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A Habitação Social: uma introdução às suas problemáticas

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“Habitar é o objectivo e a justificação existencial da Arquitectura” *

A casa, desde sempre se formulou como princípio primordial da Arquitectura, transformando lugares, evidenciando culturas e justificando-se em si própria na sua função de habitar. Deste modo, o habitar encontra-se na génese da arquitectura, implicando assim uma circunscrição de um espaço, gerador de uma dualidade interior e exterior. A habitação define-se, portanto, não como um mero refúgio, mas como um espaço que permite a permanência e a vida.

Ao longo de séculos a casa urbana foi sendo esquecida pelos arquitectos, não sendo considerada propriamente arquitectura pois era construída como forma de resposta imediata a necessidades sociais. Só a partir do século XX é que vemos na casa uma temática de interesse de procura para os arquitectos, protagonizada pelo movimento moderno enquanto resposta concreta a problemáticas sociais. Ora, aquilo que moveu os arquitectos para uma especial atenção pela casa foi a Revolução Industrial e consequentes problemas sociais. A partir da Revolução Industrial, o desenvolvimento das indústrias levou a uma enorme afluência dos grandes centros urbanos e industriais do mundo, gerando assim problemas a nível do funcionamento das cidades e da sua estrutura social. Perante este facto, as cidades deixaram de poder garantir uma qualidade salubre de vida, abrindo terreno para formas de sobre-ocupação dos espaços urbanos como forma de albergar toda a crescente imigração. Iniciou-se então um movimento de arquitectos para que se reflectisse e fizessem propostas para novos modelos de habitação social. Deste modo, a casa deixou de ser o local onde se vive e se trabalha para passar a ser o lugar da família, espaço de encontro privado e de fraca permanência, em contraste com as ruas e praças que tomam agora um carácter cada vez mais colectivo.

Em Portugal, os efeitos da Revolução Industrial só se fizeram sentir em finais do século XIX e inícios do século XX. O aumento das indústrias nas principais cidades do país obrigou a um êxodo rural e a uma consequente procura de habitação na cidade, até então habitada por classes sociais burguesas. Esta acção levou consequentemente a uma sobre-ocupação das cidades que, não podendo albergar todos os novos habitantes, foram sendo conduzidas a formas de ocupação ilegal dos espaços dos quarteirões, formando aquilo a que chamamos de “ilhas”. Estas “ilhas” na sua maior parte surgiam em interiores de logradouros privados ou em terrenos possuídos pelas indústrias de forma a permitir uma permanência mínima aos operários que trabalhavam e que necessitavam de morar na cidade. Tornou-se de tal forma um fenómeno urbano e social que ainda hoje existem inúmeros exemplos que continuam a ser habitados dessa forma.
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No Porto, cidade burguesa por excelência, a habitação para operários ganha algum peso nas discussões políticas de inícios do século XX. Até então não havia sequer um pensamento filantrópico sobre o que deveria ser a habitação para operários ou mesmo sobre se deveria mesmo existir um tipo de habitação para tal. Só raramente podemos encontrar exemplos de algumas fábricas têxteis que se preocuparam com a construção de casas operárias a partir do século XX. Uma outra iniciativa na cidade do Porto para a construção de bairros surge graças a uma subscrição lançada pelo jornal “O Comércio do Porto” com o apoio municipal para a disponibilização de terrenos. Esta ideia formula-se a partir de 1899, quando da epidemia da peste bubónica que devastou a cidade. Por isso mesmo tornou-se imperativo uma acção perante as condições de vida dos operários de forma a proteger a ordem social. Como forma de higienizar as condições da habitação operária, foram pensados diversos bairros de casas individuais onde as famílias pudessem viver de forma isolada sem contacto directo com os vizinhos, de forma a controlar epidemias ou contágios.
Se por um lado a preservação da ideia de casa individual como habitação operária se ligava com formas de evitar propagações de doenças, por outro, a casa individual evitava a promiscuidade física e socialmente perigosa. Seria assim igualmente propícia ao reforço da ordem social pelo acesso à propriedade e pela consolidação da instituição da família. É deste modo que as políticas de Salazar, a partir dos anos 30, se vão basear para a instituição de um modelo de casa operária de acordo com valores fascistas e de salvaguarda dos valores familiares e nacionais.
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É a partir deste contexto que surgem os primeiros projectos de habitação social que interessa analisar. Respondendo a problemas específicos de cada período e feitos de forma a encontrar soluções eficazes tanto a nível social como político. Modelos como o Bairro de Monte Pedral (1900) de Marques da Silva no Porto, o Bairro Económico (1925) de Carlos Ramos em Olhão e o Bairro do Alvito (1938) de Paulino Montez em Lisboa tornam-se referências de intervenção na cidade e na estrutura sócio-política da primeira metade do século XX.

por João Sousa

* frase retirada do artigo Morada: rua, casa de Ricardo Carvalho, publicado na revista JA 224, p.34

Dragspelhuset – 24h architecture

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Usualmente podemos observar que quantos mais constrangimentos existem para um projecto, sejam eles de ordem regulamentar ou de carácter natural, a obra de arquitectura se torna cada vez mais interessante e com uma maior razão de ser. Deste modo, uma arquitectura feita em total liberdade corre o risco de se tornar demasiado pobre, num contexto onde aparentemente deveria ser excepcional. Obras como a “casa em Moledo” de Souto de Moura, a “casa Tóló” de Álvaro Leite Siza ou mesmo a “casa da cascata” de Frank Lloyd Wright, tornam-se objectos de referência pelo seu carácter de excepção em resposta a problemas e programas específicos.

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A obra do atelier holandês 24h Architecture que se pretende analisar intitula-se Dragspelhuset e situa-se no lago Övre Gla, na reserva natural de Glaskogen na Suécia. Trata-se antes de mais de uma obra de aumento de uma antiga casa do século XIX, condicionando desde logo a intervenção a uma série de regulamentações. De acordo com os regulamentos locais, não é permitido nenhum tipo de construção em margens de lagos a não ser que se trate de aumentos a edifícios pré-existentes. Estando localizado numa reserva natural, a área permitida para construção é bastante pequena e necessita de uma distância livre de construção de 4,5 metros a partir dos limites do terreno.

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Esta pequena casa, de formas orgânicas surge então como resposta a uma encomenda de extensão do antigo edifício, formalizando-se através das regras impostas, mas ganhando uma dinâmica formal completamente nova, interagindo intrinsecamente com todo o ambiente natural. Como forma de jogar com as dificuldades regulamentares de implantação, o edifício torna-se autónomo em si mesmo, soltando-se do solo, tornando-se mutável e adaptável às condições ambientais de cada estação através de parte da volumetria que se desloca para dentro ou para fora do volume principal, abrindo novas vistas, estendendo o espaço interior, ou recolhendo-se do exterior, aconchegando o interior.

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Toda a construção da obra é feita através de um esqueleto em madeira que define a volumetria geral, sendo posteriormente revestido com diversas camadas de isolamentos térmicos. O revestimento exterior é feito através de uma técnica local de revestimento em madeira chamada “stickor”, funcionando em escamas de madeira que permitem um isolamento eficaz das paredes exteriores ao mesmo tempo que a própria madeira vai adquirindo novas tonalidades através dos anos.

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Em comunicação aberta com todo o meio natural, esta casa torna-se notável pelas qualidades espaciais mutáveis que permitem uma vivência adaptada às condições ambientais. Encontramos aqui uma atitude orgânica muito mais profunda do que apenas a organicidade formal. Deste modo a obra assemelha-se a um ser vivo, expande-se em direcção da luz, deixando antever parte do seu interior ou, pelo contrário, contrai-se, aconchegando-se do frio, da neve, deixando um ambiente confortável e caloroso no interior. Ao mesmo tempo que se assume como construção, solta-se da terra, procurando não modificar a paisagem natural, atingindo uma imagem única que se entrelaça com toda a paisagem envolvente.

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dragspelhuset.com

por João Sousa

VM housing – PLOT

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Os edifícios VM em Copenhaga constituem uma nova forma de conceber edifícios de habitação colectiva. A obra, construída em Ørestad, situa-se na zona de expansão sul da cidade de Copenhaga, o ponto mais a Leste da Dinamarca e é uma zona importante na ligação entre esta e a Suécia. Assim, Ørestad é atravessada por um eixo viário de linha de comboio, metro e auto-estrada que se dirige para Malmö e também cruzada perpendicularmente pela auto-estrada E20 que liga Copenhaga ao aeroporto da cidade. O eixo viário de conexão à Suécia define também a ocupação desta zona deixando a oeste uma extensão verde que corresponde ao parque da cidade e a leste toda uma zona ocupada por habitação singular até ao aeroporto de Copenhaga. A sul ainda há uma forte ocupação industrial em direcção ao mar.

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Assim, os edifícios VM situam-se no cruzamento dos dois eixos viários, na zona de transição entre o espaço verde, industrial e habitacional e, eles mesmo fazem parte dessa transição, tendo como ideia criar uma melhor transição e dissimilar o impacto do extenso viaduto do comboio e metro que atravessa a zona.

A forma distinta dos edifícios advém na ideia de contrariar o frente-a-frente entre dois edifícios de blocos de habitação. Estando inseridos num espaço rectangular, os arquitectos decidiram que a melhor forma de ocupar o local seria puxar os edifícios em direcção ao centro do terreno, criando vistas diagonais. Assim, o edifício V é puxado a meio para o interior do terreno, criando uma rótula a meio, sendo o edifício M uma dupla repetição do edifício V. Deste modo os arquitectos conseguiram pegar no ideia de dois blocos de habitação próximos e dar-lhes mais dinâmica criando vistas diagonais em todas as fachadas e contrariando o frente-a-frente entre os dois edifícios, permitindo uma exposição menor dos apartamentos.

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A nível volumétrico estes edifícios pretendem fazer uma transição de escalas entre a grande zona habitacional de casas com dois pisos e a zona industrial pontuada por alguns edifícios altos e torres de escritórios. Deste modo, os edifícios adaptam-se às duas escalas e assim, passam de 11 andares de um lado para 4 andares do outro lado, criando uma série de terraços nas coberturas. O rés-do-chão dos edifícios é praticamente todo aberto, menos no edifício M que é ocupado por um jardim-de-infância.

Em termos de organização interior dos edifícios, os arquitectos de PLOT propõem algo verdadeiramente distinto. Eles tinham a ideia de projectar para o maior número de pessoas diferentes, por isso conceberam uma série de apartamentos diferentes com organizações distintas. Assim, eles criaram um total de 73 (V = 34 ; M = 39) apartamentos diferentes que, por vezes se repetem dentro dos edifícios e que, no final, acabam por conseguir responder a uma grande variedade de tipologias, podendo ser ocupados por diversos tipos familiares. Deste modo, todos os apartamentos são projectados como peças singulares que podem estar encaixadas com conjuntos diferentes e que no seu conjunto criam as formas finais dos dois edifícios. Ainda assim, os dois edifícios são organizados de formas distintas: no edifício V o acesso vertical é feito por três zonas distintas que, em cada dois pisos ligam a um corredor exterior de acesso às habitações, permitindo uma visualização exterior do conjunto habitacional enquanto se acede à casa; no edifício M há cinco pontos de acesso vertical que posteriormente ligam a cada dois pisos a corredores internos que perfuram diagonalmente o edifício e que permitem um acesso interior a todos os apartamentos deste edifício. Neste caso é clara a referência à “Unité d’habitation” de Le Corbusier no tratamento e utilização de corredores internos, mas os PLOT conseguiram dar uma nova dimensão a esta ideia, criando uma nova dinâmica e permitindo uma maior flexibilidade de organização interior do edifício.

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Em relação às habitações, todos eles foram projectados segundo uma série de regras criadas pelos arquitectos de forma a responder às necessidades locais e também às exigências do mercado. Assim, praticamente todos os apartamentos têm uma altura dupla a norte, deixando a fachada sul só com um piso, de forma a controlar melhor a incidência solar e as pontes térmicas. Todos os apartamentos são tratados interiormente de uma forma livre, reduzindo ao mínimo todos os obstáculos de forma a obter espaços amplos, com grande luz e ar. Esta organização está também de acordo com um certo extracto de sociedade para a qual os arquitectos projectaram estes edifícios. Assim, para além da organização livre dos espaços interiores, já com uma ocupação dos espaços proposta, os PLOT ainda sugerem para cada apartamento outra variante, com mais divisões de forma a se poder criar ainda mais outro quarto ou a cerrar mais alguns espaços.

Em suma, estes edifícios apresentam um carácter inovador pela forma como é encarada a habitação colectiva, pelas diversas preocupações nos diferentes níveis do projecto que levaram os arquitectos a projectar uma grande diversidade de habitações para que pudesse existir um grande número de famílias diferentes a viver num mesmo edifício. Ainda, a forma como o edifício se relaciona com um exterior absolutamente plano é interessante na medida em que as habitações se abrem para fora à procura das melhores vistas e de forma a aproveitar ao máximo a exposição solar. De salientar ainda a forma como o edifício e os apartamentos são tratados, com o mínimo de detalhes, utilizando materiais comuns e não muito caros, mas utilizados com criatividade e com um grande sentido estético. Foi através de todos estes aspectos que os PLOT conseguiram criar um conjunto habitacional digno de ser estudado e que responde às necessidades actuais. O sucesso destes edifícios foi também notório pelo facto de, após duas horas de vendas, 80% das habitações terem sido logo compradas!

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www.plot.dk www.vm-husene.dk

por João Sousa