palavras da arquitectura | um olhar sobre a arquitectura contemporânea | João Pereira de Sousa palavrasdaarquitectura@gmail.com


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Serpentine Gallery Pavilion 2009, SANAA

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Os que tiveram a oportunidade de passar por Londres durante o Verão e até ao final de Outubro, tiveram a oportunidade de visitar o mais recente pavilhão da Serpentine Gallery. Tendo tido a oportunidade de usufruir diversas vezes desta obra, venho deste modo, estabelecer uma análise das impressões que foram sendo recolhidas in loco, sobre a forma e a função de uma arquitectura que através de uma simples ideia, se transforma numa experiência única da percepção de um espaço construído, em simbiose com o jardim envolvente.

O desenho de um pavilhão é, antes de mais, um desafio. Propor a um arquitecto a criação de uma pequena estrutura efémera, construída a baixos custos e que se possa tornar num ícone temporario do local onde se implanta, é algo que à partida parece simples, mas que se revela extremamente complexo com o desenrolar do projecto. A problemática aqui centra-se sobretudo em como fazer muito com pouco. Ou antes, entenda-se, em como fazer algo extraordinário através de um pequeno e subtil gesto. A iniciativa da Serpentine Gallery em Londres tem sido de grande importância para o desenvolvimento de um pensamento e de uma linguagem arquitectural, associada não só à contemporaneidade, mas enquanto paradigma da obra do seu autor. É desta forma que, um grupo de arquitectos reconhecidos em todo mundo, tem tido a oportunidade de construir no Reino Unido, abrindo novas fronteiras à sua obra e acima de tudo, aproximando a sua obra de um público amplamente vasto.

No entanto, pondo de parte a questão da divulgação e promoção da Arquitectura e de determinado arquitecto, esta ideia de construir um pavilhão temporário de verão, que vem sendo desenvolvida ao longo de alguns anos, tem trazido algumas experiências interessantes em torno da prática arquitectónica contemporânea. Pois aqui, para um local que tem sido constante a cada ano, temos assistido a uma série de propostas que, pela sua multiplicidade de ideias, tem servido para aguçar o parecer crítico tanto dos arquitectos como dos cidadãos, em relação à obra de Arquitectura. Vamos assistindo assim, à construção de uma colecção de Arquitectura, que a cada ano, vagueia entre intenções minimalistas e provocações puramente formais. No entanto, contendo mais ou menos condimentos, aquilo a que temos assistido aqui é, acima de tudo, à evocação de uma imagem com a assinatura de tal Arquitecto e que quase invariavelmente tem trazido algo de novo ao panorama arquitectural ou ao próprio portfolio do seu autor.
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O pavilhão que este ano foi elaborado pelo atelier SANAA de Kazuyo Sejima e Ryue Nishizawa traz, a meu ver, um interessante exemplo daquilo que estes arquitectos têm já desenvolvido ao longo da sua obra. A sua proposta para um pavilhão de jardim é tão somente a definição de uma superfície coberta, que se desmaterializa através da uma relação constante com o que a envolve. Uma ideia tão simples e porém, tão susceptível de ser destruída ao mínimo erro. Isto porque, como temos verificado inúmeras vezes, é na síntese que tudo se torna mais complexo, através da abolição dos aspectos superficiais ou mesmo ornamentais. A síntese é atingida quando o outro entende a nossa mensagem de uma forma clara e directa. Não querendo afirmar que tudo deverá estar exposto à partida, entende-se que pelo menos as intenções do projecto deverão ser efectivamente claras para que as pessoas consigam usufruir da Arquitectura, ao mesmo tempo em que esta se torna invisível.
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A questão põe-se então, em como construir algo que tão levemente se suporta num terreno e em como de uma forma tão natural, essa mesma estrutura possa ser permeável a tudo a que a envolve. Colocando a questão de outro modo, como poderemos nós projectar uma arquitectura transparente? É a esta questão primordial que, entendo eu, os arquitectos visionaram a sua obra e que claramente atingiram o seu objectivo. Mas, perante esta questão complexa, não se pense que as soluções deverão ser elas próprias extremamente complexas, ou mesmo ridiculamente básicas. Isto porque esta interrogação levanta essencialmente dois problemas: seja a realização de uma transparência visual como, por outro lado a (in)definição de uma transparência física. A transparência visual, é vulgarmente atingida através do uso de materiais cujas propriedades principais são, obviamente, a transparência. A própria transparência física, mais complexa, requer uma maior reflexão, mas também ela é possível de ser atingida através de um desenho que se conjugue totalmente com aquilo o que o rodeia. Neste caso, estas duas noções são trabalhadas de uma forma bastante clara e que provavelmente qualquer pessoa poderá tirar essas conclusões. O pavilhão não se encerra, como também quase que desaparece por entre as árvores que o envolvem. Isto porque os autores, inteligentemente, decidiram introduzir um outro factor de complexidade: o reflexo. O reflexo é aqui entendido não só como forma de duplicar tudo aquilo que se acerca como, é através deste que o pavilhão se torna permeável a tudo o que o envolve. Através do reflexo, a estrutura construída funde-se com a paisagem, torna-se incolor e de certa forma, atinge um grau de subjectividade que fez despertar a atenção.
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Ao escrever sobre esta obra, reflicto também sobre a recente obra de Eduardo Souto de Moura e Ângelo de Sousa para a 11ª Bienal de Arquitectura de Veneza. Curiosamente uma obra também ela efémera e que partilha de uma mesma ideia: o reflexo como forma de tornar uma superfície permeável ao que a envolve. No entanto, em Veneza o reflexo duplica uma realidade de uma forma quase abstracta, enquanto que em Londres, o reflexo é usado como forma de tornar permeável uma estrutura construída através da duplicação do ambiente envolvente. Esta ideia de permeabilidade surge aqui, de duas formas que me parecem interessantes salientar. Seja de uma forma visual, em que o edifício se desmaterializa no seu contexto, tornando-se quase invisível. Seja através do desenho formal do edifício, que não impõe limites físicos na sua implantação.
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Ao desenvolver o pavilhão apenas através de uma cobertura que se suporta num conjunto de pontos dispersos pela área do jardim, os arquitectos conseguem, assim, que a estrutura possa ser apropriada de uma forma bastante natural, tanto pela paisagem, como pelas pessoas, contrariando assim a ideia de pavilhão-caixa. É então, pela indefinição de limites físicos e visuais, que esta obra consegue, a meu ver, concretizar a ideia de transparência na sua relação para com o visitante e a envolvente existente. Agora restam apenas as memórias e claro os registos fotográficos.

João Pereira de Sousa

A Adega: Arquitectura e Paisagem

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Puede analizarse el paisaje como una “estrutura” formada por diversos sistemas o tipos de cultivos, dispuestos uno sobre el otro, actuando entre sí a lo largo del tiempo, como resultado de una serie de transformaciones funcionales y morfológicas. El paisaje agrícola es el producto de un proceso de cultivo llevado a cabo sobre el paisaje natural. De algún modo, el paisaje urbano es el resultado de procesos de ingeniería llevados a cabo sobre el paisaje natural y agrícola. (…) La forma del paisaje natural refleja su historia geológica, aunque no lo parezca a simple vista, y es el resultado de la colonización del paisaje natural a través de la trama de cultivos. (…) La forma del paisaje puede explicarse como si estuviera formada por tres capas imaginarias, el paisaje “natural”, el paisaje “agrícola” y el paisaje “arquitectónico”, respectivamente.(in REH, Wouter, STEENBERGEN, Clemens, Arquitectura y paisaje, La proyectación de los grandes jardines europeos, p. 20)

Ao longo da história tem-se interpretado o termo paisagem de diferentes formas, dependendo do contexto cultural, científico e social de um determinado período. Assim, a forma da paisagem, nos dias de hoje, é exemplificativa de uma sucessão de camadas evolutivas de uma colonização da paisagem natural através de uma trama de usos e de transformações. O termo paisagem não deverá, desta forma, ser encarado enquanto elemento estático e virgem, mas enquanto uma estrutura composta por diferentes sistemas, naturais e artificiais, que se sobrepõem e vivem em conjunto na construção da ideia de paisagem.

Bodegas Julián Chivite, Señorío de Arínzano, Navarra, Espanha, Rafael Moneo

Bodegas Julián Chivite, Señorío de Arínzano, Navarra, Espanha, Rafael Moneo

Intervir num território não urbano implica, assim, o entendimento das sucessivas estruturas e padrões que organizam e definem a paisagem. Desta forma, a paisagem agrícola constrói-se a partir de uma comunhão entre a tecnologia, o solo e o clima, organizando o plano do território de forma funcional, aproveitando ao máximo os recursos existentes. A leitura do território agrícola enquadra-se sobretudo no domínio das suas formas geométricas humanizadas. A paisagem a que chamamos de ‘natural’ é muito mais do que isso. É uma sucessão de eventos e de transformações humanizadoras que a alteram e redesenham em função do seu uso. Desta forma, a paisagem vitivinícola surge na maioria dos casos como um sistema geométrico de formas e contornos bastante definidos. São alinhamentos e geometrias que se adaptam à topografia local, mas que se autonomizam através da sua imagem distinta. Ao mesmo tempo em que estabelecem uma regra, as vinhas tornam-se, elas próprias, o espelho das variantes topográficas dos terrenos onde se plantam, formando finalmente esta dualidade entre uma estrita ortogonalidade da sua implantação, associada à composição livre de montes, vales e planaltos.

Bodegas en Mendívil, Pamplona, Espanha, Josep Llinás

Bodegas en Mendívil, Pamplona, Espanha, Josep Llinás

Os edifícios de Adegas estão claramente indissociados de toda esta envolvente. São por vezes as únicas construções que se avistam por entre as linhas de vinhas. Há no entanto, na maioria dos casos, um esquecimento sobre a forma como se projecta e constrói um edifício de Adega, de dimensões significativas, numa paisagem agrícola regrada e horizontal. A Adega mais comum que se poderá encontrar, é tal e qual como uma nave industrial que se constrói em zonas industriais de média densidade. Porque se pretende um edifício simples e barato para albergar o equipamento necessário à produção do vinho, esquece-se frequentemente a funcionalidade e os requisitos essenciais que a Adega ideal deveria ter, ao mesmo tempo em que não se pensa minimamente no impacto que um edifício de tal escala tem, perante a paisagem agrícola e os pequenos aglomerados rurais. É assim necessário estabelecer um diálogo entre a escala do lugar e a escala da construção; entre a identidade do lugar e a materialidade da construção.

Un tableau, une fenêtre, un cadrage, une mise en scène, un point de vue, un panorama sont autant de qualificatifs qui appellent le plaisir d’une appréciation d’un lieu de vie au détour d’une promenade, d’un cheminement.(in DOMON, Gérald, PAQUETTE, Sylvain, POULLAOUEC-GONIDEC, Philippe, Les temps du paysage, p. 7)

João Pereira de Sousa

a casa que não se vê

“A origem da arquitectura não está na caverna ou na mítica ‘Casa de Adão no Paraíso’: antes de transformar o esteio em coluna, a cobertura em coluna, a cobertura em tímpano, antes de pôr pedra sobre pedra, o homem pôs a pedra sobre a terra para reconhecer o lugar no universo desconhecido, para medi-lo e modificá-lo.” (p. 101)

A Arquitectura não pode existir sem programa e sem propósito. Tanto é que sem condicionalismos, uma obra de arquitectura torna-se obsoleta à partida, não passando de uma mera construção. Será, pois, através da mão do arquitecto que uma ideia se poderá materializar e que de um simples pavilhão se poderá definir um espaço de habitar. É aquilo a que se pode designar de Poética na Arquitectura: a capacidade de transformar algo, atribuindo-lhe um campo de significados que transcendem a matéria física de uma obra. A Arquitectura surge assim, do programa e da ideia, mas vive através da sua materialidade e poética.
A habitação (ou o habitar) é a razão da Arquitectura. Uma obra de Arquitectura só faz sentido quando é pensada nos termos da sua habitabilidade. Dessa forma, por mais pequeno e (aparentemente) simples que seja, o tema da casa unifamiliar é uma questão central da prática e estudo da Arquitectura

Refiro-me a este tema uma vez que me interessa estabelecer uma reflexão sobre as casas em Caminha projectadas pelo arquitecto Sérgio Fernandez, a partir do livro Só nós e Santa Tecla”, recentemente editado pela Dafne Editora. Assim, desde logo surge uma questão que interessa abordar: Poderá a Arquitectura ser entendida através de palavras? Após me ter deleitado com a leitura deste livro, posso afirmar com segurança de que sim. A poesia na Arquitectura poderá expressar-se através de um esquisso, de uma representação ortogonal ou mesmo, ao longo das 173 páginas de um livro repleto de reflexões e de memórias subjectivas, sobre uma obra que marcou uma geração de arquitectos e que em boa altura se volta a destacar. Esta subjectividade nas análises e nos discursos dos diferentes intervenientes deste livro é, para mim, essencial no entendimento dos significados desta Arquitectura. É na subjectividade e na experiência de cada autor que o leitor vai desenvolvendo uma imagem mental destas casas e que, por breves instantes, imagina mesmo que já a habitou, mesmo que nunca lá tenha estado.
Digo eu, que esta é uma casa que não se vê, mas que se sente. Na verdade, a casa não foi pensada para ser vista, mas antes, surge enquanto espectador na paisagem, como uma plataforma que cria um diálogo com a envolvente, acabando por desaparecer. É neste “esquecimento” da casa que se referenciam as suas virtudes. Ela é um objecto quase metafísico, que ao mesmo tempo “constrói a textura da paisagem” (p. 29) e faz com que nos sintamos moradores desse mesmo entorno. E, desta forma, perante o sufoco que seria apreender a vista do horizonte de forma declaradamente moderna (em “cinemascópio”), a presença desta “cenografia” é devidamente “filtrada e sucessiva, convidando o espectador a procurá-la, a sair e puxar o estar para o logradouro” (p. 49). Aqui as janelas enquadram o horizonte tal como a secção do corredor das alcovas enquadra justamente aquele falso Miró.

fotografia de Luís Ferreira Alves

“Se pensarmos bem, isto é, se pensarmos várias vezes testando e experimentando o pensamento, voltamos sempre à origem: uma-casa-no-cimo-de-um-monte-voltada-para-um-mar-onde-o-Sol-imerge. O imperativo da paisagem que origina a casa, que a domina, que fantocheia o humilde arquitecto penitente e submisso ao gesto aparentemente incontornável: o projecto assenta fundamentalmente na ideia de paisagem. Poderia ser de outro modo?” (p. 63)

A particularidade funcional destas casas é a forma como se promove uma vida comunitária, justificada pelo contexto socio-cultural em que se vivia na altura. De facto, quase podemos dizer que estas casas são um prenúncio de uma revolução ideológica que ainda estava por acontecer. E neste sentido, as casas de Caminha são de facto uma “renovação” do pensar e do viver modernos no Portugal da ditadura. É este “realismo” da obra que podemos encontrar na forma como se tratam os contextos externos e se organiza programaticamente o seu núcleo. Do aparente tradicionalismo (ou das lições da Escola do Porto) exterior, apercebe-se um interior de contornos modernos. Há uma continuidade dos espaços internos que torna toda a casa percorrível e habitável. É essa mesma continuidade que se encontra na relação interior/exterior, onde o logradouro não é mais do que uma extensão dos espaços sociais da casa, desta vez descobertos. A própria forma como se desenham os espaços de dormir, as alcovas (ou “armários de dormir”), é um reflexo deste pensamento projectual, onde o arquitecto estabelece uma relação de continuidade dos espaços, de forma a promover as relações inter-pessoais. Do quarto apenas lhe resta a função de dormir e na casa o interesse está nas relações sociais e da paisagem. Tudo está reduzido ao mínimo. É o essencial.

Deste modo, porque a Arquitectura não se esgota na sua forma e função, este livro (que tenho vindo a citar) é uma confirmação de como os espaços que se projectam são muito mais do que simples linhas no papel ou do que as paredes que os encerram. De facto a Arquitectura só faz sentido enquanto é vivida e experienciada. O resultado encontra-se assim registado neste livro, através das mais diversas abordagens e experiências. São essas impressões, mais ou menos nítidas, com maior ou menor subjectividade, que nos permitem realmente entender o propósito de uma arquitectura que, desta forma, dificilmente se explica por poucas palavras.

fotografia de Inês d’Orey

“Da acção do arquitecto espera-se, pois, o desenho de um marco habitável – não existe arquitectura sem projecto, não existe projecto sem memória, não existe memória sem ideias, não existe arquitectura sem habitante.” (p. 124)

Todas as citações deste artigo foram retiradas do livro “Só nós e Santa Tecla”

João Pereira de Sousa

do desenho intemporal

Há um texto que Adolf Loos escreveu em 1913 e que eu considero particularmente interessante na forma como expõe, pedagogicamente, um método de intervenção dos arquitectos na paisagem natural, mais precisamente na montanha (referindo-se à região dos Alpes). Quase em jeito de manifesto, o autor intitula o seu texto em “Regras para Construir nas Montanhas” (Reglen für den, der in der Bergen baut), que passo a citar:

‘Do not build in a picturesque manner. Leave such effects to the walls, the mountains and the sun. A person who dresses to be picturesque is not picturesque but looks like an oaf. The farm labourer does not dress to be picturesque. But he is.
Build as well as you can. No better. Do not outstretch yourself. And no worse. Do not deliberately express yourself on a more base level than the one with which you were brought up and educated. This also applies when you go into the mountains. Speak with the locals in your own language. The Viennese lawyer that speaks to the locals in a country bumpkin’s accent in beneath contempt.
Pay attention to the forms in which the locals build. For they are the fruits of wisdom gleaned from the past. But look for the origin of the form. If technological advances made it possible to improve the form, then always use this improvement. The flail is being replaced by the threshing machine.
Flatlands demand a vertical structural articulation; mountains, a horizontal one. The work of man must not attempt to compete with the hand of God. The Hapsburg watch tower disturbs the skyline of the Viennese Woods, but the Husarentempel harmonises will within it.
Do not think about the roof, think about rain and snow. That’s how the locals think, and so they build the flattest roofs they can using the know-how they have. In the mountains the snow must not slide when it wants to but when the locals want it to. The roof should be safely accessible for shovelling away the snow. We also have to create the flattest roof possible using the know-how and experience at our disposal.
Be true! Nature only tolerates truth. It copes well with iron truss bridges, but rejects Gothic arched bridges with turrets and defensive slits. Have no fear of being chastised as outdated. Changes in the old building techniques are only allowed when they mean an improvement on them, otherwise remain with the old. For even if it is hundreds of years old the truth has more connection with our innermost feelings than mendacity, which paces alongside us.’

(in 2G, n.14, 2000/II, “Rules for Building in the Mountains”, Adolf Loos)

A partir de uma leitura atenta deste texto, é possível fazer uma série de anotações que nos permite elaborar uma análise sobre um posicionamento teórico defendido por Loos, como “Regras” sobre as quais os arquitectos se deveriam basear de forma a poderem projectar coerentemente uma arquitectura na paisagem. Não deixa de ser curioso em como um arquitecto que baseou praticamente toda a sua obra ao meio urbano, abrindo caminhos para a definição das práticas modernas de arquitectura, reflicta desta forma sobre o carácter vernáculo e romântico que aproxima a arquitectura contemporânea (de cada época) às construções rurais (intemporais).
Desde logo Loos estabelece o seu posicionamento de que a arquitectura não deverá ser pitoresca. De que não nos devemos deixar levar pelo romantismo do ambiente, fazendo um exercício de colagem, de pastiche do antigo com o novo. Propõe então que devemos construir da melhor forma possível, sem excessos nem extravagâncias, de forma a que a paisagem seja o protagonista e não a mera obra de arquitectura. Loos refere ainda que antes de qualquer tipo de forma, devemos procurar uma linguagem arquitectónica que se adeque ao local onde se implanta, sem que para isso a obra perca o seu carácter contemporâneo. Defende, portanto,que devemos ser verdadeiros. Verdadeiros com aquilo que fazemos e para quem o fazemos, pois foi sempre assim que a gente local construiu. As formas advém das necessidades e a imagem da função. Tudo aquilo que nos parece tão característico e que nos tentamos a copiar é tão só a verdade da construção, a forma como se solucionam problemas comunicando através de uma linguagem directa e humilde.
Apesar deste texto ter perto de cem anos de existência, é perfeitamente possível extrapolá-lo para o nosso tempo e, mesmo que não defendamos na totalidade estas ideias, serve-nos de chamada de atenção ou mesmo de referência para a nossa prática actual. É este tipo de método de trabalho que também entendo que deveria ser praticado pelos arquitectos contemporâneos. Muito antes de se começar a desenhar deveremos saber sobre que papel estamos a riscar. Quais as suas características, a sua história e os seus valores. Em Portugal houve uma geração que não abdicou destes princípios. Onde na construção da sua arquitectura os valores do lugar foram constrangimentos obrigatórios para o desenho e definição de uma linguagem arquitectónica. Algo que se tem vindo a perder com os anos, com interesses (ou falta de interesse) e que certamente merece uma nova aposta e uma nova consciencialização. No entanto, mesmo hoje será possível encontrar um número reduzido de arquitectos em Portugal, cujas preocupações não são tão dogmáticas como refere Loos, mas que no seu entendimento do lugar, desenham obras de grande riqueza e que certamente se tornarão numa referência, posteriormente.
Não defendendo um tipo único de abordagem, torna-se necessária a formulação de um pensamento teórico que nos permita, numa multiplicidade de relações, estabelecer um posicionamento claro perante um problema, de forma a gerar soluções que muito antes de uma forma ou função serão certamente Arquitectura.

por João Pereira de Sousa

o porquê e o para quê da forma*

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Inundados de imagens, é assim que nos encontramos. Nada é passível de ser entendido ou apreciado sem uma imagem, sem um registo gráfico. Veneram-se formas, procuram-se significados, razões e maneiras de traduzir uma forma em palavras. A Arquitectura é na generalidade entendida hoje como um jogo de formas (muito mais que o jogo de volumes proposto pelo movimento moderno). Formas essas que a todo o custo procuram ser justificadas, que procuram ser ideias quando na realidade as formas deveriam traduzir ideias (e não o inverso). Procura-se uma arquitectura forte, intensa, formal, quase pictórica, esquecendo para isso a ideia, o fio condutor, a razão, o propósito e a função da arquitectura. Enquadramo-nos cada vez mais numa era barroca em que tudo é visual, excessivo e desproporcionado. Procura-se uma arquitectura virtuosa.

Venera-se uma arquitectura de formas complexas, de imagens compostas, de um excesso de desenho que remete para o supérfluo, para o ornamental, escondendo inteligentemente o seu propósito, a sua razão, alegando que a sua justificação é expressa pela forma, muito mais que pela ideia. Vendem-se formas e a imagem prevalece, ninguém pensa, ninguém lê, ninguém estuda e a arquitectura esvazia-se, aprende-se nas formas, da maneira mais acessível e útil para qualquer um de nós.

Mas raros são os que reflectem, os que tomam o tempo para o estudo e análise de um problema. Os que muito antes de uma forma buscam a satisfação das necessidades do homem, a contextualização, a racionalidade e a economia da criação arquitectónica. Os que não esgotam a arquitectura em si mesma mas que a desenvolvem desde os seus pressupostos racionais até à poética inerente a uma verdadeira obra de arquitectura, tornando cada vez mais simples algo tão complexo.

A Arquitectura sempre acompanhou os avanços da Tecnologia. A evolução da história da arquitectura corresponde à evolução tecnológica mundial. Uma não vive sem a outra, no entanto uma é mais importante que a outra. E porque nos rendemos nós à tecnologia? Porque deixamos que seja a tecnologia a protagonista em vez da Arquitectura? Procura-se uma arquitectura sempre original, vanguardista, suportada nos mais avançados processos tecnológicos e no entanto esquecemo-nos da distância que separa a Arquitectura da Tecnologia. Que a Tecnologia não é um fim mas um meio. Que a Arquitectura está e sempre estará na vontade, no processo e no resultado. Que quando a Tecnologia surge como protagonista resulta apenas a forma, um esqueleto que por mais belo que seja não consegue respirar por si próprio.

Vivemos uma época de constantes revoluções tecnológicas, onde a cada dia surgem novos processos, novos materiais e as possibilidades são infinitas. Perante isto sentimo-nos cada vez mais livres, mais originais. Sentimos que cada vez menos nos impõem limites, que podemos expressar livremente a nossa arte, afirmando-nos como uma nova geração. Mas a Arquitectura vive das suas limitações, das suas relações, do seu propósito. Os verdadeiros materiais que compõem a Arquitectura continuam a ser os mesmos desde sempre: a Gravidade que define o espaço e a Luz que o temporaliza. De que nos serve a tecnologia se não conseguimos trabalhar com os materiais mais básicos da arquitectura? Se muito antes que a “casca” interessa pensar e desenvolver a “polpa”, porque insistimos nós na ornamentação, no supérfluo?

A Arquitectura é uma das artes do desenho. Mas é única através das suas condicionantes, da sua funcionalidade, do seu propósito. Não é só forma como também não é só função. Será certamente difícil para todos nós encontrar-lhe uma definição (talvez por isso muitos de nós não saibamos ao certo aquilo que fazemos). No entanto a Arquitectura é visível, é palpável, tem odor e existe no tempo. Ela existe e não é apenas através da forma. É tudo aquilo que não se vê mas que se sente.

Será isso provavelmente aquilo que nos custa a entender.

por João Pereira de Sousa

* expressão transcrita do livro “A Ideia Construída” de Alberto Campo Baeza

Da Arquitectura Sustentável

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A sustentabilidade, como noção ecológica, veio para ficar. Por necessidade, por moda ou porque se pretende pensar dessa forma, a noção de sustentabilidade ecológica aliada à arquitectura faz já parte do nosso dia-a-dia. Enganem-se aqueles que julgam que me refiro ao uso de tecnologias complexas ou de materiais altamente tecnológicos. A “sustentabilidade” só é sustentável através da sua simplicidade, pela forma como, com poucos recursos se consegue materializar uma construção que funciona, que dura e que certamente continuará a funcionar na perfeição, não dependendo dos numerosos factores externos que são imprescindíveis à maior parte das nossas casas. Algures numa entrevista, Eduardo Souto de Moura vê-se confrontado com a questão sobre a sustentabilidade e, de uma forma bastante segura afirma que a “sustentabilidade” deveria ser algo intrínseco à obra de arquitectura. Da mesma forma que a arquitectura pretende responder a problemas sociais e funcionais, deveria por si só ser sustentável. É esse o seu propósito. Sustentável a nível económico, ambiental, funcional, etc. A noção de sustentabilidade é plural e como tal interessa saber a que se refere e de que forma se comporta na relação com a arquitectura.

Tendo já tido alguma formação em bio-arquitectura e construção sustentável, não deixo de estar interessado em evoluir os meus conhecimentos nesta matéria e por isso mesmo já há uns meses que vou mantendo um link aqui no blog para outro blog de grande interesse pelo nome de: Casa em Arruda dos Vinhos – Diário de Obra da Autoria do Plano B Arquitectura. Ora este blog, antes de mais, é uma excelente fonte de informação (e de formação) sobre construção (sustentável), baseada na apresentação ilustrada e descritiva das fases de obra de uma casa projectada pelo atelier Plano B Arquitectura. Raro em Portugal, este atelier tem no seu currículo uma série de projectos cuja matéria prima é a terra ou a madeira aliadas a métodos de construção tradicional. Esta aproximação à arquitectura através da sua simplicidade e eficácia dos métodos construtivos constitui uma vertente sobre a qual este atelier procura trabalhar, desenvolvendo uma arquitectura com uma finalidade ecológica.

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A Casa em Arruda dos Vinhos, a qual tenho vindo a acompanhar através do seu blog, é bastante interessante pelo facto de se partir de uma construção em madeira com paredes em tabique e adobe, aliada a materiais contemporâneos como o policarbonato, o aço e o betão, dando origem aqui a uma grande riqueza espacial, aliada à sua simplicidade formal. Outro aspecto aqui interessante é o facto dos próprios arquitectos participarem na obra e de serem eles também os que contribuem para a tornar real, participando na prática de construção, demonstrando que o arquitecto tem de ir para além dos seus desenhos e das suas idealizações, concretizando-as com as suas próprias mãos.

Este projecto trata-se de uma reconstrução a partir de uma ruína existente. Como o terreno se encontra em reserva ecológica, qualquer intervenção deveria ser feita apenas no perímetro da antiga construção. Como tal, os arquitectos propuseram uma reconstrução, abolindo a ruína mas suportando-se dela para as fundações da nova casa. Assim, de uma forma quase natural se substituíram as paredes de pedra antigas por uma estrutura em madeira de eucalipto cuja volumetria veio igualar a anterior, conforme os regulamentos. Esta simples habitação unifamiliar é composta por um espaço amplo com cozinha e sala com uma organização livre e uma instalação sanitária encerrada.

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O uso de técnicas construtivas (ditas) tradicionais e o uso de materiais orgânicos na materialização da estrutura da casa foi desde sempre a necessidade para a materialização deste projecto. Partindo da estrutura de madeira que definiu a forma geral do edifício, as paredes foram enchidas com adobe num sistema de tabiques de forma a gerar uma grande inércia térmica. Do lado exterior a parede recebeu ainda um revestimento de placas de aglomerado de cortiça com 5 centímetros de espessura, de forma a isolar eficazmente as pontes térmicas, seguido do revestimento final com placas de policarbonato ondulado contra a penetração de água a partir do exterior. O revestimento interior é conseguido através da textura deixada pelo sistema de tabique com o adobe, sendo que posteriormente foi pintado de branco. Assim, através de uma secção de parede bastante simples e económica se conseguiu estabelecer um sistema eficaz de isolamentos permitindo que o ambiente interior da casa permaneça o mais estável possível.

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Fica então aqui a sugestão de visita do blog Casa em Arruda dos Vinhos – Diário de Obra da Autoria do Plano B Arquitectura.

por João Pereira de Sousa