palavras da arquitectura | um olhar sobre a arquitectura contemporânea | João Pereira de Sousa palavrasdaarquitectura@gmail.com


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a cor do verde

As questões energéticas e as políticas de sustentabilidade estão, hoje em dia, claramente em voga. As preocupações que há décadas têm vindo a ser discutidas pela comunidade científica e que nos tentam transmitir, mais ou menos, uma visão realista de um futuro próximo, começam finalmente a ser ouvidas e valorizadas. Mas, apesar desta aparente consciencialização por parte dos órgãos governamentais, há um claro nervosismo e mesmo um certo histerismo, no que toca a repensar os nossos hábitos de produção e de consumo energético. Com isto, assistimos hoje a uma autêntica corrida frenética pela medalha “verde”. Não que essa distinção tenha como objectivos primeiros uma melhor qualidade de vida, mas sim uma meta de sustentabilidade económica para os diversos membros da União Europeia (neste caso).
Já todos nós nos habituamos às diferentes formas de produção de energia e também à evolução constante neste campo. Desde as centrais eléctricas a carvão, a petróleo, a gás natural, às barragens hidroeléctricas, centrais nucleares até às mais recentes de energia solar, das marés e eólicas. Ora, uma vez que esta consciencialização pela conservação do planeta só há algumas décadas é que começou a ser encarada, desde a Revolução Industrial que a sociedade industrializada tem vindo a usar e a abusar dos métodos mais directos e fáceis de produção energética (e consequentemente os mais poluentes). Durante décadas foi este o pensamento (e ainda o é) do enquanto podemos, vamos usufruir ao máximo dos recursos. Não que o fim esteja próximo, mas pelo menos há que garantir que as gerações futuras possam (sobre)viver, assim como nos foi garantido a nós. Afinal todos fazemos parte de uma comunidade global, mesmo que ainda não tenhamos aprendido a agir como tal.
Assim, neste grito de desespero, perante esta constatação inevitável da realidade, tentam-se ao máximo mudar os paradigmas. Esta evolução contínua de quase 150 anos, onde praticamente ninguém nos ensinou a questionar a nossa existência ou mesmo a entender o funcionamento dos sistemas naturais, chega agora a uma ruptura. Finalmente entendemos (alguns de nós) que algo tem de ser feito e que há que mudar consideravelmente o nosso estilo de vida. Por mais que todos queiramos dar seguimento ao “American Way of Life”, esse conceito é já bastante velho e completamente desactualizado.
E quase que por milagre, começa-se a falar na utilização da energia dos ventos, dos raios ultravioleta e das ondas do mar. E, encarnados na figura do novo deus salvador, de um dia para o outro começamos a ver implantadas as primeiras turbinas eólicas, aqui e ali. A novidade é tal que até os passeios de domingo passam de uma tarde à beira-mar para uma peregrinação a estas novas estruturas. E o ciclo continua, cada vez mais turbinas eólicas são implantadas; há que lutar pelas estatísticas. E quando damos por isso e quando reflectimos um pouco, damos conta de que já rara é a paisagem onde não se aviste ao longe (pelo menos) uma série de turbinas eólicas que calmamente giram pela nossa salvação. Refiro isto porque para além das claras vantagens na utilização desta tecnologia há que ter em conta numerosos factores que constantemente são ignorados. Pois enquanto até agora as centrais eléctricas se centravam em locais específicos, temos cada vez mais uma enorme central eléctrica que se estende por todo o país, por toda a paisagem urbana ou rural, sem qualquer respeito ou consideração para com a natureza. Será este verde da cor que esperaríamos? Ou estaremos nós a colocar uma camada de verde por cima daquilo que não queremos que se veja? Estas preocupações justificam-se, pois esta busca pelo rótulo “verde”, onde tudo o que tenha a designação “reciclado”, “ecológico”, …, é imediatamente aceite como regra sem que para isso se façam os devidos estudos e se pesem as consequências. Porque milagres não existem. E desta forma se destrói a paisagem, alteram-se legislações e já poucos são os festos que permanecem intactos desta praga (ecológica). Estaremos nós na mesma a usar e a abusar dos métodos mais directos e fáceis de produção energética?
Afinal de contas o que é que queremos? Compensar os estragos que temos vindo a fazer na natureza ou continuar a garantir para nós um futuro mais ou menos sustentável escravizando (como sempre) a natureza? Há muito para pensar, para discutir, para estudar, antes de se começar a agir desta forma. Continuamos a ser os mesmos, a pensar da mesma forma, mas com cada vez mais tecnologia. O que mudou?

por João Pereira de Sousa

Da Arquitectura Sustentável

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A sustentabilidade, como noção ecológica, veio para ficar. Por necessidade, por moda ou porque se pretende pensar dessa forma, a noção de sustentabilidade ecológica aliada à arquitectura faz já parte do nosso dia-a-dia. Enganem-se aqueles que julgam que me refiro ao uso de tecnologias complexas ou de materiais altamente tecnológicos. A “sustentabilidade” só é sustentável através da sua simplicidade, pela forma como, com poucos recursos se consegue materializar uma construção que funciona, que dura e que certamente continuará a funcionar na perfeição, não dependendo dos numerosos factores externos que são imprescindíveis à maior parte das nossas casas. Algures numa entrevista, Eduardo Souto de Moura vê-se confrontado com a questão sobre a sustentabilidade e, de uma forma bastante segura afirma que a “sustentabilidade” deveria ser algo intrínseco à obra de arquitectura. Da mesma forma que a arquitectura pretende responder a problemas sociais e funcionais, deveria por si só ser sustentável. É esse o seu propósito. Sustentável a nível económico, ambiental, funcional, etc. A noção de sustentabilidade é plural e como tal interessa saber a que se refere e de que forma se comporta na relação com a arquitectura.

Tendo já tido alguma formação em bio-arquitectura e construção sustentável, não deixo de estar interessado em evoluir os meus conhecimentos nesta matéria e por isso mesmo já há uns meses que vou mantendo um link aqui no blog para outro blog de grande interesse pelo nome de: Casa em Arruda dos Vinhos – Diário de Obra da Autoria do Plano B Arquitectura. Ora este blog, antes de mais, é uma excelente fonte de informação (e de formação) sobre construção (sustentável), baseada na apresentação ilustrada e descritiva das fases de obra de uma casa projectada pelo atelier Plano B Arquitectura. Raro em Portugal, este atelier tem no seu currículo uma série de projectos cuja matéria prima é a terra ou a madeira aliadas a métodos de construção tradicional. Esta aproximação à arquitectura através da sua simplicidade e eficácia dos métodos construtivos constitui uma vertente sobre a qual este atelier procura trabalhar, desenvolvendo uma arquitectura com uma finalidade ecológica.

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A Casa em Arruda dos Vinhos, a qual tenho vindo a acompanhar através do seu blog, é bastante interessante pelo facto de se partir de uma construção em madeira com paredes em tabique e adobe, aliada a materiais contemporâneos como o policarbonato, o aço e o betão, dando origem aqui a uma grande riqueza espacial, aliada à sua simplicidade formal. Outro aspecto aqui interessante é o facto dos próprios arquitectos participarem na obra e de serem eles também os que contribuem para a tornar real, participando na prática de construção, demonstrando que o arquitecto tem de ir para além dos seus desenhos e das suas idealizações, concretizando-as com as suas próprias mãos.

Este projecto trata-se de uma reconstrução a partir de uma ruína existente. Como o terreno se encontra em reserva ecológica, qualquer intervenção deveria ser feita apenas no perímetro da antiga construção. Como tal, os arquitectos propuseram uma reconstrução, abolindo a ruína mas suportando-se dela para as fundações da nova casa. Assim, de uma forma quase natural se substituíram as paredes de pedra antigas por uma estrutura em madeira de eucalipto cuja volumetria veio igualar a anterior, conforme os regulamentos. Esta simples habitação unifamiliar é composta por um espaço amplo com cozinha e sala com uma organização livre e uma instalação sanitária encerrada.

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O uso de técnicas construtivas (ditas) tradicionais e o uso de materiais orgânicos na materialização da estrutura da casa foi desde sempre a necessidade para a materialização deste projecto. Partindo da estrutura de madeira que definiu a forma geral do edifício, as paredes foram enchidas com adobe num sistema de tabiques de forma a gerar uma grande inércia térmica. Do lado exterior a parede recebeu ainda um revestimento de placas de aglomerado de cortiça com 5 centímetros de espessura, de forma a isolar eficazmente as pontes térmicas, seguido do revestimento final com placas de policarbonato ondulado contra a penetração de água a partir do exterior. O revestimento interior é conseguido através da textura deixada pelo sistema de tabique com o adobe, sendo que posteriormente foi pintado de branco. Assim, através de uma secção de parede bastante simples e económica se conseguiu estabelecer um sistema eficaz de isolamentos permitindo que o ambiente interior da casa permaneça o mais estável possível.

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Fica então aqui a sugestão de visita do blog Casa em Arruda dos Vinhos – Diário de Obra da Autoria do Plano B Arquitectura.

por João Pereira de Sousa

The Portable Light, Sheila Kennedy

A recente conferência de Sheila Kennedy, no auditório do Museu de Serralves, revelou-se uma excelente descoberta no que diz respeito às preocupações da arquitectura e do design para pelo menos 2 biliões de pessoas neste mundo. Aliás, toda a exposição ‘Design For The Other 90%‘ patente no Cooper-Hewit National Museum em Nova Iorque merece uma atenta visita, para aqueles que tenham a oportunidade de lá ir.

Aquilo que realmente me cativou na exposição de Sheila Kennedy foi uma peça de design que o atelier KVA MATx está a desenvolver de forma a poder torná-la um objecto de grande distribuição e com preços mais acessíveis. Este projecto intitula-se de ‘The Portable Light‘ e tem como objectivo ser um dispositivo de iluminação que possa ser usado em locais onde não existe qualquer distribuição eléctrica, nomeadamente em povoações rurais isoladas, em países subdesenvolvidos.

O projecto ‘The Portable Light‘ consiste num tecido reflector que utiliza a luz do sol para gerar energia eléctrica renovável, armazenando-a e transformando-a em luz através de duas pequenas lâmpadas, podendo ser usado numa escala global em zonas onde não existe rede eléctrica. O tecido que compõe este objecto é totalmente adaptável e leve de tal forma que os arquitectos criaram protótipos que pudessem ser enviados e transportados segundo normas estandardizadas, podendo assim chegar facilmente a qualquer parte do mundo. A grande vantagem deste produto encontra-se no facto de ser extremamente maleável e transportável, podendo ser usado por qualquer pessoa, tornando-se um objecto essencial no seu dia-a-dia.

Este projecto foi apresentado através de uma equipa de arquitectos, antropólogos, engenheiros e médicos, à comunidade indígena Huichol (Wirrárica), a qual vive numa área remota da Sierra Madre no México. A elevada adaptabilidade destes objectos tornou-se importante já que estas tribos se deslocam constantemente em zonas remotas de muito difícil acesso, podendo assim servir as suas necessidades, transportando-os durante o dia e usando-os à noite quando esta é a única luz disponível. Aquilo que realmente demonstra a força deste projecto é o facto destas comunidades se adaptarem imediatamente a este produto, integrando-o nos seus costumes e quotidiano, tornando-o praticamente indispensável nos dias de hoje. Através de esta experiência podemos ver famílias reunidas durante a noite, crianças a estudar, as mulheres a cozinhar e todo um desenvolvimento de práticas sociais nocturnas possíveis de serem realizadas através desta tecnologia.

Acima de tudo aquilo que importa reter deste projecto é o facto de através de uma tecnologia já existente ser possível uma reinterpretação e uma adaptação a necessidades específicas. Este projecto está a dar que falar e tornou-se indispensável para as comunidades que usufruem dele. Resta-nos incentivar e promover o desenvolvimento de projectos como este que de forma tão simples modificam hábitos, trazem qualidade de vida e tornam mais digna a vida de pessoas como nós.

Portable Light Project

por João Sousa

o Sol do Estoril

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A partir do que seria mais um comentário ao artigo publicado sobre o vídeo promocional do futuro complexo Estoril Sol no AspirinaLight, decidi torná-lo mais abrangente a abrir um pouco mais a discussão.


Quanto ao vídeo, pouco se poderá dizer. Tenhamos nós suficiente auto-crítica para nos distanciarmos de tantos clichés e observemos o desenlace ridículo que todo este vídeo promocional nos proporciona. Pretende desde logo atingir um tipo de mercado (outra coisa não seria de esperar), mercado esse definido pelas duas personagens femininas com sotaque à la Cascais, digno das melhores (tristes) tias de Portugal. As quais certamente nos seus minutos de repouso entre sessões de spa e de ioga com personal trainer pensarão intensamente em como seria acordar e ver o mar; lavar os dentes e ver o mar; tomar banho e ver o mar; tomar o pequeno-almoço e ver o mar; ler uma revista e ver o mar; ver televisão e por detrás desta, ver o mar. E para aquelas que bem convenceram os maridos de que esta é a casa ideal ainda poderão ter uma piscina que se estende para o mar!

Como poderemos nós subjugar-nos a tamanho desfile de futilidades encontradas em palavras-chave como “jardim paradisíaco”, “a definição de excelência”, “viver numa obra de arte”, “enormes superfícies transparentes”, como definição de um standard de vida sem que caiamos num mísero desespero de afirmação de um status social digno daquilo que pensamos ser? Queremos nós ser tão diferentes do povo, “viver na zona mais bem localizada de sempre”, de forma a ghettizarmo-nos, a idolatrarmo-nos, a sermos símbolos de uma nova “obra de arte” que marcará a paisagem nos próximos anos? E como se o mar não chegasse ainda temos imagens do mar dentro do elevador!

E as questões colocam-se. Não estaremos nós a criar um novo Estoril Sol, condenado ao fracasso como o que está a ser demolido actualmente? Será esta a visão que queremos ter da Baía de Cascais e do Vale da Ribeira da Castelhana? Então para que queremos uma praia privativa onde entre a nossa habitação e a praia temos uma marginal e uma linha de comboio? Será assim tão convidativa? Não estaremos nós a Dubaízar a paisagem de Cascais, a querer ter ainda mais do que aquilo que o lugar nos oferece?

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O problema coloca-se agora no lado dos arquitectos. Que visão urbana deveremos ter perante aquele lugar uma vez que não é o antigo Estoril Sol que desejamos? Será de bom senso destruir esta antiga aberração e criar uma nova construção tão ou mais densa que a anterior? Aqui claramente os valores urbanos e arquitectónicos foram suplantados pela pressão imobiliária imposta. Tenho dificuldade em crer que um arquitecto como o Gonçalo Byrne acredite que esta será a melhor opção para o local, criando um enorme bloco sólido de betão e vidro que se debruça sobre a estrada e o mar. E numa época em que tanto se fala de sustentabilidade, por vezes surgem projectos (como este) que desafiam estes conceitos, ignorando à partida questões tão essenciais como o conforto térmico das habitações, resolvendo-o através de climatizações tão banais, provenientes da necessidade de ter todos os alçados em vidro, sejam eles a norte ou a sul.

E desta forma se exprime a “excelência”, aquilo que é viver numa “obra de arte”. A arquitectura surge aqui como obra máxima do poder imobiliário, utilizam-se termos e nomes que nos fazem crer que é realmente algo de excepcional viver num complexo destes. Ser abraçado pelo mar, dia e noite, durante 24 horas, banalizando-o, tornando-o tão comum quanto as paredes da nossa casa. Sejamos racionais!

por João Sousa