palavras da arquitectura | um olhar sobre a arquitectura contemporânea | João Pereira de Sousa palavrasdaarquitectura@gmail.com


Arquivo de Tags 'Álvaro Siza Vieira'

Pavilhão Multiusos – Álvaro Siza Vieira

header_2.jpg

A partir da recente inauguração do novo pavilhão multiusos de Gondomar e após uma breve visita ao edifício, aproveito para estabelecer um paralelo entre as duas obras recentes de conteúdo desportivo do arquitecto Álvaro Siza: o Parc Esportiu Llobregat e o Pavilhão Multiusos de Gondomar.

Aquilo que desde logo transparece de uma leitura rápida dos dois edifícios é que ambos são criados não para zonas de cidade já consolidada mas, de forma a regular a construção de um plano urbanístico que redesenhará cada uma das zonas nos próximos anos. Estes edifícios são por isso excepções, os elementos de identificação de um território, o erguer da pedra como marcação de um lugar. Neste sentido, estas obras estabelecem desde logo uma ruptura com a envolvente tomando o devido protagonismo enquanto edifícios de carácter colectivo e social. Esta relação com a envolvente torna-se importante para a análise das obras uma vez que ambas se desenvolvem para o seu interior, encerrando em si os espaços interiores e exteriores do edifício, protegendo-os do ambiente urbano.

O Parc Esportiu Llobregat é, desde logo, um edifício que se deverá entender como um conjunto de elementos que na sua totalidade formam o programa previsto. Desta forma, o arquitecto solta o edifício dos limites do quarteirão, criando momentos de abertura, formas de percepção dos diferentes espaços do edifício, recolhendo a entrada para uma zona retirada dos limites. De forma a organizar racionalmente as diferentes partes do programa, o arquitecto recorre a um elemento longitudinal que permite estabelecer ligações a partir do momento de entrada no edifício, às zonas de balneários e finalmente à piscina e ao campo de jogos. De uma forma bastante clara estabelece-se logo este organigrama funcional que definirá tanto a organização espacial como a formalização volumétrica do edifício. O corpo do campo do jogos assume-se através de uma massa compacta no exterior que permite encerrar os espaços internos onde se desenrolam as actividades. A piscina assume aqui uma posição de destaque. Sem nada a que se agarrar, a piscina surge quase como um elemento amorfo, uma membrana que se solta e que se expande livremente para fora do edifício. É então que surge uma vontade de a controlar. Urge a necessidade de a cercar, de a isolar de todo o entorno do edificado. Surge assim o culminar de uma composição que se desenrola horizontalmente, com momentos de ruptura, onde o arquitecto livremente desenha através de um único gesto um corpo curvo que encerra o espaço exterior da piscina. É como que um abraçar, um encerrar entre braços algo que nos é precioso. Torna-se uma peça primordial na composição e não a podemos imaginar sem ela. Não fará mais sentido…

08.jpg 09.jpg

O Pavilhão Multiusos de Gondomar surge claramente relacionado com a forma de pensar anterior e chega mesmo a reinterpretar alguns elementos que se encontram no edifício de Barcelona. A forma elíptica do corpo principal do edifício pretende mais uma vez remeter para uma forma primitiva de demarcação de uma espaço. É um abraçar, um gesto caloroso que encerra o seu núcleo de forma a guardá-lo do exterior. Os outros volumes vêm complementar esta composição escultórica, tornando-a horizontal, dissipando a sua monumentalidade, humanizando-a. É através desta atitude de relação com o homem que poderemos interpretar o elemento de excepção de toda a composição. É como que através do desenhar da trajectória de uma bola a cair no chão que se materializa de forma espantosa a pala curva (claro está!), culminando através de um gesto escultórico num elemento de recolha de água que se desliga (aparentemente) da pala curva, revelando uma imagem de leveza que remeterá certamente para um desenho expressivo característico de Niemeyer. Aqui é a entrada. Desenha-se a partir de um gesto único e seguro.
Por outro lado toda esta massa construída nos faz pensar em Khan. Faz-nos sentir aquele gesto duro e rigoroso presente nas obras do Bangladesh e da Índia, a aparente primordialidade do gesto, da forma, da função. Aqui Siza demarca um território e estabelece um lugar. O resto deverá adaptar-se ao seu gesto, seguir as orientações traçadas e deixá-lo ser único em si próprio.

01.jpg 02.jpg 03.jpg

Se por um lado, no edifício de Barcelona a qualidade da obra acompanha o rigor do desenho, no edifício de Gondomar, surpreendentemente, a obra pouco enobrece o desenho. Desvendam-se falhas de rigor, falta de acompanhamento, falta de orçamento, algo incomum em Siza e que nos faz pensar até que ponto poderá a concretização da obra dignificar ou danificar o desenho? Teria vontade de ver este edifício executado com o rigor do anterior. Mas, de certo modo, mesmo assim esta obra demonstra uma vontade crítica. Parte de um gesto e desenha-se para o concretizar. Encerra-se do exterior voltando-se para si, para os seus acontecimentos. Quer parecer-se estranha (e é), fazendo-nos querer entrar. Não será tudo isto também arquitectura?

04.jpg 05.jpg 07.jpg

por João Sousa

Avenida dos Aliados

header.jpg

A Avenida dos Aliados no Porto, traçada pela mão do inglês Barry Parker em inícios do século XIX e edificada segundo o arquitecto portuense Marques da Silva, desde logo tomou a designação do boulevard do Porto. Foi sem dúvida o maior espaço público urbano projectado na cidade invicta até então. Tratava-se portanto da avenida central da cidade, de gosto cosmopolita, ladeada por fachadas de edifícios ao gosto beaux-artiano, abrindo espaço para a renovação da cidade do porto, uma cidade burguesa.

aliados_03.jpg
O Porto, ao contrário de cidades como Lisboa ou Coimbra, desde logo tem um carácter distinto que adveio da sua própria cultura mercantil e comercial. Tornou-se, por norma, numa cidade burguesa, onde grande parte da população vivia do comércio ou da indústria. Com a progressiva instalação de comerciantes ingleses na cidade em busca da riqueza das vinhas do Douro, o Porto iniciou a sua transformação para a cidade novecentista abrindo rumos para a criação de novos traçados urbanos e novos programas arquitectónicos. Surgem os Almadas que terão um enorme impacto na renovação e expansão da cidade e, através da influência inglesa começam-se a construir obras ao gosto internacional.

Aquilo que realmente distingue esta cidade das outras cidades portuguesas é a sua matéria. Ao contrário do que se encontra a sul do Mondego, no Norte de Portugal predominam os solos graníticos. Esta será desde logo a matéria fundamental para a construção da cidade. Assim sendo, a cor, a textura e o odor do Porto são de granito e não de qualquer outra pedra calcária. Com a construção da avenida dos Aliados, fez-se no Porto o que se fez em numerosas colónias portuguesas: importou-se um modo de fazer calçada em pedra, posteriormente referida como à portuguesa.

Posto isto, passemos à análise da Avenida dos Aliados:

O que existia antes?

Uma avenida edificada em inícios do século XIX, ao gosto internacional e ladeada de grandes edifícios de linhas orientadoras beaux-artianas. O ambiente da avenida e da praça era traçado pelo pavimento em basalto com os desenhos alusivos aos descobrimentos e à colonização, feito como um enorme mosaico que só a mestria de alguns pedreiros portugueses permitia que tal fosse possível. Os jardins e as árvores enriqueciam este ambiente tornando-o bucólico e simbólico da cidade através da estátua equestre de D. Pedro IV apontando para o Brasil.

aliados_04.jpg aliados_01.jpg

O que é que se encontrava naquele local antes da intervenção?

Uma avenida cada vez mais atravessada por pessoas, carros e autocarros. Os passeios agora desnivelados, pedras que já não existiam, jardins pouco cuidados. Uma faixa central pouco convidativa à deslocação de pessoas, usada maioritariamente para repousar mesmo entre o caos de táxis, autocarros e carros em constante passagem. Uma avenida que em dias de festa (S. João, passagem de ano, vitórias de clubes de Futebol) não conseguia conter o enorme fluxo de pessoas que aí se deslocavam, mesmo com as suas enormes dimensões.

O que era necessário fazer?

Necessitava-se revitalizar a baixa, fazer passar o metro por debaixo da avenida, dar uma imagem renovada e criar uma ordem em todo aquele espaço público. De forma a tornar o projecto coerente e valioso para a cidade, os dois arquitectos responsáveis (Siza Vieira e Souto de Moura) decidiram juntar-se e pensar as suas intervenções em conjunto.

O que existe agora?

O que se percepciona hoje em dia é uma avenida notoriamente urbana, bem regrada, feita para as pessoas, para os automóveis e para metro, permitindo de uma forma absolutamente nova visualizar toda a riqueza arquitectural dos edifícios que formam a fachada da avenida e que até então nunca tínhamos tido a percepção.
Transpondo esta ideia para o que se tem feito a nível europeu, existe um enorme interesse na remodelação de uma avenida como esta e com as dimensões que esta tem. O facto da faixa central estar livre permite que as pessoas não andem só pelos passeios laterais, mas que façam o seu percurso pela faixa central. Ao descer a avenida tem-se a percepção da Sé do Porto que se lança no céu, tem-se os enfiamentos das ruas transversais à avenida que mantêm a sua riqueza arquitectural, tem-se a noção de se estar num espaço urbano, rico em história e que privilegia o fluxo de pessoas permitindo que o tráfego de automóveis siga de forma contida e regrada. A nova avenida dos aliados torna-se assim num espaço não só funcional mas de criação. Torna-se num espaço de expressão artística, social e cultural, num espaço urbano no verdadeiro sentido do termo. A nova configuração da avenida permite, de uma forma nova, albergar toda a variedade de acontecimentos que acontecem regularmente e que não podem passar despercebidos pois fazem parte da cultura urbana do porto. À semelhança de outras cidades europeias, a existência de um grande espaço público central na cidade origina uma dinâmica urbana, permitindo diferentes acontecimentos sociais e culturais que incitam a uma interacção social mais rica e evidenciam a vitalidade da cidade. Tem-se assistido já a pequenos eventos novos nesta avenida que, de uma forma tímida vão sensibilizando os cidadãos para uma vivência maior daquele espaço urbano. Será este o caminho a seguir para que este espaço se torne realmente num centro social e urbano da baixa portuense, permitindo uma culturização das pessoas e uma maior permanência neste espaço público.

aliados_02.jpg aliados_06.jpg

No entanto, esta nova intervenção tem alguns aspectos ambíguos. A fonte que foi criada no eixo central da praça torna-se um elemento estranho à imagem geral da intervenção. Pretende ter um desenho minimalista, mas acaba por perder o seu sentido quando se observa de longe parecendo apenas um buraco. Apenas quando se está junto a ela é que se consegue percepcionar o seu desenho e a sua função. Também as duas estátuas já existentes a meio da avenida acabaram por ficar um pouco desnudadas pela falta de envolvência. No entanto evidenciam o alinhamento principal do eixo central da avenida. Em termos de mobiliário urbano considero a opção usada no topo da avenida uma mais valia para o espaço público pois, ao utilizar mesas e cadeiras semi-amovivéis, permite o agrupamento de pessoas naquele espaço. Ao mesmo tempo torna-se uma provocação ao bom senso e à responsabilidade dos cidadãos. Em termos de vegetação, os arquitectos limparam a praça central para permitir uma maior dinâmica nos usos da praça. Toda a vegetação rasteira foi retirada e acabou por se tornar vantajoso pois torna o espaço mais passível de ser utilizado de diferentes formas, limpando-o de barreiras físicas. Também se retiraram as árvores da praça central, plantando-se mais árvores ao longo dos passeios laterais agora mais largos e no topo da avenida junto à fonte. Torna-se também uma forma de ordenar o espaço público permitindo que as árvores cresçam desafogadamente e que criem espaços de sombra onde são necessários.

aliados_05.jpg aliados_07.jpg

Em suma, a intervenção na Avenida dos Aliados é acima de tudo uma posição de vanguarda perante uma cidade histórica e de fortes raízes com o passado. Os arquitectos tiveram a visão de criar um espaço com reais valores urbanos sem que caíssem na tentação de re-fazer o que já lá estava antes e que não resultava. Também é de salientar a opção da escolha dos materiais para a constituição dos pavimentos já que todos os pavimentos anteriores foram retirados. Numa cidade com um forte carácter como o Porto, a renovação da Avenida dos Aliados veio vincar ainda mais este ambiente citadino do Porto ao utilizar o material mais característico desta cidade e resolvendo-o a nível de desenho de uma forma bastante criativa e rica.

por João Sousa