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Serpentine Gallery Pavilion 2009, SANAA

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Os que tiveram a oportunidade de passar por Londres durante o Verão e até ao final de Outubro, tiveram a oportunidade de visitar o mais recente pavilhão da Serpentine Gallery. Tendo tido a oportunidade de usufruir diversas vezes desta obra, venho deste modo, estabelecer uma análise das impressões que foram sendo recolhidas in loco, sobre a forma e a função de uma arquitectura que através de uma simples ideia, se transforma numa experiência única da percepção de um espaço construído, em simbiose com o jardim envolvente.

O desenho de um pavilhão é, antes de mais, um desafio. Propor a um arquitecto a criação de uma pequena estrutura efémera, construída a baixos custos e que se possa tornar num ícone temporario do local onde se implanta, é algo que à partida parece simples, mas que se revela extremamente complexo com o desenrolar do projecto. A problemática aqui centra-se sobretudo em como fazer muito com pouco. Ou antes, entenda-se, em como fazer algo extraordinário através de um pequeno e subtil gesto. A iniciativa da Serpentine Gallery em Londres tem sido de grande importância para o desenvolvimento de um pensamento e de uma linguagem arquitectural, associada não só à contemporaneidade, mas enquanto paradigma da obra do seu autor. É desta forma que, um grupo de arquitectos reconhecidos em todo mundo, tem tido a oportunidade de construir no Reino Unido, abrindo novas fronteiras à sua obra e acima de tudo, aproximando a sua obra de um público amplamente vasto.

No entanto, pondo de parte a questão da divulgação e promoção da Arquitectura e de determinado arquitecto, esta ideia de construir um pavilhão temporário de verão, que vem sendo desenvolvida ao longo de alguns anos, tem trazido algumas experiências interessantes em torno da prática arquitectónica contemporânea. Pois aqui, para um local que tem sido constante a cada ano, temos assistido a uma série de propostas que, pela sua multiplicidade de ideias, tem servido para aguçar o parecer crítico tanto dos arquitectos como dos cidadãos, em relação à obra de Arquitectura. Vamos assistindo assim, à construção de uma colecção de Arquitectura, que a cada ano, vagueia entre intenções minimalistas e provocações puramente formais. No entanto, contendo mais ou menos condimentos, aquilo a que temos assistido aqui é, acima de tudo, à evocação de uma imagem com a assinatura de tal Arquitecto e que quase invariavelmente tem trazido algo de novo ao panorama arquitectural ou ao próprio portfolio do seu autor.
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O pavilhão que este ano foi elaborado pelo atelier SANAA de Kazuyo Sejima e Ryue Nishizawa traz, a meu ver, um interessante exemplo daquilo que estes arquitectos têm já desenvolvido ao longo da sua obra. A sua proposta para um pavilhão de jardim é tão somente a definição de uma superfície coberta, que se desmaterializa através da uma relação constante com o que a envolve. Uma ideia tão simples e porém, tão susceptível de ser destruída ao mínimo erro. Isto porque, como temos verificado inúmeras vezes, é na síntese que tudo se torna mais complexo, através da abolição dos aspectos superficiais ou mesmo ornamentais. A síntese é atingida quando o outro entende a nossa mensagem de uma forma clara e directa. Não querendo afirmar que tudo deverá estar exposto à partida, entende-se que pelo menos as intenções do projecto deverão ser efectivamente claras para que as pessoas consigam usufruir da Arquitectura, ao mesmo tempo em que esta se torna invisível.
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A questão põe-se então, em como construir algo que tão levemente se suporta num terreno e em como de uma forma tão natural, essa mesma estrutura possa ser permeável a tudo a que a envolve. Colocando a questão de outro modo, como poderemos nós projectar uma arquitectura transparente? É a esta questão primordial que, entendo eu, os arquitectos visionaram a sua obra e que claramente atingiram o seu objectivo. Mas, perante esta questão complexa, não se pense que as soluções deverão ser elas próprias extremamente complexas, ou mesmo ridiculamente básicas. Isto porque esta interrogação levanta essencialmente dois problemas: seja a realização de uma transparência visual como, por outro lado a (in)definição de uma transparência física. A transparência visual, é vulgarmente atingida através do uso de materiais cujas propriedades principais são, obviamente, a transparência. A própria transparência física, mais complexa, requer uma maior reflexão, mas também ela é possível de ser atingida através de um desenho que se conjugue totalmente com aquilo o que o rodeia. Neste caso, estas duas noções são trabalhadas de uma forma bastante clara e que provavelmente qualquer pessoa poderá tirar essas conclusões. O pavilhão não se encerra, como também quase que desaparece por entre as árvores que o envolvem. Isto porque os autores, inteligentemente, decidiram introduzir um outro factor de complexidade: o reflexo. O reflexo é aqui entendido não só como forma de duplicar tudo aquilo que se acerca como, é através deste que o pavilhão se torna permeável a tudo o que o envolve. Através do reflexo, a estrutura construída funde-se com a paisagem, torna-se incolor e de certa forma, atinge um grau de subjectividade que fez despertar a atenção.
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Ao escrever sobre esta obra, reflicto também sobre a recente obra de Eduardo Souto de Moura e Ângelo de Sousa para a 11ª Bienal de Arquitectura de Veneza. Curiosamente uma obra também ela efémera e que partilha de uma mesma ideia: o reflexo como forma de tornar uma superfície permeável ao que a envolve. No entanto, em Veneza o reflexo duplica uma realidade de uma forma quase abstracta, enquanto que em Londres, o reflexo é usado como forma de tornar permeável uma estrutura construída através da duplicação do ambiente envolvente. Esta ideia de permeabilidade surge aqui, de duas formas que me parecem interessantes salientar. Seja de uma forma visual, em que o edifício se desmaterializa no seu contexto, tornando-se quase invisível. Seja através do desenho formal do edifício, que não impõe limites físicos na sua implantação.
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Ao desenvolver o pavilhão apenas através de uma cobertura que se suporta num conjunto de pontos dispersos pela área do jardim, os arquitectos conseguem, assim, que a estrutura possa ser apropriada de uma forma bastante natural, tanto pela paisagem, como pelas pessoas, contrariando assim a ideia de pavilhão-caixa. É então, pela indefinição de limites físicos e visuais, que esta obra consegue, a meu ver, concretizar a ideia de transparência na sua relação para com o visitante e a envolvente existente. Agora restam apenas as memórias e claro os registos fotográficos.

João Pereira de Sousa