta grande avenida avistamos a porta de Brandeburgo e dirigimo-nos na sua direcção. Quando lá chegamos vimos a primeira manifestação de Carnaval com alguma música e ambiente festivo. Aqui se situava o branco projectado por Ghery e a academia de Artes. E logo ao lado esquerdo da Porta encontrava-se a magnífica obra de Eisenman, o memorial do Holocausto. Desde logo nos impressionou esta simplicidade formal, onde através de uma sucessão de blocos de betão com alturas distintas e ligeiramente inclinados, foi possível gerar um espaço fantástico de percurso e de reflexão onde a neve ia preenchendo os espaços das juntas de pavimento sobre a topografia incerta do terreno. De certa forma este contraste gerado entre a simplicidade formal do memorial e a envolvente caótica de edifícios adjacentes, parece fazer algum sentido… Seguimos assim, em direcção ao Reichstag, onde começamos a perceber uma fila interminável de pessoas para entrar no edifício e subir à cúpula projectada por Foster. Decidimos então que mais valia continuar a passear e fomos sempre junto ao rio até à zona da ilha dos museus, onde segundo havíamos percebido através de uns apontamentos, estaria o edifício de Siza Vieira. Após algum tempo a procurar, sem sucesso, perguntamos a duas senhoras que nos disseram que estava bem mais distante de onde estávamos, pois nem sequer aparecia no mapa que tínhamos. Decidimos então ir ver a ilha dos museus. Logo ao lado da ponte situava-se a Catedral, verdadeiramente imponente e toda retalhada depois de ter sido atacada durante a guerra. A entrada custava 3 euros, o que achamos um abuso e por isso seguimos para o próximo edifício. Tratava-se o Altes Museum projectado pelo Schinkel, com um aspecto bastante clássico e onde estava exposto o busto de Nefrodite. De seguida continuamos a ver outros museus e entramos no Deutsches Historisches Museum do I. M. Pei. Parecia interessante, no entanto um pouco extravagante a nível formal. Foi então que vimos que estava a começar a passar um enorme cortejo de Carnaval. Fomos até lá e estava toda a gente aglomerada de mãos no ar, debaixo de uma chuva de chocolates, rebuçados, pipocas e outras guloseimas, que saltavam disparadas dos carros decorados e animados do cortejo. E ficamos lá, a fazer como todos os outros, recolhendo os presentes que tombavam, até que depois fomos atrás do cortejo até à Alexander Platz. Chegamos até à zona da Mite Tower, a famosa torre de televisão que se vê de qualquer parte de Berlim. Decidimos entrar, mas custava 6,50 euros para subir, assim que saímos. Seguimos em direcção à alexander Platz que, segundo o que todos dizem, é o segundo centro de Berlim. No entanto, esta praça de dimensões colossais não correspondeu ao que imaginávamos. Era simplesmente um enorme espaço vazio, atravessado por uma avenida de largas dimensões, sem passeios para as pessoas percorrerem, mas antes com percursos subterrâneos de atravessamento da avenida. Da praça apenas se viam enormes blocos de apartamentos, sem qualquer relação de vizinhança. Seguimos então daqui em direcção à embaixada da Holanda projectado pelo OMA. Decidimos abordar o edifício pelo outro lado do rio, para ver que efeito teria nesse pedaço de cidade. E enquanto o observávamos, avistamos um manto negro de corvos que se dirigiam para o cume das árvores, ficando equilibrados no topo dos mais finos ramos. Após termos atravessado para a outra margem e de termos chegado junto do edifício, vimos que realmente apresentava uma forma interessante, contida e com uma grande precisão a nível de detalhe, como seria de esperar. De seguida decidimos ir até ao edifício de habitação do Siza e fomos apanhar o metro. E qual não é o nosso espanto, dentro do metro, que vimos acercar-se um indivíduo diante de nós segurando um cartão na mão a pedir para ver os bilhetes! A nossa sorte é que na noite anterior tínhamos decidido comprar o bilhete mais barato mas sem o validar, então fazendo-nos de turistas desorientados fizemos crer ao controlador à paisana que não sabíamos que se tinha de validar e ele lá nos deixou seguir dizendo apenas que deveríamos ter comprado um bilhete de mais zonas e que deveríamos validá-lo. Chegados ao “Bonjour Tristesse” do Siza, vimos que já todo ele tinha sofrido o peso do tempo com graffitis e enormes anúncios publicitários que adulteravam a imagem a que estávamos habituados. No entanto, conseguia-se ainda distinguir a criatividade formal desta obra. Seguimos então em direcção ao albergue onde conhecemos uma nova hóspede brasileira que estava de passagem pela Europa.

Potsdam Saímos de Berlim e apanhamos o comboio para Potsdam. A única referência que aí tínhamos era da Einstein Turm de Erich Mendelsohn, onde já na estação aparecia uma placa a indicar a sua direcção. Após termos caminhado um pedaço com as mochilas às costas decidimos ver se encontrávamos alguém para perguntar se estávamos no caminho correcto. Reparamos que estávamos um pouco enganados no caminho e que ainda faltava bastante para lá chegarmos. Então, com um pequeno mapa fotocopiado, seguimos a pé pelo meio de um bosque, até chegarmos a um centro de investigação onde conseguimos ver, finalmente, a torre que com as suas formas orgânicas surgia do chão em direcção ao céu. Posteriormente, decidimos aproveitar o resto da manhã para visitar a cidade, assim que, tivemos de fazer o caminho oposto para lá chegar. Entrando pela cidade, fomos até junto de um lago enorme que estava completamente gelado, onde andava uma senhora de patins de gelo. Não pudemos deixar de ir experimentar andar em cima de um lago gelado, tomando partido daquela realidade. Quando reparamos, tivemos de fazer uma espécie de corrida até à estação para seguirmos para Dessau.

Dessau A cidade da escola Artística mais conhecida do mundo. Nunca pensei que um dia iria passar por aqui, mas quando me dei conta, já estávamos a descer do comboio e a placa em frente dizia, com letras bem grandes, “Dessau Hbf”. Saímos da estação e fomos à procura de um mapa, pois seguramente estaria assinalado aquilo que procurávamos. Seguimos então pela Bauhausstrasse, a rua que ia dar directamente à escola. Quando a avistamos, estava à nossa frente a casa de ateliers, seguida do grande edifício projectado por Gropius para albergar a primeira escola de vanguarda de artes, design e arquitectura. Diante das famosas letras “Bauhaus” entramos no edifício e logo vimos que estava parcialmente em recuperação. Subimos pela escadaria principal e atravessamos o corredor que levava ao outro edifício, mas que estava fechado. Dirigimo-nos à biblioteca e depois à parte de baixo onde estava uma pequena exposição e uma livraria. Saímos e aproveitamos para comer sentados nas escadas da entrada enquanto admirávamos o edifício e relembrávamos toda a sua história e as suas transformações. De seguida fomos ver o conjunto de habitações projectadas por Gropius para os professores da Bauhaus. Todas elas projectadas num estilo funcionalista, em 1925, sendo que permanecem perfeitamente actuais. Dirigimo-nos então para a estação pois tínhamos visto um edifício interessante junto a esta. Era um edifício relacionado com o ministério do ambiente e todo ele tinha sido pensado de forma a usar energias renováveis. Depois como ainda tínhamos tempo fomos até ao centro da cidade, mas sinceramente não vimos nada de realmente interessante no resto da cidade.

Dresden Chegamos a Dresden depois de uma viagem relâmpago a Leipzig em 40 minutos. Chegamos à estação já de noite e deparamo-nos com as obras de reconstrução para a futura estação projectada por Norman Foster. Ficamos de nos encontrar com duas amigas que estavam a viver aí e nos iam albergar essa noite. Após algum tempo de espera fomos até à residência de estudantes mais perto onde pousamos as coisas. Os quartos eram bastante mínimos, com uma dimensão adequada para dormir e trabalhar: largura de 2 metros onde a cama estava num topo e uma janela no outro topo com uma mesa e um armário à direita. Fomos então comer para a cozinha comum que estava voltada para a estação e aproveitamos para descansar um pouco. Depois decidimos ir até ao centro a um bar. O único problema é que já com metade da viagem feita, os nossos corpos já começavam a acusar algum cansaço e então, no bar, apesar do bom ambiente, nós os três estávamos já bastante esgotados e um pouco dormidos. Chegamos finalmente a casa às 4.30h da manhã, completamente desfeitos e deitamo-nos com os nossos sacos-cama no chão. No dia seguinte acordamos às 12h ainda um pouco cansados e após algum tempo que levamos preparar-nos fomos tomar o pequeno-almoço. Por volta das 15h chegamos ao centro da cidade para passear enquanto passamos pela nova sinagoga de Dresden, com uma forma interessante. Seguimos até à zona histórica onde estão localizados os palácios barrocos hiper-decorados, com os seus grandes jardins junto ao rio. No entanto logo ao lado a cidade cresce, desmesurada e um pouco caótica com os grandes blocos de apartamentos e de escritórios. Seguimos então para a parte mais central da cidade onde estão os aglomerados mais antigos, com as suas ruas bem mais interessantes. E com esta caminhada toda, já um pouco cansados decidimos ir comer algo bastante “típico” da Alemanha contemporânea, um döner kebap. De volta à residência estivemos a conversar com outras pessoas que lá viviam e começamos a arrumar as nossas coisas para então apanhar o comboio nocturno que nos levaria a Munique. E chegados à estação já lá estava à espera o City Night Line, dos melhores comboios nocturnos da Alemanha, assim que nos instalamos e seguimos viagem durante toda a noite para chegarmos às 6.23h a Munique.

München/Füssen Chegamos a Munique às 6.23h da manhã e o que poderíamos fazer a essa hora numa cidade desconhecida? Olhamos para os horários dos comboios e decidimos improvisar um pouco e apanhar o comboio que ia para Füssen, nos alpes germânicos, às 7.30h. Foi uma viagem bastante agradável onde vimos o amanhecer debaixo de um grande nevão que branqueava toda a paisagem por onde passávamos. Chegados a Füssen reparamos que isto mais parecia uma estação de ski, com tudo coberto de neve, altas montanhas brancas e algumas pessoas preparadas para fazer ski de fundo. A nossa ideia era ir ver os castelos construídos para o rei Ludwig, durante o século XIX, nas encostas alpinas (um pouco como o Palácio da Pena em Sintra). Apanhamos um autocarro com mais dois mexicanos que conhecemos enquanto esperávamos e com um enorme grupo de japoneses. Vimos logo que aquilo era demasiado turístico em relação ao que tínhamos pensado, mas a paisagem da montanha repleta de neve fazia-nos esquecer isso e apreciar o lugar. Decidimos não pagar os 8 euros para entrar nos castelos e em vez disso fomos subindo por entre a neve até à entrada, fugindo discretamente dos grupos de turistas. Chegados à entrada de um dos castelos estivemos a apreciar a paisagem e descobrimos no meio das montanhas uma ponte que ligava dois desfiladeiros, uma imagem típica de postal. Como tínhamos um comboio para voltar para Munique às 11.16h, fomos descendo para apanhar o autocarro que já havia passado há uns minutos. Como teríamos de esperar quase uma hora ao frio e iríamos perder o comboio, decidimos fazer o percurso a pé até à estação e apreciar deste modo a paisagem. Fomos caminhando e numa parte árida de neve vimos grupos de pessoas a fazer calmamente ski de fundo. Ainda tivemos tempo para dar umas voltas pela cidadela antes de voltarmos para a estação. E com a neve a cair voltamos de comboio para Munique. Chegados a Munique, decidimos usar a técnica de sair da estação e seguir em frente até chegarmos ao centro por uma rua comercial pedonal. A cidade estava cheia de neve e íamos seguindo a apreciar a sua vida. Visitamos duas Igrejas e fomos procurar um sítio para comer as nossas sandes. Decidimos ir em direcção ao rio e conhecer essa zona. Tudo estava branco e as crianças andavam de trenó nos jardins enquanto outros andavam mesmo de bicicleta sobre a neve. Já noutro jardim maior assistimos ao cair da noite com uma paisagem bastante agradável e seguimos até um café para tomar algo. Escolhemos desta vez um dos cafés mais requintados da cidade para bebermos cada um uma cerveja de meio litro da Baviera. Ficamos por lá cerca de duas horas e seguimos para a estação pois íamos apanhar um comboio nocturno para Viena às 23.44

Wien Após termos feito mais uma viagem nocturna, agora com um companheiro brasileiro, em que finalmente consegui dormir um pouco melhor, chegamos às 6h da manhã a Viena, a cidade da cultura e das artes. Como ainda chegamos antes do raiar do sol, ficamos sentados na estação a tomar o nosso pequeno-almoço e a esperar que fossem horas decentes para irmos para a cidade. Por fim lá saímos e dirigimo-nos ao albergue. Era uma casa antiga, transformada em albergue onde em cada quarto havia uma imensidão de camas, uma sala de estar, uma cozinha e uma casa de banho. Quem estava à frente daquilo era uma senhora de 30 e poucos anos que aparentava um ar um pouco desconfiado. Após termos falado sobre as condições e de termos pago, pousamos as coisas e fomos visitar a cidade. Percorremos algumas ruas até chegar ao edifício Secession, um exemplo conhecido da arte nova naquela cidade. Caminhando por ali fomos encontrando algumas das estações de metro originais de Otto Wagner e olhando para o lado, um grande edifício de habitação chamado Wohnhaus, do mesmo arquitecto, com aspectos decorativos bastante interessantes. Tínhamos desenhado um pequeno itinerário pelas obras de Loos e então seguimos pela Opernstrasse, passando pelo edifício da Ópera, até chegarmos a uma zona de grandes edifícios imperiais e onde se encontrava o edifício do banco de Adolf Loos, de 1910, bastante interessante a nível formal. De lá, fomos em direcção à Catedral, passando pelas ruas pedonais envolventes repletas de anúncios de lojas. Entramos na Catedral de estilo Gótico e quando saímos fomos abordados por um homem que nos falava em espanhol e com sotaque italiano, querendo-nos vender bilhetes para um concerto de música clássica (claro está!). Toda esta zona estava cheia de pessoas a fazer o mesmo género de trabalho. Então, após termos insistido que não queríamos os bilhetes e dele ter insistido que nos fazia cada vez mais barato, acabamos por ficar com dois bilhetes grátis e um pelo preço de 38€ (nada mau!). Como já tínhamos então um plano para a noite, continuamos a andar para encontrar o American Bar do Loos. Era apenas um pequeno tipicamente loosiano, bastante pesado a nível de texturas. De seguida fomos comer as nossas sandes e decidimos dar umas voltas pelo centro e ir até ao canal do Danúbio. Por esta altura já estávamos completamente exaustos e fomos apenas ao supermercado comprar alguma comida para o jantar e seguimos para o albergue para descansar um pouco antes de ir ao concerto. Chegados lá, conhecemos algumas pessoas que passavam por lá, entre os quais um alemão que estava a viver lá temporariamente enquanto trabalhava como bibliotecário. Estivemos um tempo a descansar e a dormitar e após tomar um banho e comer mais umas sandes, partimos para o concerto de música clássica de compositores vienenses. Fomos a pé através do “ring” e estávamos lá às 19h, num edifício neo-gótico do início do século XIX. As pessoas começaram a chegar e fomo-nos encaminhando para a sala de concerto, bastante mais pequena do que parecia na foto. De repente surge um grupo de quatro espanhóis que mesmo antes de se sentarem ao meu lado já estavam a embirrar com tudo o que viam. O concerto começou e por entre composições de Mozart, Strauss e outros, aquelas pessoas a meu lado não paravam quietas nem deixavam de falar uns com os outros. Mas mesmo assim, no final valeu a pena ter ido ao concerto e voltamos de novo para o albergue desta vez para dormir…

álbum de fotografias

por João Pereira de Sousa

Memórias de um Inter-Rail (parte 1/3)

head1.jpg

A partir do caderno de viagem que fui escrevendo aquando de um inter-rail que realizei em 2006 no final do mês de Fevereiro, achei interessante publicar aqui as reportagens que ia fazendo a cada dia que passava, demonstrando os sítios por onde passei e as descobertas que ia fazendo ao longo da viagem. As memórias ficaram assim registadas em palavras, desenhos e fotografias e a cada vez que as revejo, recordo-me perfeitamente de todos os acontecimentos passados.

Decidi então partilhar para que todos nós sintamos também esta vontade enorme de viajar, de conhecer, de explorar. Só assim é que crescemos como pessoas e como Arquitectos.

Saída de Bruxelas

Aachen A primeira paragem foi de imediato na primeira cidade alemã à saída da Bélgica. Aachen é uma cidade de origem romana, bastante pequena mas com grandes edifícios históricos. Com apenas 55 minutos para a visitar enquanto esperávamos um comboio, fizemos a nossa visita-relâmpago ao centro e à Catedral onde se encontram as relíquias de Carlos Magno.

Hannover Tínhamos apenas 3 horas para visitar a cidade e esteve sempre a chover. Decidimos então dar uma volta pela cidade ainda de mochila às costas e descobrimos uma quantidade enorme de espaços públicos de qualidade (que tanta falta fazem em Portugal). Desde logo nos apercebemos das memórias da história recente alemã. Uma igreja do século XIV onde só restavam apenas as paredes exteriores depois de 1945. Seguimos até ao Rathaus onde estavam expostas quatro maquetas da cidade: uma do século XIV onde se viam dois núcleos, um muralhado e outro em expansão; outra de 1939, antes da guerra, com uma cidade já bem consolidada; outra de 1945 agora completamente devastada pela guerra; e a última com a cidade actual, com as suas grandes avenidas. Seguimos até à Catedral, um edifício todo revestido a tijolo com um órgão enormíssimo, quase arquitectural. E, debaixo de chuva fomos até às ruas comerciais onde comemos pela primeira vez uma Bratwurst! Voltamos finalmente à estação após muita chuva para beber um chocolate quente enquanto (calmamente) perdíamos o comboio das 19.40 por termos visto mal o horário. Após algum nervosismo encontramos outro comboio de alta velocidade que iria fazer a ligação a Hamm para que pudéssemos continuar viagem.

København Depois de uma noite passada no Nachtzug, sem dormir muito tempo seguido, ora porque havia barulho, ora porque faziam uma vistoria ao comboio e nos pediam os BI e os bilhetes, chegamos a Copenhaga pelas 10 horas, com um ar gelado e alguma neve na paisagem. Já tínhamos ideia de alugar uma bicicleta, mas não fazia ideia da quantidade enorme de bicicletas que se viam aqui (incrível). Todas as ruas estão equipadas de faixas em cada sentido para bicicletas e toda a gente as utiliza para andar de bicicleta (parece que entramos em algum mundo extraterrestre!). Fomos dar entrada no albergue e alugar as três bicicletas. Depois de andarmos um pouco pela cidade, meio perdidos, decidimos ir procurar alguns edifícios recentes com interesse, mas pelo caminho encontramos a igreja de Christiania e seguidamente a cidade anarquista de Christiania. Aquilo que em tempos foi um complexo industrial, tornou-se num abrigo de gente que apelava à liberdade sexual e de espírito, mas que foi evoluindo para se tornar num espaço onde pessoas à margem da sociedade vivem em comunidade, praticamente sem contacto com o exterior, como se o tempo por eles não tivesse passado. Por entre casas pintadas a graffiti e bicicletas desmontadas, víamos os seus habitantes, que se moviam com gestos lentos e bucólicos. Subitamente também se encontravam turistas (como nós) e curiosamente uns portugueses que estavam a estudar em Lund na Suécia. Depois de termos visto a Royal Library, atravessamos o canal e deparamo-nos com a obra dos PLOT para os banhos públicos da cidade, inseridos num parque fluvial bastante cuidado. Seguindo por esse parque encontramos um edifício de habitação dos MVRDV que foi construído a partir de uns silos antigos. A próxima paragem seria Ørestad, a zona de expansão da cidade em direcção à Suécia. Reparamos que havia um parque enorme que separava a zona onde estávamos da estrada que seguia para Ørestad. E nem a neve nos fez hesitar! Seguimos então nas bicicletas por trilhos completamente cobertos de neve até que chegamos à estrada que conecta a cidade de Copenhaga à cidade de Malmö na Suécia. Por entre casas e jardins nórdicos se começa a adivinhar dois edifícios enormes, praticamente todos envidraçados e onde se podia observar perfeitamente tudo o que se passava no interior das casas. Após termos dado umas voltas junto aos edifícios, de os termos fotografado, subitamente alguém se dirige a nós em espanhol. Era uma espanhola que ali morava e que prontamente se ofereceu para nos mostrar o edifício V em detalhe. Subimos então até ao 9º andar e entramos na habitação V68, mas sem antes deixarmos os sapatos no exterior, seguindo o costume dinamarquês. O apartamento era completamente atravessado pela luz que entrava pelas duas fachadas em vidro e, das varandas triangulares se tinha uma vista sobre a península e também sobre todos os interiores dos apartamentos do edifício. Acabamos então o dia pelo centro da cidade, visitando-a à noite. No segundo dia, como ainda tínhamos tempo para utilizar as bicicletas, decidimos fazer um percurso assumidamente turístico e ir até à zona do castelo onde está a famosa estátua da sereia que, ao contrário do que as imagens mostram, do outro lado da água encontrava-se um horizonte cheio de chaminés de fábricas que nos surpreendeu. Após termos devolvido as bicicletas, voltamos a mover-nos a pé e fomos conhecer mais algumas partes da cidade. Descobrimos então o National Barnk do Arne Jacobsen, com o seu hall de entrada absolutamente monumental. Tínhamos pensado ainda apanhar o metro para ir até ao clube aquático dos PLOT, mas perante os preços dos bilhetes,decidimos fazer um plano alternativo e aproveitar o nosso bilhete de comboio. Apanhamos então um comboio que nos levou ao extremo da ilha onde se encontra Copenhaga. Chegamos a Helsingør, onde se localiza o castelo que serve de cenário a Hamlet e com uma vista esplêndida para a Suécia, do outro lado do mar báltico. Voltamos a apanhar o comboio para irmos até Humlebæk, uma vila junto ao mar onde se encontra um museu com grandes obras de arte contemporânea, mas cujo preço do bilhete era de 10€. Após esta pequena viagem, voltamos à gare central de Copenhaga onde decidimos mudar alguns planos para o dia seguinte e apanhar um comboio nocturno para Colónia, para depois fazermos a ligação para Hamburgo.

Århus Chegamos a esta cidade e tínhamos ideia de ir ver o edifício da câmara municipal, obra de Arne Jacobsen. Do exterior este edifício era absolutamente contrastante com a envolvente. Bastante pesado e encerrado em si próprio. No entanto, o interior estava inundado de luz bastante trabalhada, fazendo com que tudo parecesse mais leve. Continuamos a caminhar pela cidade e descobrimos que esta era bastante distinta da cidade de Copenhaga. Bastante mais pequena, de ruas sinuosas e com alguma desorganização na implantação dos edifícios.

Aalborg Após mais umas horas a viajar num comboio inter-cidades bastante confortável, chegamos a Aalborg. Não tínhamos qualquer referência sobre esta cidade, apenas queríamos ir o mais possível em direcção ao norte e expandir os nossos limites latitudinais. No entanto esta cidade, atravessada por um Fjord, tornou-se bastante mais interessante que a anterior. Apresentava um núcleo histórico bem conservado, repleto de pequeno comércio e de alguns edifícios mais recentes que se conjugavam harmoniosamente com os mais antigos. Seguimos daqui a viagem de volta para a Alemanha, onde foi necessário apanhar um comboio nocturno até Colónia e de seguida apanhar outro que em quatro horas nos levaria a Hamburgo.

Hamburg Passamos mais uma noite no comboio nocturno, após termos estado 30 minutos à espera em Kolding por causa de um atraso. Quando finalmente entramos no comboio e vimos que tínhamos um compartimento só para nós gritamos de contentes mesmo depois da controladora dinamarquesa nos ter dito que umas paragens mais à frente viriam mais duas pessoas. No entanto, toda essa excitação teve um fim quando chegaram duas mulheres alemãs decididas a passar toda a noite acordadas até Colónia. Enquanto nós tentávamos forçosamente dormir, as duas alemãs insistiam em falar e fumar, … Chegamos finalmente a Colónia e saímos fugazmente do comboio para entrar no que nos levaria a Hamburgo em 4 horas, onde finalmente pudemos dormir um pouco. Chegados à cidade, seguimos directamente para o centro. Começamos a caminhar por ruas enormes, com passeios larguíssimos, com bastante gente nas ruas repletas de lojas luxuosas. No horizonte encontrávamos sempre uma grande quantidade de torres, sendo que nos dirigimos em direcção a uma torre gótica. Quando lá chegamos, aquilo que provavelmente seria uma grande igreja, era apenas uma estrutura em ruínas na qual restava apenas a sua torre sineira e algumas paredes exteriores. Um marco impressionante numa cidade devastada pela guerra. Seguimos então para ver o edifício ChileHaus do arquitecto Fritz Höger. Um grande edifício revestido a tijolo com uma imagem imponente e com um desenho interessante nos pormenores das fachadas. Decidimos então seguir junto ao rio, passando pelas imensas pontes e barcos que se encontravam no maior porto da Alemanha. Fomos então em direcção à zona de Sankt Pauli, passando por alguns edifícios interessantes e visitando algumas igrejas. Pela noite ainda passamos por um Jazz Club com música ao vivo antes de irmos para o albergue onde dormimos num dormitório com 25 camas.

Berlin Depois de termos tido alguns problemas em relação à direcção do comboio para Berlim, chegamos finalmente à cidade, depois das 13h. Passamos pelo albergue e decidimos ir a pé até à zona do Zoologischer Garten, porque aí tínhamos o itinerário para fazer. Mesmo antes de chegar ao início do itinerário, passamos por uma zona da cidade altamente frequentada, com centenas de pessoas a caminhar nos passeios. Passamos por uma igreja destruída onde apenas restava uma torre, rodeada de altos edifícios de mau gosto, provavelmente dos anos 70. Seguimos até ao bairro Hansa, o bairro modernista de cidade-jardim. Logo à entrada situava-se o edifício curvo do Gropius e mais à frente o edifício do Alvar Aalto, destacando-se dos restantes pela sua forma. Mais à frente, situava-se o grande bloco de habitação de Oscar Niemeyer, verdadeiramente funcionalista. Fomos na direcção da grandiosa coluna da Vitória na Grosser Stern e depois atravessamos o Tiegarten até à Budapesterstrasse onde se encontravam os edifícios das embaixadas dos países nórdicos e do México, bastante interessantes formalmente. Continuamos a descer até ao Bauhaus Arkiv, o museu da história da Bauhaus. Seguimos então junto ao Spree até chegarmos ao magnífico edifício da National Galerie de Mies Van der Rohe, com a sua enormíssima cobertura plana apoiada nos enormes pilares negros que abriam o um enorme espaço livre no interior, parcialmente ocupado por uma sala de concertos. Logo ao lado estava a famosa Philharmonik de Hans Scharoun e também a Biblioteca de Berlim, mas estavam as duas fechadas, para nosso desgosto. Continuamos em direcção à Potsdamer Platz pelo Sony Hall até chegar finalmente à praça onde estava a grande edifício de Hans Kollhof. E pela primeira vez vimos um troço do muro de Berlim, debaixo de um vento gelado. Fomos em direcção ao Checkpoint Charlie, que se encontra como memória real desde a queda do muro. Daqui seguimos em direcção ao museu judaico do Daniel Libeskind. No entanto, enquanto aqui andávamos a conhecer o edifício e o jardim, fomos “gentilmente” corridos por um segurança que praticamente nos empurrou porta fora porque já estava fechado. Dirigimo-nos então até Friedrichstrasse para norte, passando pelos quarteirões das lojas mais luxuosas da cidade até à Unter den Linden onde jantamos e, finalmente nos dirigimos para o albergue.

álbum de fotografias

por João Pereira de Sousa

Trienal de Arquitectura de Lisboa

head.jpg

A temática global, os “vazios urbanos” foi algo que por diversas razões esteve sempre presente ao longo das exposições desta Trienal. Aliás, as cidades só existem pela conjugação dos vazios e cheios que as compõem, que lhes dão identidade e as individualizam. No entanto, nestes “vazios urbanos”, é possível notar algumas particularidades que os definem e lhes dão forma e carácter. Mas antes de mais o que são “vazios urbanos” e como poderemos identificá-los? Serão apenas espaços livres de ocupação por entre construções? Poderão ser praças, largos, ruas, vielas, rios, lagos, montes, jardins, parques, que encontramos em diversas cidades? Assim sendo, um “vazio urbano” poderá ter mais do que um significado, poderá ser benéfico ou não para a cidade, poderá ser utilizável ou não, … Deveremos então poder identificar claramente o que são “vazios urbanos” maus e bons, por assim dizer. Sob os quais deveremos intervir mais, ou menos, de forma a que mesmo um “vazio” se encha de identidade e carácter que permita uma função e um uso.
Desde as primeiras cidades que podemos observar uma proliferação de vazios que, com usos distintos, são essenciais à vivência das mesmas. É num “vazio” que se cria o comércio, que se estabelecem laços e relações e que se faz a vida social urbana. Ora, aquilo que herdamos de milénios de história são modus operandi que originaram aglomerados urbanos, construções e vazios, diferentes aspectos que levaram as cidades históricas ao que são hoje e que as conduzem numa evolução sistemática ao longo dos tempos.

O que se pôde observar através uma visita atempada à exposição principal no pavilhão de Portugal foi uma diversidade de aproximações aos aspectos vazios de cidades distintas que resultam em projectos mais ou menos inventivos onde aquilo que se torna mais interessante é precisamente entender a posição dos autores dos projectos em conjunto com as políticas urbanas dos países e a ideologia inerente ao uso da cidade.
Começando pela secção da Irlanda, são apresentados vários projectos de ocupação e de desocupação de cidades numa tentativa de resposta aos critérios da exposição. Salienta-se aqui uma atitude perante o “vazio”, a construção em altura como forma de reaproveitamento do espaço público. A secção da Holanda apresenta uma diversidade de projectos urbanos que realçam as preocupações urbanas deste país. Com cada vez menos espaço disponível para a construção, os holandeses vêem-se forçados a ser cada vez mais organizados de forma a poderem usufruir dos vazios enquanto expandem as suas cidades. Aqui é notória uma atitude, o horror vacuí enquanto elemento de dispersão urbana. Pretende-se dar uso a todos os espaços da cidade e numa tentativa quase desesperada, de reocupar e reordenar os centros das cidades, gerando implosões urbanas. O Canadá exibe uma atitude claramente contrastante com as anteriores e que se revela de grande interesse no desenrolar da exposição. Através de uma instalação audiovisual pretendem retratar cinco rios urbanos do Canadá enquanto “vazios” geradores de habitats de fauna e flora essenciais ao equilíbrio biológico das cidades. Tornam-se por isso “vazios” necessários por si só e essenciais para o aparecimento e desenvolvimento destas cidades. Por outro lado, o Chile pretende mostrar que é um território de imensos contrastes territoriais. Desde florestas tropicais a desertos secos e massas de gelo, o Chile adquiriu uma identidade territorial altamente diversificada. Com poucas cidades, grande parte deste país vive na sua plenitude natural onde aqui a arquitectura não se pretende impor ao lugar, mas pretende fazer parte desse lugar, habitando o vazio.

O Pólo Cascais XXI apresentava uma exposição de projectos culturais de diversas autorias para o novo século. Aqui salienta-se claramente uma aposta na renovação urbana como factor de criação de novos pólos culturais. Destacam-se deste modo o projecto dos Aires Mateus para o Farol Museu de Santa Marta, um edifício recentemente inaugurado conferindo uma nova imagem, mais limpa, ao local, dignificando esta parte da paisagem de Cascais. Torna-se no entanto uma proposta demasiado formalista (como é habitual) que a certa altura ignora aspectos funcionais básicos para acompanhar uma ideia conceptual. Também a futura Casa das Histórias e Desenhos de Paula Rego projectada pelo arquitecto Eduardo Souto de Moura se encontrava em exposição, revelando ser um edifício de implantação segura no local, marcado apenas por dois grandes volumes verticais que se erguem na paisagem. Destaca-se também a reabilitação da Fortaleza da Luz pelos arquitectos Cristina Guedes e Francisco Vieira de Campos onde, numa intervenção quase mínima, pretendem tornar os espaços do forte em espaços de contemplação e de introspecção, através de percursos circundantes e instalações de luzes que tornam a matéria viva e expressiva.

O Pólo da Cordoaria Nacional foi analisado com menos tempo do que o necessário, mas ainda assim se revelou uma exposição de bastante interesse sobre a actualidade das cidades portuguesas. Acima de tudo aquilo que ficou expresso através do longo percurso contínuo de imagens, desenhos e maquetas é que a arquitectura em Portugal está viva e que felizmente há um contínuo pensar sobre a cidade, mesmo que por uma pequena minoria de profissionais. Destacam-se projectos tão distintos como o pavilhão Multiusos de Gondomar ao novo Santurário de Fátima e do projecto de reabilitação da baixa do Porto às propostas urbanas para cidades como S. João da Madeira ou Santa Maria da Feira.

Em jeito de conclusão, há aspectos que se destacam nas exposições e que interessa reflectir. De uma forma geral aquilo que mais transparece nesta trienal dedicada aos “vazios urbanos” é uma atitude, já anteriormente comentada, de Horror Vacuí. Deste modo é frequentemente visível uma mesma atitude perante um vazio: dar-lhe forma. Mas será que um “vazio” não poderá ser caracterizado e usado enquanto ausência de massa tendo em si próprio uma função benéfica para a cidade? Tal como foi demonstrado na exposição do Canadá, os “vazios” são essenciais às cidades, à nossa vida, são essenciais por serem assim mesmo: vazios de massa mas cheios de conteúdo. Enquanto atitude de combate ao “vazio urbano”, os projectos holandeses demonstram uma posição extrema no que diz respeito à gestão desses mesmos “vazios”. De forma bastante objectiva e regrada são definidos “vazios urbanos” essenciais à cidade, assegurando funções especificas para cada um deles na tentativa de evitar situações de desordenamento urbano. Mas serão estas cidades, privadas de “vazios urbanos”, tão ou mais interessantes que as cidades convencionais, retrato de uma evolução histórica sistemática? Teremos de esperar para ver.

011 012

por João Sousa

la biennale di Venezia - 10. mostra di architettura (dia 2)

header_biennale_venezia21.jpg

O segundo dia de visita a Veneza estava destinado a ver a parte principal da exposição da Bienal de Arquitectura, com a temática das cidades. Sendo assim, chegados à zona do Arsenale, dirigimo-nos para a entrada da exposição que começava no edifício da cordoaria. Neste edifício estava a exposição principal da Bienal relativa às cidades, arquitectura e sociedade. Assim, ao longo do edifício eram analisadas um conjunto de 16 metrópoles segundo parâmetros geográficos, sociológicos, antropológicos, de planeamento, … Toda a exposição estava assim organizada segundo o eixo longitudinal do edifício da cordoaria, fazendo-nos caminhar sempre num sentido à medida que a exposição se ia desenrolando. Para cada metrópole eram apresentados os mesmos gráficos, mapas à mesma escala, instalações audiovisuais, fotografias diversas e projectos propostos para zonas específicas. Estiveram então em análise 16 metrópoles de todo o mundo: Mumbai (Índia), Tóquio (Japão), Cidade do México (México), São Paulo (Brasil), Cairo (Egipto), Nova Iorque (Estados Unidos), Shangai (China), Los Angeles (Estados Unidos), Istanbul (Turquia), Bogotá (Colômbia), Londres (Reino Unido), Barcelona (Espanha), Joanesburgo (África do Sul), Caracas (Venezuela), Berlim (Alemanha) e Milão (Iália).

01.jpg 02.jpg

Esta exposição de enorme interesse, analisava exaustivamente cada cidade, apresentando índices de crescimento da população, onde se podia observar a forma como as cidades se desenvolviam, havendo uma clara distinção entre as cidades europeias e as asiáticas, por exemplo. Outro aspecto interessante de análise eram os tipos de malha urbana em cada cidade. Podia-se observar malhas bastante regulares e ortogonais como em Nova Iorque e ao mesmo tempo um tipo de expansão orgânica que se observa na cidade do Cairo. Era possível ainda observar cidades em que havia enormes discrepâncias a nivel de organização urbana e social tal como na Cidade do México, São Paulo ou Caracas e, ao mesmo tempo poderia-se comparar com as cidades asiáticas onde não há uma distinção social tão clara que afecte dessa forma a ocupação do território. Todos estes factores são condicionados por questões económicas, religiosas, políticas, de acontecimentos históricos, … e, vão-se reflectir na forma como as pessoas usam a cidade e, como a própria cidade se estrutura. Assim, dezenas de gráficos mostravam qual era a distribuição da população ao longo da cidade e dos tempos, que percentagem de meios de transporte usam, que índices de consumo energético apresentam, quais as emissões de CO2 per capita, a distribuição etária, a percentagem de literados, o crescimento do produto interno bruto, a esperança de vida, a mortalidade infantil, … Cabia então às pessoas presentes estabelecerem relações entre os vários exemplos apresentados e tirarem as suas próprias conclusões.

03.jpg 04.jpg 05.jpg06.jpg

Há então significativas diferenças nas cidades de cada continente que revelam uma ocupação do solo e uma utilização da cidade completamente distintas. Se por um lado na cidade de Los Angeles, 10% da população utiliza o transporte público, em Tóquio essa percentagem eleva-se a 75% da população. Se, cidades europeias como Berlim ou Milão apresentam ao longo de 50 anos uma tendência para baixar a população, cidades como Cairo e Shangai apresentam uma explosão demográfica que contrasta por completo com as duas anteriores e revelam modos de organização social completamente distintos. Em cidades como São Paulo ou Caracas é possível observar uma clara distinção social através de imagens que revelam torres de habitação luxuosa rodeadas no piso térreo por uma topografia de telhados baixos de construções ilegais que se extendem por diversas áreas da cidade. Ao mesmo tempo, em Bogotá é impressionante a ocupação de favelas que existe em todo o terreno circundante da cidade, criando uma nova paisagem humanizada. Na cidade do México imagens impressionantes mostram como as pessoas comuns vivem, em territórios sem fim, marcados por ruas paralelas que separam e organizam as fracas construções de tijolos e chapa. Também em Joanesburgo é notória a forma como as pessoas vivem em enormes blocos de habitação que pontuam a cidade em extensos conjuntos dormitórios. Em tóquio destaca-se a problemática da poluíção visual e da sobre-ocupação do espaço da cidade, conferindo-lhe o estatuto de cidade mais cara do mundo. E a cidade de Istanbul que se encontra no limiar da Europa e do Médio Oriente que, por um lado se quer adaptar aos modelos europeus, mas que terá talvez mais relações com outras cidades muçulmanas.

07.jpg 08.jpg 09.jpg 10.jpg

Após se percorrer esta exposição extensa e, no final, cansativa, dirigimo-nos para o pavilhão de Itália que continha uma exposição de um worpshop realizado com arquitectos italianos para a concepção de uma cidade utópica, remetendo primeiro para uma aproximação temporal sobre os variados exemplos de cidades útopicas concebidas ao longo da história. Assim, ao longo desta exposição eram apresentados separadamente os projectos de cada equipa que se situavam em fragmentos da malha da cidade e, que no final culminava na maquete do conjunto da cidade com todos os projectos inseridos pretendendo dar a noção da cidade utópica. No entanto, aquilo que se salientava era o contraste entre cada uma das propostas, mais do que a percepção do conjunto formado não por uma ideia de cidade, mas por fragmentos, de intervenções que se consolidavam num território.

11.jpg 12.jpg

Outras exposições mostravam ainda projectos de concursos internacionais como por exemplo o ‘METRÒ-POLIS’ onde os participantes desenvolveram projectos para uma estação de metro em duas cidades italianas, onde se destacava a proposta de Álvaro Siza e Eduardo Souto de Moura pelo contraste formal com as outras propostas.

13.jpg 14.jpg

No remate final da exposição do Arsenal encontrava-se discretamente o pavilhão da China. Composto por uma superfície inclinada de telhas cinzentas tradicionais, suportada por uma estrutura em bambú e um percurso que levava as pessoas até ao centro dessa superfície. Esta peça destacava-se pela sua subtileza no tratamento formal e na sua relação com a paisagem envolvente, havendo quase como que uma união entre o elemento artificial e os elementos naturais. Esta intervenção era uma clara provocação à exposição dos pavilhões da Bienal, onde cada país apresentava o que de mais avançado e melhor tinha no seu país. Neste pavilhão os autores não pretendiam mostrar os avanços ténicos e tecnológicos presentes nos edifícios chineses mas, pretenderam demonstrar como é possível utilizar uma tecnologia tradicional, simples e barata para a construção de espaço e paisagem.

15.jpg

No final a Bienal de Arquitectura foi extremamente positiva pela forma como foi tratada toda a exposição sobre as cidades, fazendo-nos reflectir e permitindo um ensinamento global de cidades tão distintas e distantes. Pelo facto da exposição “Habitar Portugal” não estar enquadrada nos recintos da Bienal, foi extremamente difícil de chegar à casa que a albergava pelo que, uma vez lá chegados estava já encerrada. Assim, concluimos que são necessários mais do que dois dias para se poder ver toda a Bienal, no entanto não deixou de ser extremamente interessante e será uma experiência claramente a repetir.

www.labiennale.org/it/architettura/ www.venicesuperblog.net/

por João Sousa

la biennale di Venezia - 10. mostra di architettura (dia 1)

header_biennale_venezia.jpg

O sol brilhava e a cidade das gôndolas abria as suas portas aos turistas. A cada chegada de comboio, uma nova remessa de gente fervorosa de visitar este local se dirigia como um exército para fora da estação, na tentativa de tirarem as suas primeiras fotos aos canais e às casas características deste espaço. Por todo o lado as barracas de ‘souvenirs’ estavam já repletas de lembranças que faziam as delícias dos recém-chegados que ainda nem sequer tinham aberto os olhos para a cidade.

02.jpg 01.jpg

A bienal de Veneza esperava-nos do outro lado da cidade nos famosos Giardini, um local pouco visitado por turistas mas, nestes dias, bastante visitado por uma espécie de gente que acima de tudo tinha um propósito para lá ir. Quisemos dirigirmo-nos directamente para a Bienal e decidimos apanhar o transporte público da cidade: o Vaporetto. A viagem magnífica através do canal grande dá para ter uma percepção do que foi sendo a cidade até então. Grandes construções, de épocas diferentes, coabitam naquele espaço místico onde a água e a humidade vai deixando as suas marcas profundas nas paredes que nos cercavam. Em cada ponte passada estavam sempre imensos grupos de turistas em sentido com as suas câmaras fotográficas apontadas em gestos bélicos a tudo o que os envolvia.

Após a demorosa viagem até à outra ponta da cidade, estávamos perante os Giardini, um imenso parque que finaliza a ilha principal da cidade e onde estaria uma das duas partes da Bienal de Veneza. Assim, começamos pelo pavilhão espanhol, todo ele dedicado às mulheres que intervêm nas cidades espanholas, desde arquitectas, gerentes de grandes lojas, pensadoras, investigadoras, urbanistas, … Todas elas nos falavam nos olhos enquanto passeávamos pela exposição. Todas tinham algo a dizer sobre a arquitectura mas só as arquitectas é que expunham as suas próprias obras, algumas já bastante publicadas e outras que mesmo sendo uma surpresa não deixavam de ser objecto de interesse na exposição.

05.jpg 04.jpg

Ao lado se situava o pavilhão da Bélgica com a sua exposição La Beauté de l’ordinaire, composta por algumas projecções sobre o território belga e uma grande sala com o mapa da Bélgica impresso no chão. Ora, qual será o interesse de expor o ordinário numa exposição de arquitectura? Será apenas filmar as cidades e o território como se tratasse de um olhar de uma criança? A percepção que se teve desta exposição foi que os autores ao quererem representar o ordinário caíram eles próprios no ordinário pois, mostrar o ordinário não se trata só de mostrar imagens aleatórias de algo, trata-se de dar uma visão única do ordinário, algo que realmente saia do ordinário e que ganhe interesse para ser mostrado para que não seja apenas um acto de listagem aleatória de coisas ordinárias.

Perto do anterior estava o Lisboscópio uma das presenças de Portugal na exposição. Tratava-se de uma pequena instalação audiovisual em que éramos confrontados com uma imagem panorâmica da cidade de Lisboa, sem explicações nem textos. Uma obra um pouco abstracta e difícil de ser compreendida.

06.jpg

Mais à frente apresentava-se o pavilhão dos países nórdicos num estilo sóbrio e totalmente aberto para o exterior, antevendo a exposição que continha no seu interior. Tratava-se de uma exposição sobre intervenções nas cidades de Tromsø na Noruega, Kiruna na Suécia e Oulu na Finlândia. Cada uma das cidades nórdicas apresentava características únicas o que tornava o tipo de intervenção também único, acompanhado de maquetas de edifícios propostos, fotografias dos ambientes de cada cidade e textos explicativos. De uma forma muito clara a exposição mostrava-nos como estas cidades nórdicas nada têm que ver com as cidades do sul e centro da Europa e como as suas particularidades exigem uma adequação dos programas e ideias de projecto para que respondam às suas exigências particulares.

07.jpg 08.jpg

Junto a este pavilhão encontrava-se o pavilhão da Rússia com uma exposição um pouco inquietante sobre o olhar do arquitecto Alexander Brodsky perante a realidade dos blocos habitacionais comunistas. Em todas as instalações apresentadas, havia uma visão caricatural e bastante crítica sobre a actualidade russa com a intenção de mostrar uma realidade às pessoas e fazê-las reflectir sobre os modos de vida desse país.

09.jpg 10.jpg

O pavilhão da Venezuela da autoria de Carlo Scarpa apresentava uma exposição um pouco chocante pelo modo como nos era apresentada. Compunha-se de uma série de imagens gigantes de favelas venezuelanas com apenas um pequeno texto provocativo no centro onde arquitectos venezuelanos nos confrontavam directamente sobre a sua realidade e do modo como os países ocidentais tendem a intervir no território sul-americano, numa tentativa de nos fazer reflectir sobre o que está a ser feito e de tentar evitar utilizar soluções europeias em países não europeus.

O pavilhão da Dinamarca mostrava uma exposição distinta dos anteriores e mais de acordo com a temática geral da Bienal de Veneza. Grupos de arquitectos dinamarqueses trabalharam em conjunto com arquitectos chineses de forma a investigar, analisar e projectar soluções para a problemática explosão demográfica das metrópoles chinesas. Séries de análises identificavam os problemas aos mais diversos níveis das mega-metrópoles na China e, posteriormente eram mostrados mega-projectos com soluções inventivas, por vezes um pouco utópicas, de como se poderia construir de forma a responder às questões levantadas anteriormente.

11.jpg 12.jpg

De seguida o pavilhão da Holanda, de Thomas Rietvelt, mostrava-nos uma exposição baseada em desenhos de arquitectos modernistas holandeses. Nada de Koolhas ou MVRDV, desta vez decidiram mostrar as visões de cidades dos grandes arquitectos do século XX através de esplêndidos desenhos dos mesmos. Era mais uma exposição de desenhos do que de arquitectura, mas ainda assim muito interessante, pois é uma faceta da arquitectura que está cada vez mais esquecida.

14.jpg 13.jpg

O pavilhão da Finlândia de Alvar Aalto mostrava no seu interior uma pequena exposição de arquitectura contemporânea ligada às habitações feitas no país através de apaixonantes fotografias interiores de casas e edifícios de habitação construídos por toda a Finlândia. Uma exposição simples e concisa mas bastante exemplificativa do que por lá se faz.

15.jpg 16.jpg

De seguida se apresentou o pavilhão da França com uma intervenção no mínimo original. Tratava-se de um pavilhão neoclássico que continha uma exposição sobre o habitar mas, de uma forma bastante experimental. A parte central da exposição era constituída por uma grande estrutura em andaimes que formavam os espaços de uma casa à medida que se subia de piso. Assim, no primeiro patamar encontrava-se a cozinha, elaborada de uma forma original, com materiais recicláveis, subindo ao segundo patamar encontrava-se o espaço de sala de estar, o terceiro patamar continha o quarto antes de a estrutura perfurar o tecto do edifício da exposição e de nos encaminhar para o andar seguinte, este agora exterior que encimava a fachada principal do pavilhão e que continha de um lado a casa de banho, a meio uma plataforma que nos projectava para fora dos limites do edifício e, do outro lado um espaço de sauna, solário e ainda piscina. Ainda neste piso havia um novo acesso para uma continuação da estrutura desta vez em forma de torre que culminava numa cama de rede onde se poderia deitar e apreciar toda a paisagem dos Giardini. Era uma intervenção bastante interessante, uma reinvenção da estrutura em andaimes usualmente usada para obras em edifícios mas, que neste caso ela mesmo se torna o edifício, gerando e organizando espaços.

17.jpg 18.jpg

Após toda esta visita ainda ficaram por ver alguns pavilhões que certamente teriam exposições interessantes, mas chegadas as 18 horas fomos avisados de que já tudo estava fechado e não poderíamos continuar a ver as exposições. Ainda assim, o bilhete da Bienal ainda permitia a entrada na segunda parte da exposição situada no Arsenal. Mas isso seria no dia seguinte, agora só nos restava gozar o famoso pôr-do-sol amarelo de Veneza.

19.jpg

www.labiennale.org/it/architettura/ www.venicesuperblog.net/

por João Sousa