palavras da arquitectura | um olhar sobre a arquitectura contemporânea | João Pereira de Sousa palavrasdaarquitectura@gmail.com


Arquivo de Tags 'Bicicletas'

a cidade e as bicicletas

header_bicicletasecidades.jpg

As cidades evoluem e, se há uma forma de perceber essa evolução é constatar a forma como as pessoas se deslocam na cidade. As bicicletas, como se pode ver neste documentário são um dos meios mais práticos, seguros e limpos de se deslocar dentro das cidades. Isto tudo associado a um sistema de transportes bem distribuído e regular, permite que uma cidade seja plenamente usufruída sem a necessidade caprichosa do carro privado.

Após ter estado em Copenhaga e em Amsterdam é notório o contraste destas cidades para com as cidades do sul da Europa, neste caso Portugal. Há um número insignificante de viaturas automóveis nas ruas e por conseguinte, o meio de transporte mais utilizado é a bicicleta. Os centros das cidades sofreram uma reestruturação ao nível dos transportes, sendo apenas permitida a passagem de pessoas e bicicletas, deixando os carros fora dos centros em numerosos parques de estacionamento subterrâneos. Isto resulta numa ocupação dos centros muito mais civilizada e de respeito para com os valores históricos, permitindo que as pessoas se desloquem em meios não motorizados, fomentando a interacção social e a diversidade. Os dois exemplos localizam-se em topografias planas, o que por um lado favorece a utilização das bicicletas, no entanto isto só é possível através de uma forte aposta política na mentalização das pessoas de que este é um meio perfeitamente subsistente e acima de tudo, que será o meio preferencial de se deslocar em cada vez mais cidades dentro de alguns anos.

Transpondo a situação para o nosso país, o que nos diferencia não se trata de uma questão de topografia ou de clima. É uma questão social, política, de planeamento e de ‘status’. Um português não anda de bicicleta a não ser ao domingo, para fazer desporto e mostrar a sua boa aparência. O problema nem é chegar cansado ao trabalho pelo facto de ter feito umas subidas e descidas, trata-se de que em Portugal só anda de bicicleta diariamente quem não tem dinheiro para ter carro e/ou andar de transportes públicos. Nunca aqui se vê nenhum homem de negócios a dirigir-se com o seu computador portátil, de bicicleta para o seu escritório xpto no 34º andar de uma torre na zona mais in da cidade, com vistas para o mar. Porque? Porque em Portugal essa caricatura não encaixa no perfil de uma pessoa com esse estatuto!

O que se vê em cidades como em Copenhaga, Munique, ou mesmo Viena é uma grande diversidade social que se desloca em bicicleta, sem preconceitos ou juízos de valor sobre o facto de irem num meio de transporte em que eles mesmos são a sua força propulsora. Só assim se torna possível observar pessoas que vão trabalhar vestidos de fato, ao lado de crianças que vão para a escola, que seguem atrás de alguém que vem do supermercado ou algum turista de passagem, todos eles em bicicleta e deslocando-se em vias criadas para esse propósito, separados dos automóveis e desfrutando ao mesmo tempo de aspectos da cidade que se tornam únicos ao serem percorridos de bicicleta.

À questão do ‘status’ social que inibe as pessoas de se deslocarem em bicicleta em Portugal, acrescenta-se a inexistência de uma política de incentivo para o uso das mesmas. Neste país raros são os exemplos onde governos ou autarquias incentivam o uso de bicicletas através da criação de condições e estruturas para que os ciclistas se possam deslocar seguramente e sem o contacto directo com os automóveis. Nos casos em que estes incentivos são incrementados (Aveiro, por exemplo), acontece usualmente uma infeliz falta de civismo e de respeito pelo domínio público que deriva por um lado de uma fraca adesão inicial da população a este meio de transporte e por outro a uma falta de educação no que diz respeito à aceitação e promoção de novas iniciativas públicas urbanas.

Assim, encontramo-nos neste impasse onde queremos a todo o custo não sermos considerados um país na cauda da Europa mas, ao mesmo tempo não somos capazes de nos reinventar, de pararmos e fazermos um ponto de situação e de evoluirmos de forma a melhorar as nossas condições de vida. Esta questão não pertence a um único domínio público mas diz respeito a todos nós e, são os cidadãos que devem acima de tudo tomar a iniciativa e exigir melhores estruturas ciclo-viárias, políticas de despromoção do automóvel nas cidades e demonstrar que estão interessados em se actualizar. É um trabalho não só do âmbito político mas principalmente do âmbito sociológico e do planeamento urbano e, são os arquitectos, os urbanistas e outros intervenientes directos no meio público, que são responsáveis pela promoção, desenvolvimento e implantação de mudanças na evolução natural das nossas cidades para que possamos cada vez mais melhorar a nossa qualidade de vida, ao mesmo tempo que preservamos o ambiente.

por João Sousa