palavras da arquitectura | um olhar sobre a arquitectura contemporânea | João Pereira de Sousa palavrasdaarquitectura@gmail.com


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A Cidade Invisível

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Estávamos perto do verão e a cidade encontrava-se vazia. Apesar das temperaturas estarem amenas e de uma leve brisa soprar, as ruas escasseavam de vida. Raras eram as pessoas que deambulavam pelas praças e ruas que povoavam o centro da cidade. Os automóveis, esses circulavam, as lojas apesar de vazias estavam abertas e os cafés, fóruns de um passado recente, teimavam em dispor cadeiras e mesas nos passeios apesar destas permanecerem infinitamente vagas. Mas engane-se quem pensa que as ruas povoadas de automóveis estacionados e em compasso de espera são sinónimo de vida urbana. Estes não são mais do que cápsulas que rompem pelo tecido urbano ligando pontos distantes dentro e fora da cidade. Não fazem uso dela e no entanto estão lá, ocupam-na friamente e preenchem os vazios deixados pelas pessoas.

Mas porque razão não estavam as pessoas a caminhar pelas ruas? Porque permaneciam as lojas inutilmente abertas? Porque é que os bancos e as sombras das árvores que povoam as praças continuavam de vago? E porque é que os cafés teimavam em chamar os transeuntes que por lá não passam? Era estranho… ou talvez não. Teria que ver com algum acontecimento? Algum evento que teria transportado as pessoas para algum outro local? Ou será que a cidade havia deixado de ter significado enquanto estrutura socio-cultural de uma comunidade que a usa e que dela depende? Mas o que era feito das comunidades? Onde estavam elas? A cidade estava deserta… E no entanto vislumbravam-se grupos de pessoas que percorriam as ruas e praças, parando aqui e ali, olhando de um lado para o outro e fotografando cada detalhe do que se lhes aparecia à frente. Afinal as pessoas estavam lá, as comunidades existiam, as ruas eram atravessadas e nas praças juntavam-se grupos de pessoas com interesses comuns. Mas que estranhos seres eram estes que insistiam em contrariar a monotonia em que a cidade se tinha transformado? Que faziam eles a caminhar pelas ruas e a entrar nos cafés? Não saberão que já ninguém caminha pelas ruas ou se senta nas praças? Não pareciam habitar a cidade, mas já há muito que se tornaram parte do quotidiano desta. Insistiam em percorrer as ruas à procura de uma realidade passada, de uma vida que se esgotou por entre as fachadas de granito que se elevam das calçadas. Suportavam-se de livros ilustrados com indicações do que deviam ver, por onde deviam passar e do que deviam comer e cheirar. Mas tudo continuava a estar desprovido de conteúdo, as estruturas da cidade continuavam a viver, mas já não havia quem vivesse nelas. A cidade tinha-se tornado num parque de atracções. Vinham turistas de toda a parte para experimentar aquilo que lhes disseram que a cidade foi. Mas as ruas e as praças estavam vazias, pontuadas com postos de venda de postais que ilustravam as mesmas praças povoadas e úteis. Mas a cidade estava esquecida…

Por isso criavam-se, cada vez mais, novas estruturas para albergar todos os visitantes que desejavam dirigir-se às mesmas praças e ruas que conheceram através de um álbum de recordações vendido numa qualquer parte do mundo. Uma vez que a cidade tinha deixado de ter habitantes, transformavam-se as suas estruturas e convertiam-se os seus edifícios públicos em hotéis, centros comerciais, postos de turismo e lojas de souvenirs. Mas mantinham-se as fachadas e tudo aquilo a que os visitantes pagaram para ver. Não os podíamos desapontar, tudo fazia parte do pacote que escolheram. E os mercados? E as lojas? Também eles não escapavam. Tudo ia sendo reciclado. Do velho tornava-se a novo e do vazio, conseguia-se esvaziar ainda mais. Afinal as únicas pessoas que ainda percorriam as ruas eram esses turistas, que seguiam rotas e percursos estabelecidos, ao longo de fachadas que se assemelhavam a molduras esquecidas algures numa galeria, também ela algures esquecida. E sem que se notasse, tudo ia sendo transfigurado. E a memória, essa já há muito que havia fugido da cidade. Foi provavelmente a primeira, antes das pessoas. Pois só quando a memória foi esquecida é que a cidade se tornou neste deserto de granito, onde já nem sequer aqueles que aí haviam nascido conseguiram resistir à tentação de dali fugir.

Terá sido apenas um sonho?

João Pereira de Sousa

Urbanismo de ocasião

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Temos de admitir que somos um povo do “desenrasca”. Quando nos surge um problema somos os melhores a resolvê-lo no instante, mas no entanto, sem pensar a longo prazo. Vemos esta atitude aliada a praticamente tudo o que fazemos e como não podia deixar de ser, os resultados vêem-se, à distância! Somos um país com um território repleto de particularidades: de um lado o mar, do outro as florestas; a norte as montanhas e a sul as planícies. Quase que podemos dizer que temos de tudo. Ora, com tanta diversidade geográfica presente dentro de fronteiras, modelos não nos faltam de como gerir o território e planear o seu desenvolvimento sustentável.

Antes de mais interessa aqui pensar sucintamente na forma como a cultura portuguesa se expandiu por esse mundo fora desde há 500 anos atrás. Há um certa humildade na forma como colonizamos (irónico?) os diversos territórios por onde passámos. Isso revela-se no relacionamento típico dos colonizadores para com os colonos e ainda mais na forma como se estabeleceram cidades nas diversas colónias. Ao contrário dos outros colonizadores europeus, os portugueses edificaram as suas cidades numa profunda coerência entre a geografia local e a cultura nacional. Quer isto dizer que o modo como se planeavam as cidades tinha mais a ver com os modelos de cidade em território português do que com os modelos de cidade colonial projectados por alguém que nem sequer sabia onde se iria localizar a futura urbe. Esta atitude de entender determinado território e de projectar para as especificidades do mesmo está fortemente ligada à forma de pensar as cidades no nosso país. Veja-se desde logo a imensa diversidade de modelos ancestrais que existem de norte a sul. Desde as cidades pesqueiras, às cidades fabris, às cidades aristocráticas, …, existiu desde sempre uma relação intima entre a geografia, a função e o tempo de cada cidade. De facto, o nosso savoir-faire não surge do acaso. Aprendemos com a presença celta, desenvolvemo-nos com a ocupação romana e evoluímos através das invasões visigóticas e árabes. Podemos concluir que de facto somos um país rico em história e com uma sabedoria diversificada.

01-braga© Google Earth, Braga: a confluência entre o rural, o urbano e o industrial

Então o que se passou para chegarmos ao estado actual?

Há que ver que a história não se ficou pelo que atrás foi mencionado. Portugal foi fundado em 1143 e desde então fomos evoluindo através dos nossos feitos e legados até ao século XXI. Já em finais do século XIX, o país enfrentava uma sucessão de desgostos à medida que íamos perdendo as antigas colónias e se começavam a enfrentar novas dificuldades económicas. Com o regime do Estado Novo gera-se uma nova situação. A partir dos novos valores defendidos, gerou-se um enorme centralismo no país que se reflectiu no desenvolvimento das diversas cidades portuguesas. Lisboa passou a estar claramente na proa do barco enquanto o resto de Portugal ficou esquecido bem ao fundo da ré. Agravando o facto de se estar a incutir ao país uma ideia una do nacionalismo. Ora, deste modo, tudo o que estava dentro de fronteiras teria de ser igual de norte a sul e de este a oeste. Ignorou-se a extrema diversidade do nosso país e sucessivamente construiriam-se obras que na sua coerência linguística não se integravam geograficamente em lado nenhum a não ser apenas na ideia errada de que esses modelos eram validos para todo o país. A certa altura as cidades começaram a ser cada vez mais semelhantes. Encontramos os mesmos elementos que as caracterizam de norte a sul, numa tentativa de lhes dar uma unidade formal. E enquanto em Lisboa se assistiu ao rasgar de enormes avenidas e à edificação das grandes obras do estado, Portugal é quase deixado ao abandono perante tanta dedicação à capital.

Com a revolução de 1974 e com a descoberta de uma nova liberdade por parte do povo português, as próprias cidades começaram também a respirar uma nova liberdade formal. Uma vez que grande parte dos valores locais tinham sido já castrados ao longo do século, desenvolve-se uma ideia de que se pode fazer qualquer coisa e em qualquer sítio (agora tudo é possível). É preciso notar também que em termos globais, estávamos numa fase em que o modernismo já não se conseguia dissociar da ideia de que apenas servia para um sector da sociedade (mesmo que contrário aos seus próprios princípios).

02-gaia© Google Earth, Vila Nova de Gaia: a desproporção da nova escala urbana e a confluência com a pequena escala

Numa época pós-moderna, que se estende até aos nossos dias, a evolução dos nossos centros urbanos e dos modelos de ocupação territorial em Portugal encontra-se em claro declínio. Durante décadas usamos e abusamos de todo o espaço e bom-senso disponível e o resultado é bem visível: poucos são os locais no nosso território que ainda mantém, de alguma forma, um carácter de preservação natural, cultural e histórica. A nossa demanda de evolução para acompanhar a Europa desenvolvida é tão sôfrega que apenas nos vai distanciando cada vez mais desse objectivo.

O Urbanismo é feito por interesses. Fazem-se planos democratas, baseados nos melhores modelos urbanos, no entanto, aqui quem manda é quem fala mais alto. Se é necessário mudar ou ignorar o plano para responder aos interesses de alguém em particular, isso faz-se na maior das liberdades e perante todos os olhares. E o resultado está à vista: se não se pode construir em determinada zona, então altera-se a sua designação para que seja agora legal a construção. Isto porque quem faz as leis também tem o poder para as modificar. E com tantos interesses, com tantas oportunidades, com tantas ocasiões, as nossas cidades são hoje profundamente difusas e desenquadradas territorialmente. As atenções focam-se continuamente nos seus centros históricos (quando ainda resistem), abrindo espaço para o circo nas periferias, onde tudo é possível fazer, sem ordenamento, sem previsões, sem planeamento. À medida que as cidades se distanciam dos seus centros mais antigos, os valores mudam e as preocupações (erradamente) também mudam ou apenas ficam esquecidas. A pouco e pouco uma enorme malha desordenada habita o território nacional, de Norte a Sul, de Este a Oeste e sem que percebamos, vivemos continuamente na urbanidade, seja ela difusa e desordenada ou centrada e mais ou menos planeada. O Urbanismo constrói-se assim, a partir das oportunidades e dos interesses maioritariamente privados, gerado em conflitos e vivendo de forma autista perante o território.

João Pereira de Sousa

a casa que não se vê

“A origem da arquitectura não está na caverna ou na mítica ‘Casa de Adão no Paraíso’: antes de transformar o esteio em coluna, a cobertura em coluna, a cobertura em tímpano, antes de pôr pedra sobre pedra, o homem pôs a pedra sobre a terra para reconhecer o lugar no universo desconhecido, para medi-lo e modificá-lo.” (p. 101)

A Arquitectura não pode existir sem programa e sem propósito. Tanto é que sem condicionalismos, uma obra de arquitectura torna-se obsoleta à partida, não passando de uma mera construção. Será, pois, através da mão do arquitecto que uma ideia se poderá materializar e que de um simples pavilhão se poderá definir um espaço de habitar. É aquilo a que se pode designar de Poética na Arquitectura: a capacidade de transformar algo, atribuindo-lhe um campo de significados que transcendem a matéria física de uma obra. A Arquitectura surge assim, do programa e da ideia, mas vive através da sua materialidade e poética.
A habitação (ou o habitar) é a razão da Arquitectura. Uma obra de Arquitectura só faz sentido quando é pensada nos termos da sua habitabilidade. Dessa forma, por mais pequeno e (aparentemente) simples que seja, o tema da casa unifamiliar é uma questão central da prática e estudo da Arquitectura

Refiro-me a este tema uma vez que me interessa estabelecer uma reflexão sobre as casas em Caminha projectadas pelo arquitecto Sérgio Fernandez, a partir do livro Só nós e Santa Tecla”, recentemente editado pela Dafne Editora. Assim, desde logo surge uma questão que interessa abordar: Poderá a Arquitectura ser entendida através de palavras? Após me ter deleitado com a leitura deste livro, posso afirmar com segurança de que sim. A poesia na Arquitectura poderá expressar-se através de um esquisso, de uma representação ortogonal ou mesmo, ao longo das 173 páginas de um livro repleto de reflexões e de memórias subjectivas, sobre uma obra que marcou uma geração de arquitectos e que em boa altura se volta a destacar. Esta subjectividade nas análises e nos discursos dos diferentes intervenientes deste livro é, para mim, essencial no entendimento dos significados desta Arquitectura. É na subjectividade e na experiência de cada autor que o leitor vai desenvolvendo uma imagem mental destas casas e que, por breves instantes, imagina mesmo que já a habitou, mesmo que nunca lá tenha estado.
Digo eu, que esta é uma casa que não se vê, mas que se sente. Na verdade, a casa não foi pensada para ser vista, mas antes, surge enquanto espectador na paisagem, como uma plataforma que cria um diálogo com a envolvente, acabando por desaparecer. É neste “esquecimento” da casa que se referenciam as suas virtudes. Ela é um objecto quase metafísico, que ao mesmo tempo “constrói a textura da paisagem” (p. 29) e faz com que nos sintamos moradores desse mesmo entorno. E, desta forma, perante o sufoco que seria apreender a vista do horizonte de forma declaradamente moderna (em “cinemascópio”), a presença desta “cenografia” é devidamente “filtrada e sucessiva, convidando o espectador a procurá-la, a sair e puxar o estar para o logradouro” (p. 49). Aqui as janelas enquadram o horizonte tal como a secção do corredor das alcovas enquadra justamente aquele falso Miró.

fotografia de Luís Ferreira Alves

“Se pensarmos bem, isto é, se pensarmos várias vezes testando e experimentando o pensamento, voltamos sempre à origem: uma-casa-no-cimo-de-um-monte-voltada-para-um-mar-onde-o-Sol-imerge. O imperativo da paisagem que origina a casa, que a domina, que fantocheia o humilde arquitecto penitente e submisso ao gesto aparentemente incontornável: o projecto assenta fundamentalmente na ideia de paisagem. Poderia ser de outro modo?” (p. 63)

A particularidade funcional destas casas é a forma como se promove uma vida comunitária, justificada pelo contexto socio-cultural em que se vivia na altura. De facto, quase podemos dizer que estas casas são um prenúncio de uma revolução ideológica que ainda estava por acontecer. E neste sentido, as casas de Caminha são de facto uma “renovação” do pensar e do viver modernos no Portugal da ditadura. É este “realismo” da obra que podemos encontrar na forma como se tratam os contextos externos e se organiza programaticamente o seu núcleo. Do aparente tradicionalismo (ou das lições da Escola do Porto) exterior, apercebe-se um interior de contornos modernos. Há uma continuidade dos espaços internos que torna toda a casa percorrível e habitável. É essa mesma continuidade que se encontra na relação interior/exterior, onde o logradouro não é mais do que uma extensão dos espaços sociais da casa, desta vez descobertos. A própria forma como se desenham os espaços de dormir, as alcovas (ou “armários de dormir”), é um reflexo deste pensamento projectual, onde o arquitecto estabelece uma relação de continuidade dos espaços, de forma a promover as relações inter-pessoais. Do quarto apenas lhe resta a função de dormir e na casa o interesse está nas relações sociais e da paisagem. Tudo está reduzido ao mínimo. É o essencial.

Deste modo, porque a Arquitectura não se esgota na sua forma e função, este livro (que tenho vindo a citar) é uma confirmação de como os espaços que se projectam são muito mais do que simples linhas no papel ou do que as paredes que os encerram. De facto a Arquitectura só faz sentido enquanto é vivida e experienciada. O resultado encontra-se assim registado neste livro, através das mais diversas abordagens e experiências. São essas impressões, mais ou menos nítidas, com maior ou menor subjectividade, que nos permitem realmente entender o propósito de uma arquitectura que, desta forma, dificilmente se explica por poucas palavras.

fotografia de Inês d’Orey

“Da acção do arquitecto espera-se, pois, o desenho de um marco habitável – não existe arquitectura sem projecto, não existe projecto sem memória, não existe memória sem ideias, não existe arquitectura sem habitante.” (p. 124)

Todas as citações deste artigo foram retiradas do livro “Só nós e Santa Tecla”

João Pereira de Sousa

Objectivo: Bolhão

A cidade do Porto tem sido um recente alvo de uma série de batalhas urbanísticas entre o poder, o povo e os privados. E apesar dos alvos de algumas destas batalhas serem distintos, na sua génese o problema é o mesmo. Como (Re)transformar a cidade a partir do seu património construído? A resposta, aparentemente simples, torna-se complicada quando uma diversidade de interesses intervém para esse objectivo. O termo Reabilitar está na base de qualquer resposta a este problema, no entanto, aqui o problema reside no entendimento e nas ideias sobre a noção de Reabilitação.

É do senso comum que qualquer cidade necessita de se renovar constantemente, de forma a gerar novas dinâmicas da vida urbana, a captar novos frequentadores, residentes, trabalhadores, turistas, investidores, … Porque a cidade vive desta multiplicidade de intervenientes, nas suas fundações terá de haver um núcleo em constante mutação, de forma a acompanhar as ideias e as vontades da população urbana. É esse magma que se necessita estimular, abrindo caminhos a novas erupções que sucessivamente (Re)transformam o espaço urbano e as vivências do mesmo.

A própria noção de cidade é, na sua génese, contrária à ideia de corpo estático. A cidade é uma forma viva e os cidadãos são o seu sangue, a matéria-prima para o seu desenvolvimento. Sem pessoas não existem investimentos nem construções, sem pessoas simplesmente deixa de haver cidade. Isto porque antes de qualquer tipo de estrutura, a cidade funda-se a partir da necessidade humana de se estabelecer num local, de forma a poder armazenar bens e a estabelecer elos de comércio externo à sua comunidade.

E quando se fala em Reabilitação a que nos referimos? À Reabilitação de estruturas construídas? À Reabilitação de um estilo de vida? À Reabilitação cultural? À Reabilitação de infraestruturas urbanas? À Reabilitação das relações humanas? À Reabilitação económica? À Reabilitação de uma ideia de nostalgia?
A noção de Reabilitação é tão vasta e abrangente que provavelmente nenhum de nós saberá ao certo quando começa uma e acaba outra, sendo que, quando vulgarmente se fala em Reabilitação, referimo-nos à Reabilitação de uma estrutura construída existente na cidade, mas que sozinha não é nem faz cidade. Os edifícios, praças, ruas, largos e avenidas existem nas cidades, fazem parte delas, sustentam-nas nas suas mais variadas actividades, no entanto não podemos pensar que heroicamente são estas as estruturas que definem e identificam uma cidade. De igual forma, não deveremos pensar que o termo Reabilitar se aplica somente à matéria construída, ignorando todos os diversos agentes que compõem a cidade e que provavelmente necessitarão eles também de uma Reabilitação.
As vivências urbanas e o uso que as pessoas fazem da cidade e dos espaços urbanos é tão importante quanto a existência e qualidade desses mesmos espaços. São corpos inseparáveis e auto-dependentes. Desta forma, quando se intervém em qualquer estrutura da cidade, está-se a modificar todo um sistema de relações e inter-relações sociais, que se apoiam nos diversos palcos urbanos.

fotografias gentilmente cedidas por Roberta Venier

Ora, no caso concreto do Mercado do Bolhão, teremos de pensar que esta estrutura é muito mais do que uma construção histórica, é ela própria um palco de interacções sociais e de existência urbana. É aquilo a que se poderá apelidar de um pólo de interacção urbana. Durante a sua evolução, para além das paredes construídas, o Mercado tornou-se um agente social da vivência da cidade e com enorme interesse para a própria cidade. Desde sempre foi um pólo de reunião de cidadãos que recorriam a ele para satisfazer as suas necessidades diárias. Tornou-se uma paragem obrigatória, como qualquer mercado o seria, desde as horas de abertura em plena madrugada até ao seu fecho ao início da tarde. Toda a vida que se foi desenrolando em torno desta estrutura deu origem a uma florescência de novos tipos de comércio em ruas adjacentes, gerando finalmente uma enorme centralidade, vocacionada para o comércio.
Com a evolução dos tempos e estilos de vida e com o afastamento populacional para os subúrbios e zonas periféricas da cidade, esta foi-se assumindo cada vez mais como um centro de serviços terciários, muito mais que uma base para uma diversidade de actividades ligadas às necessidades e rotinas sociais. A cidade foi-se tornando cada vez mais num lugar de frequentação em vez de um lugar de permanência. Por sua vez, as periferias passaram a ser os locais onde o cidadão pode facilmente satisfazer as suas necessidades diárias, baseados neste sistema de subúrbio e de centro. Ao retirarmos residentes da cidade, começamos aos poucos a condená-la à sua própria extinção enquanto estrutura social. A cidade deixa de ser uma necessidade e passa a ser um parque de diversões, uma atracção turística. A sua estrutura deixa de ser funcional e passa a estar envolta num manto de nostalgia que capta certamente outras populações em busca das riquezas de um passado que a própria cidade não soube conservar enquanto tal.

A partir daqui tudo é possível. Uma vez que a cidade não nos pertence e que esta se parece cada vez mais distante em termos temporais e espaciais, começamos agora a questionar se realmente interessará preservar aquilo que ainda resiste. Ou se de uma forma ou de outra (Reabilitando ou construindo de novo) deveremos substituir as velhas construções por novas estruturas contemporâneas, adaptadas às necessidades actuais, em função da própria realidade actual. Ora, o Mercado do Bolhão enquanto reflexo de uma vida passada, está claramente em decadência. A culpa não será certamente da estrutura física nem das pessoas que ao longo dos tempos lhe deram uso. Tal facto está a acontecer porque nós próprios nos transformamos e transformamos os usos da cidade. Porque irá um comum habitante da periferia comprar alimentos a um mercado central quando terá certamente uma cadeia de supermercados ou mesmo uma mercearia a cinco minutos de sua casa? Não faz sentido. E deixa de fazer sentido quando a grande maioria da população que usufrui da cidade é de fora ou habita em periferias. No entanto, tal não implica que o Mercado deixe de existir como até agora sempre existiu. Pois, por entre um ou outro turista que nostalgicamente o visita, encontramos diariamente cidadãos que usufruem do Mercado enquanto tal.

fotografias gentilmente cedidas pelo Movimento Cívico e Estudantil do Porto

Então como poderemos Reabilitar uma estrutura como o Mercado do Bolhão, que cada vez mais se encontra em decadência não só em termos estruturais mas também em termos de uso? Não será certamente tomando uma posição extrema de não só demolir a sua estrutura física como também o seu programa específico. Passará sim por formular uma ideia de um equipamento social baseado na estrutura programática de mercado, mas dotando-o de sub-programas (necessidades) que possam tornar sustentável uma vida e uma interacção social entre o equipamento, a cidade e a população. Passará certamente por abri-lo ainda mais à cidade, ao invés de o encerrar num esquema de centro comercial, igual a tantos outros espalhados pela cidade e efémero como o próprio conceito de centro comercial o é. Passará sobretudo pela criação de uma identidade forte e única, pela criação de um pólo catalisador dos mais diversos públicos, tornando-o polivalente nas suas mais diversas actividades, mas centralizador enquanto equipamento social. Tratar-se-á sobretudo de re-inventar o conceito de Mercado urbano, aliando-o a outras funções sociais que permitam uma regeneração das suas actividades, reabilitando a sua identidade enquanto agente social. Passará essencialmente pela criação de laços dinâmicos de relação com a cidade.

fotografias gentilmente cedidas por Roberta Venier

E ainda assim continuamos a fazer os mesmos erros… Haverá ainda esperança?

João Pereira de Sousa

Referência: Manifesto Bolhão

a cor do verde

As questões energéticas e as políticas de sustentabilidade estão, hoje em dia, claramente em voga. As preocupações que há décadas têm vindo a ser discutidas pela comunidade científica e que nos tentam transmitir, mais ou menos, uma visão realista de um futuro próximo, começam finalmente a ser ouvidas e valorizadas. Mas, apesar desta aparente consciencialização por parte dos órgãos governamentais, há um claro nervosismo e mesmo um certo histerismo, no que toca a repensar os nossos hábitos de produção e de consumo energético. Com isto, assistimos hoje a uma autêntica corrida frenética pela medalha “verde”. Não que essa distinção tenha como objectivos primeiros uma melhor qualidade de vida, mas sim uma meta de sustentabilidade económica para os diversos membros da União Europeia (neste caso).
Já todos nós nos habituamos às diferentes formas de produção de energia e também à evolução constante neste campo. Desde as centrais eléctricas a carvão, a petróleo, a gás natural, às barragens hidroeléctricas, centrais nucleares até às mais recentes de energia solar, das marés e eólicas. Ora, uma vez que esta consciencialização pela conservação do planeta só há algumas décadas é que começou a ser encarada, desde a Revolução Industrial que a sociedade industrializada tem vindo a usar e a abusar dos métodos mais directos e fáceis de produção energética (e consequentemente os mais poluentes). Durante décadas foi este o pensamento (e ainda o é) do enquanto podemos, vamos usufruir ao máximo dos recursos. Não que o fim esteja próximo, mas pelo menos há que garantir que as gerações futuras possam (sobre)viver, assim como nos foi garantido a nós. Afinal todos fazemos parte de uma comunidade global, mesmo que ainda não tenhamos aprendido a agir como tal.
Assim, neste grito de desespero, perante esta constatação inevitável da realidade, tentam-se ao máximo mudar os paradigmas. Esta evolução contínua de quase 150 anos, onde praticamente ninguém nos ensinou a questionar a nossa existência ou mesmo a entender o funcionamento dos sistemas naturais, chega agora a uma ruptura. Finalmente entendemos (alguns de nós) que algo tem de ser feito e que há que mudar consideravelmente o nosso estilo de vida. Por mais que todos queiramos dar seguimento ao “American Way of Life”, esse conceito é já bastante velho e completamente desactualizado.
E quase que por milagre, começa-se a falar na utilização da energia dos ventos, dos raios ultravioleta e das ondas do mar. E, encarnados na figura do novo deus salvador, de um dia para o outro começamos a ver implantadas as primeiras turbinas eólicas, aqui e ali. A novidade é tal que até os passeios de domingo passam de uma tarde à beira-mar para uma peregrinação a estas novas estruturas. E o ciclo continua, cada vez mais turbinas eólicas são implantadas; há que lutar pelas estatísticas. E quando damos por isso e quando reflectimos um pouco, damos conta de que já rara é a paisagem onde não se aviste ao longe (pelo menos) uma série de turbinas eólicas que calmamente giram pela nossa salvação. Refiro isto porque para além das claras vantagens na utilização desta tecnologia há que ter em conta numerosos factores que constantemente são ignorados. Pois enquanto até agora as centrais eléctricas se centravam em locais específicos, temos cada vez mais uma enorme central eléctrica que se estende por todo o país, por toda a paisagem urbana ou rural, sem qualquer respeito ou consideração para com a natureza. Será este verde da cor que esperaríamos? Ou estaremos nós a colocar uma camada de verde por cima daquilo que não queremos que se veja? Estas preocupações justificam-se, pois esta busca pelo rótulo “verde”, onde tudo o que tenha a designação “reciclado”, “ecológico”, …, é imediatamente aceite como regra sem que para isso se façam os devidos estudos e se pesem as consequências. Porque milagres não existem. E desta forma se destrói a paisagem, alteram-se legislações e já poucos são os festos que permanecem intactos desta praga (ecológica). Estaremos nós na mesma a usar e a abusar dos métodos mais directos e fáceis de produção energética?
Afinal de contas o que é que queremos? Compensar os estragos que temos vindo a fazer na natureza ou continuar a garantir para nós um futuro mais ou menos sustentável escravizando (como sempre) a natureza? Há muito para pensar, para discutir, para estudar, antes de se começar a agir desta forma. Continuamos a ser os mesmos, a pensar da mesma forma, mas com cada vez mais tecnologia. O que mudou?

por João Pereira de Sousa

Trabalhar com arquitecto?

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Há dias descobri este fórum: forumdacasa. E com ele comecei também a tomar conhecimento real sobre o pensamento do ser humano comum perante esta espécie (aparentemente) tão dispensável que é o Arquitecto. No meio de tantas afirmações de revolta, de ignorância, de incompreensão ou simplesmente de desinteresse, resolvi quase como em forma de manifesto explicar em palavras comuns o porquê de se trabalhar com um Arquitecto:

“Todos nós queremos ter a casa dos nossos sonhos, como aquela que vimos algures numa revista, talvez sem piscina, mas com um belo jardim. Talvez sem paredes de vidro, mas com janelas pontuadas nos alçados. Talvez com cobertura plana ou mesmo inclinada.

Ora, porquê contratar um arquitecto se afinal de contas já todos nós sabemos o que queremos? Porque não falar ao amigo do nosso primo que tem jeito para o desenho e dizer-lhe que nos faça um rabisco com três quartos, uma sala, uma cozinha e casas de banho? Porque não falar ao tio de um amigo nosso que é empreiteiro e que faz as obras num instante e a baixo custo?

Porquê?

Porque passamos horas a fio a folhear revistas de automóveis para escolher o modelo que nos serve? Porque visitamos inúmeras lojas de roupa em busca daquilo que gostamos? Porque ficamos horas a experimentar sofás a ver se nos servem? Porque afinal de contas tudo aquilo que compramos é um investimento para o futuro!

Já pensaram bem no que é uma casa? Olhem para a vossa casa e reflictam sobre aquilo que acham que está bem e aquilo que está mal. Agora pensem como a poderiam melhorar. Se vão construir uma casa, essa (teoricamente) será a vossa casa durante muitos e muitos anos! Ora, vão querer ter um lar perfeitamente adaptado às vossas necessidades, que a longo prazo possa ser sustentável, que vos permita criar e viver com a vossa família em harmonia. Será essa a casa dos vossos sonhos? Então façam um investimento agora para poderem lucrar no futuro!

O Arquitecto é o único profissional apto a projectar devidamente um espaço de habitar. É o único profissional com formação para isso, o único profissional com sensibilidade para tal, o único profissional capaz de pensar e desenvolver os espaços da casa à vossa medida. O único profissional que pensará no vosso lar de forma sustentável e rentável a longo prazo. Como tal o Arquitecto é o elemento-chave de qualquer projecto de arquitectura. É a única pessoa artisticamente capaz de conceber, desenvolver, discutir, pensar e desenhar uma casa: a vossa casa.

Então porque tentamos sempre evitá-lo? E porque é que passamos horas e gastamos milhões de euros a personalizar os nossos carros, a buscar objectos que nos agradam e que se identificam connosco? Porque é que quando pensamos em construir a nossa casa, nunca pensamos que será ali que para o bem e para o mal iremos Viver? Será que há algo mais importante para se investir do que na nossa qualidade de vida?

Qualquer trabalho profissional tem um preço. Esse preço deverá estar de acordo com as capacidades profissionais de quem o faz. O que acontece quando queremos remediar? Não queremos gastar dinheiro em desenhos, em coisas que à partida não têm grande importância, queremos é ter quatro paredes, um chão e um tecto para dormir e mais nada. Por isso queremos é alguém que as construa! E a vossa casa fica construída, custou-vos muito pouco e até pagaram umas cervejas aos trabalhadores. Ao fim de 2 anos essa casa está absolutamente insustentável. Há humidades, frio no Inverno, calor no Verão, afinal de contas agora a casa já não tem aquela mística que ao inicio teria. Basicamente o vosso investimento foi um desastre. Gastaram uns trocos para a construir, mas a médio prazo a vossa casa tornou-se um “barraco”. É impossível lá viver sem um aquecedor, não há muita luz durante o dia, os quartos ora são grandes demais ou demasiado pequenos: A vossa casa não foi pensada!

Então porque falo em investimento? Antes demais deveremos sempre pensar a casa como investimento, não porque pretendemos vendê-la daqui a uns anos, mas um investimento para a nossa qualidade de vida e consequentemente para as nossas carteiras! Assim, fará todo o sentido procurar um profissional honesto e capaz de pensar a habitação como nós tínhamos em mente. Um profissional que sugira alterações de forma a tornar a casa sustentável. Um profissional que planeie a casa a longo prazo. Isto resultará seguramente num investimento que será inicialmente aparentemente caro, mas que em poucos anos iremos olhar para trás e pensar que ainda bem que o fizemos porque hoje em dia a casa funciona perfeitamente, é confortável, os quartos foram dimensionados como queríamos, a cozinha é versátil e o terraço que o arquitecto tinha sugerido afinal até tem sido bastante utilizado naqueles dias de verão!

Devemos então investir para ter lucros. Não é sempre assim que os negócios funcionam? Uma construção funciona também assim. Um bom material irá durar mais tempo, espaços bem desenhados e pensados serão mais confortáveis, o planeamento da casa para a nossa vida futura irá torná-la adaptável ao longo dos tempos.

Então porque não dar valor ao trabalho do Arquitecto e em troca recebermos a casa dos nossos sonhos, tenha sido ela pensada a baixo ou a médio custo?

Agora atenção! Há bons e mais profissionais! Nunca escolham um Arquitecto só porque ele é Arquitecto! Assim como escolhem um opel ou um ford, irão escolhê-lo pelas suas características! Deverão procurar sempre um conjunto de Arquitectos e solicitar-lhes o seu portfolio de forma a poder entender as características do seu trabalho, as suas preocupações e principalmente a sua ética e honestidade perante o trabalho que irá fazer!”

por João Pereira de Sousa