palavras da arquitectura / um olhar sobre a arquitectura contemporãnea / João Pereira de Sousa palavrasdaarquitectura@gmail.com


Archive

Ser ou Não Ser Moderno

header1.jpg

Com cada vez maior frequência, nos dias que correm, somos confrontados com uma dicotomia aparentemente inofensiva mas que na realidade acaba por ser uma das maiores discussões (ou indecisões) da arquitectura contemporânea. A questão do ter ou não ter uma linguagem moderna, do ter ou não ter uma atitude moderna, surge hoje em dia como um problema corrente da prática arquitectónica que interessa analisar e entender a sua definição.

As primeiras referências a uma linguagem moderna surgiram durante o primeiro período da história onde se realizou a primeira revolução ideológica com impacto em todas as dimensões do Homem. Esta modernidade antropológica coincide com o período que em arquitectura designamos de Renascimento. O novo modo de pensar, baseado no Homem e não em Deus, constituiu a grande revolução desta época e originou novos modos de conceber e de pensar a arquitectura, designados de modernos.

Uma nova modernidade advém, como a anterior, de uma revolução, desta vez a nível social. A partir da Revolução Industrial (RI), o desenvolvimento das indústrias levou a uma enorme afluência dos grandes centros industriais do mundo, gerando desta vez problemas a nível do funcionamento das cidades e da sua estrutura social. Esta modernidade sociológica vai permitir novos rumos na Arquitectura que atravessava um grande período de indecisão se esta deveria ou não interferir directamente na estrutura social das cidades.

Só em 1928, com o primeiro Congrès Internacional d’Architecture Moderne (CIAM) surge um grupo de arquitectos que pretende atribuir um papel preponderante na arquitectura para a resolução dos problemas sociais que advinham da RI. Os arquitectos propunham-se intervir na sociedade de forma estritamente profissional, apelando a uma arquitectura de carácter social, rompendo então com o academismo que vigorava desde o século XV.

Nos dias de hoje vivemos mais uma vez um período de instabilidade a nível social, cultural e tecnológico. A arquitectura que vem sendo feita é de uma pluralidade até então nunca vista: se por um lado temos um Siza ou um Zumthor, por outro existe um Koolhas ou um Holl. Assistimos a uma diversidade de linguagens e de aproximações à arquitectura que me faz, antes de mais, crer que vivemos num período de transição, de incerteza, para com uma nova modernidade. A revolução que vivemos hoje é de igual ou maior importância de todas as anteriores, a sociedade está a sofrer mudanças profundas na sua estrutura, as comunicações estão a evoluir de uma forma alucinante e a globalização veio para ficar. Poderá a arquitectura adaptar-se aos novos tempos de forma a tomar um papel preponderante na vida social, cultural e económica das cidades? Se sim, como?

A Post-Modernidade (enunciada por Pedro Vieira de Almeida) que se inicia agora destaca-se das duas modernidades anteriores através da evolução dos tempos e dos pensares. No final do século XX assistimos ao surgimento de uma nova noção por Henry Laborit, a da 3ª cultura. Até então nunca identificada, a 3ª cultura é a cultura de massas, a que a maior parte da população pertence e a que menos valores culturais detém. Se até então a arquitectura era feita para sectores sociais da 1ª cultura (humanista) e da 2ª cultura (científica), desde os finais do século XX que a arquitectura vem esbarrando com a noção da 3ª cultura.

Pode-se estabelecer uma analogia entre as formas arquitecturais do movimento pós-modernista e a 3ª cultura pois estão intimamente ligados e reflectem um pouco de certas “arquitecturas” que se fazem hoje. A cultura de massas é uma cultura que não se referencia nem na história nem no espaço, não tem uma reflexão própria e por isso mesmo consome (não cria) produtos externos, provenientes das outras duas culturas. Assim, procede-se a uma generalização dos valores e produtos culturais que se reflectem hoje em dia sob a forma de Globalização. Ora a arquitectura “da globalização” é uma arquitectura (aparentemente) sem referências, nem históricas nem culturais. Está voltada para o consumismo massificado e para uma aceitação imediata, não reflexiva. Deste modo, a arquitectura perde o seu carácter local e específico para valores genericamente globais de uma cultura de massas. Será esta a direcção a seguir nesta nova modernidade? Com total segurança acredito que não. No entanto são características da sociedade actual e que devemos considerar.

Deste modo, Kenneth Frampton evoca no seu livro a noção de “Regionalismo Crítico”, insurgindo-se perante esta ideia de universalização cultural. Esta expressão insere-se perfeitamente neste contexto pois só faz sentido nesta nova modernidade. O “Regionalismo Crítico” é, tal como a expressão diz, “a promoção de valores de registo local (Regionalismo), ao nível da linguagem internacional (Crítico). Pretende-se com isto clarificar que, mais do que aceitar uma universalização cultural, é imperativo haver um reconhecimento da validade dos valores culturais regionais que tem de ser, desde logo, conjugado com uma consciência dos valores internacionais. Tornando assim mais ricos os valores culturais regionais com valores internacionais.

Assim, mais do que defender uma globalização, deveríamos defender um internacionalismo, pois este implica simplesmente a troca e a inter-influência de valores, contrariamente à posição de exportação de valores globais generalizados.

Esta noção de “Regionalismo Crítico” considero-a particularmente importante para a definição de uma arquitectura deste tempo, na medida em que só com o conhecimento e a percepção dos valores regionais e internacionais é possível conceber uma arquitectura moderna alheia a linguagens, a movimentos e a modas.

Em jeito de conclusão cito uma frase de Emile Schreiber já várias vezes citada e que tem particular interesse neste contexto: “Pénétration internacionale, interprétation nationale, voilá tout le secret du monde de demain”.

por João Sousa

kunsthaus bregenz - peter zumthor

header3.jpg

Situado ao longo do lago Konstance numa pequena cidade alpina da Áustria, o Kunthaus de Bregenz adivinha-se facilmente pela sua singularidade formal em relação às construções envolventes. Percepciona-se antes de mais como uma caixa de vidro que se solta do solo e se ergue para o céu, enfatizando a sua presença e mostrando o seu carácter. Perpendicularmente a este edifício situa-se o pavilhão da livraria e cafetaria numa expressão diferente, complementando a imagem do museu e criando à sua volta uma praça regular com um carácter singular.

001.jpg 002.jpg 004.jpg

Falar deste edifício é falar sobre os valores intrínsecos da arquitectura. Não será possível manter um discurso sobre esta obra sem nos remetermos directamente para as bases da linguagem arquitectónica. A Arquitectura faz-se de Matéria, Luz e Espaço. São estas as condições essenciais desta obra singular e subtil.

Matéria

O edifício do Kunsthaus constrói-se essencialmente de dois materiais: Betão e Vidro. O exterior reveste-se em placas de vidro assentes numa estrutura metálica de suporte, que permitem o atravessamento de ar e a entrada de luz. O interior é constituído essencialmente pela cor e textura das paredes em betão polido que sustentam a construção. Em termos estruturais, esta obra merece destaque pela forma como o espaço é pensado e projectado em comunhão com os elementos estruturais que permitem a sustentação de todo o edifício. A aparente simplicidade e despojamento interiores são conseguidos essencialmente através de três paredes estruturais que, na sua disposição específica, sustentam todo o conjunto, permitindo a formalização de um espaço contínuo, sem barreiras visuais. As salas do museu são construídas como caixas de betão que se apoiam nas três paredes estruturais, escondendo os acessos verticais, conferindo uma aparência sólida e de forte carácter ao espaço.

005.jpg 006.jpg

Luz

A aparente leveza perceptível do exterior, a partir das fachadas vidradas esconde no seu interior toda uma estrutura sólida de betão que se reflecte nas salas de exposição. O tratamento da luz neste edifício merece especial destaque pela forma como o arquitecto cria uma modelação subtil da luz natural para o interior do edifício. Assim, a partir do piso de entrada é possível perceber-se todo um entorno luminoso que se transmite directamente através da fachada vidrada que filtra a luz, conferindo uma atmosfera pacífica e regular ao longo do dia. Já nas salas de exposição e nas escadas, a luz é trabalhada de forma homogénea a partir de todo o tecto, conferindo uma dimensão sensorial distinta a estes espaços pelo tratamento da luz em conjunto com a matéria das paredes e chão.

007.jpg 01.jpg

Espaço

A análise espacial que se pretende fazer não é em termos de áreas ou volumes mas sim em termos sensoriais e do domínio da percepção física e visual. Assim, Os diferentes espaços desta obra são identificados de uma forma inteiramente original através da sua matéria e da luz. O espaço por si só já é objecto de contemplação. É importante que num museu os espaços expositivos estejam dotados de um carácter próprio para que sejam eles próprios, ao mesmo tempo a moldura e a obra de arte. No Kunsthaus de Bregenz, as exposições são feitas em função dos espaços expositivos. Encontram-se aqui obras únicas que foram criadas especialmente para o museu, através das suas particularidades espaciais. Deste modo os espaços do museu distanciam-se da ideia abstracta de “cubo branco”, que durante décadas foi a base espacial de diversos museus e, caracterizam-se por serem uma fonte de inspiração e eles próprios o objecto e a própria arte.

008.jpg

Esta obra de Peter Zumthor, vencedora do prémio Mies Van der Rohe, revela-se assim subtil pela forma e tratamento espacial e, de como as diferentes dimensões da arquitectura são tratadas de modo a concretizar um todo através do tratamento da luz, dos espaços e da matéria onde, o detalhe e o rigor atingem aqui uma importância extrema na definição da obra e da ideia conceptual.

02.jpg 03.jpg 04.jpg 05.jpg

por João Sousa

Avenida dos Aliados

header.jpg

A Avenida dos Aliados no Porto, traçada pela mão do inglês Barry Parker em inícios do século XIX e edificada segundo o arquitecto portuense Marques da Silva, desde logo tomou a designação do boulevard do Porto. Foi sem dúvida o maior espaço público urbano projectado na cidade invicta até então. Tratava-se portanto da avenida central da cidade, de gosto cosmopolita, ladeada por fachadas de edifícios ao gosto beaux-artiano, abrindo espaço para a renovação da cidade do porto, uma cidade burguesa.

aliados_03.jpg
O Porto, ao contrário de cidades como Lisboa ou Coimbra, desde logo tem um carácter distinto que adveio da sua própria cultura mercantil e comercial. Tornou-se, por norma, numa cidade burguesa, onde grande parte da população vivia do comércio ou da indústria. Com a progressiva instalação de comerciantes ingleses na cidade em busca da riqueza das vinhas do Douro, o Porto iniciou a sua transformação para a cidade novecentista abrindo rumos para a criação de novos traçados urbanos e novos programas arquitectónicos. Surgem os Almadas que terão um enorme impacto na renovação e expansão da cidade e, através da influência inglesa começam-se a construir obras ao gosto internacional.

Aquilo que realmente distingue esta cidade das outras cidades portuguesas é a sua matéria. Ao contrário do que se encontra a sul do Mondego, no Norte de Portugal predominam os solos graníticos. Esta será desde logo a matéria fundamental para a construção da cidade. Assim sendo, a cor, a textura e o odor do Porto são de granito e não de qualquer outra pedra calcária. Com a construção da avenida dos Aliados, fez-se no Porto o que se fez em numerosas colónias portuguesas: importou-se um modo de fazer calçada em pedra, posteriormente referida como à portuguesa.

Posto isto, passemos à análise da Avenida dos Aliados:

O que existia antes?

Uma avenida edificada em inícios do século XIX, ao gosto internacional e ladeada de grandes edifícios de linhas orientadoras beaux-artianas. O ambiente da avenida e da praça era traçado pelo pavimento em basalto com os desenhos alusivos aos descobrimentos e à colonização, feito como um enorme mosaico que só a mestria de alguns pedreiros portugueses permitia que tal fosse possível. Os jardins e as árvores enriqueciam este ambiente tornando-o bucólico e simbólico da cidade através da estátua equestre de D. Pedro IV apontando para o Brasil.

aliados_04.jpg aliados_01.jpg

O que é que se encontrava naquele local antes da intervenção?

Uma avenida cada vez mais atravessada por pessoas, carros e autocarros. Os passeios agora desnivelados, pedras que já não existiam, jardins pouco cuidados. Uma faixa central pouco convidativa à deslocação de pessoas, usada maioritariamente para repousar mesmo entre o caos de táxis, autocarros e carros em constante passagem. Uma avenida que em dias de festa (S. João, passagem de ano, vitórias de clubes de Futebol) não conseguia conter o enorme fluxo de pessoas que aí se deslocavam, mesmo com as suas enormes dimensões.

O que era necessário fazer?

Necessitava-se revitalizar a baixa, fazer passar o metro por debaixo da avenida, dar uma imagem renovada e criar uma ordem em todo aquele espaço público. De forma a tornar o projecto coerente e valioso para a cidade, os dois arquitectos responsáveis (Siza Vieira e Souto de Moura) decidiram juntar-se e pensar as suas intervenções em conjunto.

O que existe agora?

O que se percepciona hoje em dia é uma avenida notoriamente urbana, bem regrada, feita para as pessoas, para os automóveis e para metro, permitindo de uma forma absolutamente nova visualizar toda a riqueza arquitectural dos edifícios que formam a fachada da avenida e que até então nunca tínhamos tido a percepção.
Transpondo esta ideia para o que se tem feito a nível europeu, existe um enorme interesse na remodelação de uma avenida como esta e com as dimensões que esta tem. O facto da faixa central estar livre permite que as pessoas não andem só pelos passeios laterais, mas que façam o seu percurso pela faixa central. Ao descer a avenida tem-se a percepção da Sé do Porto que se lança no céu, tem-se os enfiamentos das ruas transversais à avenida que mantêm a sua riqueza arquitectural, tem-se a noção de se estar num espaço urbano, rico em história e que privilegia o fluxo de pessoas permitindo que o tráfego de automóveis siga de forma contida e regrada. A nova avenida dos aliados torna-se assim num espaço não só funcional mas de criação. Torna-se num espaço de expressão artística, social e cultural, num espaço urbano no verdadeiro sentido do termo. A nova configuração da avenida permite, de uma forma nova, albergar toda a variedade de acontecimentos que acontecem regularmente e que não podem passar despercebidos pois fazem parte da cultura urbana do porto. À semelhança de outras cidades europeias, a existência de um grande espaço público central na cidade origina uma dinâmica urbana, permitindo diferentes acontecimentos sociais e culturais que incitam a uma interacção social mais rica e evidenciam a vitalidade da cidade. Tem-se assistido já a pequenos eventos novos nesta avenida que, de uma forma tímida vão sensibilizando os cidadãos para uma vivência maior daquele espaço urbano. Será este o caminho a seguir para que este espaço se torne realmente num centro social e urbano da baixa portuense, permitindo uma culturização das pessoas e uma maior permanência neste espaço público.

aliados_02.jpg aliados_06.jpg

No entanto, esta nova intervenção tem alguns aspectos ambíguos. A fonte que foi criada no eixo central da praça torna-se um elemento estranho à imagem geral da intervenção. Pretende ter um desenho minimalista, mas acaba por perder o seu sentido quando se observa de longe parecendo apenas um buraco. Apenas quando se está junto a ela é que se consegue percepcionar o seu desenho e a sua função. Também as duas estátuas já existentes a meio da avenida acabaram por ficar um pouco desnudadas pela falta de envolvência. No entanto evidenciam o alinhamento principal do eixo central da avenida. Em termos de mobiliário urbano considero a opção usada no topo da avenida uma mais valia para o espaço público pois, ao utilizar mesas e cadeiras semi-amovivéis, permite o agrupamento de pessoas naquele espaço. Ao mesmo tempo torna-se uma provocação ao bom senso e à responsabilidade dos cidadãos. Em termos de vegetação, os arquitectos limparam a praça central para permitir uma maior dinâmica nos usos da praça. Toda a vegetação rasteira foi retirada e acabou por se tornar vantajoso pois torna o espaço mais passível de ser utilizado de diferentes formas, limpando-o de barreiras físicas. Também se retiraram as árvores da praça central, plantando-se mais árvores ao longo dos passeios laterais agora mais largos e no topo da avenida junto à fonte. Torna-se também uma forma de ordenar o espaço público permitindo que as árvores cresçam desafogadamente e que criem espaços de sombra onde são necessários.

aliados_05.jpg aliados_07.jpg

Em suma, a intervenção na Avenida dos Aliados é acima de tudo uma posição de vanguarda perante uma cidade histórica e de fortes raízes com o passado. Os arquitectos tiveram a visão de criar um espaço com reais valores urbanos sem que caíssem na tentação de re-fazer o que já lá estava antes e que não resultava. Também é de salientar a opção da escolha dos materiais para a constituição dos pavimentos já que todos os pavimentos anteriores foram retirados. Numa cidade com um forte carácter como o Porto, a renovação da Avenida dos Aliados veio vincar ainda mais este ambiente citadino do Porto ao utilizar o material mais característico desta cidade e resolvendo-o a nível de desenho de uma forma bastante criativa e rica.

por João Sousa

Moderna Museet - Rafael Moneo

header.jpg

A construção de obras novas num local com grande história e de pré-existências, exige sempre, por parte do arquitecto, uma grande sensibilidade e um saber que lhe permita projectar em conjunto com a paisagem, tornando a obra de arquitectura não como um objecto mas como uma membrana que estabelece ligações entre os diversos aspectos caracterizadores do local.
Quando o júri do concurso para o novo museu de arte moderna de Estocolmo nomeou o presente projecto como vencedor, não fazia ideia de que a pessoa por detrás do projecto seria um arquitecto não escandinavo, nomeadamente espanhol. Pois a forma como o projecto é concebido, em intrínseca relação com o lugar, com a cultura escandinava e com a luz da Suécia, denota uma especial sensibilidade e compreensão, como se o autor fosse nativo deste país. Tal poderá ter que ver com o facto de Moneo ter trabalhado em tempos com Utzon e de, na sua obra haver sempre algumas referências aaltianas.

011.jpg 021.jpg

O Moderna Museet implanta-se na ilha de Skeppsholmen, uma das ilhas que formam a cidade de Estocolmo, junto ao edifício histórico Tyghuset, um antigo arsenal militar, tomando-o como referência para o desenrolar de todo o edifício do museu. Ao contrário da maior parte dos projectos a concurso, Moneo desde logo quis retirar destaque visual à sua obra, afastando-a na extremidade da ilha, envolvendo-a em torno de edifícios históricos, sendo então quase imperceptível a presença do edifício do museu na ilha. A forma como o edifício indicia uma existência e convida à entrada é feita através de uma pala que se solta do interior e se estende para fora até ao limite do edifícios vizinhos, permitindo uma primeira visão da obra de onde se avista um extenso vão vidrado que acompanha o grande espaço de circulação junto às salas de exposição. Uma vez no interior, o museu divide-se em duas partes, o Moderna Museet e o Arkitekturmuseet que se instala num dos edifícios pré-existentes ao qual Moneo encostou a sua obra. Desde logo, a partir da zona do foyer se tem uma percepção quase total do comprimento do museu. Na direcção da entrada encontra-se a zona da cafetaria, um espaço de especial interesse pela interacção que promove com o exterior e o rio, criando um ambiente relaxado acompanhado de uma esplanada que se projecta para o exterior. Dirigindo-se para as zonas expositivas, somos confrontados com um espaço alongado especialmente trabalhado a nível da iluminação natural, caracterizado por um vão a todo o comprimento que permite uma entrada de luz expressiva que vai caracterizar todo o espaço. É através deste local que se faz o acesso às diferentes salas expositivas e é a ele que se volta sempre que se sai de cada sala.

061.jpg 071.jpg

Aquilo que realmente tem interesse abordar em termos de organização espacial do programa do museu é como o arquitecto resolveu toda uma série de percursos, tornando-os intuitivos e fáceis de percorrer. Ao criar 4 módulos de salas expositivas, Moneo recorreu a um elemento que as interligasse. É ele todo espaço do alçado sul que permite a criação de um percurso exterior às salas, dando-lhes acesso, facilitando a circulação. Quando finalmente se sai do último módulo de salas volta-se de novo a esse percurso, desta vez em direcção ao foyer, podendo deste modo fazer-se o regresso à entrada do museu sem ter de se passar outra vez pelas salas de exposição. O que confere uma nova dimensão de percurso, pois desta vez o visitante pode ter uma percepção de atmosferas diferentes, com uma forte interacção com o exterior.
Aquilo que pode ser considerado um elemento de novidade e uma forma criativa de criar os espaços do museu é a forma como Moneo organizou e formalizou as salas expositivas. Assim, foram criados 4 módulos que contém diferentes salas expositivas. O primeiro módulo, junto ao foyer constitui a sala de exposições temporárias. É então um espaço totalmente livre que permite uma certa flexibilidade. Aquilo que realmente caracteriza este espaço é a forma como foi trabalhada a luz. Através de um conjunto de lanternins que ocupam toda a superfície do tecto da sala, é possível a entrada de uma luz filtrada, permitindo uma iluminação homogénea de todo o espaço. Os 3 módulos seguintes partem da mesma ideia conceptual e materializam-se de formas semelhantes. Assim, como estes módulos se destinam a exposições permanentes, estão divididos em salas de diferentes dimensões que permitem uma certa flexibilidade em termos de ocupação. Assim, como cada módulo está encerrado para o exterior, a forma de permitir a entrada de luz foi, mais uma vez, através da utilização de lanternins para a entrada de luz zenital. Aquilo que vai caracterizar cada sala dos respectivos módulos é precisamente o desenho do lanternim. É esse o elemento de mais força e aquilo que realmente dá interesse ao espaço. Consegue-se criar então uma atmosfera de luz difusa que tem ligeiras nuances conforme as dimensões das salas e, consequentemente dos lanternins.

081.jpg 091.jpg

Os lanternins tornam-se nos elementos de destaque e de caracterização do edifício a partir do exterior, pois como já foi referido, todo o edifício está praticamente tapado pelas construções antigas, denotando-se apenas o telhado com os seus lanternins. Moneo sabia que estes elementos seriam de facto aquilo que caracterizaria melhor o edifício e trabalhou-os de forma a terem uma expressão interessante de relacionando-se com a paisagem. O telhado do museu é então trabalhado em função dos elementos de entrada de luz. Aquilo que anteriormente seria um telhado plano sem expressão, tornou-se agora um conjunto de pequenas coberturas de quatro águas encimadas por um elemento vertical de entrada de luz, um pouco alusivo à cobertura da igreja vizinha. Assim, a visão externa do museu torna-se mais difusa e comunicativa com a envolvente pelo facto da linguagem ser semelhante.

O Moderna Museet em Estocolmo pode ser então considerado como uma boa forma de intervir num património natural e urbano, pela forma como se associa às pré-existências, reduzindo a sua notoriedade, mas conferindo espaços de interesse, mesmo albergando o programa extenso de um museu de arte moderna. A nível da solução espacial também é interessante a forma como os percursos foram pensados, nunca se repetindo um mesmo percurso, dando uma visão contínua do museu. A nível da solução de iluminação, esta tornou-se o elemento que acabou por caracterizar todo o edifício denotando-se um grande trabalho na forma como os lanternins se relacionam com o exterior e com o interior. No entanto, a intensidade de luz no interior não permite uma clara iluminação das salas, já que em Estocolmo a intensidade solar é bastante menor do que em Espanha. Foi então necessário recorrer à iluminação artificial de forma a complementar a intensidade luminosa. Não deixa, no entanto de ser uma obra com grande interesse e de certo modo inovadora pelos aspectos analisados.

121.jpg 131.jpg

por João Sousa

la biennale di Venezia - 10. mostra di architettura (dia 2)

header_biennale_venezia21.jpg

O segundo dia de visita a Veneza estava destinado a ver a parte principal da exposição da Bienal de Arquitectura, com a temática das cidades. Sendo assim, chegados à zona do Arsenale, dirigimo-nos para a entrada da exposição que começava no edifício da cordoaria. Neste edifício estava a exposição principal da Bienal relativa às cidades, arquitectura e sociedade. Assim, ao longo do edifício eram analisadas um conjunto de 16 metrópoles segundo parâmetros geográficos, sociológicos, antropológicos, de planeamento, … Toda a exposição estava assim organizada segundo o eixo longitudinal do edifício da cordoaria, fazendo-nos caminhar sempre num sentido à medida que a exposição se ia desenrolando. Para cada metrópole eram apresentados os mesmos gráficos, mapas à mesma escala, instalações audiovisuais, fotografias diversas e projectos propostos para zonas específicas. Estiveram então em análise 16 metrópoles de todo o mundo: Mumbai (Índia), Tóquio (Japão), Cidade do México (México), São Paulo (Brasil), Cairo (Egipto), Nova Iorque (Estados Unidos), Shangai (China), Los Angeles (Estados Unidos), Istanbul (Turquia), Bogotá (Colômbia), Londres (Reino Unido), Barcelona (Espanha), Joanesburgo (África do Sul), Caracas (Venezuela), Berlim (Alemanha) e Milão (Iália).

01.jpg 02.jpg

Esta exposição de enorme interesse, analisava exaustivamente cada cidade, apresentando índices de crescimento da população, onde se podia observar a forma como as cidades se desenvolviam, havendo uma clara distinção entre as cidades europeias e as asiáticas, por exemplo. Outro aspecto interessante de análise eram os tipos de malha urbana em cada cidade. Podia-se observar malhas bastante regulares e ortogonais como em Nova Iorque e ao mesmo tempo um tipo de expansão orgânica que se observa na cidade do Cairo. Era possível ainda observar cidades em que havia enormes discrepâncias a nivel de organização urbana e social tal como na Cidade do México, São Paulo ou Caracas e, ao mesmo tempo poderia-se comparar com as cidades asiáticas onde não há uma distinção social tão clara que afecte dessa forma a ocupação do território. Todos estes factores são condicionados por questões económicas, religiosas, políticas, de acontecimentos históricos, … e, vão-se reflectir na forma como as pessoas usam a cidade e, como a própria cidade se estrutura. Assim, dezenas de gráficos mostravam qual era a distribuição da população ao longo da cidade e dos tempos, que percentagem de meios de transporte usam, que índices de consumo energético apresentam, quais as emissões de CO2 per capita, a distribuição etária, a percentagem de literados, o crescimento do produto interno bruto, a esperança de vida, a mortalidade infantil, … Cabia então às pessoas presentes estabelecerem relações entre os vários exemplos apresentados e tirarem as suas próprias conclusões.

03.jpg 04.jpg 05.jpg06.jpg

Há então significativas diferenças nas cidades de cada continente que revelam uma ocupação do solo e uma utilização da cidade completamente distintas. Se por um lado na cidade de Los Angeles, 10% da população utiliza o transporte público, em Tóquio essa percentagem eleva-se a 75% da população. Se, cidades europeias como Berlim ou Milão apresentam ao longo de 50 anos uma tendência para baixar a população, cidades como Cairo e Shangai apresentam uma explosão demográfica que contrasta por completo com as duas anteriores e revelam modos de organização social completamente distintos. Em cidades como São Paulo ou Caracas é possível observar uma clara distinção social através de imagens que revelam torres de habitação luxuosa rodeadas no piso térreo por uma topografia de telhados baixos de construções ilegais que se extendem por diversas áreas da cidade. Ao mesmo tempo, em Bogotá é impressionante a ocupação de favelas que existe em todo o terreno circundante da cidade, criando uma nova paisagem humanizada. Na cidade do México imagens impressionantes mostram como as pessoas comuns vivem, em territórios sem fim, marcados por ruas paralelas que separam e organizam as fracas construções de tijolos e chapa. Também em Joanesburgo é notória a forma como as pessoas vivem em enormes blocos de habitação que pontuam a cidade em extensos conjuntos dormitórios. Em tóquio destaca-se a problemática da poluíção visual e da sobre-ocupação do espaço da cidade, conferindo-lhe o estatuto de cidade mais cara do mundo. E a cidade de Istanbul que se encontra no limiar da Europa e do Médio Oriente que, por um lado se quer adaptar aos modelos europeus, mas que terá talvez mais relações com outras cidades muçulmanas.

07.jpg 08.jpg 09.jpg 10.jpg

Após se percorrer esta exposição extensa e, no final, cansativa, dirigimo-nos para o pavilhão de Itália que continha uma exposição de um worpshop realizado com arquitectos italianos para a concepção de uma cidade utópica, remetendo primeiro para uma aproximação temporal sobre os variados exemplos de cidades útopicas concebidas ao longo da história. Assim, ao longo desta exposição eram apresentados separadamente os projectos de cada equipa que se situavam em fragmentos da malha da cidade e, que no final culminava na maquete do conjunto da cidade com todos os projectos inseridos pretendendo dar a noção da cidade utópica. No entanto, aquilo que se salientava era o contraste entre cada uma das propostas, mais do que a percepção do conjunto formado não por uma ideia de cidade, mas por fragmentos, de intervenções que se consolidavam num território.

11.jpg 12.jpg

Outras exposições mostravam ainda projectos de concursos internacionais como por exemplo o ‘METRÒ-POLIS’ onde os participantes desenvolveram projectos para uma estação de metro em duas cidades italianas, onde se destacava a proposta de Álvaro Siza e Eduardo Souto de Moura pelo contraste formal com as outras propostas.

13.jpg 14.jpg

No remate final da exposição do Arsenal encontrava-se discretamente o pavilhão da China. Composto por uma superfície inclinada de telhas cinzentas tradicionais, suportada por uma estrutura em bambú e um percurso que levava as pessoas até ao centro dessa superfície. Esta peça destacava-se pela sua subtileza no tratamento formal e na sua relação com a paisagem envolvente, havendo quase como que uma união entre o elemento artificial e os elementos naturais. Esta intervenção era uma clara provocação à exposição dos pavilhões da Bienal, onde cada país apresentava o que de mais avançado e melhor tinha no seu país. Neste pavilhão os autores não pretendiam mostrar os avanços ténicos e tecnológicos presentes nos edifícios chineses mas, pretenderam demonstrar como é possível utilizar uma tecnologia tradicional, simples e barata para a construção de espaço e paisagem.

15.jpg

No final a Bienal de Arquitectura foi extremamente positiva pela forma como foi tratada toda a exposição sobre as cidades, fazendo-nos reflectir e permitindo um ensinamento global de cidades tão distintas e distantes. Pelo facto da exposição “Habitar Portugal” não estar enquadrada nos recintos da Bienal, foi extremamente difícil de chegar à casa que a albergava pelo que, uma vez lá chegados estava já encerrada. Assim, concluimos que são necessários mais do que dois dias para se poder ver toda a Bienal, no entanto não deixou de ser extremamente interessante e será uma experiência claramente a repetir.

www.labiennale.org/it/architettura/ www.venicesuperblog.net/

por João Sousa