palavras da arquitectura | um olhar sobre a arquitectura contemporânea | João Pereira de Sousa palavrasdaarquitectura@gmail.com


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A Cidade Invisível

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Estávamos perto do verão e a cidade encontrava-se vazia. Apesar das temperaturas estarem amenas e de uma leve brisa soprar, as ruas escasseavam de vida. Raras eram as pessoas que deambulavam pelas praças e ruas que povoavam o centro da cidade. Os automóveis, esses circulavam, as lojas apesar de vazias estavam abertas e os cafés, fóruns de um passado recente, teimavam em dispor cadeiras e mesas nos passeios apesar destas permanecerem infinitamente vagas. Mas engane-se quem pensa que as ruas povoadas de automóveis estacionados e em compasso de espera são sinónimo de vida urbana. Estes não são mais do que cápsulas que rompem pelo tecido urbano ligando pontos distantes dentro e fora da cidade. Não fazem uso dela e no entanto estão lá, ocupam-na friamente e preenchem os vazios deixados pelas pessoas.

Mas porque razão não estavam as pessoas a caminhar pelas ruas? Porque permaneciam as lojas inutilmente abertas? Porque é que os bancos e as sombras das árvores que povoam as praças continuavam de vago? E porque é que os cafés teimavam em chamar os transeuntes que por lá não passam? Era estranho… ou talvez não. Teria que ver com algum acontecimento? Algum evento que teria transportado as pessoas para algum outro local? Ou será que a cidade havia deixado de ter significado enquanto estrutura socio-cultural de uma comunidade que a usa e que dela depende? Mas o que era feito das comunidades? Onde estavam elas? A cidade estava deserta… E no entanto vislumbravam-se grupos de pessoas que percorriam as ruas e praças, parando aqui e ali, olhando de um lado para o outro e fotografando cada detalhe do que se lhes aparecia à frente. Afinal as pessoas estavam lá, as comunidades existiam, as ruas eram atravessadas e nas praças juntavam-se grupos de pessoas com interesses comuns. Mas que estranhos seres eram estes que insistiam em contrariar a monotonia em que a cidade se tinha transformado? Que faziam eles a caminhar pelas ruas e a entrar nos cafés? Não saberão que já ninguém caminha pelas ruas ou se senta nas praças? Não pareciam habitar a cidade, mas já há muito que se tornaram parte do quotidiano desta. Insistiam em percorrer as ruas à procura de uma realidade passada, de uma vida que se esgotou por entre as fachadas de granito que se elevam das calçadas. Suportavam-se de livros ilustrados com indicações do que deviam ver, por onde deviam passar e do que deviam comer e cheirar. Mas tudo continuava a estar desprovido de conteúdo, as estruturas da cidade continuavam a viver, mas já não havia quem vivesse nelas. A cidade tinha-se tornado num parque de atracções. Vinham turistas de toda a parte para experimentar aquilo que lhes disseram que a cidade foi. Mas as ruas e as praças estavam vazias, pontuadas com postos de venda de postais que ilustravam as mesmas praças povoadas e úteis. Mas a cidade estava esquecida…

Por isso criavam-se, cada vez mais, novas estruturas para albergar todos os visitantes que desejavam dirigir-se às mesmas praças e ruas que conheceram através de um álbum de recordações vendido numa qualquer parte do mundo. Uma vez que a cidade tinha deixado de ter habitantes, transformavam-se as suas estruturas e convertiam-se os seus edifícios públicos em hotéis, centros comerciais, postos de turismo e lojas de souvenirs. Mas mantinham-se as fachadas e tudo aquilo a que os visitantes pagaram para ver. Não os podíamos desapontar, tudo fazia parte do pacote que escolheram. E os mercados? E as lojas? Também eles não escapavam. Tudo ia sendo reciclado. Do velho tornava-se a novo e do vazio, conseguia-se esvaziar ainda mais. Afinal as únicas pessoas que ainda percorriam as ruas eram esses turistas, que seguiam rotas e percursos estabelecidos, ao longo de fachadas que se assemelhavam a molduras esquecidas algures numa galeria, também ela algures esquecida. E sem que se notasse, tudo ia sendo transfigurado. E a memória, essa já há muito que havia fugido da cidade. Foi provavelmente a primeira, antes das pessoas. Pois só quando a memória foi esquecida é que a cidade se tornou neste deserto de granito, onde já nem sequer aqueles que aí haviam nascido conseguiram resistir à tentação de dali fugir.

Terá sido apenas um sonho?

João Pereira de Sousa

Urbanismo de ocasião

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Temos de admitir que somos um povo do “desenrasca”. Quando nos surge um problema somos os melhores a resolvê-lo no instante, mas no entanto, sem pensar a longo prazo. Vemos esta atitude aliada a praticamente tudo o que fazemos e como não podia deixar de ser, os resultados vêem-se, à distância! Somos um país com um território repleto de particularidades: de um lado o mar, do outro as florestas; a norte as montanhas e a sul as planícies. Quase que podemos dizer que temos de tudo. Ora, com tanta diversidade geográfica presente dentro de fronteiras, modelos não nos faltam de como gerir o território e planear o seu desenvolvimento sustentável.

Antes de mais interessa aqui pensar sucintamente na forma como a cultura portuguesa se expandiu por esse mundo fora desde há 500 anos atrás. Há um certa humildade na forma como colonizamos (irónico?) os diversos territórios por onde passámos. Isso revela-se no relacionamento típico dos colonizadores para com os colonos e ainda mais na forma como se estabeleceram cidades nas diversas colónias. Ao contrário dos outros colonizadores europeus, os portugueses edificaram as suas cidades numa profunda coerência entre a geografia local e a cultura nacional. Quer isto dizer que o modo como se planeavam as cidades tinha mais a ver com os modelos de cidade em território português do que com os modelos de cidade colonial projectados por alguém que nem sequer sabia onde se iria localizar a futura urbe. Esta atitude de entender determinado território e de projectar para as especificidades do mesmo está fortemente ligada à forma de pensar as cidades no nosso país. Veja-se desde logo a imensa diversidade de modelos ancestrais que existem de norte a sul. Desde as cidades pesqueiras, às cidades fabris, às cidades aristocráticas, …, existiu desde sempre uma relação intima entre a geografia, a função e o tempo de cada cidade. De facto, o nosso savoir-faire não surge do acaso. Aprendemos com a presença celta, desenvolvemo-nos com a ocupação romana e evoluímos através das invasões visigóticas e árabes. Podemos concluir que de facto somos um país rico em história e com uma sabedoria diversificada.

01-braga© Google Earth, Braga: a confluência entre o rural, o urbano e o industrial

Então o que se passou para chegarmos ao estado actual?

Há que ver que a história não se ficou pelo que atrás foi mencionado. Portugal foi fundado em 1143 e desde então fomos evoluindo através dos nossos feitos e legados até ao século XXI. Já em finais do século XIX, o país enfrentava uma sucessão de desgostos à medida que íamos perdendo as antigas colónias e se começavam a enfrentar novas dificuldades económicas. Com o regime do Estado Novo gera-se uma nova situação. A partir dos novos valores defendidos, gerou-se um enorme centralismo no país que se reflectiu no desenvolvimento das diversas cidades portuguesas. Lisboa passou a estar claramente na proa do barco enquanto o resto de Portugal ficou esquecido bem ao fundo da ré. Agravando o facto de se estar a incutir ao país uma ideia una do nacionalismo. Ora, deste modo, tudo o que estava dentro de fronteiras teria de ser igual de norte a sul e de este a oeste. Ignorou-se a extrema diversidade do nosso país e sucessivamente construiriam-se obras que na sua coerência linguística não se integravam geograficamente em lado nenhum a não ser apenas na ideia errada de que esses modelos eram validos para todo o país. A certa altura as cidades começaram a ser cada vez mais semelhantes. Encontramos os mesmos elementos que as caracterizam de norte a sul, numa tentativa de lhes dar uma unidade formal. E enquanto em Lisboa se assistiu ao rasgar de enormes avenidas e à edificação das grandes obras do estado, Portugal é quase deixado ao abandono perante tanta dedicação à capital.

Com a revolução de 1974 e com a descoberta de uma nova liberdade por parte do povo português, as próprias cidades começaram também a respirar uma nova liberdade formal. Uma vez que grande parte dos valores locais tinham sido já castrados ao longo do século, desenvolve-se uma ideia de que se pode fazer qualquer coisa e em qualquer sítio (agora tudo é possível). É preciso notar também que em termos globais, estávamos numa fase em que o modernismo já não se conseguia dissociar da ideia de que apenas servia para um sector da sociedade (mesmo que contrário aos seus próprios princípios).

02-gaia© Google Earth, Vila Nova de Gaia: a desproporção da nova escala urbana e a confluência com a pequena escala

Numa época pós-moderna, que se estende até aos nossos dias, a evolução dos nossos centros urbanos e dos modelos de ocupação territorial em Portugal encontra-se em claro declínio. Durante décadas usamos e abusamos de todo o espaço e bom-senso disponível e o resultado é bem visível: poucos são os locais no nosso território que ainda mantém, de alguma forma, um carácter de preservação natural, cultural e histórica. A nossa demanda de evolução para acompanhar a Europa desenvolvida é tão sôfrega que apenas nos vai distanciando cada vez mais desse objectivo.

O Urbanismo é feito por interesses. Fazem-se planos democratas, baseados nos melhores modelos urbanos, no entanto, aqui quem manda é quem fala mais alto. Se é necessário mudar ou ignorar o plano para responder aos interesses de alguém em particular, isso faz-se na maior das liberdades e perante todos os olhares. E o resultado está à vista: se não se pode construir em determinada zona, então altera-se a sua designação para que seja agora legal a construção. Isto porque quem faz as leis também tem o poder para as modificar. E com tantos interesses, com tantas oportunidades, com tantas ocasiões, as nossas cidades são hoje profundamente difusas e desenquadradas territorialmente. As atenções focam-se continuamente nos seus centros históricos (quando ainda resistem), abrindo espaço para o circo nas periferias, onde tudo é possível fazer, sem ordenamento, sem previsões, sem planeamento. À medida que as cidades se distanciam dos seus centros mais antigos, os valores mudam e as preocupações (erradamente) também mudam ou apenas ficam esquecidas. A pouco e pouco uma enorme malha desordenada habita o território nacional, de Norte a Sul, de Este a Oeste e sem que percebamos, vivemos continuamente na urbanidade, seja ela difusa e desordenada ou centrada e mais ou menos planeada. O Urbanismo constrói-se assim, a partir das oportunidades e dos interesses maioritariamente privados, gerado em conflitos e vivendo de forma autista perante o território.

João Pereira de Sousa

Objectivo: Bolhão

A cidade do Porto tem sido um recente alvo de uma série de batalhas urbanísticas entre o poder, o povo e os privados. E apesar dos alvos de algumas destas batalhas serem distintos, na sua génese o problema é o mesmo. Como (Re)transformar a cidade a partir do seu património construído? A resposta, aparentemente simples, torna-se complicada quando uma diversidade de interesses intervém para esse objectivo. O termo Reabilitar está na base de qualquer resposta a este problema, no entanto, aqui o problema reside no entendimento e nas ideias sobre a noção de Reabilitação.

É do senso comum que qualquer cidade necessita de se renovar constantemente, de forma a gerar novas dinâmicas da vida urbana, a captar novos frequentadores, residentes, trabalhadores, turistas, investidores, … Porque a cidade vive desta multiplicidade de intervenientes, nas suas fundações terá de haver um núcleo em constante mutação, de forma a acompanhar as ideias e as vontades da população urbana. É esse magma que se necessita estimular, abrindo caminhos a novas erupções que sucessivamente (Re)transformam o espaço urbano e as vivências do mesmo.

A própria noção de cidade é, na sua génese, contrária à ideia de corpo estático. A cidade é uma forma viva e os cidadãos são o seu sangue, a matéria-prima para o seu desenvolvimento. Sem pessoas não existem investimentos nem construções, sem pessoas simplesmente deixa de haver cidade. Isto porque antes de qualquer tipo de estrutura, a cidade funda-se a partir da necessidade humana de se estabelecer num local, de forma a poder armazenar bens e a estabelecer elos de comércio externo à sua comunidade.

E quando se fala em Reabilitação a que nos referimos? À Reabilitação de estruturas construídas? À Reabilitação de um estilo de vida? À Reabilitação cultural? À Reabilitação de infraestruturas urbanas? À Reabilitação das relações humanas? À Reabilitação económica? À Reabilitação de uma ideia de nostalgia?
A noção de Reabilitação é tão vasta e abrangente que provavelmente nenhum de nós saberá ao certo quando começa uma e acaba outra, sendo que, quando vulgarmente se fala em Reabilitação, referimo-nos à Reabilitação de uma estrutura construída existente na cidade, mas que sozinha não é nem faz cidade. Os edifícios, praças, ruas, largos e avenidas existem nas cidades, fazem parte delas, sustentam-nas nas suas mais variadas actividades, no entanto não podemos pensar que heroicamente são estas as estruturas que definem e identificam uma cidade. De igual forma, não deveremos pensar que o termo Reabilitar se aplica somente à matéria construída, ignorando todos os diversos agentes que compõem a cidade e que provavelmente necessitarão eles também de uma Reabilitação.
As vivências urbanas e o uso que as pessoas fazem da cidade e dos espaços urbanos é tão importante quanto a existência e qualidade desses mesmos espaços. São corpos inseparáveis e auto-dependentes. Desta forma, quando se intervém em qualquer estrutura da cidade, está-se a modificar todo um sistema de relações e inter-relações sociais, que se apoiam nos diversos palcos urbanos.

fotografias gentilmente cedidas por Roberta Venier

Ora, no caso concreto do Mercado do Bolhão, teremos de pensar que esta estrutura é muito mais do que uma construção histórica, é ela própria um palco de interacções sociais e de existência urbana. É aquilo a que se poderá apelidar de um pólo de interacção urbana. Durante a sua evolução, para além das paredes construídas, o Mercado tornou-se um agente social da vivência da cidade e com enorme interesse para a própria cidade. Desde sempre foi um pólo de reunião de cidadãos que recorriam a ele para satisfazer as suas necessidades diárias. Tornou-se uma paragem obrigatória, como qualquer mercado o seria, desde as horas de abertura em plena madrugada até ao seu fecho ao início da tarde. Toda a vida que se foi desenrolando em torno desta estrutura deu origem a uma florescência de novos tipos de comércio em ruas adjacentes, gerando finalmente uma enorme centralidade, vocacionada para o comércio.
Com a evolução dos tempos e estilos de vida e com o afastamento populacional para os subúrbios e zonas periféricas da cidade, esta foi-se assumindo cada vez mais como um centro de serviços terciários, muito mais que uma base para uma diversidade de actividades ligadas às necessidades e rotinas sociais. A cidade foi-se tornando cada vez mais num lugar de frequentação em vez de um lugar de permanência. Por sua vez, as periferias passaram a ser os locais onde o cidadão pode facilmente satisfazer as suas necessidades diárias, baseados neste sistema de subúrbio e de centro. Ao retirarmos residentes da cidade, começamos aos poucos a condená-la à sua própria extinção enquanto estrutura social. A cidade deixa de ser uma necessidade e passa a ser um parque de diversões, uma atracção turística. A sua estrutura deixa de ser funcional e passa a estar envolta num manto de nostalgia que capta certamente outras populações em busca das riquezas de um passado que a própria cidade não soube conservar enquanto tal.

A partir daqui tudo é possível. Uma vez que a cidade não nos pertence e que esta se parece cada vez mais distante em termos temporais e espaciais, começamos agora a questionar se realmente interessará preservar aquilo que ainda resiste. Ou se de uma forma ou de outra (Reabilitando ou construindo de novo) deveremos substituir as velhas construções por novas estruturas contemporâneas, adaptadas às necessidades actuais, em função da própria realidade actual. Ora, o Mercado do Bolhão enquanto reflexo de uma vida passada, está claramente em decadência. A culpa não será certamente da estrutura física nem das pessoas que ao longo dos tempos lhe deram uso. Tal facto está a acontecer porque nós próprios nos transformamos e transformamos os usos da cidade. Porque irá um comum habitante da periferia comprar alimentos a um mercado central quando terá certamente uma cadeia de supermercados ou mesmo uma mercearia a cinco minutos de sua casa? Não faz sentido. E deixa de fazer sentido quando a grande maioria da população que usufrui da cidade é de fora ou habita em periferias. No entanto, tal não implica que o Mercado deixe de existir como até agora sempre existiu. Pois, por entre um ou outro turista que nostalgicamente o visita, encontramos diariamente cidadãos que usufruem do Mercado enquanto tal.

fotografias gentilmente cedidas pelo Movimento Cívico e Estudantil do Porto

Então como poderemos Reabilitar uma estrutura como o Mercado do Bolhão, que cada vez mais se encontra em decadência não só em termos estruturais mas também em termos de uso? Não será certamente tomando uma posição extrema de não só demolir a sua estrutura física como também o seu programa específico. Passará sim por formular uma ideia de um equipamento social baseado na estrutura programática de mercado, mas dotando-o de sub-programas (necessidades) que possam tornar sustentável uma vida e uma interacção social entre o equipamento, a cidade e a população. Passará certamente por abri-lo ainda mais à cidade, ao invés de o encerrar num esquema de centro comercial, igual a tantos outros espalhados pela cidade e efémero como o próprio conceito de centro comercial o é. Passará sobretudo pela criação de uma identidade forte e única, pela criação de um pólo catalisador dos mais diversos públicos, tornando-o polivalente nas suas mais diversas actividades, mas centralizador enquanto equipamento social. Tratar-se-á sobretudo de re-inventar o conceito de Mercado urbano, aliando-o a outras funções sociais que permitam uma regeneração das suas actividades, reabilitando a sua identidade enquanto agente social. Passará essencialmente pela criação de laços dinâmicos de relação com a cidade.

fotografias gentilmente cedidas por Roberta Venier

E ainda assim continuamos a fazer os mesmos erros… Haverá ainda esperança?

João Pereira de Sousa

Referência: Manifesto Bolhão

Trienal de Arquitectura de Lisboa

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A temática global, os “vazios urbanos” foi algo que por diversas razões esteve sempre presente ao longo das exposições desta Trienal. Aliás, as cidades só existem pela conjugação dos vazios e cheios que as compõem, que lhes dão identidade e as individualizam. No entanto, nestes “vazios urbanos”, é possível notar algumas particularidades que os definem e lhes dão forma e carácter. Mas antes de mais o que são “vazios urbanos” e como poderemos identificá-los? Serão apenas espaços livres de ocupação por entre construções? Poderão ser praças, largos, ruas, vielas, rios, lagos, montes, jardins, parques, que encontramos em diversas cidades? Assim sendo, um “vazio urbano” poderá ter mais do que um significado, poderá ser benéfico ou não para a cidade, poderá ser utilizável ou não, … Deveremos então poder identificar claramente o que são “vazios urbanos” maus e bons, por assim dizer. Sob os quais deveremos intervir mais, ou menos, de forma a que mesmo um “vazio” se encha de identidade e carácter que permita uma função e um uso.
Desde as primeiras cidades que podemos observar uma proliferação de vazios que, com usos distintos, são essenciais à vivência das mesmas. É num “vazio” que se cria o comércio, que se estabelecem laços e relações e que se faz a vida social urbana. Ora, aquilo que herdamos de milénios de história são modus operandi que originaram aglomerados urbanos, construções e vazios, diferentes aspectos que levaram as cidades históricas ao que são hoje e que as conduzem numa evolução sistemática ao longo dos tempos.

O que se pôde observar através uma visita atempada à exposição principal no pavilhão de Portugal foi uma diversidade de aproximações aos aspectos vazios de cidades distintas que resultam em projectos mais ou menos inventivos onde aquilo que se torna mais interessante é precisamente entender a posição dos autores dos projectos em conjunto com as políticas urbanas dos países e a ideologia inerente ao uso da cidade.
Começando pela secção da Irlanda, são apresentados vários projectos de ocupação e de desocupação de cidades numa tentativa de resposta aos critérios da exposição. Salienta-se aqui uma atitude perante o “vazio”, a construção em altura como forma de reaproveitamento do espaço público. A secção da Holanda apresenta uma diversidade de projectos urbanos que realçam as preocupações urbanas deste país. Com cada vez menos espaço disponível para a construção, os holandeses vêem-se forçados a ser cada vez mais organizados de forma a poderem usufruir dos vazios enquanto expandem as suas cidades. Aqui é notória uma atitude, o horror vacuí enquanto elemento de dispersão urbana. Pretende-se dar uso a todos os espaços da cidade e numa tentativa quase desesperada, de reocupar e reordenar os centros das cidades, gerando implosões urbanas. O Canadá exibe uma atitude claramente contrastante com as anteriores e que se revela de grande interesse no desenrolar da exposição. Através de uma instalação audiovisual pretendem retratar cinco rios urbanos do Canadá enquanto “vazios” geradores de habitats de fauna e flora essenciais ao equilíbrio biológico das cidades. Tornam-se por isso “vazios” necessários por si só e essenciais para o aparecimento e desenvolvimento destas cidades. Por outro lado, o Chile pretende mostrar que é um território de imensos contrastes territoriais. Desde florestas tropicais a desertos secos e massas de gelo, o Chile adquiriu uma identidade territorial altamente diversificada. Com poucas cidades, grande parte deste país vive na sua plenitude natural onde aqui a arquitectura não se pretende impor ao lugar, mas pretende fazer parte desse lugar, habitando o vazio.

O Pólo Cascais XXI apresentava uma exposição de projectos culturais de diversas autorias para o novo século. Aqui salienta-se claramente uma aposta na renovação urbana como factor de criação de novos pólos culturais. Destacam-se deste modo o projecto dos Aires Mateus para o Farol Museu de Santa Marta, um edifício recentemente inaugurado conferindo uma nova imagem, mais limpa, ao local, dignificando esta parte da paisagem de Cascais. Torna-se no entanto uma proposta demasiado formalista (como é habitual) que a certa altura ignora aspectos funcionais básicos para acompanhar uma ideia conceptual. Também a futura Casa das Histórias e Desenhos de Paula Rego projectada pelo arquitecto Eduardo Souto de Moura se encontrava em exposição, revelando ser um edifício de implantação segura no local, marcado apenas por dois grandes volumes verticais que se erguem na paisagem. Destaca-se também a reabilitação da Fortaleza da Luz pelos arquitectos Cristina Guedes e Francisco Vieira de Campos onde, numa intervenção quase mínima, pretendem tornar os espaços do forte em espaços de contemplação e de introspecção, através de percursos circundantes e instalações de luzes que tornam a matéria viva e expressiva.

O Pólo da Cordoaria Nacional foi analisado com menos tempo do que o necessário, mas ainda assim se revelou uma exposição de bastante interesse sobre a actualidade das cidades portuguesas. Acima de tudo aquilo que ficou expresso através do longo percurso contínuo de imagens, desenhos e maquetas é que a arquitectura em Portugal está viva e que felizmente há um contínuo pensar sobre a cidade, mesmo que por uma pequena minoria de profissionais. Destacam-se projectos tão distintos como o pavilhão Multiusos de Gondomar ao novo Santurário de Fátima e do projecto de reabilitação da baixa do Porto às propostas urbanas para cidades como S. João da Madeira ou Santa Maria da Feira.

Em jeito de conclusão, há aspectos que se destacam nas exposições e que interessa reflectir. De uma forma geral aquilo que mais transparece nesta trienal dedicada aos “vazios urbanos” é uma atitude, já anteriormente comentada, de Horror Vacuí. Deste modo é frequentemente visível uma mesma atitude perante um vazio: dar-lhe forma. Mas será que um “vazio” não poderá ser caracterizado e usado enquanto ausência de massa tendo em si próprio uma função benéfica para a cidade? Tal como foi demonstrado na exposição do Canadá, os “vazios” são essenciais às cidades, à nossa vida, são essenciais por serem assim mesmo: vazios de massa mas cheios de conteúdo. Enquanto atitude de combate ao “vazio urbano”, os projectos holandeses demonstram uma posição extrema no que diz respeito à gestão desses mesmos “vazios”. De forma bastante objectiva e regrada são definidos “vazios urbanos” essenciais à cidade, assegurando funções especificas para cada um deles na tentativa de evitar situações de desordenamento urbano. Mas serão estas cidades, privadas de “vazios urbanos”, tão ou mais interessantes que as cidades convencionais, retrato de uma evolução histórica sistemática? Teremos de esperar para ver.

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por João Sousa

Avenida dos Aliados

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A Avenida dos Aliados no Porto, traçada pela mão do inglês Barry Parker em inícios do século XIX e edificada segundo o arquitecto portuense Marques da Silva, desde logo tomou a designação do boulevard do Porto. Foi sem dúvida o maior espaço público urbano projectado na cidade invicta até então. Tratava-se portanto da avenida central da cidade, de gosto cosmopolita, ladeada por fachadas de edifícios ao gosto beaux-artiano, abrindo espaço para a renovação da cidade do porto, uma cidade burguesa.

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O Porto, ao contrário de cidades como Lisboa ou Coimbra, desde logo tem um carácter distinto que adveio da sua própria cultura mercantil e comercial. Tornou-se, por norma, numa cidade burguesa, onde grande parte da população vivia do comércio ou da indústria. Com a progressiva instalação de comerciantes ingleses na cidade em busca da riqueza das vinhas do Douro, o Porto iniciou a sua transformação para a cidade novecentista abrindo rumos para a criação de novos traçados urbanos e novos programas arquitectónicos. Surgem os Almadas que terão um enorme impacto na renovação e expansão da cidade e, através da influência inglesa começam-se a construir obras ao gosto internacional.

Aquilo que realmente distingue esta cidade das outras cidades portuguesas é a sua matéria. Ao contrário do que se encontra a sul do Mondego, no Norte de Portugal predominam os solos graníticos. Esta será desde logo a matéria fundamental para a construção da cidade. Assim sendo, a cor, a textura e o odor do Porto são de granito e não de qualquer outra pedra calcária. Com a construção da avenida dos Aliados, fez-se no Porto o que se fez em numerosas colónias portuguesas: importou-se um modo de fazer calçada em pedra, posteriormente referida como à portuguesa.

Posto isto, passemos à análise da Avenida dos Aliados:

O que existia antes?

Uma avenida edificada em inícios do século XIX, ao gosto internacional e ladeada de grandes edifícios de linhas orientadoras beaux-artianas. O ambiente da avenida e da praça era traçado pelo pavimento em basalto com os desenhos alusivos aos descobrimentos e à colonização, feito como um enorme mosaico que só a mestria de alguns pedreiros portugueses permitia que tal fosse possível. Os jardins e as árvores enriqueciam este ambiente tornando-o bucólico e simbólico da cidade através da estátua equestre de D. Pedro IV apontando para o Brasil.

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O que é que se encontrava naquele local antes da intervenção?

Uma avenida cada vez mais atravessada por pessoas, carros e autocarros. Os passeios agora desnivelados, pedras que já não existiam, jardins pouco cuidados. Uma faixa central pouco convidativa à deslocação de pessoas, usada maioritariamente para repousar mesmo entre o caos de táxis, autocarros e carros em constante passagem. Uma avenida que em dias de festa (S. João, passagem de ano, vitórias de clubes de Futebol) não conseguia conter o enorme fluxo de pessoas que aí se deslocavam, mesmo com as suas enormes dimensões.

O que era necessário fazer?

Necessitava-se revitalizar a baixa, fazer passar o metro por debaixo da avenida, dar uma imagem renovada e criar uma ordem em todo aquele espaço público. De forma a tornar o projecto coerente e valioso para a cidade, os dois arquitectos responsáveis (Siza Vieira e Souto de Moura) decidiram juntar-se e pensar as suas intervenções em conjunto.

O que existe agora?

O que se percepciona hoje em dia é uma avenida notoriamente urbana, bem regrada, feita para as pessoas, para os automóveis e para metro, permitindo de uma forma absolutamente nova visualizar toda a riqueza arquitectural dos edifícios que formam a fachada da avenida e que até então nunca tínhamos tido a percepção.
Transpondo esta ideia para o que se tem feito a nível europeu, existe um enorme interesse na remodelação de uma avenida como esta e com as dimensões que esta tem. O facto da faixa central estar livre permite que as pessoas não andem só pelos passeios laterais, mas que façam o seu percurso pela faixa central. Ao descer a avenida tem-se a percepção da Sé do Porto que se lança no céu, tem-se os enfiamentos das ruas transversais à avenida que mantêm a sua riqueza arquitectural, tem-se a noção de se estar num espaço urbano, rico em história e que privilegia o fluxo de pessoas permitindo que o tráfego de automóveis siga de forma contida e regrada. A nova avenida dos aliados torna-se assim num espaço não só funcional mas de criação. Torna-se num espaço de expressão artística, social e cultural, num espaço urbano no verdadeiro sentido do termo. A nova configuração da avenida permite, de uma forma nova, albergar toda a variedade de acontecimentos que acontecem regularmente e que não podem passar despercebidos pois fazem parte da cultura urbana do porto. À semelhança de outras cidades europeias, a existência de um grande espaço público central na cidade origina uma dinâmica urbana, permitindo diferentes acontecimentos sociais e culturais que incitam a uma interacção social mais rica e evidenciam a vitalidade da cidade. Tem-se assistido já a pequenos eventos novos nesta avenida que, de uma forma tímida vão sensibilizando os cidadãos para uma vivência maior daquele espaço urbano. Será este o caminho a seguir para que este espaço se torne realmente num centro social e urbano da baixa portuense, permitindo uma culturização das pessoas e uma maior permanência neste espaço público.

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No entanto, esta nova intervenção tem alguns aspectos ambíguos. A fonte que foi criada no eixo central da praça torna-se um elemento estranho à imagem geral da intervenção. Pretende ter um desenho minimalista, mas acaba por perder o seu sentido quando se observa de longe parecendo apenas um buraco. Apenas quando se está junto a ela é que se consegue percepcionar o seu desenho e a sua função. Também as duas estátuas já existentes a meio da avenida acabaram por ficar um pouco desnudadas pela falta de envolvência. No entanto evidenciam o alinhamento principal do eixo central da avenida. Em termos de mobiliário urbano considero a opção usada no topo da avenida uma mais valia para o espaço público pois, ao utilizar mesas e cadeiras semi-amovivéis, permite o agrupamento de pessoas naquele espaço. Ao mesmo tempo torna-se uma provocação ao bom senso e à responsabilidade dos cidadãos. Em termos de vegetação, os arquitectos limparam a praça central para permitir uma maior dinâmica nos usos da praça. Toda a vegetação rasteira foi retirada e acabou por se tornar vantajoso pois torna o espaço mais passível de ser utilizado de diferentes formas, limpando-o de barreiras físicas. Também se retiraram as árvores da praça central, plantando-se mais árvores ao longo dos passeios laterais agora mais largos e no topo da avenida junto à fonte. Torna-se também uma forma de ordenar o espaço público permitindo que as árvores cresçam desafogadamente e que criem espaços de sombra onde são necessários.

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Em suma, a intervenção na Avenida dos Aliados é acima de tudo uma posição de vanguarda perante uma cidade histórica e de fortes raízes com o passado. Os arquitectos tiveram a visão de criar um espaço com reais valores urbanos sem que caíssem na tentação de re-fazer o que já lá estava antes e que não resultava. Também é de salientar a opção da escolha dos materiais para a constituição dos pavimentos já que todos os pavimentos anteriores foram retirados. Numa cidade com um forte carácter como o Porto, a renovação da Avenida dos Aliados veio vincar ainda mais este ambiente citadino do Porto ao utilizar o material mais característico desta cidade e resolvendo-o a nível de desenho de uma forma bastante criativa e rica.

por João Sousa

la biennale di Venezia – 10. mostra di architettura (dia 2)

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O segundo dia de visita a Veneza estava destinado a ver a parte principal da exposição da Bienal de Arquitectura, com a temática das cidades. Sendo assim, chegados à zona do Arsenale, dirigimo-nos para a entrada da exposição que começava no edifício da cordoaria. Neste edifício estava a exposição principal da Bienal relativa às cidades, arquitectura e sociedade. Assim, ao longo do edifício eram analisadas um conjunto de 16 metrópoles segundo parâmetros geográficos, sociológicos, antropológicos, de planeamento, … Toda a exposição estava assim organizada segundo o eixo longitudinal do edifício da cordoaria, fazendo-nos caminhar sempre num sentido à medida que a exposição se ia desenrolando. Para cada metrópole eram apresentados os mesmos gráficos, mapas à mesma escala, instalações audiovisuais, fotografias diversas e projectos propostos para zonas específicas. Estiveram então em análise 16 metrópoles de todo o mundo: Mumbai (Índia), Tóquio (Japão), Cidade do México (México), São Paulo (Brasil), Cairo (Egipto), Nova Iorque (Estados Unidos), Shangai (China), Los Angeles (Estados Unidos), Istanbul (Turquia), Bogotá (Colômbia), Londres (Reino Unido), Barcelona (Espanha), Joanesburgo (África do Sul), Caracas (Venezuela), Berlim (Alemanha) e Milão (Iália).

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Esta exposição de enorme interesse, analisava exaustivamente cada cidade, apresentando índices de crescimento da população, onde se podia observar a forma como as cidades se desenvolviam, havendo uma clara distinção entre as cidades europeias e as asiáticas, por exemplo. Outro aspecto interessante de análise eram os tipos de malha urbana em cada cidade. Podia-se observar malhas bastante regulares e ortogonais como em Nova Iorque e ao mesmo tempo um tipo de expansão orgânica que se observa na cidade do Cairo. Era possível ainda observar cidades em que havia enormes discrepâncias a nivel de organização urbana e social tal como na Cidade do México, São Paulo ou Caracas e, ao mesmo tempo poderia-se comparar com as cidades asiáticas onde não há uma distinção social tão clara que afecte dessa forma a ocupação do território. Todos estes factores são condicionados por questões económicas, religiosas, políticas, de acontecimentos históricos, … e, vão-se reflectir na forma como as pessoas usam a cidade e, como a própria cidade se estrutura. Assim, dezenas de gráficos mostravam qual era a distribuição da população ao longo da cidade e dos tempos, que percentagem de meios de transporte usam, que índices de consumo energético apresentam, quais as emissões de CO2 per capita, a distribuição etária, a percentagem de literados, o crescimento do produto interno bruto, a esperança de vida, a mortalidade infantil, … Cabia então às pessoas presentes estabelecerem relações entre os vários exemplos apresentados e tirarem as suas próprias conclusões.

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Há então significativas diferenças nas cidades de cada continente que revelam uma ocupação do solo e uma utilização da cidade completamente distintas. Se por um lado na cidade de Los Angeles, 10% da população utiliza o transporte público, em Tóquio essa percentagem eleva-se a 75% da população. Se, cidades europeias como Berlim ou Milão apresentam ao longo de 50 anos uma tendência para baixar a população, cidades como Cairo e Shangai apresentam uma explosão demográfica que contrasta por completo com as duas anteriores e revelam modos de organização social completamente distintos. Em cidades como São Paulo ou Caracas é possível observar uma clara distinção social através de imagens que revelam torres de habitação luxuosa rodeadas no piso térreo por uma topografia de telhados baixos de construções ilegais que se extendem por diversas áreas da cidade. Ao mesmo tempo, em Bogotá é impressionante a ocupação de favelas que existe em todo o terreno circundante da cidade, criando uma nova paisagem humanizada. Na cidade do México imagens impressionantes mostram como as pessoas comuns vivem, em territórios sem fim, marcados por ruas paralelas que separam e organizam as fracas construções de tijolos e chapa. Também em Joanesburgo é notória a forma como as pessoas vivem em enormes blocos de habitação que pontuam a cidade em extensos conjuntos dormitórios. Em tóquio destaca-se a problemática da poluíção visual e da sobre-ocupação do espaço da cidade, conferindo-lhe o estatuto de cidade mais cara do mundo. E a cidade de Istanbul que se encontra no limiar da Europa e do Médio Oriente que, por um lado se quer adaptar aos modelos europeus, mas que terá talvez mais relações com outras cidades muçulmanas.

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Após se percorrer esta exposição extensa e, no final, cansativa, dirigimo-nos para o pavilhão de Itália que continha uma exposição de um worpshop realizado com arquitectos italianos para a concepção de uma cidade utópica, remetendo primeiro para uma aproximação temporal sobre os variados exemplos de cidades útopicas concebidas ao longo da história. Assim, ao longo desta exposição eram apresentados separadamente os projectos de cada equipa que se situavam em fragmentos da malha da cidade e, que no final culminava na maquete do conjunto da cidade com todos os projectos inseridos pretendendo dar a noção da cidade utópica. No entanto, aquilo que se salientava era o contraste entre cada uma das propostas, mais do que a percepção do conjunto formado não por uma ideia de cidade, mas por fragmentos, de intervenções que se consolidavam num território.

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Outras exposições mostravam ainda projectos de concursos internacionais como por exemplo o ‘METRÒ-POLIS’ onde os participantes desenvolveram projectos para uma estação de metro em duas cidades italianas, onde se destacava a proposta de Álvaro Siza e Eduardo Souto de Moura pelo contraste formal com as outras propostas.

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No remate final da exposição do Arsenal encontrava-se discretamente o pavilhão da China. Composto por uma superfície inclinada de telhas cinzentas tradicionais, suportada por uma estrutura em bambú e um percurso que levava as pessoas até ao centro dessa superfície. Esta peça destacava-se pela sua subtileza no tratamento formal e na sua relação com a paisagem envolvente, havendo quase como que uma união entre o elemento artificial e os elementos naturais. Esta intervenção era uma clara provocação à exposição dos pavilhões da Bienal, onde cada país apresentava o que de mais avançado e melhor tinha no seu país. Neste pavilhão os autores não pretendiam mostrar os avanços ténicos e tecnológicos presentes nos edifícios chineses mas, pretenderam demonstrar como é possível utilizar uma tecnologia tradicional, simples e barata para a construção de espaço e paisagem.

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No final a Bienal de Arquitectura foi extremamente positiva pela forma como foi tratada toda a exposição sobre as cidades, fazendo-nos reflectir e permitindo um ensinamento global de cidades tão distintas e distantes. Pelo facto da exposição “Habitar Portugal” não estar enquadrada nos recintos da Bienal, foi extremamente difícil de chegar à casa que a albergava pelo que, uma vez lá chegados estava já encerrada. Assim, concluimos que são necessários mais do que dois dias para se poder ver toda a Bienal, no entanto não deixou de ser extremamente interessante e será uma experiência claramente a repetir.

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por João Sousa