
A temática global, os “vazios urbanos” foi algo que por diversas razões esteve sempre presente ao longo das exposições desta Trienal. Aliás, as cidades só existem pela conjugação dos vazios e cheios que as compõem, que lhes dão identidade e as individualizam. No entanto, nestes “vazios urbanos”, é possível notar algumas particularidades que os definem e lhes dão forma e carácter. Mas antes de mais o que são “vazios urbanos” e como poderemos identificá-los? Serão apenas espaços livres de ocupação por entre construções? Poderão ser praças, largos, ruas, vielas, rios, lagos, montes, jardins, parques, que encontramos em diversas cidades? Assim sendo, um “vazio urbano” poderá ter mais do que um significado, poderá ser benéfico ou não para a cidade, poderá ser utilizável ou não, … Deveremos então poder identificar claramente o que são “vazios urbanos” maus e bons, por assim dizer. Sob os quais deveremos intervir mais, ou menos, de forma a que mesmo um “vazio” se encha de identidade e carácter que permita uma função e um uso.
Desde as primeiras cidades que podemos observar uma proliferação de vazios que, com usos distintos, são essenciais à vivência das mesmas. É num “vazio” que se cria o comércio, que se estabelecem laços e relações e que se faz a vida social urbana. Ora, aquilo que herdamos de milénios de história são modus operandi que originaram aglomerados urbanos, construções e vazios, diferentes aspectos que levaram as cidades históricas ao que são hoje e que as conduzem numa evolução sistemática ao longo dos tempos.
O que se pôde observar através uma visita atempada à exposição principal no pavilhão de Portugal foi uma diversidade de aproximações aos aspectos vazios de cidades distintas que resultam em projectos mais ou menos inventivos onde aquilo que se torna mais interessante é precisamente entender a posição dos autores dos projectos em conjunto com as políticas urbanas dos países e a ideologia inerente ao uso da cidade.
Começando pela secção da Irlanda, são apresentados vários projectos de ocupação e de desocupação de cidades numa tentativa de resposta aos critérios da exposição. Salienta-se aqui uma atitude perante o “vazio”, a construção em altura como forma de reaproveitamento do espaço público. A secção da Holanda apresenta uma diversidade de projectos urbanos que realçam as preocupações urbanas deste país. Com cada vez menos espaço disponível para a construção, os holandeses vêem-se forçados a ser cada vez mais organizados de forma a poderem usufruir dos vazios enquanto expandem as suas cidades. Aqui é notória uma atitude, o horror vacuí enquanto elemento de dispersão urbana. Pretende-se dar uso a todos os espaços da cidade e numa tentativa quase desesperada, de reocupar e reordenar os centros das cidades, gerando implosões urbanas. O Canadá exibe uma atitude claramente contrastante com as anteriores e que se revela de grande interesse no desenrolar da exposição. Através de uma instalação audiovisual pretendem retratar cinco rios urbanos do Canadá enquanto “vazios” geradores de habitats de fauna e flora essenciais ao equilíbrio biológico das cidades. Tornam-se por isso “vazios” necessários por si só e essenciais para o aparecimento e desenvolvimento destas cidades. Por outro lado, o Chile pretende mostrar que é um território de imensos contrastes territoriais. Desde florestas tropicais a desertos secos e massas de gelo, o Chile adquiriu uma identidade territorial altamente diversificada. Com poucas cidades, grande parte deste país vive na sua plenitude natural onde aqui a arquitectura não se pretende impor ao lugar, mas pretende fazer parte desse lugar, habitando o vazio.

O Pólo Cascais XXI apresentava uma exposição de projectos culturais de diversas autorias para o novo século. Aqui salienta-se claramente uma aposta na renovação urbana como factor de criação de novos pólos culturais. Destacam-se deste modo o projecto dos Aires Mateus para o Farol Museu de Santa Marta, um edifício recentemente inaugurado conferindo uma nova imagem, mais limpa, ao local, dignificando esta parte da paisagem de Cascais. Torna-se no entanto uma proposta demasiado formalista (como é habitual) que a certa altura ignora aspectos funcionais básicos para acompanhar uma ideia conceptual. Também a futura Casa das Histórias e Desenhos de Paula Rego projectada pelo arquitecto Eduardo Souto de Moura se encontrava em exposição, revelando ser um edifício de implantação segura no local, marcado apenas por dois grandes volumes verticais que se erguem na paisagem. Destaca-se também a reabilitação da Fortaleza da Luz pelos arquitectos Cristina Guedes e Francisco Vieira de Campos onde, numa intervenção quase mínima, pretendem tornar os espaços do forte em espaços de contemplação e de introspecção, através de percursos circundantes e instalações de luzes que tornam a matéria viva e expressiva.
O Pólo da Cordoaria Nacional foi analisado com menos tempo do que o necessário, mas ainda assim se revelou uma exposição de bastante interesse sobre a actualidade das cidades portuguesas. Acima de tudo aquilo que ficou expresso através do longo percurso contínuo de imagens, desenhos e maquetas é que a arquitectura em Portugal está viva e que felizmente há um contínuo pensar sobre a cidade, mesmo que por uma pequena minoria de profissionais. Destacam-se projectos tão distintos como o pavilhão Multiusos de Gondomar ao novo Santurário de Fátima e do projecto de reabilitação da baixa do Porto às propostas urbanas para cidades como S. João da Madeira ou Santa Maria da Feira.
Em jeito de conclusão, há aspectos que se destacam nas exposições e que interessa reflectir. De uma forma geral aquilo que mais transparece nesta trienal dedicada aos “vazios urbanos” é uma atitude, já anteriormente comentada, de Horror Vacuí. Deste modo é frequentemente visível uma mesma atitude perante um vazio: dar-lhe forma. Mas será que um “vazio” não poderá ser caracterizado e usado enquanto ausência de massa tendo em si próprio uma função benéfica para a cidade? Tal como foi demonstrado na exposição do Canadá, os “vazios” são essenciais às cidades, à nossa vida, são essenciais por serem assim mesmo: vazios de massa mas cheios de conteúdo. Enquanto atitude de combate ao “vazio urbano”, os projectos holandeses demonstram uma posição extrema no que diz respeito à gestão desses mesmos “vazios”. De forma bastante objectiva e regrada são definidos “vazios urbanos” essenciais à cidade, assegurando funções especificas para cada um deles na tentativa de evitar situações de desordenamento urbano. Mas serão estas cidades, privadas de “vazios urbanos”, tão ou mais interessantes que as cidades convencionais, retrato de uma evolução histórica sistemática? Teremos de esperar para ver.
por João Sousa