palavras da arquitectura | um olhar sobre a arquitectura contemporânea | João Pereira de Sousa palavrasdaarquitectura@gmail.com


Arquivo de Tags 'Cidade'

A Cidade Invisível

head

Estávamos perto do verão e a cidade encontrava-se vazia. Apesar das temperaturas estarem amenas e de uma leve brisa soprar, as ruas escasseavam de vida. Raras eram as pessoas que deambulavam pelas praças e ruas que povoavam o centro da cidade. Os automóveis, esses circulavam, as lojas apesar de vazias estavam abertas e os cafés, fóruns de um passado recente, teimavam em dispor cadeiras e mesas nos passeios apesar destas permanecerem infinitamente vagas. Mas engane-se quem pensa que as ruas povoadas de automóveis estacionados e em compasso de espera são sinónimo de vida urbana. Estes não são mais do que cápsulas que rompem pelo tecido urbano ligando pontos distantes dentro e fora da cidade. Não fazem uso dela e no entanto estão lá, ocupam-na friamente e preenchem os vazios deixados pelas pessoas.

Mas porque razão não estavam as pessoas a caminhar pelas ruas? Porque permaneciam as lojas inutilmente abertas? Porque é que os bancos e as sombras das árvores que povoam as praças continuavam de vago? E porque é que os cafés teimavam em chamar os transeuntes que por lá não passam? Era estranho… ou talvez não. Teria que ver com algum acontecimento? Algum evento que teria transportado as pessoas para algum outro local? Ou será que a cidade havia deixado de ter significado enquanto estrutura socio-cultural de uma comunidade que a usa e que dela depende? Mas o que era feito das comunidades? Onde estavam elas? A cidade estava deserta… E no entanto vislumbravam-se grupos de pessoas que percorriam as ruas e praças, parando aqui e ali, olhando de um lado para o outro e fotografando cada detalhe do que se lhes aparecia à frente. Afinal as pessoas estavam lá, as comunidades existiam, as ruas eram atravessadas e nas praças juntavam-se grupos de pessoas com interesses comuns. Mas que estranhos seres eram estes que insistiam em contrariar a monotonia em que a cidade se tinha transformado? Que faziam eles a caminhar pelas ruas e a entrar nos cafés? Não saberão que já ninguém caminha pelas ruas ou se senta nas praças? Não pareciam habitar a cidade, mas já há muito que se tornaram parte do quotidiano desta. Insistiam em percorrer as ruas à procura de uma realidade passada, de uma vida que se esgotou por entre as fachadas de granito que se elevam das calçadas. Suportavam-se de livros ilustrados com indicações do que deviam ver, por onde deviam passar e do que deviam comer e cheirar. Mas tudo continuava a estar desprovido de conteúdo, as estruturas da cidade continuavam a viver, mas já não havia quem vivesse nelas. A cidade tinha-se tornado num parque de atracções. Vinham turistas de toda a parte para experimentar aquilo que lhes disseram que a cidade foi. Mas as ruas e as praças estavam vazias, pontuadas com postos de venda de postais que ilustravam as mesmas praças povoadas e úteis. Mas a cidade estava esquecida…

Por isso criavam-se, cada vez mais, novas estruturas para albergar todos os visitantes que desejavam dirigir-se às mesmas praças e ruas que conheceram através de um álbum de recordações vendido numa qualquer parte do mundo. Uma vez que a cidade tinha deixado de ter habitantes, transformavam-se as suas estruturas e convertiam-se os seus edifícios públicos em hotéis, centros comerciais, postos de turismo e lojas de souvenirs. Mas mantinham-se as fachadas e tudo aquilo a que os visitantes pagaram para ver. Não os podíamos desapontar, tudo fazia parte do pacote que escolheram. E os mercados? E as lojas? Também eles não escapavam. Tudo ia sendo reciclado. Do velho tornava-se a novo e do vazio, conseguia-se esvaziar ainda mais. Afinal as únicas pessoas que ainda percorriam as ruas eram esses turistas, que seguiam rotas e percursos estabelecidos, ao longo de fachadas que se assemelhavam a molduras esquecidas algures numa galeria, também ela algures esquecida. E sem que se notasse, tudo ia sendo transfigurado. E a memória, essa já há muito que havia fugido da cidade. Foi provavelmente a primeira, antes das pessoas. Pois só quando a memória foi esquecida é que a cidade se tornou neste deserto de granito, onde já nem sequer aqueles que aí haviam nascido conseguiram resistir à tentação de dali fugir.

Terá sido apenas um sonho?

João Pereira de Sousa

Urbanismo de ocasião

head

Temos de admitir que somos um povo do “desenrasca”. Quando nos surge um problema somos os melhores a resolvê-lo no instante, mas no entanto, sem pensar a longo prazo. Vemos esta atitude aliada a praticamente tudo o que fazemos e como não podia deixar de ser, os resultados vêem-se, à distância! Somos um país com um território repleto de particularidades: de um lado o mar, do outro as florestas; a norte as montanhas e a sul as planícies. Quase que podemos dizer que temos de tudo. Ora, com tanta diversidade geográfica presente dentro de fronteiras, modelos não nos faltam de como gerir o território e planear o seu desenvolvimento sustentável.

Antes de mais interessa aqui pensar sucintamente na forma como a cultura portuguesa se expandiu por esse mundo fora desde há 500 anos atrás. Há um certa humildade na forma como colonizamos (irónico?) os diversos territórios por onde passámos. Isso revela-se no relacionamento típico dos colonizadores para com os colonos e ainda mais na forma como se estabeleceram cidades nas diversas colónias. Ao contrário dos outros colonizadores europeus, os portugueses edificaram as suas cidades numa profunda coerência entre a geografia local e a cultura nacional. Quer isto dizer que o modo como se planeavam as cidades tinha mais a ver com os modelos de cidade em território português do que com os modelos de cidade colonial projectados por alguém que nem sequer sabia onde se iria localizar a futura urbe. Esta atitude de entender determinado território e de projectar para as especificidades do mesmo está fortemente ligada à forma de pensar as cidades no nosso país. Veja-se desde logo a imensa diversidade de modelos ancestrais que existem de norte a sul. Desde as cidades pesqueiras, às cidades fabris, às cidades aristocráticas, …, existiu desde sempre uma relação intima entre a geografia, a função e o tempo de cada cidade. De facto, o nosso savoir-faire não surge do acaso. Aprendemos com a presença celta, desenvolvemo-nos com a ocupação romana e evoluímos através das invasões visigóticas e árabes. Podemos concluir que de facto somos um país rico em história e com uma sabedoria diversificada.

01-braga© Google Earth, Braga: a confluência entre o rural, o urbano e o industrial

Então o que se passou para chegarmos ao estado actual?

Há que ver que a história não se ficou pelo que atrás foi mencionado. Portugal foi fundado em 1143 e desde então fomos evoluindo através dos nossos feitos e legados até ao século XXI. Já em finais do século XIX, o país enfrentava uma sucessão de desgostos à medida que íamos perdendo as antigas colónias e se começavam a enfrentar novas dificuldades económicas. Com o regime do Estado Novo gera-se uma nova situação. A partir dos novos valores defendidos, gerou-se um enorme centralismo no país que se reflectiu no desenvolvimento das diversas cidades portuguesas. Lisboa passou a estar claramente na proa do barco enquanto o resto de Portugal ficou esquecido bem ao fundo da ré. Agravando o facto de se estar a incutir ao país uma ideia una do nacionalismo. Ora, deste modo, tudo o que estava dentro de fronteiras teria de ser igual de norte a sul e de este a oeste. Ignorou-se a extrema diversidade do nosso país e sucessivamente construiriam-se obras que na sua coerência linguística não se integravam geograficamente em lado nenhum a não ser apenas na ideia errada de que esses modelos eram validos para todo o país. A certa altura as cidades começaram a ser cada vez mais semelhantes. Encontramos os mesmos elementos que as caracterizam de norte a sul, numa tentativa de lhes dar uma unidade formal. E enquanto em Lisboa se assistiu ao rasgar de enormes avenidas e à edificação das grandes obras do estado, Portugal é quase deixado ao abandono perante tanta dedicação à capital.

Com a revolução de 1974 e com a descoberta de uma nova liberdade por parte do povo português, as próprias cidades começaram também a respirar uma nova liberdade formal. Uma vez que grande parte dos valores locais tinham sido já castrados ao longo do século, desenvolve-se uma ideia de que se pode fazer qualquer coisa e em qualquer sítio (agora tudo é possível). É preciso notar também que em termos globais, estávamos numa fase em que o modernismo já não se conseguia dissociar da ideia de que apenas servia para um sector da sociedade (mesmo que contrário aos seus próprios princípios).

02-gaia© Google Earth, Vila Nova de Gaia: a desproporção da nova escala urbana e a confluência com a pequena escala

Numa época pós-moderna, que se estende até aos nossos dias, a evolução dos nossos centros urbanos e dos modelos de ocupação territorial em Portugal encontra-se em claro declínio. Durante décadas usamos e abusamos de todo o espaço e bom-senso disponível e o resultado é bem visível: poucos são os locais no nosso território que ainda mantém, de alguma forma, um carácter de preservação natural, cultural e histórica. A nossa demanda de evolução para acompanhar a Europa desenvolvida é tão sôfrega que apenas nos vai distanciando cada vez mais desse objectivo.

O Urbanismo é feito por interesses. Fazem-se planos democratas, baseados nos melhores modelos urbanos, no entanto, aqui quem manda é quem fala mais alto. Se é necessário mudar ou ignorar o plano para responder aos interesses de alguém em particular, isso faz-se na maior das liberdades e perante todos os olhares. E o resultado está à vista: se não se pode construir em determinada zona, então altera-se a sua designação para que seja agora legal a construção. Isto porque quem faz as leis também tem o poder para as modificar. E com tantos interesses, com tantas oportunidades, com tantas ocasiões, as nossas cidades são hoje profundamente difusas e desenquadradas territorialmente. As atenções focam-se continuamente nos seus centros históricos (quando ainda resistem), abrindo espaço para o circo nas periferias, onde tudo é possível fazer, sem ordenamento, sem previsões, sem planeamento. À medida que as cidades se distanciam dos seus centros mais antigos, os valores mudam e as preocupações (erradamente) também mudam ou apenas ficam esquecidas. A pouco e pouco uma enorme malha desordenada habita o território nacional, de Norte a Sul, de Este a Oeste e sem que percebamos, vivemos continuamente na urbanidade, seja ela difusa e desordenada ou centrada e mais ou menos planeada. O Urbanismo constrói-se assim, a partir das oportunidades e dos interesses maioritariamente privados, gerado em conflitos e vivendo de forma autista perante o território.

João Pereira de Sousa

Objectivo: Bolhão

A cidade do Porto tem sido um recente alvo de uma série de batalhas urbanísticas entre o poder, o povo e os privados. E apesar dos alvos de algumas destas batalhas serem distintos, na sua génese o problema é o mesmo. Como (Re)transformar a cidade a partir do seu património construído? A resposta, aparentemente simples, torna-se complicada quando uma diversidade de interesses intervém para esse objectivo. O termo Reabilitar está na base de qualquer resposta a este problema, no entanto, aqui o problema reside no entendimento e nas ideias sobre a noção de Reabilitação.

É do senso comum que qualquer cidade necessita de se renovar constantemente, de forma a gerar novas dinâmicas da vida urbana, a captar novos frequentadores, residentes, trabalhadores, turistas, investidores, … Porque a cidade vive desta multiplicidade de intervenientes, nas suas fundações terá de haver um núcleo em constante mutação, de forma a acompanhar as ideias e as vontades da população urbana. É esse magma que se necessita estimular, abrindo caminhos a novas erupções que sucessivamente (Re)transformam o espaço urbano e as vivências do mesmo.

A própria noção de cidade é, na sua génese, contrária à ideia de corpo estático. A cidade é uma forma viva e os cidadãos são o seu sangue, a matéria-prima para o seu desenvolvimento. Sem pessoas não existem investimentos nem construções, sem pessoas simplesmente deixa de haver cidade. Isto porque antes de qualquer tipo de estrutura, a cidade funda-se a partir da necessidade humana de se estabelecer num local, de forma a poder armazenar bens e a estabelecer elos de comércio externo à sua comunidade.

E quando se fala em Reabilitação a que nos referimos? À Reabilitação de estruturas construídas? À Reabilitação de um estilo de vida? À Reabilitação cultural? À Reabilitação de infraestruturas urbanas? À Reabilitação das relações humanas? À Reabilitação económica? À Reabilitação de uma ideia de nostalgia?
A noção de Reabilitação é tão vasta e abrangente que provavelmente nenhum de nós saberá ao certo quando começa uma e acaba outra, sendo que, quando vulgarmente se fala em Reabilitação, referimo-nos à Reabilitação de uma estrutura construída existente na cidade, mas que sozinha não é nem faz cidade. Os edifícios, praças, ruas, largos e avenidas existem nas cidades, fazem parte delas, sustentam-nas nas suas mais variadas actividades, no entanto não podemos pensar que heroicamente são estas as estruturas que definem e identificam uma cidade. De igual forma, não deveremos pensar que o termo Reabilitar se aplica somente à matéria construída, ignorando todos os diversos agentes que compõem a cidade e que provavelmente necessitarão eles também de uma Reabilitação.
As vivências urbanas e o uso que as pessoas fazem da cidade e dos espaços urbanos é tão importante quanto a existência e qualidade desses mesmos espaços. São corpos inseparáveis e auto-dependentes. Desta forma, quando se intervém em qualquer estrutura da cidade, está-se a modificar todo um sistema de relações e inter-relações sociais, que se apoiam nos diversos palcos urbanos.

fotografias gentilmente cedidas por Roberta Venier

Ora, no caso concreto do Mercado do Bolhão, teremos de pensar que esta estrutura é muito mais do que uma construção histórica, é ela própria um palco de interacções sociais e de existência urbana. É aquilo a que se poderá apelidar de um pólo de interacção urbana. Durante a sua evolução, para além das paredes construídas, o Mercado tornou-se um agente social da vivência da cidade e com enorme interesse para a própria cidade. Desde sempre foi um pólo de reunião de cidadãos que recorriam a ele para satisfazer as suas necessidades diárias. Tornou-se uma paragem obrigatória, como qualquer mercado o seria, desde as horas de abertura em plena madrugada até ao seu fecho ao início da tarde. Toda a vida que se foi desenrolando em torno desta estrutura deu origem a uma florescência de novos tipos de comércio em ruas adjacentes, gerando finalmente uma enorme centralidade, vocacionada para o comércio.
Com a evolução dos tempos e estilos de vida e com o afastamento populacional para os subúrbios e zonas periféricas da cidade, esta foi-se assumindo cada vez mais como um centro de serviços terciários, muito mais que uma base para uma diversidade de actividades ligadas às necessidades e rotinas sociais. A cidade foi-se tornando cada vez mais num lugar de frequentação em vez de um lugar de permanência. Por sua vez, as periferias passaram a ser os locais onde o cidadão pode facilmente satisfazer as suas necessidades diárias, baseados neste sistema de subúrbio e de centro. Ao retirarmos residentes da cidade, começamos aos poucos a condená-la à sua própria extinção enquanto estrutura social. A cidade deixa de ser uma necessidade e passa a ser um parque de diversões, uma atracção turística. A sua estrutura deixa de ser funcional e passa a estar envolta num manto de nostalgia que capta certamente outras populações em busca das riquezas de um passado que a própria cidade não soube conservar enquanto tal.

A partir daqui tudo é possível. Uma vez que a cidade não nos pertence e que esta se parece cada vez mais distante em termos temporais e espaciais, começamos agora a questionar se realmente interessará preservar aquilo que ainda resiste. Ou se de uma forma ou de outra (Reabilitando ou construindo de novo) deveremos substituir as velhas construções por novas estruturas contemporâneas, adaptadas às necessidades actuais, em função da própria realidade actual. Ora, o Mercado do Bolhão enquanto reflexo de uma vida passada, está claramente em decadência. A culpa não será certamente da estrutura física nem das pessoas que ao longo dos tempos lhe deram uso. Tal facto está a acontecer porque nós próprios nos transformamos e transformamos os usos da cidade. Porque irá um comum habitante da periferia comprar alimentos a um mercado central quando terá certamente uma cadeia de supermercados ou mesmo uma mercearia a cinco minutos de sua casa? Não faz sentido. E deixa de fazer sentido quando a grande maioria da população que usufrui da cidade é de fora ou habita em periferias. No entanto, tal não implica que o Mercado deixe de existir como até agora sempre existiu. Pois, por entre um ou outro turista que nostalgicamente o visita, encontramos diariamente cidadãos que usufruem do Mercado enquanto tal.

fotografias gentilmente cedidas pelo Movimento Cívico e Estudantil do Porto

Então como poderemos Reabilitar uma estrutura como o Mercado do Bolhão, que cada vez mais se encontra em decadência não só em termos estruturais mas também em termos de uso? Não será certamente tomando uma posição extrema de não só demolir a sua estrutura física como também o seu programa específico. Passará sim por formular uma ideia de um equipamento social baseado na estrutura programática de mercado, mas dotando-o de sub-programas (necessidades) que possam tornar sustentável uma vida e uma interacção social entre o equipamento, a cidade e a população. Passará certamente por abri-lo ainda mais à cidade, ao invés de o encerrar num esquema de centro comercial, igual a tantos outros espalhados pela cidade e efémero como o próprio conceito de centro comercial o é. Passará sobretudo pela criação de uma identidade forte e única, pela criação de um pólo catalisador dos mais diversos públicos, tornando-o polivalente nas suas mais diversas actividades, mas centralizador enquanto equipamento social. Tratar-se-á sobretudo de re-inventar o conceito de Mercado urbano, aliando-o a outras funções sociais que permitam uma regeneração das suas actividades, reabilitando a sua identidade enquanto agente social. Passará essencialmente pela criação de laços dinâmicos de relação com a cidade.

fotografias gentilmente cedidas por Roberta Venier

E ainda assim continuamos a fazer os mesmos erros… Haverá ainda esperança?

João Pereira de Sousa

Referência: Manifesto Bolhão

Memórias de um Inter-Rail (parte 2/3)

(Berlin) O segundo dia acordou sob um manto branco de neve, que se estendia pelos jardins e passeios avistados desde a janela onde tomávamos o pequeno-almoço. A neve que caia ia formando uma película branca no chão enquanto nos dirigíamos para a Unter den Linden. Desta grande avenida avistamos a porta de Brandeburgo e dirigimo-nos na sua direcção. Quando lá chegamos vimos a primeira manifestação de Carnaval com alguma música e ambiente festivo. Aqui se situava o branco projectado por Ghery e a academia de Artes. E logo ao lado esquerdo da Porta encontrava-se a magnífica obra de Eisenman, o memorial do Holocausto. Desde logo nos impressionou esta simplicidade formal, onde através de uma sucessão de blocos de betão com alturas distintas e ligeiramente inclinados, foi possível gerar um espaço fantástico de percurso e de reflexão onde a neve ia preenchendo os espaços das juntas de pavimento sobre a topografia incerta do terreno. De certa forma este contraste gerado entre a simplicidade formal do memorial e a envolvente caótica de edifícios adjacentes, parece fazer algum sentido… Seguimos assim, em direcção ao Reichstag, onde começamos a perceber uma fila interminável de pessoas para entrar no edifício e subir à cúpula projectada por Foster. Decidimos então que mais valia continuar a passear e fomos sempre junto ao rio até à zona da ilha dos museus, onde segundo havíamos percebido através de uns apontamentos, estaria o edifício de Siza Vieira. Após algum tempo a procurar, sem sucesso, perguntamos a duas senhoras que nos disseram que estava bem mais distante de onde estávamos, pois nem sequer aparecia no mapa que tínhamos. Decidimos então ir ver a ilha dos museus. Logo ao lado da ponte situava-se a Catedral, verdadeiramente imponente e toda retalhada depois de ter sido atacada durante a guerra. A entrada custava 3 euros, o que achamos um abuso e por isso seguimos para o próximo edifício. Tratava-se o Altes Museum projectado pelo Schinkel, com um aspecto bastante clássico e onde estava exposto o busto de Nefrodite. De seguida continuamos a ver outros museus e entramos no Deutsches Historisches Museum do I. M. Pei. Parecia interessante, no entanto um pouco extravagante a nível formal. Foi então que vimos que estava a começar a passar um enorme cortejo de Carnaval. Fomos até lá e estava toda a gente aglomerada de mãos no ar, debaixo de uma chuva de chocolates, rebuçados, pipocas e outras guloseimas, que saltavam disparadas dos carros decorados e animados do cortejo. E ficamos lá, a fazer como todos os outros, recolhendo os presentes que tombavam, até que depois fomos atrás do cortejo até à Alexander Platz. Chegamos até à zona da Mite Tower, a famosa torre de televisão que se vê de qualquer parte de Berlim. Decidimos entrar, mas custava 6,50 euros para subir, assim que saímos. Seguimos em direcção à alexander Platz que, segundo o que todos dizem, é o segundo centro de Berlim. No entanto, esta praça de dimensões colossais não correspondeu ao que imaginávamos. Era simplesmente um enorme espaço vazio, atravessado por uma avenida de largas dimensões, sem passeios para as pessoas percorrerem, mas antes com percursos subterrâneos de atravessamento da avenida. Da praça apenas se viam enormes blocos de apartamentos, sem qualquer relação de vizinhança. Seguimos então daqui em direcção à embaixada da Holanda projectado pelo OMA. Decidimos abordar o edifício pelo outro lado do rio, para ver que efeito teria nesse pedaço de cidade. E enquanto o observávamos, avistamos um manto negro de corvos que se dirigiam para o cume das árvores, ficando equilibrados no topo dos mais finos ramos. Após termos atravessado para a outra margem e de termos chegado junto do edifício, vimos que realmente apresentava uma forma interessante, contida e com uma grande precisão a nível de detalhe, como seria de esperar. De seguida decidimos ir até ao edifício de habitação do Siza e fomos apanhar o metro. E qual não é o nosso espanto, dentro do metro, que vimos acercar-se um indivíduo diante de nós segurando um cartão na mão a pedir para ver os bilhetes! A nossa sorte é que na noite anterior tínhamos decidido comprar o bilhete mais barato mas sem o validar, então fazendo-nos de turistas desorientados fizemos crer ao controlador à paisana que não sabíamos que se tinha de validar e ele lá nos deixou seguir dizendo apenas que deveríamos ter comprado um bilhete de mais zonas e que deveríamos validá-lo. Chegados ao “Bonjour Tristesse” do Siza, vimos que já todo ele tinha sofrido o peso do tempo com graffitis e enormes anúncios publicitários que adulteravam a imagem a que estávamos habituados. No entanto, conseguia-se ainda distinguir a criatividade formal desta obra. Seguimos então em direcção ao albergue onde conhecemos uma nova hóspede brasileira que estava de passagem pela Europa.

Potsdam Saímos de Berlim e apanhamos o comboio para Potsdam. A única referência que aí tínhamos era da Einstein Turm de Erich Mendelsohn, onde já na estação aparecia uma placa a indicar a sua direcção. Após termos caminhado um pedaço com as mochilas às costas decidimos ver se encontrávamos alguém para perguntar se estávamos no caminho correcto. Reparamos que estávamos um pouco enganados no caminho e que ainda faltava bastante para lá chegarmos. Então, com um pequeno mapa fotocopiado, seguimos a pé pelo meio de um bosque, até chegarmos a um centro de investigação onde conseguimos ver, finalmente, a torre que com as suas formas orgânicas surgia do chão em direcção ao céu. Posteriormente, decidimos aproveitar o resto da manhã para visitar a cidade, assim que, tivemos de fazer o caminho oposto para lá chegar. Entrando pela cidade, fomos até junto de um lago enorme que estava completamente gelado, onde andava uma senhora de patins de gelo. Não pudemos deixar de ir experimentar andar em cima de um lago gelado, tomando partido daquela realidade. Quando reparamos, tivemos de fazer uma espécie de corrida até à estação para seguirmos para Dessau.

Dessau A cidade da escola Artística mais conhecida do mundo. Nunca pensei que um dia iria passar por aqui, mas quando me dei conta, já estávamos a descer do comboio e a placa em frente dizia, com letras bem grandes, “Dessau Hbf”. Saímos da estação e fomos à procura de um mapa, pois seguramente estaria assinalado aquilo que procurávamos. Seguimos então pela Bauhausstrasse, a rua que ia dar directamente à escola. Quando a avistamos, estava à nossa frente a casa de ateliers, seguida do grande edifício projectado por Gropius para albergar a primeira escola de vanguarda de artes, design e arquitectura. Diante das famosas letras “Bauhaus” entramos no edifício e logo vimos que estava parcialmente em recuperação. Subimos pela escadaria principal e atravessamos o corredor que levava ao outro edifício, mas que estava fechado. Dirigimo-nos à biblioteca e depois à parte de baixo onde estava uma pequena exposição e uma livraria. Saímos e aproveitamos para comer sentados nas escadas da entrada enquanto admirávamos o edifício e relembrávamos toda a sua história e as suas transformações. De seguida fomos ver o conjunto de habitações projectadas por Gropius para os professores da Bauhaus. Todas elas projectadas num estilo funcionalista, em 1925, sendo que permanecem perfeitamente actuais. Dirigimo-nos então para a estação pois tínhamos visto um edifício interessante junto a esta. Era um edifício relacionado com o ministério do ambiente e todo ele tinha sido pensado de forma a usar energias renováveis. Depois como ainda tínhamos tempo fomos até ao centro da cidade, mas sinceramente não vimos nada de realmente interessante no resto da cidade.

Dresden Chegamos a Dresden depois de uma viagem relâmpago a Leipzig em 40 minutos. Chegamos à estação já de noite e deparamo-nos com as obras de reconstrução para a futura estação projectada por Norman Foster. Ficamos de nos encontrar com duas amigas que estavam a viver aí e nos iam albergar essa noite. Após algum tempo de espera fomos até à residência de estudantes mais perto onde pousamos as coisas. Os quartos eram bastante mínimos, com uma dimensão adequada para dormir e trabalhar: largura de 2 metros onde a cama estava num topo e uma janela no outro topo com uma mesa e um armário à direita. Fomos então comer para a cozinha comum que estava voltada para a estação e aproveitamos para descansar um pouco. Depois decidimos ir até ao centro a um bar. O único problema é que já com metade da viagem feita, os nossos corpos já começavam a acusar algum cansaço e então, no bar, apesar do bom ambiente, nós os três estávamos já bastante esgotados e um pouco dormidos. Chegamos finalmente a casa às 4.30h da manhã, completamente desfeitos e deitamo-nos com os nossos sacos-cama no chão. No dia seguinte acordamos às 12h ainda um pouco cansados e após algum tempo que levamos preparar-nos fomos tomar o pequeno-almoço. Por volta das 15h chegamos ao centro da cidade para passear enquanto passamos pela nova sinagoga de Dresden, com uma forma interessante. Seguimos até à zona histórica onde estão localizados os palácios barrocos hiper-decorados, com os seus grandes jardins junto ao rio. No entanto logo ao lado a cidade cresce, desmesurada e um pouco caótica com os grandes blocos de apartamentos e de escritórios. Seguimos então para a parte mais central da cidade onde estão os aglomerados mais antigos, com as suas ruas bem mais interessantes. E com esta caminhada toda, já um pouco cansados decidimos ir comer algo bastante “típico” da Alemanha contemporânea, um döner kebap. De volta à residência estivemos a conversar com outras pessoas que lá viviam e começamos a arrumar as nossas coisas para então apanhar o comboio nocturno que nos levaria a Munique. E chegados à estação já lá estava à espera o City Night Line, dos melhores comboios nocturnos da Alemanha, assim que nos instalamos e seguimos viagem durante toda a noite para chegarmos às 6.23h a Munique.

München/Füssen Chegamos a Munique às 6.23h da manhã e o que poderíamos fazer a essa hora numa cidade desconhecida? Olhamos para os horários dos comboios e decidimos improvisar um pouco e apanhar o comboio que ia para Füssen, nos alpes germânicos, às 7.30h. Foi uma viagem bastante agradável onde vimos o amanhecer debaixo de um grande nevão que branqueava toda a paisagem por onde passávamos. Chegados a Füssen reparamos que isto mais parecia uma estação de ski, com tudo coberto de neve, altas montanhas brancas e algumas pessoas preparadas para fazer ski de fundo. A nossa ideia era ir ver os castelos construídos para o rei Ludwig, durante o século XIX, nas encostas alpinas (um pouco como o Palácio da Pena em Sintra). Apanhamos um autocarro com mais dois mexicanos que conhecemos enquanto esperávamos e com um enorme grupo de japoneses. Vimos logo que aquilo era demasiado turístico em relação ao que tínhamos pensado, mas a paisagem da montanha repleta de neve fazia-nos esquecer isso e apreciar o lugar. Decidimos não pagar os 8 euros para entrar nos castelos e em vez disso fomos subindo por entre a neve até à entrada, fugindo discretamente dos grupos de turistas. Chegados à entrada de um dos castelos estivemos a apreciar a paisagem e descobrimos no meio das montanhas uma ponte que ligava dois desfiladeiros, uma imagem típica de postal. Como tínhamos um comboio para voltar para Munique às 11.16h, fomos descendo para apanhar o autocarro que já havia passado há uns minutos. Como teríamos de esperar quase uma hora ao frio e iríamos perder o comboio, decidimos fazer o percurso a pé até à estação e apreciar deste modo a paisagem. Fomos caminhando e numa parte árida de neve vimos grupos de pessoas a fazer calmamente ski de fundo. Ainda tivemos tempo para dar umas voltas pela cidadela antes de voltarmos para a estação. E com a neve a cair voltamos de comboio para Munique. Chegados a Munique, decidimos usar a técnica de sair da estação e seguir em frente até chegarmos ao centro por uma rua comercial pedonal. A cidade estava cheia de neve e íamos seguindo a apreciar a sua vida. Visitamos duas Igrejas e fomos procurar um sítio para comer as nossas sandes. Decidimos ir em direcção ao rio e conhecer essa zona. Tudo estava branco e as crianças andavam de trenó nos jardins enquanto outros andavam mesmo de bicicleta sobre a neve. Já noutro jardim maior assistimos ao cair da noite com uma paisagem bastante agradável e seguimos até um café para tomar algo. Escolhemos desta vez um dos cafés mais requintados da cidade para bebermos cada um uma cerveja de meio litro da Baviera. Ficamos por lá cerca de duas horas e seguimos para a estação pois íamos apanhar um comboio nocturno para Viena às 23.44

Wien Após termos feito mais uma viagem nocturna, agora com um companheiro brasileiro, em que finalmente consegui dormir um pouco melhor, chegamos às 6h da manhã a Viena, a cidade da cultura e das artes. Como ainda chegamos antes do raiar do sol, ficamos sentados na estação a tomar o nosso pequeno-almoço e a esperar que fossem horas decentes para irmos para a cidade. Por fim lá saímos e dirigimo-nos ao albergue. Era uma casa antiga, transformada em albergue onde em cada quarto havia uma imensidão de camas, uma sala de estar, uma cozinha e uma casa de banho. Quem estava à frente daquilo era uma senhora de 30 e poucos anos que aparentava um ar um pouco desconfiado. Após termos falado sobre as condições e de termos pago, pousamos as coisas e fomos visitar a cidade. Percorremos algumas ruas até chegar ao edifício Secession, um exemplo conhecido da arte nova naquela cidade. Caminhando por ali fomos encontrando algumas das estações de metro originais de Otto Wagner e olhando para o lado, um grande edifício de habitação chamado Wohnhaus, do mesmo arquitecto, com aspectos decorativos bastante interessantes. Tínhamos desenhado um pequeno itinerário pelas obras de Loos e então seguimos pela Opernstrasse, passando pelo edifício da Ópera, até chegarmos a uma zona de grandes edifícios imperiais e onde se encontrava o edifício do banco de Adolf Loos, de 1910, bastante interessante a nível formal. De lá, fomos em direcção à Catedral, passando pelas ruas pedonais envolventes repletas de anúncios de lojas. Entramos na Catedral de estilo Gótico e quando saímos fomos abordados por um homem que nos falava em espanhol e com sotaque italiano, querendo-nos vender bilhetes para um concerto de música clássica (claro está!). Toda esta zona estava cheia de pessoas a fazer o mesmo género de trabalho. Então, após termos insistido que não queríamos os bilhetes e dele ter insistido que nos fazia cada vez mais barato, acabamos por ficar com dois bilhetes grátis e um pelo preço de 38€ (nada mau!). Como já tínhamos então um plano para a noite, continuamos a andar para encontrar o American Bar do Loos. Era apenas um pequeno tipicamente loosiano, bastante pesado a nível de texturas. De seguida fomos comer as nossas sandes e decidimos dar umas voltas pelo centro e ir até ao canal do Danúbio. Por esta altura já estávamos completamente exaustos e fomos apenas ao supermercado comprar alguma comida para o jantar e seguimos para o albergue para descansar um pouco antes de ir ao concerto. Chegados lá, conhecemos algumas pessoas que passavam por lá, entre os quais um alemão que estava a viver lá temporariamente enquanto trabalhava como bibliotecário. Estivemos um tempo a descansar e a dormitar e após tomar um banho e comer mais umas sandes, partimos para o concerto de música clássica de compositores vienenses. Fomos a pé através do “ring” e estávamos lá às 19h, num edifício neo-gótico do início do século XIX. As pessoas começaram a chegar e fomo-nos encaminhando para a sala de concerto, bastante mais pequena do que parecia na foto. De repente surge um grupo de quatro espanhóis que mesmo antes de se sentarem ao meu lado já estavam a embirrar com tudo o que viam. O concerto começou e por entre composições de Mozart, Strauss e outros, aquelas pessoas a meu lado não paravam quietas nem deixavam de falar uns com os outros. Mas mesmo assim, no final valeu a pena ter ido ao concerto e voltamos de novo para o albergue desta vez para dormir…

álbum de fotografias

por João Pereira de Sousa

Memórias de um Inter-Rail (parte 1/3)

head1.jpg

A partir do caderno de viagem que fui escrevendo aquando de um inter-rail que realizei em 2006 no final do mês de Fevereiro, achei interessante publicar aqui as reportagens que ia fazendo a cada dia que passava, demonstrando os sítios por onde passei e as descobertas que ia fazendo ao longo da viagem. As memórias ficaram assim registadas em palavras, desenhos e fotografias e a cada vez que as revejo, recordo-me perfeitamente de todos os acontecimentos passados.

Decidi então partilhar para que todos nós sintamos também esta vontade enorme de viajar, de conhecer, de explorar. Só assim é que crescemos como pessoas e como Arquitectos.

Saída de Bruxelas

Aachen A primeira paragem foi de imediato na primeira cidade alemã à saída da Bélgica. Aachen é uma cidade de origem romana, bastante pequena mas com grandes edifícios históricos. Com apenas 55 minutos para a visitar enquanto esperávamos um comboio, fizemos a nossa visita-relâmpago ao centro e à Catedral onde se encontram as relíquias de Carlos Magno.

Hannover Tínhamos apenas 3 horas para visitar a cidade e esteve sempre a chover. Decidimos então dar uma volta pela cidade ainda de mochila às costas e descobrimos uma quantidade enorme de espaços públicos de qualidade (que tanta falta fazem em Portugal). Desde logo nos apercebemos das memórias da história recente alemã. Uma igreja do século XIV onde só restavam apenas as paredes exteriores depois de 1945. Seguimos até ao Rathaus onde estavam expostas quatro maquetas da cidade: uma do século XIV onde se viam dois núcleos, um muralhado e outro em expansão; outra de 1939, antes da guerra, com uma cidade já bem consolidada; outra de 1945 agora completamente devastada pela guerra; e a última com a cidade actual, com as suas grandes avenidas. Seguimos até à Catedral, um edifício todo revestido a tijolo com um órgão enormíssimo, quase arquitectural. E, debaixo de chuva fomos até às ruas comerciais onde comemos pela primeira vez uma Bratwurst! Voltamos finalmente à estação após muita chuva para beber um chocolate quente enquanto (calmamente) perdíamos o comboio das 19.40 por termos visto mal o horário. Após algum nervosismo encontramos outro comboio de alta velocidade que iria fazer a ligação a Hamm para que pudéssemos continuar viagem.

København Depois de uma noite passada no Nachtzug, sem dormir muito tempo seguido, ora porque havia barulho, ora porque faziam uma vistoria ao comboio e nos pediam os BI e os bilhetes, chegamos a Copenhaga pelas 10 horas, com um ar gelado e alguma neve na paisagem. Já tínhamos ideia de alugar uma bicicleta, mas não fazia ideia da quantidade enorme de bicicletas que se viam aqui (incrível). Todas as ruas estão equipadas de faixas em cada sentido para bicicletas e toda a gente as utiliza para andar de bicicleta (parece que entramos em algum mundo extraterrestre!). Fomos dar entrada no albergue e alugar as três bicicletas. Depois de andarmos um pouco pela cidade, meio perdidos, decidimos ir procurar alguns edifícios recentes com interesse, mas pelo caminho encontramos a igreja de Christiania e seguidamente a cidade anarquista de Christiania. Aquilo que em tempos foi um complexo industrial, tornou-se num abrigo de gente que apelava à liberdade sexual e de espírito, mas que foi evoluindo para se tornar num espaço onde pessoas à margem da sociedade vivem em comunidade, praticamente sem contacto com o exterior, como se o tempo por eles não tivesse passado. Por entre casas pintadas a graffiti e bicicletas desmontadas, víamos os seus habitantes, que se moviam com gestos lentos e bucólicos. Subitamente também se encontravam turistas (como nós) e curiosamente uns portugueses que estavam a estudar em Lund na Suécia. Depois de termos visto a Royal Library, atravessamos o canal e deparamo-nos com a obra dos PLOT para os banhos públicos da cidade, inseridos num parque fluvial bastante cuidado. Seguindo por esse parque encontramos um edifício de habitação dos MVRDV que foi construído a partir de uns silos antigos. A próxima paragem seria Ørestad, a zona de expansão da cidade em direcção à Suécia. Reparamos que havia um parque enorme que separava a zona onde estávamos da estrada que seguia para Ørestad. E nem a neve nos fez hesitar! Seguimos então nas bicicletas por trilhos completamente cobertos de neve até que chegamos à estrada que conecta a cidade de Copenhaga à cidade de Malmö na Suécia. Por entre casas e jardins nórdicos se começa a adivinhar dois edifícios enormes, praticamente todos envidraçados e onde se podia observar perfeitamente tudo o que se passava no interior das casas. Após termos dado umas voltas junto aos edifícios, de os termos fotografado, subitamente alguém se dirige a nós em espanhol. Era uma espanhola que ali morava e que prontamente se ofereceu para nos mostrar o edifício V em detalhe. Subimos então até ao 9º andar e entramos na habitação V68, mas sem antes deixarmos os sapatos no exterior, seguindo o costume dinamarquês. O apartamento era completamente atravessado pela luz que entrava pelas duas fachadas em vidro e, das varandas triangulares se tinha uma vista sobre a península e também sobre todos os interiores dos apartamentos do edifício. Acabamos então o dia pelo centro da cidade, visitando-a à noite. No segundo dia, como ainda tínhamos tempo para utilizar as bicicletas, decidimos fazer um percurso assumidamente turístico e ir até à zona do castelo onde está a famosa estátua da sereia que, ao contrário do que as imagens mostram, do outro lado da água encontrava-se um horizonte cheio de chaminés de fábricas que nos surpreendeu. Após termos devolvido as bicicletas, voltamos a mover-nos a pé e fomos conhecer mais algumas partes da cidade. Descobrimos então o National Barnk do Arne Jacobsen, com o seu hall de entrada absolutamente monumental. Tínhamos pensado ainda apanhar o metro para ir até ao clube aquático dos PLOT, mas perante os preços dos bilhetes,decidimos fazer um plano alternativo e aproveitar o nosso bilhete de comboio. Apanhamos então um comboio que nos levou ao extremo da ilha onde se encontra Copenhaga. Chegamos a Helsingør, onde se localiza o castelo que serve de cenário a Hamlet e com uma vista esplêndida para a Suécia, do outro lado do mar báltico. Voltamos a apanhar o comboio para irmos até Humlebæk, uma vila junto ao mar onde se encontra um museu com grandes obras de arte contemporânea, mas cujo preço do bilhete era de 10€. Após esta pequena viagem, voltamos à gare central de Copenhaga onde decidimos mudar alguns planos para o dia seguinte e apanhar um comboio nocturno para Colónia, para depois fazermos a ligação para Hamburgo.

Århus Chegamos a esta cidade e tínhamos ideia de ir ver o edifício da câmara municipal, obra de Arne Jacobsen. Do exterior este edifício era absolutamente contrastante com a envolvente. Bastante pesado e encerrado em si próprio. No entanto, o interior estava inundado de luz bastante trabalhada, fazendo com que tudo parecesse mais leve. Continuamos a caminhar pela cidade e descobrimos que esta era bastante distinta da cidade de Copenhaga. Bastante mais pequena, de ruas sinuosas e com alguma desorganização na implantação dos edifícios.

Aalborg Após mais umas horas a viajar num comboio inter-cidades bastante confortável, chegamos a Aalborg. Não tínhamos qualquer referência sobre esta cidade, apenas queríamos ir o mais possível em direcção ao norte e expandir os nossos limites latitudinais. No entanto esta cidade, atravessada por um Fjord, tornou-se bastante mais interessante que a anterior. Apresentava um núcleo histórico bem conservado, repleto de pequeno comércio e de alguns edifícios mais recentes que se conjugavam harmoniosamente com os mais antigos. Seguimos daqui a viagem de volta para a Alemanha, onde foi necessário apanhar um comboio nocturno até Colónia e de seguida apanhar outro que em quatro horas nos levaria a Hamburgo.

Hamburg Passamos mais uma noite no comboio nocturno, após termos estado 30 minutos à espera em Kolding por causa de um atraso. Quando finalmente entramos no comboio e vimos que tínhamos um compartimento só para nós gritamos de contentes mesmo depois da controladora dinamarquesa nos ter dito que umas paragens mais à frente viriam mais duas pessoas. No entanto, toda essa excitação teve um fim quando chegaram duas mulheres alemãs decididas a passar toda a noite acordadas até Colónia. Enquanto nós tentávamos forçosamente dormir, as duas alemãs insistiam em falar e fumar, … Chegamos finalmente a Colónia e saímos fugazmente do comboio para entrar no que nos levaria a Hamburgo em 4 horas, onde finalmente pudemos dormir um pouco. Chegados à cidade, seguimos directamente para o centro. Começamos a caminhar por ruas enormes, com passeios larguíssimos, com bastante gente nas ruas repletas de lojas luxuosas. No horizonte encontrávamos sempre uma grande quantidade de torres, sendo que nos dirigimos em direcção a uma torre gótica. Quando lá chegamos, aquilo que provavelmente seria uma grande igreja, era apenas uma estrutura em ruínas na qual restava apenas a sua torre sineira e algumas paredes exteriores. Um marco impressionante numa cidade devastada pela guerra. Seguimos então para ver o edifício ChileHaus do arquitecto Fritz Höger. Um grande edifício revestido a tijolo com uma imagem imponente e com um desenho interessante nos pormenores das fachadas. Decidimos então seguir junto ao rio, passando pelas imensas pontes e barcos que se encontravam no maior porto da Alemanha. Fomos então em direcção à zona de Sankt Pauli, passando por alguns edifícios interessantes e visitando algumas igrejas. Pela noite ainda passamos por um Jazz Club com música ao vivo antes de irmos para o albergue onde dormimos num dormitório com 25 camas.

Berlin Depois de termos tido alguns problemas em relação à direcção do comboio para Berlim, chegamos finalmente à cidade, depois das 13h. Passamos pelo albergue e decidimos ir a pé até à zona do Zoologischer Garten, porque aí tínhamos o itinerário para fazer. Mesmo antes de chegar ao início do itinerário, passamos por uma zona da cidade altamente frequentada, com centenas de pessoas a caminhar nos passeios. Passamos por uma igreja destruída onde apenas restava uma torre, rodeada de altos edifícios de mau gosto, provavelmente dos anos 70. Seguimos até ao bairro Hansa, o bairro modernista de cidade-jardim. Logo à entrada situava-se o edifício curvo do Gropius e mais à frente o edifício do Alvar Aalto, destacando-se dos restantes pela sua forma. Mais à frente, situava-se o grande bloco de habitação de Oscar Niemeyer, verdadeiramente funcionalista. Fomos na direcção da grandiosa coluna da Vitória na Grosser Stern e depois atravessamos o Tiegarten até à Budapesterstrasse onde se encontravam os edifícios das embaixadas dos países nórdicos e do México, bastante interessantes formalmente. Continuamos a descer até ao Bauhaus Arkiv, o museu da história da Bauhaus. Seguimos então junto ao Spree até chegarmos ao magnífico edifício da National Galerie de Mies Van der Rohe, com a sua enormíssima cobertura plana apoiada nos enormes pilares negros que abriam o um enorme espaço livre no interior, parcialmente ocupado por uma sala de concertos. Logo ao lado estava a famosa Philharmonik de Hans Scharoun e também a Biblioteca de Berlim, mas estavam as duas fechadas, para nosso desgosto. Continuamos em direcção à Potsdamer Platz pelo Sony Hall até chegar finalmente à praça onde estava a grande edifício de Hans Kollhof. E pela primeira vez vimos um troço do muro de Berlim, debaixo de um vento gelado. Fomos em direcção ao Checkpoint Charlie, que se encontra como memória real desde a queda do muro. Daqui seguimos em direcção ao museu judaico do Daniel Libeskind. No entanto, enquanto aqui andávamos a conhecer o edifício e o jardim, fomos “gentilmente” corridos por um segurança que praticamente nos empurrou porta fora porque já estava fechado. Dirigimo-nos então até Friedrichstrasse para norte, passando pelos quarteirões das lojas mais luxuosas da cidade até à Unter den Linden onde jantamos e, finalmente nos dirigimos para o albergue.

álbum de fotografias

por João Pereira de Sousa

Trienal de Arquitectura de Lisboa

head.jpg

A temática global, os “vazios urbanos” foi algo que por diversas razões esteve sempre presente ao longo das exposições desta Trienal. Aliás, as cidades só existem pela conjugação dos vazios e cheios que as compõem, que lhes dão identidade e as individualizam. No entanto, nestes “vazios urbanos”, é possível notar algumas particularidades que os definem e lhes dão forma e carácter. Mas antes de mais o que são “vazios urbanos” e como poderemos identificá-los? Serão apenas espaços livres de ocupação por entre construções? Poderão ser praças, largos, ruas, vielas, rios, lagos, montes, jardins, parques, que encontramos em diversas cidades? Assim sendo, um “vazio urbano” poderá ter mais do que um significado, poderá ser benéfico ou não para a cidade, poderá ser utilizável ou não, … Deveremos então poder identificar claramente o que são “vazios urbanos” maus e bons, por assim dizer. Sob os quais deveremos intervir mais, ou menos, de forma a que mesmo um “vazio” se encha de identidade e carácter que permita uma função e um uso.
Desde as primeiras cidades que podemos observar uma proliferação de vazios que, com usos distintos, são essenciais à vivência das mesmas. É num “vazio” que se cria o comércio, que se estabelecem laços e relações e que se faz a vida social urbana. Ora, aquilo que herdamos de milénios de história são modus operandi que originaram aglomerados urbanos, construções e vazios, diferentes aspectos que levaram as cidades históricas ao que são hoje e que as conduzem numa evolução sistemática ao longo dos tempos.

O que se pôde observar através uma visita atempada à exposição principal no pavilhão de Portugal foi uma diversidade de aproximações aos aspectos vazios de cidades distintas que resultam em projectos mais ou menos inventivos onde aquilo que se torna mais interessante é precisamente entender a posição dos autores dos projectos em conjunto com as políticas urbanas dos países e a ideologia inerente ao uso da cidade.
Começando pela secção da Irlanda, são apresentados vários projectos de ocupação e de desocupação de cidades numa tentativa de resposta aos critérios da exposição. Salienta-se aqui uma atitude perante o “vazio”, a construção em altura como forma de reaproveitamento do espaço público. A secção da Holanda apresenta uma diversidade de projectos urbanos que realçam as preocupações urbanas deste país. Com cada vez menos espaço disponível para a construção, os holandeses vêem-se forçados a ser cada vez mais organizados de forma a poderem usufruir dos vazios enquanto expandem as suas cidades. Aqui é notória uma atitude, o horror vacuí enquanto elemento de dispersão urbana. Pretende-se dar uso a todos os espaços da cidade e numa tentativa quase desesperada, de reocupar e reordenar os centros das cidades, gerando implosões urbanas. O Canadá exibe uma atitude claramente contrastante com as anteriores e que se revela de grande interesse no desenrolar da exposição. Através de uma instalação audiovisual pretendem retratar cinco rios urbanos do Canadá enquanto “vazios” geradores de habitats de fauna e flora essenciais ao equilíbrio biológico das cidades. Tornam-se por isso “vazios” necessários por si só e essenciais para o aparecimento e desenvolvimento destas cidades. Por outro lado, o Chile pretende mostrar que é um território de imensos contrastes territoriais. Desde florestas tropicais a desertos secos e massas de gelo, o Chile adquiriu uma identidade territorial altamente diversificada. Com poucas cidades, grande parte deste país vive na sua plenitude natural onde aqui a arquitectura não se pretende impor ao lugar, mas pretende fazer parte desse lugar, habitando o vazio.

O Pólo Cascais XXI apresentava uma exposição de projectos culturais de diversas autorias para o novo século. Aqui salienta-se claramente uma aposta na renovação urbana como factor de criação de novos pólos culturais. Destacam-se deste modo o projecto dos Aires Mateus para o Farol Museu de Santa Marta, um edifício recentemente inaugurado conferindo uma nova imagem, mais limpa, ao local, dignificando esta parte da paisagem de Cascais. Torna-se no entanto uma proposta demasiado formalista (como é habitual) que a certa altura ignora aspectos funcionais básicos para acompanhar uma ideia conceptual. Também a futura Casa das Histórias e Desenhos de Paula Rego projectada pelo arquitecto Eduardo Souto de Moura se encontrava em exposição, revelando ser um edifício de implantação segura no local, marcado apenas por dois grandes volumes verticais que se erguem na paisagem. Destaca-se também a reabilitação da Fortaleza da Luz pelos arquitectos Cristina Guedes e Francisco Vieira de Campos onde, numa intervenção quase mínima, pretendem tornar os espaços do forte em espaços de contemplação e de introspecção, através de percursos circundantes e instalações de luzes que tornam a matéria viva e expressiva.

O Pólo da Cordoaria Nacional foi analisado com menos tempo do que o necessário, mas ainda assim se revelou uma exposição de bastante interesse sobre a actualidade das cidades portuguesas. Acima de tudo aquilo que ficou expresso através do longo percurso contínuo de imagens, desenhos e maquetas é que a arquitectura em Portugal está viva e que felizmente há um contínuo pensar sobre a cidade, mesmo que por uma pequena minoria de profissionais. Destacam-se projectos tão distintos como o pavilhão Multiusos de Gondomar ao novo Santurário de Fátima e do projecto de reabilitação da baixa do Porto às propostas urbanas para cidades como S. João da Madeira ou Santa Maria da Feira.

Em jeito de conclusão, há aspectos que se destacam nas exposições e que interessa reflectir. De uma forma geral aquilo que mais transparece nesta trienal dedicada aos “vazios urbanos” é uma atitude, já anteriormente comentada, de Horror Vacuí. Deste modo é frequentemente visível uma mesma atitude perante um vazio: dar-lhe forma. Mas será que um “vazio” não poderá ser caracterizado e usado enquanto ausência de massa tendo em si próprio uma função benéfica para a cidade? Tal como foi demonstrado na exposição do Canadá, os “vazios” são essenciais às cidades, à nossa vida, são essenciais por serem assim mesmo: vazios de massa mas cheios de conteúdo. Enquanto atitude de combate ao “vazio urbano”, os projectos holandeses demonstram uma posição extrema no que diz respeito à gestão desses mesmos “vazios”. De forma bastante objectiva e regrada são definidos “vazios urbanos” essenciais à cidade, assegurando funções especificas para cada um deles na tentativa de evitar situações de desordenamento urbano. Mas serão estas cidades, privadas de “vazios urbanos”, tão ou mais interessantes que as cidades convencionais, retrato de uma evolução histórica sistemática? Teremos de esperar para ver.

011 012

por João Sousa