palavras da arquitectura | um olhar sobre a arquitectura contemporânea | João Pereira de Sousa palavrasdaarquitectura@gmail.com


Arquivo de Tags 'Biennale'

la biennale di Venezia – 10. mostra di architettura (dia 2)

header_biennale_venezia21.jpg

O segundo dia de visita a Veneza estava destinado a ver a parte principal da exposição da Bienal de Arquitectura, com a temática das cidades. Sendo assim, chegados à zona do Arsenale, dirigimo-nos para a entrada da exposição que começava no edifício da cordoaria. Neste edifício estava a exposição principal da Bienal relativa às cidades, arquitectura e sociedade. Assim, ao longo do edifício eram analisadas um conjunto de 16 metrópoles segundo parâmetros geográficos, sociológicos, antropológicos, de planeamento, … Toda a exposição estava assim organizada segundo o eixo longitudinal do edifício da cordoaria, fazendo-nos caminhar sempre num sentido à medida que a exposição se ia desenrolando. Para cada metrópole eram apresentados os mesmos gráficos, mapas à mesma escala, instalações audiovisuais, fotografias diversas e projectos propostos para zonas específicas. Estiveram então em análise 16 metrópoles de todo o mundo: Mumbai (Índia), Tóquio (Japão), Cidade do México (México), São Paulo (Brasil), Cairo (Egipto), Nova Iorque (Estados Unidos), Shangai (China), Los Angeles (Estados Unidos), Istanbul (Turquia), Bogotá (Colômbia), Londres (Reino Unido), Barcelona (Espanha), Joanesburgo (África do Sul), Caracas (Venezuela), Berlim (Alemanha) e Milão (Iália).

01.jpg 02.jpg

Esta exposição de enorme interesse, analisava exaustivamente cada cidade, apresentando índices de crescimento da população, onde se podia observar a forma como as cidades se desenvolviam, havendo uma clara distinção entre as cidades europeias e as asiáticas, por exemplo. Outro aspecto interessante de análise eram os tipos de malha urbana em cada cidade. Podia-se observar malhas bastante regulares e ortogonais como em Nova Iorque e ao mesmo tempo um tipo de expansão orgânica que se observa na cidade do Cairo. Era possível ainda observar cidades em que havia enormes discrepâncias a nivel de organização urbana e social tal como na Cidade do México, São Paulo ou Caracas e, ao mesmo tempo poderia-se comparar com as cidades asiáticas onde não há uma distinção social tão clara que afecte dessa forma a ocupação do território. Todos estes factores são condicionados por questões económicas, religiosas, políticas, de acontecimentos históricos, … e, vão-se reflectir na forma como as pessoas usam a cidade e, como a própria cidade se estrutura. Assim, dezenas de gráficos mostravam qual era a distribuição da população ao longo da cidade e dos tempos, que percentagem de meios de transporte usam, que índices de consumo energético apresentam, quais as emissões de CO2 per capita, a distribuição etária, a percentagem de literados, o crescimento do produto interno bruto, a esperança de vida, a mortalidade infantil, … Cabia então às pessoas presentes estabelecerem relações entre os vários exemplos apresentados e tirarem as suas próprias conclusões.

03.jpg 04.jpg 05.jpg06.jpg

Há então significativas diferenças nas cidades de cada continente que revelam uma ocupação do solo e uma utilização da cidade completamente distintas. Se por um lado na cidade de Los Angeles, 10% da população utiliza o transporte público, em Tóquio essa percentagem eleva-se a 75% da população. Se, cidades europeias como Berlim ou Milão apresentam ao longo de 50 anos uma tendência para baixar a população, cidades como Cairo e Shangai apresentam uma explosão demográfica que contrasta por completo com as duas anteriores e revelam modos de organização social completamente distintos. Em cidades como São Paulo ou Caracas é possível observar uma clara distinção social através de imagens que revelam torres de habitação luxuosa rodeadas no piso térreo por uma topografia de telhados baixos de construções ilegais que se extendem por diversas áreas da cidade. Ao mesmo tempo, em Bogotá é impressionante a ocupação de favelas que existe em todo o terreno circundante da cidade, criando uma nova paisagem humanizada. Na cidade do México imagens impressionantes mostram como as pessoas comuns vivem, em territórios sem fim, marcados por ruas paralelas que separam e organizam as fracas construções de tijolos e chapa. Também em Joanesburgo é notória a forma como as pessoas vivem em enormes blocos de habitação que pontuam a cidade em extensos conjuntos dormitórios. Em tóquio destaca-se a problemática da poluíção visual e da sobre-ocupação do espaço da cidade, conferindo-lhe o estatuto de cidade mais cara do mundo. E a cidade de Istanbul que se encontra no limiar da Europa e do Médio Oriente que, por um lado se quer adaptar aos modelos europeus, mas que terá talvez mais relações com outras cidades muçulmanas.

07.jpg 08.jpg 09.jpg 10.jpg

Após se percorrer esta exposição extensa e, no final, cansativa, dirigimo-nos para o pavilhão de Itália que continha uma exposição de um worpshop realizado com arquitectos italianos para a concepção de uma cidade utópica, remetendo primeiro para uma aproximação temporal sobre os variados exemplos de cidades útopicas concebidas ao longo da história. Assim, ao longo desta exposição eram apresentados separadamente os projectos de cada equipa que se situavam em fragmentos da malha da cidade e, que no final culminava na maquete do conjunto da cidade com todos os projectos inseridos pretendendo dar a noção da cidade utópica. No entanto, aquilo que se salientava era o contraste entre cada uma das propostas, mais do que a percepção do conjunto formado não por uma ideia de cidade, mas por fragmentos, de intervenções que se consolidavam num território.

11.jpg 12.jpg

Outras exposições mostravam ainda projectos de concursos internacionais como por exemplo o ‘METRÒ-POLIS’ onde os participantes desenvolveram projectos para uma estação de metro em duas cidades italianas, onde se destacava a proposta de Álvaro Siza e Eduardo Souto de Moura pelo contraste formal com as outras propostas.

13.jpg 14.jpg

No remate final da exposição do Arsenal encontrava-se discretamente o pavilhão da China. Composto por uma superfície inclinada de telhas cinzentas tradicionais, suportada por uma estrutura em bambú e um percurso que levava as pessoas até ao centro dessa superfície. Esta peça destacava-se pela sua subtileza no tratamento formal e na sua relação com a paisagem envolvente, havendo quase como que uma união entre o elemento artificial e os elementos naturais. Esta intervenção era uma clara provocação à exposição dos pavilhões da Bienal, onde cada país apresentava o que de mais avançado e melhor tinha no seu país. Neste pavilhão os autores não pretendiam mostrar os avanços ténicos e tecnológicos presentes nos edifícios chineses mas, pretenderam demonstrar como é possível utilizar uma tecnologia tradicional, simples e barata para a construção de espaço e paisagem.

15.jpg

No final a Bienal de Arquitectura foi extremamente positiva pela forma como foi tratada toda a exposição sobre as cidades, fazendo-nos reflectir e permitindo um ensinamento global de cidades tão distintas e distantes. Pelo facto da exposição “Habitar Portugal” não estar enquadrada nos recintos da Bienal, foi extremamente difícil de chegar à casa que a albergava pelo que, uma vez lá chegados estava já encerrada. Assim, concluimos que são necessários mais do que dois dias para se poder ver toda a Bienal, no entanto não deixou de ser extremamente interessante e será uma experiência claramente a repetir.

www.labiennale.org/it/architettura/ www.venicesuperblog.net/

por João Sousa

la biennale di Venezia – 10. mostra di architettura (dia 1)

header_biennale_venezia.jpg

O sol brilhava e a cidade das gôndolas abria as suas portas aos turistas. A cada chegada de comboio, uma nova remessa de gente fervorosa de visitar este local se dirigia como um exército para fora da estação, na tentativa de tirarem as suas primeiras fotos aos canais e às casas características deste espaço. Por todo o lado as barracas de ‘souvenirs’ estavam já repletas de lembranças que faziam as delícias dos recém-chegados que ainda nem sequer tinham aberto os olhos para a cidade.

02.jpg 01.jpg

A bienal de Veneza esperava-nos do outro lado da cidade nos famosos Giardini, um local pouco visitado por turistas mas, nestes dias, bastante visitado por uma espécie de gente que acima de tudo tinha um propósito para lá ir. Quisemos dirigirmo-nos directamente para a Bienal e decidimos apanhar o transporte público da cidade: o Vaporetto. A viagem magnífica através do canal grande dá para ter uma percepção do que foi sendo a cidade até então. Grandes construções, de épocas diferentes, coabitam naquele espaço místico onde a água e a humidade vai deixando as suas marcas profundas nas paredes que nos cercavam. Em cada ponte passada estavam sempre imensos grupos de turistas em sentido com as suas câmaras fotográficas apontadas em gestos bélicos a tudo o que os envolvia.

Após a demorosa viagem até à outra ponta da cidade, estávamos perante os Giardini, um imenso parque que finaliza a ilha principal da cidade e onde estaria uma das duas partes da Bienal de Veneza. Assim, começamos pelo pavilhão espanhol, todo ele dedicado às mulheres que intervêm nas cidades espanholas, desde arquitectas, gerentes de grandes lojas, pensadoras, investigadoras, urbanistas, … Todas elas nos falavam nos olhos enquanto passeávamos pela exposição. Todas tinham algo a dizer sobre a arquitectura mas só as arquitectas é que expunham as suas próprias obras, algumas já bastante publicadas e outras que mesmo sendo uma surpresa não deixavam de ser objecto de interesse na exposição.

05.jpg 04.jpg

Ao lado se situava o pavilhão da Bélgica com a sua exposição La Beauté de l’ordinaire, composta por algumas projecções sobre o território belga e uma grande sala com o mapa da Bélgica impresso no chão. Ora, qual será o interesse de expor o ordinário numa exposição de arquitectura? Será apenas filmar as cidades e o território como se tratasse de um olhar de uma criança? A percepção que se teve desta exposição foi que os autores ao quererem representar o ordinário caíram eles próprios no ordinário pois, mostrar o ordinário não se trata só de mostrar imagens aleatórias de algo, trata-se de dar uma visão única do ordinário, algo que realmente saia do ordinário e que ganhe interesse para ser mostrado para que não seja apenas um acto de listagem aleatória de coisas ordinárias.

Perto do anterior estava o Lisboscópio uma das presenças de Portugal na exposição. Tratava-se de uma pequena instalação audiovisual em que éramos confrontados com uma imagem panorâmica da cidade de Lisboa, sem explicações nem textos. Uma obra um pouco abstracta e difícil de ser compreendida.

06.jpg

Mais à frente apresentava-se o pavilhão dos países nórdicos num estilo sóbrio e totalmente aberto para o exterior, antevendo a exposição que continha no seu interior. Tratava-se de uma exposição sobre intervenções nas cidades de Tromsø na Noruega, Kiruna na Suécia e Oulu na Finlândia. Cada uma das cidades nórdicas apresentava características únicas o que tornava o tipo de intervenção também único, acompanhado de maquetas de edifícios propostos, fotografias dos ambientes de cada cidade e textos explicativos. De uma forma muito clara a exposição mostrava-nos como estas cidades nórdicas nada têm que ver com as cidades do sul e centro da Europa e como as suas particularidades exigem uma adequação dos programas e ideias de projecto para que respondam às suas exigências particulares.

07.jpg 08.jpg

Junto a este pavilhão encontrava-se o pavilhão da Rússia com uma exposição um pouco inquietante sobre o olhar do arquitecto Alexander Brodsky perante a realidade dos blocos habitacionais comunistas. Em todas as instalações apresentadas, havia uma visão caricatural e bastante crítica sobre a actualidade russa com a intenção de mostrar uma realidade às pessoas e fazê-las reflectir sobre os modos de vida desse país.

09.jpg 10.jpg

O pavilhão da Venezuela da autoria de Carlo Scarpa apresentava uma exposição um pouco chocante pelo modo como nos era apresentada. Compunha-se de uma série de imagens gigantes de favelas venezuelanas com apenas um pequeno texto provocativo no centro onde arquitectos venezuelanos nos confrontavam directamente sobre a sua realidade e do modo como os países ocidentais tendem a intervir no território sul-americano, numa tentativa de nos fazer reflectir sobre o que está a ser feito e de tentar evitar utilizar soluções europeias em países não europeus.

O pavilhão da Dinamarca mostrava uma exposição distinta dos anteriores e mais de acordo com a temática geral da Bienal de Veneza. Grupos de arquitectos dinamarqueses trabalharam em conjunto com arquitectos chineses de forma a investigar, analisar e projectar soluções para a problemática explosão demográfica das metrópoles chinesas. Séries de análises identificavam os problemas aos mais diversos níveis das mega-metrópoles na China e, posteriormente eram mostrados mega-projectos com soluções inventivas, por vezes um pouco utópicas, de como se poderia construir de forma a responder às questões levantadas anteriormente.

11.jpg 12.jpg

De seguida o pavilhão da Holanda, de Thomas Rietvelt, mostrava-nos uma exposição baseada em desenhos de arquitectos modernistas holandeses. Nada de Koolhas ou MVRDV, desta vez decidiram mostrar as visões de cidades dos grandes arquitectos do século XX através de esplêndidos desenhos dos mesmos. Era mais uma exposição de desenhos do que de arquitectura, mas ainda assim muito interessante, pois é uma faceta da arquitectura que está cada vez mais esquecida.

14.jpg 13.jpg

O pavilhão da Finlândia de Alvar Aalto mostrava no seu interior uma pequena exposição de arquitectura contemporânea ligada às habitações feitas no país através de apaixonantes fotografias interiores de casas e edifícios de habitação construídos por toda a Finlândia. Uma exposição simples e concisa mas bastante exemplificativa do que por lá se faz.

15.jpg 16.jpg

De seguida se apresentou o pavilhão da França com uma intervenção no mínimo original. Tratava-se de um pavilhão neoclássico que continha uma exposição sobre o habitar mas, de uma forma bastante experimental. A parte central da exposição era constituída por uma grande estrutura em andaimes que formavam os espaços de uma casa à medida que se subia de piso. Assim, no primeiro patamar encontrava-se a cozinha, elaborada de uma forma original, com materiais recicláveis, subindo ao segundo patamar encontrava-se o espaço de sala de estar, o terceiro patamar continha o quarto antes de a estrutura perfurar o tecto do edifício da exposição e de nos encaminhar para o andar seguinte, este agora exterior que encimava a fachada principal do pavilhão e que continha de um lado a casa de banho, a meio uma plataforma que nos projectava para fora dos limites do edifício e, do outro lado um espaço de sauna, solário e ainda piscina. Ainda neste piso havia um novo acesso para uma continuação da estrutura desta vez em forma de torre que culminava numa cama de rede onde se poderia deitar e apreciar toda a paisagem dos Giardini. Era uma intervenção bastante interessante, uma reinvenção da estrutura em andaimes usualmente usada para obras em edifícios mas, que neste caso ela mesmo se torna o edifício, gerando e organizando espaços.

17.jpg 18.jpg

Após toda esta visita ainda ficaram por ver alguns pavilhões que certamente teriam exposições interessantes, mas chegadas as 18 horas fomos avisados de que já tudo estava fechado e não poderíamos continuar a ver as exposições. Ainda assim, o bilhete da Bienal ainda permitia a entrada na segunda parte da exposição situada no Arsenal. Mas isso seria no dia seguinte, agora só nos restava gozar o famoso pôr-do-sol amarelo de Veneza.

19.jpg

www.labiennale.org/it/architettura/ www.venicesuperblog.net/

por João Sousa